Sou uma mulher inserida no universo dos quadrinhos e da literatura fantástica desde muito cedo. Cresci lendo quadrinhos, Harry Potter e O Senhor dos Anéis. Recebi com muita felicidade Game of Thrones, partindo para ler As crônicas de Gelo e Fogo logo em seguida. Sendo assim, hoje eu me junto ao coro de indignadas com os rumos tomados pela série.
Eu sempre digo que, não sendo a série de livros mais bem escrita do mundo, ACGF (vou usar a abreviação do nome da série de livros em português) têm como mérito a imensa quantidade de personagens femininas, complexas como devem ser. Isso não deveria ser uma surpresa, mas sabemos que não é sempre assim. Ponto pro Martin.
A cena da noite de núpcias de Daenerys Targaryen, no livro, é uma das coisas mais bonitas que eu já vi. Sendo quase uma criança (vamos lembrar que ela tem 13 anos nesse momento) ela é vendida pelo irmão mais velho à um guerreiro selvagem. O guerreiro em questão, o poderoso Khal Drogo, só sabe uma palavra no idioma comum: “Não”. Bem, qual não é a nossa surpresa quando ele deixa que a sua noiva menina lhe ensine a palavra mais bonita e mais importante no sexo: “sim”. A partir daí, Dany encontra o apoio necessário para desenvolver na mulher complexa e fantástica que ela se torna.
Essa cena na série é um estupro.
Era a primeira temporada, muitos de nós ainda não conheciam os livros, passou. Passou doendo, mas demos uma chance.
Cersei Lannister passsou toda a vida de casada sendo estuprada pelo marido. O rei que a gente se afeiçoou, gordo e bonachão, bem, descobrimos que ele não era mais que um estuprador alcoolatra. O único homem que a rainha confia é o seu irmão, Jaime Lannister. Deturpadas e pertubadoras que sejam as relações entre os dois, ele é o único homem com quem ela sente prazer. Depois de quase dois anos sem a presença dele, ela o recebe com um caloroso “sim”.
Essa cena na série também é um estupro.
Esse não passou sem barulho. Confrontados com a indignação geral, a justificativa dos produtores é que a cena NÃO FOI BEM UM ESTUPRO, já que ela diz não, mas acaba cedendo. Essa fala parece familiar, não? Não é o que nós ouvimos sempre?
Aqueles que ainda tinham estômago para acompanhar a série foram, nessa nova temporada, mais uma vez surpreendidos. Suprimindo a personagem Jeyne Poole, foi decisão dos produtores substituí-la por Sansa Stark. Coube à Sansa o estupro de Jeyne. Já seria bem ruim que a história tomasse esse rumo, mas para mim (e para tantas pessoas que nesse momento escrevem sobre isso na internet), o imperdoável, o injustificável, foi a desculpa que o tal estupro serviria para “fortalecer o caráter” de Sansa, que teria tomado essa decisão de maneira consciente, já que agora é uma mulher adulta.
ACFG são sim, uma série repleta de estupros. Reproduzindo uma realidade fantástica de base medieval e patriarcal, é de se esperar que assim fosse. Porém, nos livros os estupros são tratados como o crime brutal que de fato são. Jaime Lannister, que viu a irmã sendo estuprada por tantos anos, perde a mão salvando Brienne de ser estuprada por um grupo. Corta a cabeça dos estupradores de Pya (e olha que ela é só uma serviçal). Nenhuma das mulheres da série teve o seu “caráter fortalecido” por um estupro. Lollys tem medo de sair de casa. Pya não sorri mais. Cersei é amarga e cruel.
O machismo não nos quer na publicidade. Não nos quer nos filmes de aventura. Não quer meninas acreditando que elas podem ser tão hábeis como Arya Stark, ou tão poderosas quando Daenerys. O machismo está dizendo aos homens que estes estupradores são homens em quem eles podem se espelhar. Afinal, para que mais serviria um estupro no meio do arco de redenção de Jaime Lannister? Como o machismo vai justificar que um homem que olha para o seu passado e se arrepende, que se torna uma nova pessoa, pode ser um personagem anti estupro?
Pois eu, como tantas, estou abandonando essa série. Já justificamos por tanto tempo esse compartamento, já fizemos tantos desvios teóricos que corremos o risco de nos perder no caminho. Pois não vai acontecer mais.
Por fim, eu gostaria de dizer ao produtores, e a todo mundo que me lê, que o meu estupro não fortaleceu o meu caráter. Ele impediu que eu me relacionasse com qualquer homem por mais de um ano. Ele me fez parar de beber. Ele me deixa temerosa de conhecer homens novos, todos os dias. O que fortaleceu meu caráter, o que me tornou a feminista que eu sou hoje, foi o acolhimento das minhas amigas, foi o círculo de proteção que ela criaram e criam ao redor de mim todos os dias. Eu sou Arya Stark, trilhando os meus caminhos sozinha. Sou Sansa Stark, aprendendo a ser adulta em um meio hostil. Sou as Serpentes de Areia, fortalecidas no círculo de mulheres. Eu sou todas as mulheres, e nenhuma de nós depende de vocês para se inserir no universo da fantasia. Estejam avisados.
Sou uma mulher inserida no universo dos quadrinhos e da literatura fantástica desde muito cedo. Cresci lendo quadrinhos, Harry Potter e O Senhor dos Anéis. Recebi com muita felicidade Game of Thrones, partindo para ler As crônicas de Gelo e Fogo logo em seguida. Sendo assim, hoje eu me junto ao coro de indignadas com os rumos tomados pela série.
Eu sempre digo que, não sendo a série de livros mais bem escrita do mundo, ACGF (vou usar a abreviação do nome da série de livros em português) têm como mérito a imensa quantidade de personagens femininas, complexas como devem ser. Isso não deveria ser uma surpresa, mas sabemos que não é sempre assim. Ponto pro Martin.
A cena da noite de núpcias de Daenerys Targaryen, no livro, é uma das coisas mais bonitas que eu já vi. Sendo quase uma criança (vamos lembrar que ela tem 13 anos nesse momento) ela é vendida pelo irmão mais velho à um guerreiro selvagem. O guerreiro em questão, o poderoso Khal Drogo, só sabe uma palavra no idioma comum: “Não”. Bem, qual não é a nossa surpresa quando ele deixa que a sua noiva menina lhe ensine a palavra mais bonita e mais importante no sexo: “sim”. A partir daí, Dany encontra o apoio necessário para desenvolver na mulher complexa e fantástica que ela se torna.
Essa cena na série é um estupro.
Era a primeira temporada, muitos de nós ainda não conheciam os livros, passou. Passou doendo, mas demos uma chance.
Cersei Lannister passsou toda a vida de casada sendo estuprada pelo marido. O rei que a gente se afeiçoou, gordo e bonachão, bem, descobrimos que ele não era mais que um estuprador alcoolatra. O único homem que a rainha confia é o seu irmão, Jaime Lannister. Deturpadas e pertubadoras que sejam as relações entre os dois, ele é o único homem com quem ela sente prazer. Depois de quase dois anos sem a presença dele, ela o recebe com um caloroso “sim”.
Essa cena na série também é um estupro.
Esse não passou sem barulho. Confrontados com a indignação geral, a justificativa dos produtores é que a cena NÃO FOI BEM UM ESTUPRO, já que ela diz não, mas acaba cedendo. Essa fala parece familiar, não? Não é o que nós ouvimos sempre?
Aqueles que ainda tinham estômago para acompanhar a série foram, nessa nova temporada, mais uma vez surpreendidos. Suprimindo a personagem Jeyne Poole, foi decisão dos produtores substituí-la por Sansa Stark. Coube à Sansa o estupro de Jeyne. Já seria bem ruim que a história tomasse esse rumo, mas para mim (e para tantas pessoas que nesse momento escrevem sobre isso na internet), o imperdoável, o injustificável, foi a desculpa que o tal estupro serviria para “fortalecer o caráter” de Sansa, que teria tomado essa decisão de maneira consciente, já que agora é uma mulher adulta.
ACFG são sim, uma série repleta de estupros. Reproduzindo uma realidade fantástica de base medieval e patriarcal, é de se esperar que assim fosse. Porém, nos livros os estupros são tratados como o crime brutal que de fato são. Jaime Lannister, que viu a irmã sendo estuprada por tantos anos, perde a mão salvando Brienne de ser estuprada por um grupo. Corta a cabeça dos estupradores de Pya (e olha que ela é só uma serviçal). Nenhuma das mulheres da série teve o seu “caráter fortalecido” por um estupro. Lollys tem medo de sair de casa. Pya não sorri mais. Cersei é amarga e cruel.
O machismo não nos quer na publicidade. Não nos quer nos filmes de aventura. Não quer meninas acreditando que elas podem ser tão hábeis como Arya Stark, ou tão poderosas quando Daenerys. O machismo está dizendo aos homens que estes estupradores são homens em quem eles podem se espelhar. Afinal, para que mais serviria um estupro no meio do arco de redenção de Jaime Lannister? Como o machismo vai justificar que um homem que olha para o seu passado e se arrepende, que se torna uma nova pessoa, pode ser um personagem anti estupro?
Pois eu, como tantas, estou abandonando essa série. Já justificamos por tanto tempo esse compartamento, já fizemos tantos desvios teóricos que corremos o risco de nos perder no caminho. Pois não vai acontecer mais.
Por fim, eu gostaria de dizer ao produtores, e a todo mundo que me lê, que o meu estupro não fortaleceu o meu caráter. Ele impediu que eu me relacionasse com qualquer homem por mais de um ano. Ele me fez parar de beber. Ele me deixa temerosa de conhecer homens novos, todos os dias. O que fortaleceu meu caráter, o que me tornou a feminista que eu sou hoje, foi o acolhimento das minhas amigas, foi o círculo de proteção que ela criaram e criam ao redor de mim todos os dias. Eu sou Arya Stark, trilhando os meus caminhos sozinha. Sou Sansa Stark, aprendendo a ser adulta em um meio hostil. Sou as Serpentes de Areia, fortalecidas no círculo de mulheres. Eu sou todas as mulheres, e nenhuma de nós depende de vocês para se inserir no universo da fantasia. Estejam avisados.
[infobox maintitle="Aviso de gatilho" subtitle="Este texto abordará o estupro e a violência contra a mulher na série Game of Thrones. Algumas leitoras podem desencadear fortes reações emocionais." bg="red" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"]
Sou uma mulher inserida no universo dos quadrinhos e da literatura fantástica desde muito cedo. Cresci lendo quadrinhos, Harry Potter e O Senhor dos Anéis. Recebi com muita felicidade Game of Thrones, partindo para ler As crônicas de Gelo e Fogo logo em seguida. Sendo assim, hoje eu me junto ao coro de indignadas com os rumos tomados pela série.
Eu sempre digo que, não sendo a série de livros mais bem escrita do mundo, ACGF (vou usar a abreviação do nome da série de livros em português) têm como mérito a imensa quantidade de personagens femininas, complexas como devem ser. Isso não deveria ser uma surpresa, mas sabemos que não é sempre assim. Ponto pro Martin.
A cena da noite de núpcias de Daenerys Targaryen, no livro, é uma das coisas mais bonitas que eu já vi. Sendo quase uma criança (vamos lembrar que ela tem 13 anos nesse momento) ela é vendida pelo irmão mais velho à um guerreiro selvagem. O guerreiro em questão, o poderoso Khal Drogo, só sabe uma palavra no idioma comum: “Não”. Bem, qual não é a nossa surpresa quando ele deixa que a sua noiva menina lhe ensine a palavra mais bonita e mais importante no sexo: “sim”. A partir daí, Dany encontra o apoio necessário para desenvolver na mulher complexa e fantástica que ela se torna.
Essa cena na série é um estupro.
Era a primeira temporada, muitos de nós ainda não conheciam os livros, passou. Passou doendo, mas demos uma chance.
Cersei Lannister passsou toda a vida de casada sendo estuprada pelo marido. O rei que a gente se afeiçoou, gordo e bonachão, bem, descobrimos que ele não era mais que um estuprador alcoolatra. O único homem que a rainha confia é o seu irmão, Jaime Lannister. Deturpadas e pertubadoras que sejam as relações entre os dois, ele é o único homem com quem ela sente prazer. Depois de quase dois anos sem a presença dele, ela o recebe com um caloroso “sim”.
Essa cena na série também é um estupro.
Esse não passou sem barulho. Confrontados com a indignação geral, a justificativa dos produtores é que a cena NÃO FOI BEM UM ESTUPRO, já que ela diz não, mas acaba cedendo. Essa fala parece familiar, não? Não é o que nós ouvimos sempre?
Aqueles que ainda tinham estômago para acompanhar a série foram, nessa nova temporada, mais uma vez surpreendidos. Suprimindo a personagem Jeyne Poole, foi decisão dos produtores substituí-la por Sansa Stark. Coube à Sansa o estupro de Jeyne. Já seria bem ruim que a história tomasse esse rumo, mas para mim (e para tantas pessoas que nesse momento escrevem sobre isso na internet), o imperdoável, o injustificável, foi a desculpa que o tal estupro serviria para “fortalecer o caráter” de Sansa, que teria tomado essa decisão de maneira consciente, já que agora é uma mulher adulta.
ACFG são sim, uma série repleta de estupros. Reproduzindo uma realidade fantástica de base medieval e patriarcal, é de se esperar que assim fosse. Porém, nos livros os estupros são tratados como o crime brutal que de fato são. Jaime Lannister, que viu a irmã sendo estuprada por tantos anos, perde a mão salvando Brienne de ser estuprada por um grupo. Corta a cabeça dos estupradores de Pya (e olha que ela é só uma serviçal). Nenhuma das mulheres da série teve o seu “caráter fortalecido” por um estupro. Lollys tem medo de sair de casa. Pya não sorri mais. Cersei é amarga e cruel.
O machismo não nos quer na publicidade. Não nos quer nos filmes de aventura. Não quer meninas acreditando que elas podem ser tão hábeis como Arya Stark, ou tão poderosas quando Daenerys. O machismo está dizendo aos homens que estes estupradores são homens em quem eles podem se espelhar. Afinal, para que mais serviria um estupro no meio do arco de redenção de Jaime Lannister? Como o machismo vai justificar que um homem que olha para o seu passado e se arrepende, que se torna uma nova pessoa, pode ser um personagem anti estupro?
Pois eu, como tantas, estou abandonando essa série. Já justificamos por tanto tempo esse compartamento, já fizemos tantos desvios teóricos que corremos o risco de nos perder no caminho. Pois não vai acontecer mais.
Por fim, eu gostaria de dizer ao produtores, e a todo mundo que me lê, que o meu estupro não fortaleceu o meu caráter. Ele impediu que eu me relacionasse com qualquer homem por mais de um ano. Ele me fez parar de beber. Ele me deixa temerosa de conhecer homens novos, todos os dias. O que fortaleceu meu caráter, o que me tornou a feminista que eu sou hoje, foi o acolhimento das minhas amigas, foi o círculo de proteção que ela criaram e criam ao redor de mim todos os dias. Eu sou Arya Stark, trilhando os meus caminhos sozinha. Sou Sansa Stark, aprendendo a ser adulta em um meio hostil. Sou as Serpentes de Areia, fortalecidas no círculo de mulheres. Eu sou todas as mulheres, e nenhuma de nós depende de vocês para se inserir no universo da fantasia. Estejam avisados.
Sou uma mulher inserida no universo dos quadrinhos e da literatura fantástica desde muito cedo. Cresci lendo quadrinhos, Harry Potter e O Senhor dos Anéis. Recebi com muita felicidade Game of Thrones, partindo para ler As crônicas de Gelo e Fogo logo em seguida. Sendo assim, hoje eu me junto ao coro de indignadas com os rumos tomados pela série.
Eu sempre digo que, não sendo a série de livros mais bem escrita do mundo, ACGF (vou usar a abreviação do nome da série de livros em português) têm como mérito a imensa quantidade de personagens femininas, complexas como devem ser. Isso não deveria ser uma surpresa, mas sabemos que não é sempre assim. Ponto pro Martin.
A cena da noite de núpcias de Daenerys Targaryen, no livro, é uma das coisas mais bonitas que eu já vi. Sendo quase uma criança (vamos lembrar que ela tem 13 anos nesse momento) ela é vendida pelo irmão mais velho à um guerreiro selvagem. O guerreiro em questão, o poderoso Khal Drogo, só sabe uma palavra no idioma comum: “Não”. Bem, qual não é a nossa surpresa quando ele deixa que a sua noiva menina lhe ensine a palavra mais bonita e mais importante no sexo: “sim”. A partir daí, Dany encontra o apoio necessário para desenvolver na mulher complexa e fantástica que ela se torna.
Essa cena na série é um estupro.
Era a primeira temporada, muitos de nós ainda não conheciam os livros, passou. Passou doendo, mas demos uma chance.
Cersei Lannister passsou toda a vida de casada sendo estuprada pelo marido. O rei que a gente se afeiçoou, gordo e bonachão, bem, descobrimos que ele não era mais que um estuprador alcoolatra. O único homem que a rainha confia é o seu irmão, Jaime Lannister. Deturpadas e pertubadoras que sejam as relações entre os dois, ele é o único homem com quem ela sente prazer. Depois de quase dois anos sem a presença dele, ela o recebe com um caloroso “sim”.
Essa cena na série também é um estupro.
Esse não passou sem barulho. Confrontados com a indignação geral, a justificativa dos produtores é que a cena NÃO FOI BEM UM ESTUPRO, já que ela diz não, mas acaba cedendo. Essa fala parece familiar, não? Não é o que nós ouvimos sempre?
Aqueles que ainda tinham estômago para acompanhar a série foram, nessa nova temporada, mais uma vez surpreendidos. Suprimindo a personagem Jeyne Poole, foi decisão dos produtores substituí-la por Sansa Stark. Coube à Sansa o estupro de Jeyne. Já seria bem ruim que a história tomasse esse rumo, mas para mim (e para tantas pessoas que nesse momento escrevem sobre isso na internet), o imperdoável, o injustificável, foi a desculpa que o tal estupro serviria para “fortalecer o caráter” de Sansa, que teria tomado essa decisão de maneira consciente, já que agora é uma mulher adulta.
ACFG são sim, uma série repleta de estupros. Reproduzindo uma realidade fantástica de base medieval e patriarcal, é de se esperar que assim fosse. Porém, nos livros os estupros são tratados como o crime brutal que de fato são. Jaime Lannister, que viu a irmã sendo estuprada por tantos anos, perde a mão salvando Brienne de ser estuprada por um grupo. Corta a cabeça dos estupradores de Pya (e olha que ela é só uma serviçal). Nenhuma das mulheres da série teve o seu “caráter fortalecido” por um estupro. Lollys tem medo de sair de casa. Pya não sorri mais. Cersei é amarga e cruel.
O machismo não nos quer na publicidade. Não nos quer nos filmes de aventura. Não quer meninas acreditando que elas podem ser tão hábeis como Arya Stark, ou tão poderosas quando Daenerys. O machismo está dizendo aos homens que estes estupradores são homens em quem eles podem se espelhar. Afinal, para que mais serviria um estupro no meio do arco de redenção de Jaime Lannister? Como o machismo vai justificar que um homem que olha para o seu passado e se arrepende, que se torna uma nova pessoa, pode ser um personagem anti estupro?
Pois eu, como tantas, estou abandonando essa série. Já justificamos por tanto tempo esse compartamento, já fizemos tantos desvios teóricos que corremos o risco de nos perder no caminho. Pois não vai acontecer mais.
Por fim, eu gostaria de dizer ao produtores, e a todo mundo que me lê, que o meu estupro não fortaleceu o meu caráter. Ele impediu que eu me relacionasse com qualquer homem por mais de um ano. Ele me fez parar de beber. Ele me deixa temerosa de conhecer homens novos, todos os dias. O que fortaleceu meu caráter, o que me tornou a feminista que eu sou hoje, foi o acolhimento das minhas amigas, foi o círculo de proteção que ela criaram e criam ao redor de mim todos os dias. Eu sou Arya Stark, trilhando os meus caminhos sozinha. Sou Sansa Stark, aprendendo a ser adulta em um meio hostil. Sou as Serpentes de Areia, fortalecidas no círculo de mulheres. Eu sou todas as mulheres, e nenhuma de nós depende de vocês para se inserir no universo da fantasia. Estejam avisados.
A cena da noite de núpcias de Daenerys Targaryen, no livro, é uma das coisas mais bonitas que eu já vi. Sendo quase uma criança (vamos lembrar que ela tem 13 anos nesse momento) ela é vendida pelo irmão mais velho à um guerreiro selvagem. O guerreiro em questão, o poderoso Khal Drogo, só sabe uma palavra no idioma comum: “Não”. Bem, qual não é a nossa surpresa quando ele deixa que a sua noiva menina lhe ensine a palavra mais bonita e mais importante no sexo: “sim”. A partir daí, Dany encontra o apoio necessário para desenvolver na mulher complexa e fantástica que ela se torna.
Essa cena na série é um estupro.
Era a primeira temporada, muitos de nós ainda não conheciam os livros, passou. Passou doendo, mas demos uma chance.
Cersei Lannister passsou toda a vida de casada sendo estuprada pelo marido. O rei que a gente se afeiçoou, gordo e bonachão, bem, descobrimos que ele não era mais que um estuprador alcoolatra. O único homem que a rainha confia é o seu irmão, Jaime Lannister. Deturpadas e pertubadoras que sejam as relações entre os dois, ele é o único homem com quem ela sente prazer. Depois de quase dois anos sem a presença dele, ela o recebe com um caloroso “sim”.
Essa cena na série também é um estupro.
Esse não passou sem barulho. Confrontados com a indignação geral, a justificativa dos produtores é que a cena NÃO FOI BEM UM ESTUPRO, já que ela diz não, mas acaba cedendo. Essa fala parece familiar, não? Não é o que nós ouvimos sempre?
Aqueles que ainda tinham estômago para acompanhar a série foram, nessa nova temporada, mais uma vez surpreendidos. Suprimindo a personagem Jeyne Poole, foi decisão dos produtores substituí-la por Sansa Stark. Coube à Sansa o estupro de Jeyne. Já seria bem ruim que a história tomasse esse rumo, mas para mim (e para tantas pessoas que nesse momento escrevem sobre isso na internet), o imperdoável, o injustificável, foi a desculpa que o tal estupro serviria para “fortalecer o caráter” de Sansa, que teria tomado essa decisão de maneira consciente, já que agora é uma mulher adulta.
ACFG são sim, uma série repleta de estupros. Reproduzindo uma realidade fantástica de base medieval e patriarcal, é de se esperar que assim fosse. Porém, nos livros os estupros são tratados como o crime brutal que de fato são. Jaime Lannister, que viu a irmã sendo estuprada por tantos anos, perde a mão salvando Brienne de ser estuprada por um grupo. Corta a cabeça dos estupradores de Pya (e olha que ela é só uma serviçal). Nenhuma das mulheres da série teve o seu “caráter fortalecido” por um estupro. Lollys tem medo de sair de casa. Pya não sorri mais. Cersei é amarga e cruel.
O machismo não nos quer na publicidade. Não nos quer nos filmes de aventura. Não quer meninas acreditando que elas podem ser tão hábeis como Arya Stark, ou tão poderosas quando Daenerys. O machismo está dizendo aos homens que estes estupradores são homens em quem eles podem se espelhar. Afinal, para que mais serviria um estupro no meio do arco de redenção de Jaime Lannister? Como o machismo vai justificar que um homem que olha para o seu passado e se arrepende, que se torna uma nova pessoa, pode ser um personagem anti estupro?
Pois eu, como tantas, estou abandonando essa série. Já justificamos por tanto tempo esse compartamento, já fizemos tantos desvios teóricos que corremos o risco de nos perder no caminho. Pois não vai acontecer mais.
Por fim, eu gostaria de dizer ao produtores, e a todo mundo que me lê, que o meu estupro não fortaleceu o meu caráter. Ele impediu que eu me relacionasse com qualquer homem por mais de um ano. Ele me fez parar de beber. Ele me deixa temerosa de conhecer homens novos, todos os dias. O que fortaleceu meu caráter, o que me tornou a feminista que eu sou hoje, foi o acolhimento das minhas amigas, foi o círculo de proteção que ela criaram e criam ao redor de mim todos os dias. Eu sou Arya Stark, trilhando os meus caminhos sozinha. Sou Sansa Stark, aprendendo a ser adulta em um meio hostil. Sou as Serpentes de Areia, fortalecidas no círculo de mulheres. Eu sou todas as mulheres, e nenhuma de nós depende de vocês para se inserir no universo da fantasia. Estejam avisados.