Existe uma expressão que diz que o “T” de LGBT na realidade significa “transparente”, e infelizmente isso é bem representativo da realidade. Embora os direitos LGB estejam avançando cada vez mais, existe uma discrepância grande com o dos Ts, que ainda enfrentam preconceito não só na sociedade como também no próprio meio LGBT. Estamos pela primeira vez na história vendo o mídia internacional mainstream retratar as pessoas trans com uma frequência cada vez maior, e com um olhar cada vez mais positivo, como no caso da atriz Laverne Cox e da ex-atleta olímpica Caityln Jenner. Mas esses passos (embora significativos) são passinhos de bebê na trajetória dos direitos das pessoas trans.
Um exemplo bastante aterrorizador disso foi a substituição do termo “gênero” por “sexo” no projeto da lei n.º 292/2013, também conhecida como a lei do feminicídio, que excluiu todas as mulheres trans da alçada de sua proteção. Como se feminicídio transfóbico NÃO EXISTISSE. Então, enquanto (graças aos céus) gays e lésbicas estão finalmente conquistando o direito ao casamento, homens e mulheres trans ainda precisam lutar por direitos como poder usar o banheiro que querem usar, serem chamados pelo nome correto, serem vistos como ser humanos pela sociedade, entre muitas e muitas outras coisas.
Tendo isso em mente, o jornal The New York Timescomeçou a fazer um trabalho bem legal para impulsionar a visibilidade trans. Estão publicando uma série de editorias sobre o assunto, além de publicarem depoimentos que as pessoas enviam, seja em forma de texto, fotos ou videos.
Você pode ter acesso a esse material aqui (os depoimentos estão na seção “Your Stories – Trans Voices“). Como o site infelizmente está disponível somente em inglês, fizemos uma tradução de quatro depoimentos. O texto em itálico é a legenda do vídeo, e o em redondo é o depoimento.
Agora, imagina se um jornal (ou qualquer outro veículo) brasileiro tomasse uma iniciativa dessas? Ainda temos muito chão pela frente…
Trans voices: J. Mase III
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Olá, meu nome é J Mase III e eu sou um poeta que reside no Bronx. Também sou fundador da organização “awQward”, a primeira agência de talentos específica para pessoas de cor trans e queer. É uma organização comandada exclusivamente por pessoas trans de cor, e eu compartilho essa informação porque isso é uma coisa muito rara. Quando eu me assumi trans uns onze, quase doze anos atrás, eu me assumi dentro de uma comunidade LGBTQ que não queria encorajar as nuances de se pensar em raça, não queriam encorajar as nuances de se pensar em classes sociais, e, mesmo eu, como uma pessoa transmasculina, não foi pedido de mim que eu pensasse sobre os meus privilégios em comparação à pessoas que são mulheres trans ou transfemininas. “awQward” surgiu da necessidade de ter essa conversa comigo mesmo e com outras pessoas em relação a arte, e também porque muitas vezes eu recebia respostas extremamente racistas e transfóbicas de estabelecimentos quando eu me candidatava para me apresentar, coisas como “Ah, você é negro? Bom, o mês da consciência negra [Black History Month] já terminou”, ou “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou, então sua arte não precisa estar aqui”. Então, quando você pensa sobre o que significa conseguir ganhar a vida como artista trans de cor quando agências de talento LGTBQ não estão contratando artistas trans de cor, apesar de estarem cientes das estatísticas de pessoas trans desabrigadas e desempregadas e esse tipo de coisa, mostra que não veem a sua vida como tão importante quanto a de outros. “awQward” existe para preservar a história e trilha de um movimento que é muito inclusivo de pessoas trans de cor, que coloca pessoas trans de cor em papeis centrais e permite que suas vozes brilhantes estejam em primeiro plano. Tenho esperanças de que mudemos o movimento. Todos vocês que estão assistindo à esse vídeo e lendo o The New York Times, espalhem que vocês pensam sobre como racismo e supremacia branca afetam as experiências das pessoas trans, como misoginia e o patriarcado afetam, como preconceito de classe afeta. Não podemos ter essas conversas em bolhas isoladas, e eu espero que vocês se juntem a mim em pensar em como podemos ativamente mencionar essas coisas e injetar nossos recursos em locais e espaços carentes.
DEPOIMENTO:
Comecei a “sair do armário” como trans quando tinha por volta de 19 anos. Naquela época eu acreditava nesse mito bastante romântico de uma comunidade LGBTQ coesa. Como se todas as nossas questões fossem as mesmas, sabe? Essa história que é contada a respeito do que significa ser LGBTQ geralmente não inclui as nuances de raça, classe, imigração, status etc. Sendo uma pessoa trans e negra eu descobri que essas questões são muito faladas na comunidade LGBTQ, mas não de fato abordadas. Organizações LGBTQ sempre falam de nós na hora de falar das estatísticas dos desabrigados dentro da comunidade, ou da falta de acesso à saúde ou empregos, ou o risco de violência anti-LGBTQ… lá estávamos nós, pessoas trans de cor, principalmente mulheres trans de cor, no topo de todas as listas. Contudo, me vi lidando com muita supremacia branca, racismo e transfobia dentro de comunidades LGBTQ que promoviam discussões sobre justiça social sem nunca de fato confiar em pessoas trans de cor para assumir posições de liderança ou para criar projetos que nos dariam mais espaço. Como poeta, muitos dos estabelecimentos nos quais eu tentava me apresentar falavam coisas como “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou… então não precisamos te pagar para você se apresentar”. Ou “Ah, você é negra, bom, nós tivemos uma pessoa negra trans se apresentar aqui dois anos atrás, então… não precisamos de você”. Existe uma ideia de que se você é trans e de cor, então menos pessoas conseguirão se relacionar com sua história quando ela não está “na moda”. Isso faz com que seja quase impossível ganhar a vida como performer trans de cor. Eu conversei com amigos meus que também são artistas e performers e vi que eles se deparavam com as mesmas barreiras. Então, com o apoio deles, criei o “awQward”. “awQward” é uma agência de talentos administrada por pessoas trans de cor para promover o trabalho de pessoas trans e queer de cor, e é a primeira agência desse tipo. Tenho esperanças de que artistas trans de cor consigam preservar nossa história e cultura, e consigam ganhar a vida fazendo aquilo que amam.
Trans Voices: Andy Marra
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Andy: Meu nome é Andy Marra.
Drew: Meu nome é Drew.
Andy: E estamos aqui hoje para falar sobre o nosso relacionamento.
Drew: Eu que falei “eu te amo” primeiro. Foi dois anos atrás, no nosso primeiro dia dos namorados juntos. Eu escrevi um cartão para ela e assinei “com amor” ao invés de “sinceramente”. Ela perguntou se eu falei sério quando eu escrevi aquilo, e eu falei “É claro que sim”. E depois disso falei “Eu te amo”.
Andy: E dai eu comecei a chorar. Eu choro muito.
Eu sou uma mulher trans e o Drew é um homem cis. É muito difícil para homens que sentem atração e estão em relacionamentos com pessoas como eu por conta do estigma que a sociedade coloca neles. Ele me levou para conhecer a família dele, e eu fiz o mesmo.
Drew: Essa foi a primeira vez, a única vez que eu pensei “Quero me casar”, eu nunca havia pensado em passar minha vida com outra pessoa.
Eu que pedi a Andy em casamento. Já vinha pensando nisso há um tempo. No ano novo a gente estava deitado na cama basicamente esperando a bola do Times Square cair e o ano virar e eu perguntei para ela se ela queria casar comigo.
Andy: No outono passado me deram um anel de diamantes que está na nossa família há quatro, cinco gerações. É bastante importante receber esse tipo de relíquia familiar, foi um jeito de meus pais darem sua bênção.
Drew: O que eu quero que as pessoas levem do nosso relacionamento é que, não importa o que aconteça com meu emprego ou com minha família, a Andy é o que dá cor à minha vida.
Andy: Drew é quem me deixa centrada, ele me lembra quais as coisas que eu realmente valorizo, quais coisas são as mais importantes para mim. É ele, e nossa vida juntos. Nós somos a cor e a gravidade um do outro.
DEPOIMENTO:
Em 2014 eu escrevi um ensaio sobre vivenciar o amor e relacionamentos como uma mulher trans. O texto que eu escrevi eliciou uma tremenda resposta, especialmente de outras mulheres trans que se identificavam com algumas das minhas experiências. Muitas expressavam suas frustrações e angústias sobre como eram tratadas por homens cis, levando algumas a concluir que seria impossível encontrar um parceiro. Eu não era exceção. Antes de conhecer o meu noivo, Drew, quase todos os homens que sentiam atração por mim insistiam que a gente mantivesse o nosso tempo juntos em segredo. Algo a nunca ser discutido com outras pessoas. Eles tinham medo do que os outros poderiam pensar, por estarem saindo com uma mulher como eu.
Meus amigos falavam cheios de felicidade sobre seus primeiros encontros ou relacionamentos novos. Não podia fazer nada além de ouvir educadamente e sorrir, nunca compartilhando muitos detalhes sobre quem eu estava namorando na época.
Viver uma vida repleta de segredos em troca de um relacionamento nunca me pareceu certo. E porque deveria? Como outras mulheres trans confrontadas por homens que não estavam dispostos a ser abertos e honestos em relação aos próprios sentimentos, eu paguei o preço do silêncio com meu senso de valor próprio.
Esse silêncio promoveu uma cultura profunda de estigma entre homens atraídos por mulheres trans. Ainda pior, esse silêncio deu aos outros homens permissão de polemizar, demonizar e brutalizar mulheres trans. Essa triste realidade é ainda mais forte se você é uma mulher trans de cor. Os moradores de Nova York não precisam ir muito longe para entender os perigos muito reais do silêncio. Faz menos de dois anos que Islan Nettles, de 21 anos, foi espancada por um grupo de homens até ficar inconsciente, porque era trans. Ela morreu quatro dias depois.
Precisamos que os homens criem um novo conceito de masculinidade que não condene outros homens por se sentirem atraídos por mulheres trans. Precisamos de uma masculinidade mais inclusiva que ajude a descontruir o preconceito, violência e discriminação que afetam todas as mulheres – independente de sua identidade de gênero.
Estar com Drew reafirmou o que eu deveria esperar de um homem. Eu mereço ser tratada com respeito. A honestidade deveria ser a base de qualquer relacionamento. E eu nunca deveria me silenciar ou esconder quem eu sou.
Como Drew gosta de dizer: “Você é quem dá cor à minha vida”. Espero que mais homens consigam finalmente reconhecer a beleza e o valor das mulheres trans em suas vidas.
Trans voices: Faye Seidler
DEPOIMENTO:
Eu nasci em Fargo, na Dakota do Norte, onde vivo até hoje, e eu trabalhava como técnica em um hospital. Eu comecei a trabalhar lá antes de fazer a transição, mas na minha avaliação de três meses eu os informei que estaria dando início à minha transição em breve.
A medida que os meses foram passando eles me interrogaram e intimidaram a respeito da minha identidade de gênero, desconsideraram que estavam se referindo a mim pelo gênero errado, me forçaram a trocar de roupa em um vestiário improvisado e me disseram que educar seus funcionários a respeito de gênero era a mesma coisa que os obrigar a aprender sobre a religião muçulmana como pré-requisito para o trabalho.
Durante todo esse tempo eu ofereci educá-los e tentei trabalhar junto com eles. Eu falei para eles que o que estavam fazendo constitui discriminação e que, enquanto uma pessoa pode deixar sua orientação sexual e religião fora de questões de trabalho, eu não podia parar de ser mulher.
A pior parte é que esse era o mesmo hospital no qual eu estava me tratando. Como era para eu confiar na habilidade do hospital de cuidar de mim como paciente, quando eles nem conseguiam cuidar de mim como funcionária? Eles, que deixavam de me ajudar, alegando que não eram obrigados por lei a fazê-lo?
Eu fiz tudo que podia para trabalhar com eles enquanto eu estava lá, mas quando eles se recusaram a se comunicar comigo eu soube que eu não conseguiria ter nenhuma troca significativa e que não valia a pena me submeter a essa condição hostil. Mas eu não sou só um indivíduo, eu faço parte de uma comunidade, e essa força me deu a perseverança de continuar a lutar pela educação e pelo tratamento justo. Me deu a coragem de depor na câmara de deputados da Dakota do Norte e tentar suscitar mudanças. Infelizmente, o deputado Robin Weisz escolheu ignorar meu depoimento e trabalhou para negar direitos iguais às pessoas LGBT.
Mas, ao passar por tudo isso, eu aprendi quem eu sou e do que eu sou capaz. Que eu consigo enfrentar pessoas hostis e indiferentes e falar o que penso. Que, como uma líder trans, oferecendo educação e assistência para a minha comunidade, eu não tenho medo de lutar. E, mais importante de tudo, que eu nunca vou desistir de lutar para ser tratada como ser humano.
Trans voices: Avery Jackson
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Oi, meu nome é Avery e eu tenho sete anos. Eu gosto de subir em árvores, ser uma ninja, fingir que eu sou um animal e todo tipo de coisa assim. Eu gosto de fingir que sou personagens de jogos de vídeo game, gosto de brincar com meu irmão… e é isso. Essas são as coisas que eu gosto de fazer. Ah! E eu sou trans. Quando eu nasci, os médicos falaram que eu era menino. Mas no meu coração eu sabia que eu era menina. Então eu tenho algumas partes do corpo que são de menino, mas isso não é errado, isso é ok! Quando eu estava no jardim de infância eu podia brincar de me fantasiar, e isso me deixava muito feliz, porque eu podia usar vestidos e simplesmente ser feliz. Às vezes eu brinco que eu sou um animal ou um ninja ou uma princesa, mas não significa que meus pais devem me tratar como se eu fosse essas coisas. É só de faz de conta. Mesmo eu sendo uma menina eu fiquei com medo de contar para os meus pais porque achei que eles iam parar de me amar e me expulsar de casa e não me dar mais comida ou coisas assim. Mas chegou uma hora que precisei contar para os meus pais, eu não conseguia mais guardar isso dentro de mim, era muito difícil eu ser alguém que não era realmente e ter eles me tratando como menino quando eu na verdade era uma menina. Meus pais me levaram para ver alguns médicos, e os médicos falaram que eu ficaria bem, contanto que deixassem eu ser uma menina. Meu amigos aceitaram bem quando eu comecei a me vestir como menina na pré-escola, mas seus pais não. Eles achavam que era contagioso, tipo catapora trans ou coisa parecida. Decidi sair da pré-escola, porque era melhor poder ser eu mesma e perder todos os meus amigos que continuar fingindo ser alguém que eu não sou. Eu pude comprar roupas novas e deixar o meu cabelo crescer, e agora meus novos amigos me conhecem como a garota que sou em meu coração e no meu cérebro. Eu já fiz ginástica de solo, dança, arco e flecha, tae-kwan-do, escoteiras, e muito mais. Sou uma garota normal. E eu pintei o meu cabelo três vezes! Ainda têm pessoas que não entendem ou que têm medo por eu ser um pouco diferente, mas a gente quer consertar isso! Algumas pessoas falam que eu não uso o banheiro certo ou não vou para o lavabo certo, mas quem se importa com as partes do meu corpo! Eu não pergunto o que tá dentro das suas roupas de baixo! Ser trans é difícil, mas você pode ser quem você quer ser. Eu tenho orgulho de quem eu sou, porque sou trans e sou uma menina, sou uma menina normal, uma menina trans normal como qualquer outra.
Depoimento escrito por Tom, pai de Avery:
Meu nome é Tom. Eu sou um marido, um pai, e, acima de tudo, tento ser um ser humano decente. Só digo esta última coisa porque recentemente houveram muitas pessoas direcionando comentários odiosos e vis para minha família.
Aos quatro anos minha filha revelou o verdadeiro eu dela quando declarou, de forma clara e articulada, “Na verdade eu sou uma menina, por dentro eu sou uma menina”. Essa declaração mudou a minha vida para sempre e é algo que eu não mudaria por nada nesse mundo. Agora, olhando para trás, vejo que os sinais no ano que precederam sua declaração foram claros. Uma criança que antes era feliz e despreocupada começou a ficar raivosa, deprimida, a se rebelar. Uma vez que nossa filha encontrou as palavras para expressar quem ela realmente era em seu coração e em seu cérebro, começamos a buscar a ajuda de médicos.
Levamos ela para o pediatra, para um terapeuta de crianças e um terapeuta de gênero. Nossa criança foi diagnosticada com disforia de gênero e nos foi dito que permitir que ela transicionasse e vivesse como menina seria o “tratamento” correto. A essa altura eu e minha esposa tentamos absorver toda informação possível que encontramos a respeito de crianças trans. A informação era escassa, mas o pouco que encontramos era muito perturbador. Mais de 50% das crianças trans tentam cometer suicido na metade ou no final da adolescência. Uma grande quantidade delas consegue. E a principal razão que essas crianças dão para tentar se machucar é falta de amor e apoio por parte de suas famílias e amigos. Eu e minha esposa decidimos que preferimos ter uma filha feliz e saudável que um filho morto.
Desde que começou sua transição, vimos surgir uma menina confiante e corajosa.
Ano passado alguns de vocês foram apresentados para a minha esposa, que inadvertidamente se tornou uma feroz defensora dos direitos da juventude LGBT, graças ao discurso que deu falando do amor que temos pela nossa filha. Recentemente, nossa filha pediu para contar a sua história – nas suas próprias palavras, porque ela tem orgulho de quem ela é e quer ajudar outras crianças como ela a “mudar o mundo”.
Eu só conto a nossa história porque existem pessoas que são desinformadas a respeito do que significa ser trans ou que pensam que nós, como pais, estamos forçando nossa filha a isso. Posso assegurar vocês que não é o caso. A única coisa que eu transmito para minha filha é muito simples: ame a si mesma e dê amor aos outros. É exatamente isso que eu pretendo fazer. Eu amo a minha filha por quem ela é, sem condições prévias, e eu prometo ajudá-la a se tornar um membro feliz, saudável e produtivo da sociedade. Afinal, não é isso que pais devem fazer?
Lembram quando semana passada a Suprema Corte dos EUA decidiu que o casamento de pessoas do mesmo sexo é um direito constitucional no país? O resultado foi uma linda explosão arco-íris no Facebook, graças a um aplicativo desenvolvido pela rede social que aplicava um filtro com as cores da bandeira LGBT na foto de perfil?
Esta semana o movimento é pela visibilidade trans, que tem sua própria bandeira. Só nesse mês, oito pessoas trans foram assassinadas brutalmente, simplesmente por serem quem são. Infelizmente, o Brasil é o 1º lugar no ranking de assassinatos de pessoas trans. Faça parte do movimento! Vista a foto do seu perfil no Facebook de rosa e azul clicando neste link e mostre que é contra a transfobia!
Existe uma expressão que diz que o “T” de LGBT na realidade significa “transparente”, e infelizmente isso é bem representativo da realidade. Embora os direitos LGB estejam avançando cada vez mais, existe uma discrepância grande com o dos Ts, que ainda enfrentam preconceito não só na sociedade como também no próprio meio LGBT. Estamos pela primeira vez na história vendo o mídia internacional mainstream retratar as pessoas trans com uma frequência cada vez maior, e com um olhar cada vez mais positivo, como no caso da atriz Laverne Cox e da ex-atleta olímpica Caityln Jenner. Mas esses passos (embora significativos) são passinhos de bebê na trajetória dos direitos das pessoas trans.
Um exemplo bastante aterrorizador disso foi a substituição do termo “gênero” por “sexo” no projeto da lei n.º 292/2013, também conhecida como a lei do feminicídio, que excluiu todas as mulheres trans da alçada de sua proteção. Como se feminicídio transfóbico NÃO EXISTISSE. Então, enquanto (graças aos céus) gays e lésbicas estão finalmente conquistando o direito ao casamento, homens e mulheres trans ainda precisam lutar por direitos como poder usar o banheiro que querem usar, serem chamados pelo nome correto, serem vistos como ser humanos pela sociedade, entre muitas e muitas outras coisas.
Tendo isso em mente, o jornal The New York Timescomeçou a fazer um trabalho bem legal para impulsionar a visibilidade trans. Estão publicando uma série de editorias sobre o assunto, além de publicarem depoimentos que as pessoas enviam, seja em forma de texto, fotos ou videos.
Você pode ter acesso a esse material aqui (os depoimentos estão na seção “Your Stories – Trans Voices“). Como o site infelizmente está disponível somente em inglês, fizemos uma tradução de quatro depoimentos. O texto em itálico é a legenda do vídeo, e o em redondo é o depoimento.
Agora, imagina se um jornal (ou qualquer outro veículo) brasileiro tomasse uma iniciativa dessas? Ainda temos muito chão pela frente…
Trans voices: J. Mase III
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Olá, meu nome é J Mase III e eu sou um poeta que reside no Bronx. Também sou fundador da organização “awQward”, a primeira agência de talentos específica para pessoas de cor trans e queer. É uma organização comandada exclusivamente por pessoas trans de cor, e eu compartilho essa informação porque isso é uma coisa muito rara. Quando eu me assumi trans uns onze, quase doze anos atrás, eu me assumi dentro de uma comunidade LGBTQ que não queria encorajar as nuances de se pensar em raça, não queriam encorajar as nuances de se pensar em classes sociais, e, mesmo eu, como uma pessoa transmasculina, não foi pedido de mim que eu pensasse sobre os meus privilégios em comparação à pessoas que são mulheres trans ou transfemininas. “awQward” surgiu da necessidade de ter essa conversa comigo mesmo e com outras pessoas em relação a arte, e também porque muitas vezes eu recebia respostas extremamente racistas e transfóbicas de estabelecimentos quando eu me candidatava para me apresentar, coisas como “Ah, você é negro? Bom, o mês da consciência negra [Black History Month] já terminou”, ou “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou, então sua arte não precisa estar aqui”. Então, quando você pensa sobre o que significa conseguir ganhar a vida como artista trans de cor quando agências de talento LGTBQ não estão contratando artistas trans de cor, apesar de estarem cientes das estatísticas de pessoas trans desabrigadas e desempregadas e esse tipo de coisa, mostra que não veem a sua vida como tão importante quanto a de outros. “awQward” existe para preservar a história e trilha de um movimento que é muito inclusivo de pessoas trans de cor, que coloca pessoas trans de cor em papeis centrais e permite que suas vozes brilhantes estejam em primeiro plano. Tenho esperanças de que mudemos o movimento. Todos vocês que estão assistindo à esse vídeo e lendo o The New York Times, espalhem que vocês pensam sobre como racismo e supremacia branca afetam as experiências das pessoas trans, como misoginia e o patriarcado afetam, como preconceito de classe afeta. Não podemos ter essas conversas em bolhas isoladas, e eu espero que vocês se juntem a mim em pensar em como podemos ativamente mencionar essas coisas e injetar nossos recursos em locais e espaços carentes.
DEPOIMENTO:
Comecei a “sair do armário” como trans quando tinha por volta de 19 anos. Naquela época eu acreditava nesse mito bastante romântico de uma comunidade LGBTQ coesa. Como se todas as nossas questões fossem as mesmas, sabe? Essa história que é contada a respeito do que significa ser LGBTQ geralmente não inclui as nuances de raça, classe, imigração, status etc. Sendo uma pessoa trans e negra eu descobri que essas questões são muito faladas na comunidade LGBTQ, mas não de fato abordadas. Organizações LGBTQ sempre falam de nós na hora de falar das estatísticas dos desabrigados dentro da comunidade, ou da falta de acesso à saúde ou empregos, ou o risco de violência anti-LGBTQ… lá estávamos nós, pessoas trans de cor, principalmente mulheres trans de cor, no topo de todas as listas. Contudo, me vi lidando com muita supremacia branca, racismo e transfobia dentro de comunidades LGBTQ que promoviam discussões sobre justiça social sem nunca de fato confiar em pessoas trans de cor para assumir posições de liderança ou para criar projetos que nos dariam mais espaço. Como poeta, muitos dos estabelecimentos nos quais eu tentava me apresentar falavam coisas como “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou… então não precisamos te pagar para você se apresentar”. Ou “Ah, você é negra, bom, nós tivemos uma pessoa negra trans se apresentar aqui dois anos atrás, então… não precisamos de você”. Existe uma ideia de que se você é trans e de cor, então menos pessoas conseguirão se relacionar com sua história quando ela não está “na moda”. Isso faz com que seja quase impossível ganhar a vida como performer trans de cor. Eu conversei com amigos meus que também são artistas e performers e vi que eles se deparavam com as mesmas barreiras. Então, com o apoio deles, criei o “awQward”. “awQward” é uma agência de talentos administrada por pessoas trans de cor para promover o trabalho de pessoas trans e queer de cor, e é a primeira agência desse tipo. Tenho esperanças de que artistas trans de cor consigam preservar nossa história e cultura, e consigam ganhar a vida fazendo aquilo que amam.
Trans Voices: Andy Marra
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Andy: Meu nome é Andy Marra.
Drew: Meu nome é Drew.
Andy: E estamos aqui hoje para falar sobre o nosso relacionamento.
Drew: Eu que falei “eu te amo” primeiro. Foi dois anos atrás, no nosso primeiro dia dos namorados juntos. Eu escrevi um cartão para ela e assinei “com amor” ao invés de “sinceramente”. Ela perguntou se eu falei sério quando eu escrevi aquilo, e eu falei “É claro que sim”. E depois disso falei “Eu te amo”.
Andy: E dai eu comecei a chorar. Eu choro muito.
Eu sou uma mulher trans e o Drew é um homem cis. É muito difícil para homens que sentem atração e estão em relacionamentos com pessoas como eu por conta do estigma que a sociedade coloca neles. Ele me levou para conhecer a família dele, e eu fiz o mesmo.
Drew: Essa foi a primeira vez, a única vez que eu pensei “Quero me casar”, eu nunca havia pensado em passar minha vida com outra pessoa.
Eu que pedi a Andy em casamento. Já vinha pensando nisso há um tempo. No ano novo a gente estava deitado na cama basicamente esperando a bola do Times Square cair e o ano virar e eu perguntei para ela se ela queria casar comigo.
Andy: No outono passado me deram um anel de diamantes que está na nossa família há quatro, cinco gerações. É bastante importante receber esse tipo de relíquia familiar, foi um jeito de meus pais darem sua bênção.
Drew: O que eu quero que as pessoas levem do nosso relacionamento é que, não importa o que aconteça com meu emprego ou com minha família, a Andy é o que dá cor à minha vida.
Andy: Drew é quem me deixa centrada, ele me lembra quais as coisas que eu realmente valorizo, quais coisas são as mais importantes para mim. É ele, e nossa vida juntos. Nós somos a cor e a gravidade um do outro.
DEPOIMENTO:
Em 2014 eu escrevi um ensaio sobre vivenciar o amor e relacionamentos como uma mulher trans. O texto que eu escrevi eliciou uma tremenda resposta, especialmente de outras mulheres trans que se identificavam com algumas das minhas experiências. Muitas expressavam suas frustrações e angústias sobre como eram tratadas por homens cis, levando algumas a concluir que seria impossível encontrar um parceiro. Eu não era exceção. Antes de conhecer o meu noivo, Drew, quase todos os homens que sentiam atração por mim insistiam que a gente mantivesse o nosso tempo juntos em segredo. Algo a nunca ser discutido com outras pessoas. Eles tinham medo do que os outros poderiam pensar, por estarem saindo com uma mulher como eu.
Meus amigos falavam cheios de felicidade sobre seus primeiros encontros ou relacionamentos novos. Não podia fazer nada além de ouvir educadamente e sorrir, nunca compartilhando muitos detalhes sobre quem eu estava namorando na época.
Viver uma vida repleta de segredos em troca de um relacionamento nunca me pareceu certo. E porque deveria? Como outras mulheres trans confrontadas por homens que não estavam dispostos a ser abertos e honestos em relação aos próprios sentimentos, eu paguei o preço do silêncio com meu senso de valor próprio.
Esse silêncio promoveu uma cultura profunda de estigma entre homens atraídos por mulheres trans. Ainda pior, esse silêncio deu aos outros homens permissão de polemizar, demonizar e brutalizar mulheres trans. Essa triste realidade é ainda mais forte se você é uma mulher trans de cor. Os moradores de Nova York não precisam ir muito longe para entender os perigos muito reais do silêncio. Faz menos de dois anos que Islan Nettles, de 21 anos, foi espancada por um grupo de homens até ficar inconsciente, porque era trans. Ela morreu quatro dias depois.
Precisamos que os homens criem um novo conceito de masculinidade que não condene outros homens por se sentirem atraídos por mulheres trans. Precisamos de uma masculinidade mais inclusiva que ajude a descontruir o preconceito, violência e discriminação que afetam todas as mulheres – independente de sua identidade de gênero.
Estar com Drew reafirmou o que eu deveria esperar de um homem. Eu mereço ser tratada com respeito. A honestidade deveria ser a base de qualquer relacionamento. E eu nunca deveria me silenciar ou esconder quem eu sou.
Como Drew gosta de dizer: “Você é quem dá cor à minha vida”. Espero que mais homens consigam finalmente reconhecer a beleza e o valor das mulheres trans em suas vidas.
Trans voices: Faye Seidler
DEPOIMENTO:
Eu nasci em Fargo, na Dakota do Norte, onde vivo até hoje, e eu trabalhava como técnica em um hospital. Eu comecei a trabalhar lá antes de fazer a transição, mas na minha avaliação de três meses eu os informei que estaria dando início à minha transição em breve.
A medida que os meses foram passando eles me interrogaram e intimidaram a respeito da minha identidade de gênero, desconsideraram que estavam se referindo a mim pelo gênero errado, me forçaram a trocar de roupa em um vestiário improvisado e me disseram que educar seus funcionários a respeito de gênero era a mesma coisa que os obrigar a aprender sobre a religião muçulmana como pré-requisito para o trabalho.
Durante todo esse tempo eu ofereci educá-los e tentei trabalhar junto com eles. Eu falei para eles que o que estavam fazendo constitui discriminação e que, enquanto uma pessoa pode deixar sua orientação sexual e religião fora de questões de trabalho, eu não podia parar de ser mulher.
A pior parte é que esse era o mesmo hospital no qual eu estava me tratando. Como era para eu confiar na habilidade do hospital de cuidar de mim como paciente, quando eles nem conseguiam cuidar de mim como funcionária? Eles, que deixavam de me ajudar, alegando que não eram obrigados por lei a fazê-lo?
Eu fiz tudo que podia para trabalhar com eles enquanto eu estava lá, mas quando eles se recusaram a se comunicar comigo eu soube que eu não conseguiria ter nenhuma troca significativa e que não valia a pena me submeter a essa condição hostil. Mas eu não sou só um indivíduo, eu faço parte de uma comunidade, e essa força me deu a perseverança de continuar a lutar pela educação e pelo tratamento justo. Me deu a coragem de depor na câmara de deputados da Dakota do Norte e tentar suscitar mudanças. Infelizmente, o deputado Robin Weisz escolheu ignorar meu depoimento e trabalhou para negar direitos iguais às pessoas LGBT.
Mas, ao passar por tudo isso, eu aprendi quem eu sou e do que eu sou capaz. Que eu consigo enfrentar pessoas hostis e indiferentes e falar o que penso. Que, como uma líder trans, oferecendo educação e assistência para a minha comunidade, eu não tenho medo de lutar. E, mais importante de tudo, que eu nunca vou desistir de lutar para ser tratada como ser humano.
Trans voices: Avery Jackson
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Oi, meu nome é Avery e eu tenho sete anos. Eu gosto de subir em árvores, ser uma ninja, fingir que eu sou um animal e todo tipo de coisa assim. Eu gosto de fingir que sou personagens de jogos de vídeo game, gosto de brincar com meu irmão… e é isso. Essas são as coisas que eu gosto de fazer. Ah! E eu sou trans. Quando eu nasci, os médicos falaram que eu era menino. Mas no meu coração eu sabia que eu era menina. Então eu tenho algumas partes do corpo que são de menino, mas isso não é errado, isso é ok! Quando eu estava no jardim de infância eu podia brincar de me fantasiar, e isso me deixava muito feliz, porque eu podia usar vestidos e simplesmente ser feliz. Às vezes eu brinco que eu sou um animal ou um ninja ou uma princesa, mas não significa que meus pais devem me tratar como se eu fosse essas coisas. É só de faz de conta. Mesmo eu sendo uma menina eu fiquei com medo de contar para os meus pais porque achei que eles iam parar de me amar e me expulsar de casa e não me dar mais comida ou coisas assim. Mas chegou uma hora que precisei contar para os meus pais, eu não conseguia mais guardar isso dentro de mim, era muito difícil eu ser alguém que não era realmente e ter eles me tratando como menino quando eu na verdade era uma menina. Meus pais me levaram para ver alguns médicos, e os médicos falaram que eu ficaria bem, contanto que deixassem eu ser uma menina. Meu amigos aceitaram bem quando eu comecei a me vestir como menina na pré-escola, mas seus pais não. Eles achavam que era contagioso, tipo catapora trans ou coisa parecida. Decidi sair da pré-escola, porque era melhor poder ser eu mesma e perder todos os meus amigos que continuar fingindo ser alguém que eu não sou. Eu pude comprar roupas novas e deixar o meu cabelo crescer, e agora meus novos amigos me conhecem como a garota que sou em meu coração e no meu cérebro. Eu já fiz ginástica de solo, dança, arco e flecha, tae-kwan-do, escoteiras, e muito mais. Sou uma garota normal. E eu pintei o meu cabelo três vezes! Ainda têm pessoas que não entendem ou que têm medo por eu ser um pouco diferente, mas a gente quer consertar isso! Algumas pessoas falam que eu não uso o banheiro certo ou não vou para o lavabo certo, mas quem se importa com as partes do meu corpo! Eu não pergunto o que tá dentro das suas roupas de baixo! Ser trans é difícil, mas você pode ser quem você quer ser. Eu tenho orgulho de quem eu sou, porque sou trans e sou uma menina, sou uma menina normal, uma menina trans normal como qualquer outra.
Depoimento escrito por Tom, pai de Avery:
Meu nome é Tom. Eu sou um marido, um pai, e, acima de tudo, tento ser um ser humano decente. Só digo esta última coisa porque recentemente houveram muitas pessoas direcionando comentários odiosos e vis para minha família.
Aos quatro anos minha filha revelou o verdadeiro eu dela quando declarou, de forma clara e articulada, “Na verdade eu sou uma menina, por dentro eu sou uma menina”. Essa declaração mudou a minha vida para sempre e é algo que eu não mudaria por nada nesse mundo. Agora, olhando para trás, vejo que os sinais no ano que precederam sua declaração foram claros. Uma criança que antes era feliz e despreocupada começou a ficar raivosa, deprimida, a se rebelar. Uma vez que nossa filha encontrou as palavras para expressar quem ela realmente era em seu coração e em seu cérebro, começamos a buscar a ajuda de médicos.
Levamos ela para o pediatra, para um terapeuta de crianças e um terapeuta de gênero. Nossa criança foi diagnosticada com disforia de gênero e nos foi dito que permitir que ela transicionasse e vivesse como menina seria o “tratamento” correto. A essa altura eu e minha esposa tentamos absorver toda informação possível que encontramos a respeito de crianças trans. A informação era escassa, mas o pouco que encontramos era muito perturbador. Mais de 50% das crianças trans tentam cometer suicido na metade ou no final da adolescência. Uma grande quantidade delas consegue. E a principal razão que essas crianças dão para tentar se machucar é falta de amor e apoio por parte de suas famílias e amigos. Eu e minha esposa decidimos que preferimos ter uma filha feliz e saudável que um filho morto.
Desde que começou sua transição, vimos surgir uma menina confiante e corajosa.
Ano passado alguns de vocês foram apresentados para a minha esposa, que inadvertidamente se tornou uma feroz defensora dos direitos da juventude LGBT, graças ao discurso que deu falando do amor que temos pela nossa filha. Recentemente, nossa filha pediu para contar a sua história – nas suas próprias palavras, porque ela tem orgulho de quem ela é e quer ajudar outras crianças como ela a “mudar o mundo”.
Eu só conto a nossa história porque existem pessoas que são desinformadas a respeito do que significa ser trans ou que pensam que nós, como pais, estamos forçando nossa filha a isso. Posso assegurar vocês que não é o caso. A única coisa que eu transmito para minha filha é muito simples: ame a si mesma e dê amor aos outros. É exatamente isso que eu pretendo fazer. Eu amo a minha filha por quem ela é, sem condições prévias, e eu prometo ajudá-la a se tornar um membro feliz, saudável e produtivo da sociedade. Afinal, não é isso que pais devem fazer?
Lembram quando semana passada a Suprema Corte dos EUA decidiu que o casamento de pessoas do mesmo sexo é um direito constitucional no país? O resultado foi uma linda explosão arco-íris no Facebook, graças a um aplicativo desenvolvido pela rede social que aplicava um filtro com as cores da bandeira LGBT na foto de perfil?
Esta semana o movimento é pela visibilidade trans, que tem sua própria bandeira. Só nesse mês, oito pessoas trans foram assassinadas brutalmente, simplesmente por serem quem são. Infelizmente, o Brasil é o 1º lugar no ranking de assassinatos de pessoas trans. Faça parte do movimento! Vista a foto do seu perfil no Facebook de rosa e azul clicando neste link e mostre que é contra a transfobia!
Existe uma expressão que diz que o “T” de LGBT na realidade significa “transparente”, e infelizmente isso é bem representativo da realidade. Embora os direitos LGB estejam avançando cada vez mais, existe uma discrepância grande com o dos Ts, que ainda enfrentam preconceito não só na sociedade como também no próprio meio LGBT. Estamos pela primeira vez na história vendo o mídia internacional mainstream retratar as pessoas trans com uma frequência cada vez maior, e com um olhar cada vez mais positivo, como no caso da atriz Laverne Cox e da ex-atleta olímpica Caityln Jenner. Mas esses passos (embora significativos) são passinhos de bebê na trajetória dos direitos das pessoas trans.
Um exemplo bastante aterrorizador disso foi a substituição do termo “gênero” por “sexo” no projeto da lei n.º 292/2013, também conhecida como a lei do feminicídio, que excluiu todas as mulheres trans da alçada de sua proteção. Como se feminicídio transfóbico NÃO EXISTISSE. Então, enquanto (graças aos céus) gays e lésbicas estão finalmente conquistando o direito ao casamento, homens e mulheres trans ainda precisam lutar por direitos como poder usar o banheiro que querem usar, serem chamados pelo nome correto, serem vistos como ser humanos pela sociedade, entre muitas e muitas outras coisas.
Tendo isso em mente, o jornal The New York Timescomeçou a fazer um trabalho bem legal para impulsionar a visibilidade trans. Estão publicando uma série de editorias sobre o assunto, além de publicarem depoimentos que as pessoas enviam, seja em forma de texto, fotos ou videos.
Você pode ter acesso a esse material aqui (os depoimentos estão na seção “Your Stories – Trans Voices“). Como o site infelizmente está disponível somente em inglês, fizemos uma tradução de quatro depoimentos. O texto em itálico é a legenda do vídeo, e o em redondo é o depoimento.
Agora, imagina se um jornal (ou qualquer outro veículo) brasileiro tomasse uma iniciativa dessas? Ainda temos muito chão pela frente…
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Trans voices: J. Mase III
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Olá, meu nome é J Mase III e eu sou um poeta que reside no Bronx. Também sou fundador da organização “awQward”, a primeira agência de talentos específica para pessoas de cor trans e queer. É uma organização comandada exclusivamente por pessoas trans de cor, e eu compartilho essa informação porque isso é uma coisa muito rara. Quando eu me assumi trans uns onze, quase doze anos atrás, eu me assumi dentro de uma comunidade LGBTQ que não queria encorajar as nuances de se pensar em raça, não queriam encorajar as nuances de se pensar em classes sociais, e, mesmo eu, como uma pessoa transmasculina, não foi pedido de mim que eu pensasse sobre os meus privilégios em comparação à pessoas que são mulheres trans ou transfemininas. “awQward” surgiu da necessidade de ter essa conversa comigo mesmo e com outras pessoas em relação a arte, e também porque muitas vezes eu recebia respostas extremamente racistas e transfóbicas de estabelecimentos quando eu me candidatava para me apresentar, coisas como “Ah, você é negro? Bom, o mês da consciência negra [Black History Month] já terminou”, ou “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou, então sua arte não precisa estar aqui”. Então, quando você pensa sobre o que significa conseguir ganhar a vida como artista trans de cor quando agências de talento LGTBQ não estão contratando artistas trans de cor, apesar de estarem cientes das estatísticas de pessoas trans desabrigadas e desempregadas e esse tipo de coisa, mostra que não veem a sua vida como tão importante quanto a de outros. “awQward” existe para preservar a história e trilha de um movimento que é muito inclusivo de pessoas trans de cor, que coloca pessoas trans de cor em papeis centrais e permite que suas vozes brilhantes estejam em primeiro plano. Tenho esperanças de que mudemos o movimento. Todos vocês que estão assistindo à esse vídeo e lendo o The New York Times, espalhem que vocês pensam sobre como racismo e supremacia branca afetam as experiências das pessoas trans, como misoginia e o patriarcado afetam, como preconceito de classe afeta. Não podemos ter essas conversas em bolhas isoladas, e eu espero que vocês se juntem a mim em pensar em como podemos ativamente mencionar essas coisas e injetar nossos recursos em locais e espaços carentes.
DEPOIMENTO:
Comecei a “sair do armário” como trans quando tinha por volta de 19 anos. Naquela época eu acreditava nesse mito bastante romântico de uma comunidade LGBTQ coesa. Como se todas as nossas questões fossem as mesmas, sabe? Essa história que é contada a respeito do que significa ser LGBTQ geralmente não inclui as nuances de raça, classe, imigração, status etc. Sendo uma pessoa trans e negra eu descobri que essas questões são muito faladas na comunidade LGBTQ, mas não de fato abordadas. Organizações LGBTQ sempre falam de nós na hora de falar das estatísticas dos desabrigados dentro da comunidade, ou da falta de acesso à saúde ou empregos, ou o risco de violência anti-LGBTQ… lá estávamos nós, pessoas trans de cor, principalmente mulheres trans de cor, no topo de todas as listas. Contudo, me vi lidando com muita supremacia branca, racismo e transfobia dentro de comunidades LGBTQ que promoviam discussões sobre justiça social sem nunca de fato confiar em pessoas trans de cor para assumir posições de liderança ou para criar projetos que nos dariam mais espaço. Como poeta, muitos dos estabelecimentos nos quais eu tentava me apresentar falavam coisas como “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou… então não precisamos te pagar para você se apresentar”. Ou “Ah, você é negra, bom, nós tivemos uma pessoa negra trans se apresentar aqui dois anos atrás, então… não precisamos de você”. Existe uma ideia de que se você é trans e de cor, então menos pessoas conseguirão se relacionar com sua história quando ela não está “na moda”. Isso faz com que seja quase impossível ganhar a vida como performer trans de cor. Eu conversei com amigos meus que também são artistas e performers e vi que eles se deparavam com as mesmas barreiras. Então, com o apoio deles, criei o “awQward”. “awQward” é uma agência de talentos administrada por pessoas trans de cor para promover o trabalho de pessoas trans e queer de cor, e é a primeira agência desse tipo. Tenho esperanças de que artistas trans de cor consigam preservar nossa história e cultura, e consigam ganhar a vida fazendo aquilo que amam.
Trans Voices: Andy Marra
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Andy: Meu nome é Andy Marra.
Drew: Meu nome é Drew.
Andy: E estamos aqui hoje para falar sobre o nosso relacionamento.
Drew: Eu que falei “eu te amo” primeiro. Foi dois anos atrás, no nosso primeiro dia dos namorados juntos. Eu escrevi um cartão para ela e assinei “com amor” ao invés de “sinceramente”. Ela perguntou se eu falei sério quando eu escrevi aquilo, e eu falei “É claro que sim”. E depois disso falei “Eu te amo”.
Andy: E dai eu comecei a chorar. Eu choro muito.
Eu sou uma mulher trans e o Drew é um homem cis. É muito difícil para homens que sentem atração e estão em relacionamentos com pessoas como eu por conta do estigma que a sociedade coloca neles. Ele me levou para conhecer a família dele, e eu fiz o mesmo.
Drew: Essa foi a primeira vez, a única vez que eu pensei “Quero me casar”, eu nunca havia pensado em passar minha vida com outra pessoa.
Eu que pedi a Andy em casamento. Já vinha pensando nisso há um tempo. No ano novo a gente estava deitado na cama basicamente esperando a bola do Times Square cair e o ano virar e eu perguntei para ela se ela queria casar comigo.
Andy: No outono passado me deram um anel de diamantes que está na nossa família há quatro, cinco gerações. É bastante importante receber esse tipo de relíquia familiar, foi um jeito de meus pais darem sua bênção.
Drew: O que eu quero que as pessoas levem do nosso relacionamento é que, não importa o que aconteça com meu emprego ou com minha família, a Andy é o que dá cor à minha vida.
Andy: Drew é quem me deixa centrada, ele me lembra quais as coisas que eu realmente valorizo, quais coisas são as mais importantes para mim. É ele, e nossa vida juntos. Nós somos a cor e a gravidade um do outro.
DEPOIMENTO:
Em 2014 eu escrevi um ensaio sobre vivenciar o amor e relacionamentos como uma mulher trans. O texto que eu escrevi eliciou uma tremenda resposta, especialmente de outras mulheres trans que se identificavam com algumas das minhas experiências. Muitas expressavam suas frustrações e angústias sobre como eram tratadas por homens cis, levando algumas a concluir que seria impossível encontrar um parceiro. Eu não era exceção. Antes de conhecer o meu noivo, Drew, quase todos os homens que sentiam atração por mim insistiam que a gente mantivesse o nosso tempo juntos em segredo. Algo a nunca ser discutido com outras pessoas. Eles tinham medo do que os outros poderiam pensar, por estarem saindo com uma mulher como eu.
Meus amigos falavam cheios de felicidade sobre seus primeiros encontros ou relacionamentos novos. Não podia fazer nada além de ouvir educadamente e sorrir, nunca compartilhando muitos detalhes sobre quem eu estava namorando na época.
Viver uma vida repleta de segredos em troca de um relacionamento nunca me pareceu certo. E porque deveria? Como outras mulheres trans confrontadas por homens que não estavam dispostos a ser abertos e honestos em relação aos próprios sentimentos, eu paguei o preço do silêncio com meu senso de valor próprio.
Esse silêncio promoveu uma cultura profunda de estigma entre homens atraídos por mulheres trans. Ainda pior, esse silêncio deu aos outros homens permissão de polemizar, demonizar e brutalizar mulheres trans. Essa triste realidade é ainda mais forte se você é uma mulher trans de cor. Os moradores de Nova York não precisam ir muito longe para entender os perigos muito reais do silêncio. Faz menos de dois anos que Islan Nettles, de 21 anos, foi espancada por um grupo de homens até ficar inconsciente, porque era trans. Ela morreu quatro dias depois.
Precisamos que os homens criem um novo conceito de masculinidade que não condene outros homens por se sentirem atraídos por mulheres trans. Precisamos de uma masculinidade mais inclusiva que ajude a descontruir o preconceito, violência e discriminação que afetam todas as mulheres – independente de sua identidade de gênero.
Estar com Drew reafirmou o que eu deveria esperar de um homem. Eu mereço ser tratada com respeito. A honestidade deveria ser a base de qualquer relacionamento. E eu nunca deveria me silenciar ou esconder quem eu sou.
Como Drew gosta de dizer: “Você é quem dá cor à minha vida”. Espero que mais homens consigam finalmente reconhecer a beleza e o valor das mulheres trans em suas vidas.
Trans voices: Faye Seidler
DEPOIMENTO:
Eu nasci em Fargo, na Dakota do Norte, onde vivo até hoje, e eu trabalhava como técnica em um hospital. Eu comecei a trabalhar lá antes de fazer a transição, mas na minha avaliação de três meses eu os informei que estaria dando início à minha transição em breve.
A medida que os meses foram passando eles me interrogaram e intimidaram a respeito da minha identidade de gênero, desconsideraram que estavam se referindo a mim pelo gênero errado, me forçaram a trocar de roupa em um vestiário improvisado e me disseram que educar seus funcionários a respeito de gênero era a mesma coisa que os obrigar a aprender sobre a religião muçulmana como pré-requisito para o trabalho.
Durante todo esse tempo eu ofereci educá-los e tentei trabalhar junto com eles. Eu falei para eles que o que estavam fazendo constitui discriminação e que, enquanto uma pessoa pode deixar sua orientação sexual e religião fora de questões de trabalho, eu não podia parar de ser mulher.
A pior parte é que esse era o mesmo hospital no qual eu estava me tratando. Como era para eu confiar na habilidade do hospital de cuidar de mim como paciente, quando eles nem conseguiam cuidar de mim como funcionária? Eles, que deixavam de me ajudar, alegando que não eram obrigados por lei a fazê-lo?
Eu fiz tudo que podia para trabalhar com eles enquanto eu estava lá, mas quando eles se recusaram a se comunicar comigo eu soube que eu não conseguiria ter nenhuma troca significativa e que não valia a pena me submeter a essa condição hostil. Mas eu não sou só um indivíduo, eu faço parte de uma comunidade, e essa força me deu a perseverança de continuar a lutar pela educação e pelo tratamento justo. Me deu a coragem de depor na câmara de deputados da Dakota do Norte e tentar suscitar mudanças. Infelizmente, o deputado Robin Weisz escolheu ignorar meu depoimento e trabalhou para negar direitos iguais às pessoas LGBT.
Mas, ao passar por tudo isso, eu aprendi quem eu sou e do que eu sou capaz. Que eu consigo enfrentar pessoas hostis e indiferentes e falar o que penso. Que, como uma líder trans, oferecendo educação e assistência para a minha comunidade, eu não tenho medo de lutar. E, mais importante de tudo, que eu nunca vou desistir de lutar para ser tratada como ser humano.
Trans voices: Avery Jackson
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Oi, meu nome é Avery e eu tenho sete anos. Eu gosto de subir em árvores, ser uma ninja, fingir que eu sou um animal e todo tipo de coisa assim. Eu gosto de fingir que sou personagens de jogos de vídeo game, gosto de brincar com meu irmão… e é isso. Essas são as coisas que eu gosto de fazer. Ah! E eu sou trans. Quando eu nasci, os médicos falaram que eu era menino. Mas no meu coração eu sabia que eu era menina. Então eu tenho algumas partes do corpo que são de menino, mas isso não é errado, isso é ok! Quando eu estava no jardim de infância eu podia brincar de me fantasiar, e isso me deixava muito feliz, porque eu podia usar vestidos e simplesmente ser feliz. Às vezes eu brinco que eu sou um animal ou um ninja ou uma princesa, mas não significa que meus pais devem me tratar como se eu fosse essas coisas. É só de faz de conta. Mesmo eu sendo uma menina eu fiquei com medo de contar para os meus pais porque achei que eles iam parar de me amar e me expulsar de casa e não me dar mais comida ou coisas assim. Mas chegou uma hora que precisei contar para os meus pais, eu não conseguia mais guardar isso dentro de mim, era muito difícil eu ser alguém que não era realmente e ter eles me tratando como menino quando eu na verdade era uma menina. Meus pais me levaram para ver alguns médicos, e os médicos falaram que eu ficaria bem, contanto que deixassem eu ser uma menina. Meu amigos aceitaram bem quando eu comecei a me vestir como menina na pré-escola, mas seus pais não. Eles achavam que era contagioso, tipo catapora trans ou coisa parecida. Decidi sair da pré-escola, porque era melhor poder ser eu mesma e perder todos os meus amigos que continuar fingindo ser alguém que eu não sou. Eu pude comprar roupas novas e deixar o meu cabelo crescer, e agora meus novos amigos me conhecem como a garota que sou em meu coração e no meu cérebro. Eu já fiz ginástica de solo, dança, arco e flecha, tae-kwan-do, escoteiras, e muito mais. Sou uma garota normal. E eu pintei o meu cabelo três vezes! Ainda têm pessoas que não entendem ou que têm medo por eu ser um pouco diferente, mas a gente quer consertar isso! Algumas pessoas falam que eu não uso o banheiro certo ou não vou para o lavabo certo, mas quem se importa com as partes do meu corpo! Eu não pergunto o que tá dentro das suas roupas de baixo! Ser trans é difícil, mas você pode ser quem você quer ser. Eu tenho orgulho de quem eu sou, porque sou trans e sou uma menina, sou uma menina normal, uma menina trans normal como qualquer outra.
Depoimento escrito por Tom, pai de Avery:
Meu nome é Tom. Eu sou um marido, um pai, e, acima de tudo, tento ser um ser humano decente. Só digo esta última coisa porque recentemente houveram muitas pessoas direcionando comentários odiosos e vis para minha família.
Aos quatro anos minha filha revelou o verdadeiro eu dela quando declarou, de forma clara e articulada, “Na verdade eu sou uma menina, por dentro eu sou uma menina”. Essa declaração mudou a minha vida para sempre e é algo que eu não mudaria por nada nesse mundo. Agora, olhando para trás, vejo que os sinais no ano que precederam sua declaração foram claros. Uma criança que antes era feliz e despreocupada começou a ficar raivosa, deprimida, a se rebelar. Uma vez que nossa filha encontrou as palavras para expressar quem ela realmente era em seu coração e em seu cérebro, começamos a buscar a ajuda de médicos.
Levamos ela para o pediatra, para um terapeuta de crianças e um terapeuta de gênero. Nossa criança foi diagnosticada com disforia de gênero e nos foi dito que permitir que ela transicionasse e vivesse como menina seria o “tratamento” correto. A essa altura eu e minha esposa tentamos absorver toda informação possível que encontramos a respeito de crianças trans. A informação era escassa, mas o pouco que encontramos era muito perturbador. Mais de 50% das crianças trans tentam cometer suicido na metade ou no final da adolescência. Uma grande quantidade delas consegue. E a principal razão que essas crianças dão para tentar se machucar é falta de amor e apoio por parte de suas famílias e amigos. Eu e minha esposa decidimos que preferimos ter uma filha feliz e saudável que um filho morto.
Desde que começou sua transição, vimos surgir uma menina confiante e corajosa.
Ano passado alguns de vocês foram apresentados para a minha esposa, que inadvertidamente se tornou uma feroz defensora dos direitos da juventude LGBT, graças ao discurso que deu falando do amor que temos pela nossa filha. Recentemente, nossa filha pediu para contar a sua história – nas suas próprias palavras, porque ela tem orgulho de quem ela é e quer ajudar outras crianças como ela a “mudar o mundo”.
Eu só conto a nossa história porque existem pessoas que são desinformadas a respeito do que significa ser trans ou que pensam que nós, como pais, estamos forçando nossa filha a isso. Posso assegurar vocês que não é o caso. A única coisa que eu transmito para minha filha é muito simples: ame a si mesma e dê amor aos outros. É exatamente isso que eu pretendo fazer. Eu amo a minha filha por quem ela é, sem condições prévias, e eu prometo ajudá-la a se tornar um membro feliz, saudável e produtivo da sociedade. Afinal, não é isso que pais devem fazer?
[separator type="thin"]
Lembram quando semana passada a Suprema Corte dos EUA decidiu que o casamento de pessoas do mesmo sexo é um direito constitucional no país? O resultado foi uma linda explosão arco-íris no Facebook, graças a um aplicativo desenvolvido pela rede social que aplicava um filtro com as cores da bandeira LGBT na foto de perfil?
Esta semana o movimento é pela visibilidade trans, que tem sua própria bandeira. Só nesse mês, oito pessoas trans foram assassinadas brutalmente, simplesmente por serem quem são. Infelizmente, o Brasil é o 1º lugar no ranking de assassinatos de pessoas trans. Faça parte do movimento! Vista a foto do seu perfil no Facebook de rosa e azul clicando neste link e mostre que é contra a transfobia!
Esta quarta-feira (16) vai passar no auditório do Ibirapuera o documentário Filha da Índia. O filme trata de um caso ocorrido em 2012, quando a estudante de medicina Jyoti Singh foi estuprada e espancada por seis homens dentro de um ônibus. Ela morreu duas semanas após o crime, catalisando uma série de protestos em diversas cidades da Índia que trouxeram uma breve atenção ao problema da violência contra a mulher.
Dirigido por Leslee Udwin, o filme tenta investigar o pensamento machista e patriarcal que permeia a sociedade indiana (e todas as outras também), que permite com que esse tipo de crime seja frequente. Além dos parentes de Jyoti, os próprios estupradores são entrevistados, dias antes de morrerem na forca.
O filme, que é de 2015, foi censurado na Índia.
https://www.youtube.com/watch?v=YROBVxk17cM
Além do filme, o evento no Ibirapuera conta com um bate-papo entre a diretora Leslee Udwin, Viviane Santiago (especialista de gênero da Plan Internacional Brasil) e Kátia Cristina dos Reis (coordenadora-adjunta da coordenação de políticas para crianças e adolescentes da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo). A mediação é de Juliana de Faria (ONG Think Olga).
aqui (os depoimentos estão na seção “Your Stories – Trans Voices“). Como o site infelizmente está disponível somente em inglês, fizemos uma tradução de quatro depoimentos. O texto em itálico é a legenda do vídeo, e o em redondo é o depoimento.
Agora, imagina se um jornal (ou qualquer outro veículo) brasileiro tomasse uma iniciativa dessas? Ainda temos muito chão pela frente…
Trans voices: J. Mase III
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Olá, meu nome é J Mase III e eu sou um poeta que reside no Bronx. Também sou fundador da organização “awQward”, a primeira agência de talentos específica para pessoas de cor trans e queer. É uma organização comandada exclusivamente por pessoas trans de cor, e eu compartilho essa informação porque isso é uma coisa muito rara. Quando eu me assumi trans uns onze, quase doze anos atrás, eu me assumi dentro de uma comunidade LGBTQ que não queria encorajar as nuances de se pensar em raça, não queriam encorajar as nuances de se pensar em classes sociais, e, mesmo eu, como uma pessoa transmasculina, não foi pedido de mim que eu pensasse sobre os meus privilégios em comparação à pessoas que são mulheres trans ou transfemininas. “awQward” surgiu da necessidade de ter essa conversa comigo mesmo e com outras pessoas em relação a arte, e também porque muitas vezes eu recebia respostas extremamente racistas e transfóbicas de estabelecimentos quando eu me candidatava para me apresentar, coisas como “Ah, você é negro? Bom, o mês da consciência negra [Black History Month] já terminou”, ou “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou, então sua arte não precisa estar aqui”. Então, quando você pensa sobre o que significa conseguir ganhar a vida como artista trans de cor quando agências de talento LGTBQ não estão contratando artistas trans de cor, apesar de estarem cientes das estatísticas de pessoas trans desabrigadas e desempregadas e esse tipo de coisa, mostra que não veem a sua vida como tão importante quanto a de outros. “awQward” existe para preservar a história e trilha de um movimento que é muito inclusivo de pessoas trans de cor, que coloca pessoas trans de cor em papeis centrais e permite que suas vozes brilhantes estejam em primeiro plano. Tenho esperanças de que mudemos o movimento. Todos vocês que estão assistindo à esse vídeo e lendo o The New York Times, espalhem que vocês pensam sobre como racismo e supremacia branca afetam as experiências das pessoas trans, como misoginia e o patriarcado afetam, como preconceito de classe afeta. Não podemos ter essas conversas em bolhas isoladas, e eu espero que vocês se juntem a mim em pensar em como podemos ativamente mencionar essas coisas e injetar nossos recursos em locais e espaços carentes.
DEPOIMENTO:
Comecei a “sair do armário” como trans quando tinha por volta de 19 anos. Naquela época eu acreditava nesse mito bastante romântico de uma comunidade LGBTQ coesa. Como se todas as nossas questões fossem as mesmas, sabe? Essa história que é contada a respeito do que significa ser LGBTQ geralmente não inclui as nuances de raça, classe, imigração, status etc. Sendo uma pessoa trans e negra eu descobri que essas questões são muito faladas na comunidade LGBTQ, mas não de fato abordadas. Organizações LGBTQ sempre falam de nós na hora de falar das estatísticas dos desabrigados dentro da comunidade, ou da falta de acesso à saúde ou empregos, ou o risco de violência anti-LGBTQ… lá estávamos nós, pessoas trans de cor, principalmente mulheres trans de cor, no topo de todas as listas. Contudo, me vi lidando com muita supremacia branca, racismo e transfobia dentro de comunidades LGBTQ que promoviam discussões sobre justiça social sem nunca de fato confiar em pessoas trans de cor para assumir posições de liderança ou para criar projetos que nos dariam mais espaço. Como poeta, muitos dos estabelecimentos nos quais eu tentava me apresentar falavam coisas como “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou… então não precisamos te pagar para você se apresentar”. Ou “Ah, você é negra, bom, nós tivemos uma pessoa negra trans se apresentar aqui dois anos atrás, então… não precisamos de você”. Existe uma ideia de que se você é trans e de cor, então menos pessoas conseguirão se relacionar com sua história quando ela não está “na moda”. Isso faz com que seja quase impossível ganhar a vida como performer trans de cor. Eu conversei com amigos meus que também são artistas e performers e vi que eles se deparavam com as mesmas barreiras. Então, com o apoio deles, criei o “awQward”. “awQward” é uma agência de talentos administrada por pessoas trans de cor para promover o trabalho de pessoas trans e queer de cor, e é a primeira agência desse tipo. Tenho esperanças de que artistas trans de cor consigam preservar nossa história e cultura, e consigam ganhar a vida fazendo aquilo que amam.
Trans Voices: Andy Marra
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Andy: Meu nome é Andy Marra.
Drew: Meu nome é Drew.
Andy: E estamos aqui hoje para falar sobre o nosso relacionamento.
Drew: Eu que falei “eu te amo” primeiro. Foi dois anos atrás, no nosso primeiro dia dos namorados juntos. Eu escrevi um cartão para ela e assinei “com amor” ao invés de “sinceramente”. Ela perguntou se eu falei sério quando eu escrevi aquilo, e eu falei “É claro que sim”. E depois disso falei “Eu te amo”.
Andy: E dai eu comecei a chorar. Eu choro muito.
Eu sou uma mulher trans e o Drew é um homem cis. É muito difícil para homens que sentem atração e estão em relacionamentos com pessoas como eu por conta do estigma que a sociedade coloca neles. Ele me levou para conhecer a família dele, e eu fiz o mesmo.
Drew: Essa foi a primeira vez, a única vez que eu pensei “Quero me casar”, eu nunca havia pensado em passar minha vida com outra pessoa.
Eu que pedi a Andy em casamento. Já vinha pensando nisso há um tempo. No ano novo a gente estava deitado na cama basicamente esperando a bola do Times Square cair e o ano virar e eu perguntei para ela se ela queria casar comigo.
Andy: No outono passado me deram um anel de diamantes que está na nossa família há quatro, cinco gerações. É bastante importante receber esse tipo de relíquia familiar, foi um jeito de meus pais darem sua bênção.
Drew: O que eu quero que as pessoas levem do nosso relacionamento é que, não importa o que aconteça com meu emprego ou com minha família, a Andy é o que dá cor à minha vida.
Andy: Drew é quem me deixa centrada, ele me lembra quais as coisas que eu realmente valorizo, quais coisas são as mais importantes para mim. É ele, e nossa vida juntos. Nós somos a cor e a gravidade um do outro.
DEPOIMENTO:
Em 2014 eu escrevi um ensaio sobre vivenciar o amor e relacionamentos como uma mulher trans. O texto que eu escrevi eliciou uma tremenda resposta, especialmente de outras mulheres trans que se identificavam com algumas das minhas experiências. Muitas expressavam suas frustrações e angústias sobre como eram tratadas por homens cis, levando algumas a concluir que seria impossível encontrar um parceiro. Eu não era exceção. Antes de conhecer o meu noivo, Drew, quase todos os homens que sentiam atração por mim insistiam que a gente mantivesse o nosso tempo juntos em segredo. Algo a nunca ser discutido com outras pessoas. Eles tinham medo do que os outros poderiam pensar, por estarem saindo com uma mulher como eu.
Meus amigos falavam cheios de felicidade sobre seus primeiros encontros ou relacionamentos novos. Não podia fazer nada além de ouvir educadamente e sorrir, nunca compartilhando muitos detalhes sobre quem eu estava namorando na época.
Viver uma vida repleta de segredos em troca de um relacionamento nunca me pareceu certo. E porque deveria? Como outras mulheres trans confrontadas por homens que não estavam dispostos a ser abertos e honestos em relação aos próprios sentimentos, eu paguei o preço do silêncio com meu senso de valor próprio.
Esse silêncio promoveu uma cultura profunda de estigma entre homens atraídos por mulheres trans. Ainda pior, esse silêncio deu aos outros homens permissão de polemizar, demonizar e brutalizar mulheres trans. Essa triste realidade é ainda mais forte se você é uma mulher trans de cor. Os moradores de Nova York não precisam ir muito longe para entender os perigos muito reais do silêncio. Faz menos de dois anos que Islan Nettles, de 21 anos, foi espancada por um grupo de homens até ficar inconsciente, porque era trans. Ela morreu quatro dias depois.
Precisamos que os homens criem um novo conceito de masculinidade que não condene outros homens por se sentirem atraídos por mulheres trans. Precisamos de uma masculinidade mais inclusiva que ajude a descontruir o preconceito, violência e discriminação que afetam todas as mulheres – independente de sua identidade de gênero.
Estar com Drew reafirmou o que eu deveria esperar de um homem. Eu mereço ser tratada com respeito. A honestidade deveria ser a base de qualquer relacionamento. E eu nunca deveria me silenciar ou esconder quem eu sou.
Como Drew gosta de dizer: “Você é quem dá cor à minha vida”. Espero que mais homens consigam finalmente reconhecer a beleza e o valor das mulheres trans em suas vidas.
Trans voices: Faye Seidler
DEPOIMENTO:
Eu nasci em Fargo, na Dakota do Norte, onde vivo até hoje, e eu trabalhava como técnica em um hospital. Eu comecei a trabalhar lá antes de fazer a transição, mas na minha avaliação de três meses eu os informei que estaria dando início à minha transição em breve.
A medida que os meses foram passando eles me interrogaram e intimidaram a respeito da minha identidade de gênero, desconsideraram que estavam se referindo a mim pelo gênero errado, me forçaram a trocar de roupa em um vestiário improvisado e me disseram que educar seus funcionários a respeito de gênero era a mesma coisa que os obrigar a aprender sobre a religião muçulmana como pré-requisito para o trabalho.
Durante todo esse tempo eu ofereci educá-los e tentei trabalhar junto com eles. Eu falei para eles que o que estavam fazendo constitui discriminação e que, enquanto uma pessoa pode deixar sua orientação sexual e religião fora de questões de trabalho, eu não podia parar de ser mulher.
A pior parte é que esse era o mesmo hospital no qual eu estava me tratando. Como era para eu confiar na habilidade do hospital de cuidar de mim como paciente, quando eles nem conseguiam cuidar de mim como funcionária? Eles, que deixavam de me ajudar, alegando que não eram obrigados por lei a fazê-lo?
Eu fiz tudo que podia para trabalhar com eles enquanto eu estava lá, mas quando eles se recusaram a se comunicar comigo eu soube que eu não conseguiria ter nenhuma troca significativa e que não valia a pena me submeter a essa condição hostil. Mas eu não sou só um indivíduo, eu faço parte de uma comunidade, e essa força me deu a perseverança de continuar a lutar pela educação e pelo tratamento justo. Me deu a coragem de depor na câmara de deputados da Dakota do Norte e tentar suscitar mudanças. Infelizmente, o deputado Robin Weisz escolheu ignorar meu depoimento e trabalhou para negar direitos iguais às pessoas LGBT.
Mas, ao passar por tudo isso, eu aprendi quem eu sou e do que eu sou capaz. Que eu consigo enfrentar pessoas hostis e indiferentes e falar o que penso. Que, como uma líder trans, oferecendo educação e assistência para a minha comunidade, eu não tenho medo de lutar. E, mais importante de tudo, que eu nunca vou desistir de lutar para ser tratada como ser humano.
Trans voices: Avery Jackson
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Oi, meu nome é Avery e eu tenho sete anos. Eu gosto de subir em árvores, ser uma ninja, fingir que eu sou um animal e todo tipo de coisa assim. Eu gosto de fingir que sou personagens de jogos de vídeo game, gosto de brincar com meu irmão… e é isso. Essas são as coisas que eu gosto de fazer. Ah! E eu sou trans. Quando eu nasci, os médicos falaram que eu era menino. Mas no meu coração eu sabia que eu era menina. Então eu tenho algumas partes do corpo que são de menino, mas isso não é errado, isso é ok! Quando eu estava no jardim de infância eu podia brincar de me fantasiar, e isso me deixava muito feliz, porque eu podia usar vestidos e simplesmente ser feliz. Às vezes eu brinco que eu sou um animal ou um ninja ou uma princesa, mas não significa que meus pais devem me tratar como se eu fosse essas coisas. É só de faz de conta. Mesmo eu sendo uma menina eu fiquei com medo de contar para os meus pais porque achei que eles iam parar de me amar e me expulsar de casa e não me dar mais comida ou coisas assim. Mas chegou uma hora que precisei contar para os meus pais, eu não conseguia mais guardar isso dentro de mim, era muito difícil eu ser alguém que não era realmente e ter eles me tratando como menino quando eu na verdade era uma menina. Meus pais me levaram para ver alguns médicos, e os médicos falaram que eu ficaria bem, contanto que deixassem eu ser uma menina. Meu amigos aceitaram bem quando eu comecei a me vestir como menina na pré-escola, mas seus pais não. Eles achavam que era contagioso, tipo catapora trans ou coisa parecida. Decidi sair da pré-escola, porque era melhor poder ser eu mesma e perder todos os meus amigos que continuar fingindo ser alguém que eu não sou. Eu pude comprar roupas novas e deixar o meu cabelo crescer, e agora meus novos amigos me conhecem como a garota que sou em meu coração e no meu cérebro. Eu já fiz ginástica de solo, dança, arco e flecha, tae-kwan-do, escoteiras, e muito mais. Sou uma garota normal. E eu pintei o meu cabelo três vezes! Ainda têm pessoas que não entendem ou que têm medo por eu ser um pouco diferente, mas a gente quer consertar isso! Algumas pessoas falam que eu não uso o banheiro certo ou não vou para o lavabo certo, mas quem se importa com as partes do meu corpo! Eu não pergunto o que tá dentro das suas roupas de baixo! Ser trans é difícil, mas você pode ser quem você quer ser. Eu tenho orgulho de quem eu sou, porque sou trans e sou uma menina, sou uma menina normal, uma menina trans normal como qualquer outra.
Depoimento escrito por Tom, pai de Avery:
Meu nome é Tom. Eu sou um marido, um pai, e, acima de tudo, tento ser um ser humano decente. Só digo esta última coisa porque recentemente houveram muitas pessoas direcionando comentários odiosos e vis para minha família.
Aos quatro anos minha filha revelou o verdadeiro eu dela quando declarou, de forma clara e articulada, “Na verdade eu sou uma menina, por dentro eu sou uma menina”. Essa declaração mudou a minha vida para sempre e é algo que eu não mudaria por nada nesse mundo. Agora, olhando para trás, vejo que os sinais no ano que precederam sua declaração foram claros. Uma criança que antes era feliz e despreocupada começou a ficar raivosa, deprimida, a se rebelar. Uma vez que nossa filha encontrou as palavras para expressar quem ela realmente era em seu coração e em seu cérebro, começamos a buscar a ajuda de médicos.
Levamos ela para o pediatra, para um terapeuta de crianças e um terapeuta de gênero. Nossa criança foi diagnosticada com disforia de gênero e nos foi dito que permitir que ela transicionasse e vivesse como menina seria o “tratamento” correto. A essa altura eu e minha esposa tentamos absorver toda informação possível que encontramos a respeito de crianças trans. A informação era escassa, mas o pouco que encontramos era muito perturbador. Mais de 50% das crianças trans tentam cometer suicido na metade ou no final da adolescência. Uma grande quantidade delas consegue. E a principal razão que essas crianças dão para tentar se machucar é falta de amor e apoio por parte de suas famílias e amigos. Eu e minha esposa decidimos que preferimos ter uma filha feliz e saudável que um filho morto.
Desde que começou sua transição, vimos surgir uma menina confiante e corajosa.
Ano passado alguns de vocês foram apresentados para a minha esposa, que inadvertidamente se tornou uma feroz defensora dos direitos da juventude LGBT, graças ao discurso que deu falando do amor que temos pela nossa filha. Recentemente, nossa filha pediu para contar a sua história – nas suas próprias palavras, porque ela tem orgulho de quem ela é e quer ajudar outras crianças como ela a “mudar o mundo”.
Eu só conto a nossa história porque existem pessoas que são desinformadas a respeito do que significa ser trans ou que pensam que nós, como pais, estamos forçando nossa filha a isso. Posso assegurar vocês que não é o caso. A única coisa que eu transmito para minha filha é muito simples: ame a si mesma e dê amor aos outros. É exatamente isso que eu pretendo fazer. Eu amo a minha filha por quem ela é, sem condições prévias, e eu prometo ajudá-la a se tornar um membro feliz, saudável e produtivo da sociedade. Afinal, não é isso que pais devem fazer?
Lembram quando semana passada a Suprema Corte dos EUA decidiu que o casamento de pessoas do mesmo sexo é um direito constitucional no país? O resultado foi uma linda explosão arco-íris no Facebook, graças a um aplicativo desenvolvido pela rede social que aplicava um filtro com as cores da bandeira LGBT na foto de perfil?
Esta semana o movimento é pela visibilidade trans, que tem sua própria bandeira. Só nesse mês, oito pessoas trans foram assassinadas brutalmente, simplesmente por serem quem são. Infelizmente, o Brasil é o 1º lugar no ranking de assassinatos de pessoas trans. Faça parte do movimento! Vista a foto do seu perfil no Facebook de rosa e azul clicando neste link e mostre que é contra a transfobia!