Mulher trans e não-monogamia

Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez

Do fim do ano passado até o inicio desse ano eu estava em um relacionamento não-monogâmico. Eu não namoro mais com o rapaz que tão bem me fez (e que hoje em dia é um grande amigo). Desde janeiro encontro-me uma mulher trans solteira. E claro que, enquanto solteira, a minha visão sobre a não-monogamia se tornou um tanto quanto diferente. Acho que consegui perceber coisas novas e isso me fez questionar diversas coisas.

Recentemente eu andei vendo como seria a minha realidade se eu entrasse em um relacionamento, seja ele monogâmico ou não, e a única resposta que eu tenho é: não sei. Não sei pois existem várias problemáticas nessa situação toda, como o fato de eu ser uma mulher trans. Não é segredo pra ninguém que mulheres trans hetero têm um desafio enorme em se relacionar majoritariamente com homens cis hetero (nós também podemos nos envolver com homens trans heteros, mas a quantidade de pessoas cis sempre será maior do que a quantidade de pessoas trans). É um desafio, é uma dor de cabeça, é uma alfabetização de preconceitos. Dia após dia a gente tem que ficar explicando pra cada cara que a gente conhece que genitália não define gênero, que existem mulheres de pênis, e toda aquela questão que nós já estamos acostumadíssimas a ouvir desses homens.

No fim do meu relacionamento, eu decidi me aventurar pelo mundo dos aplicativos de relacionamento, e quem é meu amigo no facebook vê que eu geralmente posto alguma coisa ou outra falando sobre como os caras lá me tratam, e em sua maioria, são bem grosseiros ou invasivos. É um papo fetichizador, é um papo sexual constante, como se mulher trans só servisse pra isso, pra você falar sobre o que você quer chupar, onde você quer que põe o quê etc. E cansa. Cansa demais isso. Vez ou outra aparece um rapaz de bom senso que entende que mulher é mulher independente da genitália e que conversa com você normalmente, e são desses caras que até podem vir a surgir algo.

Suponhamos o seguinte: eu conheci um rapaz X nesse aplicativo e ele é homem cis hetero branco não-monogâmico. Eu fico com medo. Medo porque não há nada de revolucionário num homem cis hetero branco que pega todas. A sociedade toda já fala que ele pode sair e pegar todas que ele só vai estar cumprindo o papel social de homem. Ele vai ser no máximo “galinha”, um cara que não quer nada sério. E eu fico com medo mas não apenas por isso, mas também fico com medo pois esse é um dos vários pretextos pra poder se livrar de assumir compromisso com mulher trans (e eu digo isso por experiência própria). Os caras usam essa cartada de “então, eu sou não-monogâmico e acho que não vai rolar nada muito sério”. E eu sinceramente não vejo problema que não role nada sério. Existem coisas casuais, existem relações de apenas uma noite. Mas é consensual essa casualidade? Ou essa casualidade é uma cartada transfóbica pra não se relacionar com a mulher trans? São pontos para se pensar, e que muitas vezes eu prefiro achar que o cara só quer algo casual mesmo, e sim que ele não é transfóbico.

Existe também a seguinte problemática: mulher trans é moeda de troca. Eu já sou formada e pós graduada em ouvir homem cis hetero branco não-monogamico dizer que não curte nada sério, e um dia depois aparece com status de relacionamento “namorando”. Claro que isso implica no “ele pode ter uma relação mais firme com outra pessoa”, mas não é suspeito que isso aconteça constantemente com mulheres trans? Somos trocadas. Eu sou mestranda em ser trocada. E o cara não precisa nem ser não-monogâmico pra fazer isso, ele vai me trocar por uma menina cis pra não ter que passar por todos aqueles perrengues que a gente já sabe (também conhecido como SER VISTO COM UMA TRAVESTI).

E eu sei que tem muitas mulheres trans e travestis que conseguem se dar bem com a não-monogamia, e eu dou os parabéns pra vocês, por conseguirem ressignificar isso. Pra mim é muito difícil, mesmo.

Assim como existem essas problemáticas anteriores, existe também a problemática da demissexualidade (demissexual é uma vertente da assexualidade, onde as pessoas só conseguem se envolver com as outras através de laços afetivos, seja amizade, amor, carinho, entre outros). Eu dependo de laços pra me relacionar afetivamente. Eu não consigo me relacionar com qualquer cara e muito menos de uma hora pra outra. Eu falo, brinco, mas na hora eu não consigo, porque eu não tenho um laço, porque eu não confio o suficiente nele, porque eu não me sinto confortável o suficiente naquela situação.

No meu relacionamento anterior, o meu namorado ficava com outras pessoas e eu nunca senti necessidade de me relacionar com mais ninguém. Meu laço com ele era forte o bastante pra ele me satisfazer totalmente. Mas não significa que em relacionamentos futuros seja assim, não significa que todo homem com quem eu venha a me relacionar vai ter a cabeça e o bom senso que o meu ex-namorado tinha.

Acho que eu só entraria em uma relação não-monogâmica se tivéssemos algumas regras, o meu parceiro e eu, sendo a mais importante:
– Eu ser assumida publicamente. Eu não quero e não vou me envolver com um cara não-monogâmico que usa a relação que tem comigo como a poeira que ele empurra pra debaixo do tapete. E isso acontece constantemente. Não somos assumidas, não querem que os amigos, família, pessoal do trabalho, ninguém saiba que você tá se envolvendo com uma mulher trans (isso quando as coisas estão mais sérias).

Eu demorei 20 anos pra me externizar, pra ser a mulher que eu sou, e não é um cara que vai ficar me escondendo.
 
[separator type="thin"]

Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez

Mais de Ariel Nolasco

Assédio, mulheres trans e travestis

A primeira vez que eu fui assediada eu jamais vou me esquecer. Era aniversário da minha melhor amiga, eu tinha transicionado há 2 meses. Estávamos voltando da festa de aniversário dela e eu lembro nitidamente do caminhão que passou gritando “gostosa” em minha direção. Ali foi quando eu percebi que aquilo seria pra sempre, e que ficaria cada vez pior.

Com o passar do tempo, os assédios foram piorando. Um dia fui participar de um debate numa escola no centro da cidade e em um curto período de tempo eu tinha recebido mais de 4 cantadas, na rua e no metrô. Eu estava sozinha e aquilo foi me deixando cada vez mais assustada.

Algo relacionado aos assédios que eu percebi é que sempre que eu estou acompanhada de um homem, os assédios parecem desaparecer, como se ao estar na presença de um homem ele se torna “meu dono”, e eu uma propriedade dele. Diversas vezes saí com caras e o máximo que recebo são olhares que me seguem, mas não escuto absolutamente nada. E isso me incomoda. Me incomoda pelo fato de que minha segurança só está garantida se eu estou acompanhada de um homem, e tudo o que eu quero é andar na rua, tranquilamente, sem que eu fique ouvindo coisas de diversos tipos, ou que eu não tenha que passar por situações desagradáveis.

Em julho, fui com amigos pra um evento (o qual fui fantasiada de gata) e durante todo o trajeto até o evento eu ouvi miados vindo em minha direção. Uma das situações mais constrangedoras aconteceu no metrô, onde um grupo de 10 caras ficaram reunidos todos em volta de mim. Haviam outras portas, mas todos queriam ficar próximos onde eu estava, porque queriam ficar olhando para os meus peitos e minhas pernas. Resolvi então ficar mais próxima dos meus amigos, pois estava sentada de um lado e eles do outro. Quando fui para perto deles, um dos caras sentou onde eu estava, e decidiu que seria uma boa ideia tentar fotografar minhas pernas e fotografar embaixo do meu vestido. Só fiquei sabendo dessa situação quando já havia saído do metrô, quando meus amigos me contaram. Confesso que fiquei bem irritada, com muita vontade de tirar uma satisfação do porque diabos ele tirou uma foto minha, se ele havia conseguido, e o que ele iria fazer com aquela foto.

O que mais me deixa entristecida é que em nenhum caso de assédio eu posso responder. Enquanto mulher trans, as questões de assédio são bem diferentes, mesmo que sejam iguais. Quando um cara nos assedia na rua, ele nos assedia achando que somos mulheres cis, como se mulheres – independente de serem cis ou trans – pudessem ser assediadas, e quando eles notam ou percebem que não somos mulheres cisgêneras, que somos mulheres trans ou travestis, eles ficam irritados, porque “como diabos eu pude mexer com isso?”, como se a masculinidade deles fosse fragilizada ao assediarem uma mulher trans ou uma travesti.
Em alguns casos, quando respondemos, os rapazes que nos assediaram respondem “vixe, é homem” ou “sai pra lá, sou hetero”, e há diversas problemáticas nisso. Uma delas é que sim, somos mulheres. Um homem hetero que se envolve com mulheres trans ainda sim é hetero. Ele sentir atração por uma mulher trans não faz dele “menos hetero”, e é claro que ele não deve demonstrar esse interesse, essa atração, em forma de assédio, pois não merecemos ser assediadas, sejamos cis, trans ou travestis.

Em casos mais extremos, quando respondemos à assédios e cantadas, somos agredidas. Ali, diante daqueles homens que sentem repulsa de terem cantado uma mulher trans ou travesti, somos homens. Somos vistas como homens, e isso faz com que eles queiram descontar a raiva dele em nós. “São homens mesmo”, então podem apanhar, são homens batendo em “homens”, quando na verdade só estamos nos defendendo de assédios. Em muitos casos quando acontece a agressão física, não há quem nos ampare, não há quem nos defenda. Somos bichos, seres TRANSparentes, que se está apanhando é porque fez algo, porque merece.

Somos mulheres trans, somos travestis, e não merecemos ser assediadas. Merecemos respeito, merecemos que nosso gênero, nossa identidade de gênero, seja respeitada sempre.

Leia mais
Thais Cortez

" />