Hoje eu fui atacada. Estava no carro, em uma bifurcação – escolhi ir para a direita. No carro da frente, um homem envolto em um cobertor claramente transtornado pedia dinheiro na janela. Não lembro se ele de fato estava envolto em um cobertor, mas na minha lembrança ficou assim. Quando o carro da frente negou, o homem cruzou na frente do meu carro e bateu no vidro da minha janela de passageiro. O motorzinho da janela de passageiro do meu carro está quebrado e faz anos que ela não abre. O homem sinalizou que queria dinheiro. Eu sinalizei que não tinha nada (eu tinha vinte reais na carteira). O homem estava com aquele olhar translúcido de quem já está há muito tempo na rua e sofrendo de abstinência, abstinência de comida, droga, carinho, humanidade. O semáforo abriu. O carro da frente andou, eu andei, o carro da frente parou bruscamente, eu parei, apenas alguns centímetros de onde eu estava antes. O homem do lado de fora da minha janela de passageiro deu uma paulada no vidro. Ela rachou. O homem deu uma segunda paulada no vidro. O vidro se soltou da porta do carro e foi lançado para cima do banco de passageiro, enquanto o homem tentava entrar no carro pela janela. Eu joguei meu carro para pista da esquerda, atravessei todas as pistas e entrei na rua esquerda da bifurcação. O homem ficou dependurado da minha janela por um segundo, e então caiu para fora com o impulso do carro. Não olhei para trás, apenas arranquei, meu pensamento ressoando “Graças a deus ele não tinha uma arma, graças a deus ele não tinha uma arma”.
—
Umas duas semanas antes, eu estava na fila do teatro da Maria Antônia com meu namorado esperando uma peça começar. Precisei ir ao banheiro. O banheiro feminino do Maria Antônia é um tanto antigo. Os cubículos tem portas que chegam até o chão, com maçanetas que parecem de porta de casa. A menina que usava o cubículo que eu escolhi usar havia esquecido de trancar a porta: eu tentei entrar, vislumbrei duas pernas brancas e o topo de uma cabeça de cabelos pretos e BUM, fechou a porta na minha cara. Eu me apressei para escolher outro cubículo antes que a menina saísse e visse o meu rosto.
Quando eu voltei para a fila comentei o ocorrido com meu namorado. “É a segunda vez que isso me acontece esse mês, acredita?” falei. “Eu realmente queria que as pessoas prestassem mais atenção se elas trancam ou não a porta do banheiro, porque eu realmente não queria ficar invadindo a privacidade delas desse jeito. Sem contar que é super violento isso de ter uma pessoa bater a porta na sua cara.” Fiz uma pausa. “E é engraçado, pra essa menina do banheiro quem cometeu a violência fui eu, não ela. Ela deve ter saído do banheiro, e agora está em algum lugar dessa fila, contando para a pessoa que está com ela que alguém tentou entrar no banheiro enquanto ela estava lá. Aposto que ela está pensando ‘Em algum lugar dessa fila está uma menina que cometeu uma violência contra mim’.” Parei por um momento e tentei adivinhar qual daquelas meninas seria a menina que eu por um breve instante vi urinando.
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Cruzei o centro da cidade rezando para que ninguém me abordasse com a janela estourada. Tirei meus vinte reais da carteira e deixei em baixo da minha coxa para o dinheiro estar em fácil alcance caso alguém chegasse perto de mim.
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Em 2012 eu estava no meu carro com um antigo namorado. Estávamos indo votar quando um motoqueiro bateu um revólver no vidro pedindo nosso dinheiro e celular. Lembro que no primeiro instante não entendi o que estava acontecendo. Eram dois homens em uma moto, e o homem da garupa usava uma camiseta amarela, seu ventre inchado, parecendo que ele tinha peitos. “Estou sendo assaltada por uma mulher de meia idade?” pensei, antes de entender: eram objetos roubados que ele havia enfiado dentro da camiseta. Existe uma lei que diz que em época de eleição pessoas só podem ser presas se pegas em flagrante. Estatisticamente, os dias em torno das eleições são os dias nos quais ocorre o maior número de assassinatos do ano (em ano de eleição). Eu fiquei nervosa (nunca havia sido assaltada) e entreguei minha carteira. “Não, só o dinheiro” falou o homem da moto. Eu abri minha carteira para mostrar que não tinha nada e passei meu celular, um troço dobrável que tinha rádio fm e mandava SMS, mas não fazia muito além disso. O cara da moto devia ter um melhor. Eles abriram a porta do banco de trás do meu carro, onde eu havia jogado alguns livros que trouxera do trabalho. “O que é isso?” ele perguntou. “Cadernos” respondi, completamente transtornada. Os livros eram edições especiais que valiam R$200, quase o triplo do preço do meu celular. Os homens foram embora. Nós seguimos, chegamos no colégio eleitoral e votamos. No colégio eleitoral os policiais nos informaram que já haviam recebido queixas sobre esses homens e que a arma devia ser verdadeira já que era pesada. Cheguei em casa me perguntando em quem aquelas pessoas teriam votado para fazer de São Paulo um lugar melhor.
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Cheguei na casa da minha vó para deixar o carro, agora sem janela, na garagem dela. Liguei para o meu namorado e contei o que aconteceu. “Se eu tivesse sido mais educada” solucei “isso não teria acontecido. Talvez se eu tivesse falado claramente que não ia dar nada e tivesse esperado ele ir para o próximo carro antes de sair isso não teria acontecido”. Meu namorado me assegurou de que eu era uma vítima do acontecimento e que não havia nada que eu pudesse ter feito. Pensei no meu carro, cuja janela eu teria que substituir pela segunda vez (a primeira vez foi perdida em um furto onde roubaram uma mochila e potes de doce de leite que estavam guardados no banco de trás). Pensei na casa da minha vó, onde agora iria poder me abrigar, nos meus pais, que estavam vindo me encontrar. No meu vidro quebrado e na mão do homem que me atacou. Onde será que ele está agora, enquanto eu choro na garagem da minha avó dando graças a deus que ele não tinha um revólver? Me senti nojenta e não me senti uma vítima.
—
Depois de encontrar os meus pais, fomos almoçar. Eu ainda estava muito inquieta, me sentindo enjoada. Um pensamento acendeu por um segundo na minha cabeça. “Isso tinha que mudar minha vida?” Largar meu emprego, pensar no que eu realmente queria fazer, ir morar na praia. Na minha visão periférica do olho direito sentia algo sólido, na mesma altura onde o homem socava o vidro. Estava conversando com meus pais sobre mestrado, pedindo a opinião deles sobre as áreas nas quais penso em prestar. Meu pai me contava de um livro de um matemático russo que ele leu, no qual o matemático falava sobre probabilidade. “Ele fala que no fim, o que todas as pessoas de sucesso, independente de qual área, têm em comum, é a perseverança. Não existe sorte, existe acaso. Quanto mais tempo você se expõe a uma situação, mais existe a chance de o acaso te apresentar com uma oportunidade. O importante é o tempo de exposição.” Lembrei de uma piada que eu fazia no colegial, quando estávamos estudando probabilidade. “Qual a probabilidade de um dado de seis lados cair no número doze?” “Cinquenta por cento. Ou cai, ou não cai.” Qual a probabilidade de se nascer rico e ter todas as oportunidades do mundo? Nascer pobre e não ter nenhuma? Cair nas drogas, pegar a bifurcação errada, dar a carteira inteira ao invés de só o dinheiro, não desviar quando um carro invade a sua pista na contramão durante a chuva?
Cinquenta por centro. Ou nasce, ou não nasce.
—
Quando meus pais chegaram para me buscar na casa da minha avó, meu pai me perguntou. “Será que você não se expõe demais?” Me explicou que, na minha condição de ter nascido moça, eu era sempre alvo de violência. Que eu fazia escolhas: sair de casa, sair sozinha, estar na zona leste (onde ocorreu o ataque). Que se eu optasse por não ir na zona leste sozinha talvez essas coisas não acontecessem, que eu deveria me expor menos. Quis responder que existir em São Paulo era a única exposição da qual eu precisava para me expor a violência, mas estava muito cansada e triste e em vez disso não falei nada.
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Depois do almoço meus pais me deixaram em casa. Ainda inquieta, sentei no sofá. Me perguntei quanto tempo eu poderia me permitir ficar inquieta com essa situação antes de entrar no campo da vitimização. Em seguida me perguntei se, caso eu parasse rápido demais de me sentir inquieta, isso iria significar que eu estou tão alienada pela televisão e vida moderna que não consigo dar importância nem para situações onde eu poderia ter me machucado de forma extrema. Me perguntei, por último, onde estaria o homem que quebrou minha janela, nesse exato momento. Será que ele se machucou quando eu arranquei com o carro? Os carros atrás de mim fizeram como, deram a volta em torno dele para ultrapassar o semáforo antes que ele conseguisse agredir eles também? Será que ele ficou sozinho parado no meio da avenida? Será que ele lembra do que aconteceu, será que ele está pensando em mim, me odiando?
Onde será que estão dos dois homens que apontaram um revolver na minha cara em 2012 e pediram o meu celular? Será que o homem da camiseta amarela ainda pensa em mim, a menina do carro vermelho que não tinha dinheiro na carteira e só tinha um celular de merda?
Onde está a pessoa, que eu nunca cheguei a ver, mas sempre imagino como dois meninos adolescentes, que roubou a minha mochila e o doce de leite do meu carro? Será que comeram o doce de leite em casa? Quem será que veste agora aquelas roupas que estavam na mochila? Tinha uma câmera fotográfica analógica com fotos da viagem da qual eu acabara de voltar. Será que chegaram a revelar o filme, não os assaltantes, mas talvez alguém que encontrou a máquina em um terreno baldio e agora olha para aquelas fotos de uma represa no interior de São Paulo e se pergunta quem teria tirado aquela foto?
Passei o dia com caquinhos de vidro pinicando a minha pele. Tentei tirar eles da minha calça com os dedos mas não consegui pegar tudo.
—
Esse não é um texto com uma conclusão. Não sei o que falar agora, e não sei o que pensar. O homem era vítima de um sistema que me beneficia, eu era vítima de um sistema que me beneficia, somos todos vítimas, vítimas, vítimas. Não existia nada que eu pudesse ter feito de diferente, existia tudo que eu pudesse ter feito de diferente, honestamente não faço ideia.
Quais as chances de que a gente cruze os nossos caminhos novamente? Um dia eu estarei andando na rua não vendo a pessoa que está dormindo embaixo do viaduto. Um dia escolho de novo a bifurcação errada. Um dia sento na minha casa não me expondo e alguém pula o muro.
Se eu me expor a tudo tempo o suficiente, cinquenta por cento de chance. Não existe acaso. Só existe perseverança.
Hoje eu fui atacada. Estava no carro, em uma bifurcação – escolhi ir para a direita. No carro da frente, um homem envolto em um cobertor claramente transtornado pedia dinheiro na janela. Não lembro se ele de fato estava envolto em um cobertor, mas na minha lembrança ficou assim. Quando o carro da frente negou, o homem cruzou na frente do meu carro e bateu no vidro da minha janela de passageiro. O motorzinho da janela de passageiro do meu carro está quebrado e faz anos que ela não abre. O homem sinalizou que queria dinheiro. Eu sinalizei que não tinha nada (eu tinha vinte reais na carteira). O homem estava com aquele olhar translúcido de quem já está há muito tempo na rua e sofrendo de abstinência, abstinência de comida, droga, carinho, humanidade. O semáforo abriu. O carro da frente andou, eu andei, o carro da frente parou bruscamente, eu parei, apenas alguns centímetros de onde eu estava antes. O homem do lado de fora da minha janela de passageiro deu uma paulada no vidro. Ela rachou. O homem deu uma segunda paulada no vidro. O vidro se soltou da porta do carro e foi lançado para cima do banco de passageiro, enquanto o homem tentava entrar no carro pela janela. Eu joguei meu carro para pista da esquerda, atravessei todas as pistas e entrei na rua esquerda da bifurcação. O homem ficou dependurado da minha janela por um segundo, e então caiu para fora com o impulso do carro. Não olhei para trás, apenas arranquei, meu pensamento ressoando “Graças a deus ele não tinha uma arma, graças a deus ele não tinha uma arma”.
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Umas duas semanas antes, eu estava na fila do teatro da Maria Antônia com meu namorado esperando uma peça começar. Precisei ir ao banheiro. O banheiro feminino do Maria Antônia é um tanto antigo. Os cubículos tem portas que chegam até o chão, com maçanetas que parecem de porta de casa. A menina que usava o cubículo que eu escolhi usar havia esquecido de trancar a porta: eu tentei entrar, vislumbrei duas pernas brancas e o topo de uma cabeça de cabelos pretos e BUM, fechou a porta na minha cara. Eu me apressei para escolher outro cubículo antes que a menina saísse e visse o meu rosto.
Quando eu voltei para a fila comentei o ocorrido com meu namorado. “É a segunda vez que isso me acontece esse mês, acredita?” falei. “Eu realmente queria que as pessoas prestassem mais atenção se elas trancam ou não a porta do banheiro, porque eu realmente não queria ficar invadindo a privacidade delas desse jeito. Sem contar que é super violento isso de ter uma pessoa bater a porta na sua cara.” Fiz uma pausa. “E é engraçado, pra essa menina do banheiro quem cometeu a violência fui eu, não ela. Ela deve ter saído do banheiro, e agora está em algum lugar dessa fila, contando para a pessoa que está com ela que alguém tentou entrar no banheiro enquanto ela estava lá. Aposto que ela está pensando ‘Em algum lugar dessa fila está uma menina que cometeu uma violência contra mim’.” Parei por um momento e tentei adivinhar qual daquelas meninas seria a menina que eu por um breve instante vi urinando.
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Cruzei o centro da cidade rezando para que ninguém me abordasse com a janela estourada. Tirei meus vinte reais da carteira e deixei em baixo da minha coxa para o dinheiro estar em fácil alcance caso alguém chegasse perto de mim.
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Em 2012 eu estava no meu carro com um antigo namorado. Estávamos indo votar quando um motoqueiro bateu um revólver no vidro pedindo nosso dinheiro e celular. Lembro que no primeiro instante não entendi o que estava acontecendo. Eram dois homens em uma moto, e o homem da garupa usava uma camiseta amarela, seu ventre inchado, parecendo que ele tinha peitos. “Estou sendo assaltada por uma mulher de meia idade?” pensei, antes de entender: eram objetos roubados que ele havia enfiado dentro da camiseta. Existe uma lei que diz que em época de eleição pessoas só podem ser presas se pegas em flagrante. Estatisticamente, os dias em torno das eleições são os dias nos quais ocorre o maior número de assassinatos do ano (em ano de eleição). Eu fiquei nervosa (nunca havia sido assaltada) e entreguei minha carteira. “Não, só o dinheiro” falou o homem da moto. Eu abri minha carteira para mostrar que não tinha nada e passei meu celular, um troço dobrável que tinha rádio fm e mandava SMS, mas não fazia muito além disso. O cara da moto devia ter um melhor. Eles abriram a porta do banco de trás do meu carro, onde eu havia jogado alguns livros que trouxera do trabalho. “O que é isso?” ele perguntou. “Cadernos” respondi, completamente transtornada. Os livros eram edições especiais que valiam R$200, quase o triplo do preço do meu celular. Os homens foram embora. Nós seguimos, chegamos no colégio eleitoral e votamos. No colégio eleitoral os policiais nos informaram que já haviam recebido queixas sobre esses homens e que a arma devia ser verdadeira já que era pesada. Cheguei em casa me perguntando em quem aquelas pessoas teriam votado para fazer de São Paulo um lugar melhor.
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Cheguei na casa da minha vó para deixar o carro, agora sem janela, na garagem dela. Liguei para o meu namorado e contei o que aconteceu. “Se eu tivesse sido mais educada” solucei “isso não teria acontecido. Talvez se eu tivesse falado claramente que não ia dar nada e tivesse esperado ele ir para o próximo carro antes de sair isso não teria acontecido”. Meu namorado me assegurou de que eu era uma vítima do acontecimento e que não havia nada que eu pudesse ter feito. Pensei no meu carro, cuja janela eu teria que substituir pela segunda vez (a primeira vez foi perdida em um furto onde roubaram uma mochila e potes de doce de leite que estavam guardados no banco de trás). Pensei na casa da minha vó, onde agora iria poder me abrigar, nos meus pais, que estavam vindo me encontrar. No meu vidro quebrado e na mão do homem que me atacou. Onde será que ele está agora, enquanto eu choro na garagem da minha avó dando graças a deus que ele não tinha um revólver? Me senti nojenta e não me senti uma vítima.
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Depois de encontrar os meus pais, fomos almoçar. Eu ainda estava muito inquieta, me sentindo enjoada. Um pensamento acendeu por um segundo na minha cabeça. “Isso tinha que mudar minha vida?” Largar meu emprego, pensar no que eu realmente queria fazer, ir morar na praia. Na minha visão periférica do olho direito sentia algo sólido, na mesma altura onde o homem socava o vidro. Estava conversando com meus pais sobre mestrado, pedindo a opinião deles sobre as áreas nas quais penso em prestar. Meu pai me contava de um livro de um matemático russo que ele leu, no qual o matemático falava sobre probabilidade. “Ele fala que no fim, o que todas as pessoas de sucesso, independente de qual área, têm em comum, é a perseverança. Não existe sorte, existe acaso. Quanto mais tempo você se expõe a uma situação, mais existe a chance de o acaso te apresentar com uma oportunidade. O importante é o tempo de exposição.” Lembrei de uma piada que eu fazia no colegial, quando estávamos estudando probabilidade. “Qual a probabilidade de um dado de seis lados cair no número doze?” “Cinquenta por cento. Ou cai, ou não cai.” Qual a probabilidade de se nascer rico e ter todas as oportunidades do mundo? Nascer pobre e não ter nenhuma? Cair nas drogas, pegar a bifurcação errada, dar a carteira inteira ao invés de só o dinheiro, não desviar quando um carro invade a sua pista na contramão durante a chuva?
Cinquenta por centro. Ou nasce, ou não nasce.
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Quando meus pais chegaram para me buscar na casa da minha avó, meu pai me perguntou. “Será que você não se expõe demais?” Me explicou que, na minha condição de ter nascido moça, eu era sempre alvo de violência. Que eu fazia escolhas: sair de casa, sair sozinha, estar na zona leste (onde ocorreu o ataque). Que se eu optasse por não ir na zona leste sozinha talvez essas coisas não acontecessem, que eu deveria me expor menos. Quis responder que existir em São Paulo era a única exposição da qual eu precisava para me expor a violência, mas estava muito cansada e triste e em vez disso não falei nada.
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Depois do almoço meus pais me deixaram em casa. Ainda inquieta, sentei no sofá. Me perguntei quanto tempo eu poderia me permitir ficar inquieta com essa situação antes de entrar no campo da vitimização. Em seguida me perguntei se, caso eu parasse rápido demais de me sentir inquieta, isso iria significar que eu estou tão alienada pela televisão e vida moderna que não consigo dar importância nem para situações onde eu poderia ter me machucado de forma extrema. Me perguntei, por último, onde estaria o homem que quebrou minha janela, nesse exato momento. Será que ele se machucou quando eu arranquei com o carro? Os carros atrás de mim fizeram como, deram a volta em torno dele para ultrapassar o semáforo antes que ele conseguisse agredir eles também? Será que ele ficou sozinho parado no meio da avenida? Será que ele lembra do que aconteceu, será que ele está pensando em mim, me odiando?
Onde será que estão dos dois homens que apontaram um revolver na minha cara em 2012 e pediram o meu celular? Será que o homem da camiseta amarela ainda pensa em mim, a menina do carro vermelho que não tinha dinheiro na carteira e só tinha um celular de merda?
Onde está a pessoa, que eu nunca cheguei a ver, mas sempre imagino como dois meninos adolescentes, que roubou a minha mochila e o doce de leite do meu carro? Será que comeram o doce de leite em casa? Quem será que veste agora aquelas roupas que estavam na mochila? Tinha uma câmera fotográfica analógica com fotos da viagem da qual eu acabara de voltar. Será que chegaram a revelar o filme, não os assaltantes, mas talvez alguém que encontrou a máquina em um terreno baldio e agora olha para aquelas fotos de uma represa no interior de São Paulo e se pergunta quem teria tirado aquela foto?
Passei o dia com caquinhos de vidro pinicando a minha pele. Tentei tirar eles da minha calça com os dedos mas não consegui pegar tudo.
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Esse não é um texto com uma conclusão. Não sei o que falar agora, e não sei o que pensar. O homem era vítima de um sistema que me beneficia, eu era vítima de um sistema que me beneficia, somos todos vítimas, vítimas, vítimas. Não existia nada que eu pudesse ter feito de diferente, existia tudo que eu pudesse ter feito de diferente, honestamente não faço ideia.
Quais as chances de que a gente cruze os nossos caminhos novamente? Um dia eu estarei andando na rua não vendo a pessoa que está dormindo embaixo do viaduto. Um dia escolho de novo a bifurcação errada. Um dia sento na minha casa não me expondo e alguém pula o muro.
Se eu me expor a tudo tempo o suficiente, cinquenta por cento de chance. Não existe acaso. Só existe perseverança.
Ilustração feita com exclusividade por Ana Matsusaki (Nã)
Hoje eu fui atacada. Estava no carro, em uma bifurcação – escolhi ir para a direita. No carro da frente, um homem envolto em um cobertor claramente transtornado pedia dinheiro na janela. Não lembro se ele de fato estava envolto em um cobertor, mas na minha lembrança ficou assim. Quando o carro da frente negou, o homem cruzou na frente do meu carro e bateu no vidro da minha janela de passageiro. O motorzinho da janela de passageiro do meu carro está quebrado e faz anos que ela não abre. O homem sinalizou que queria dinheiro. Eu sinalizei que não tinha nada (eu tinha vinte reais na carteira). O homem estava com aquele olhar translúcido de quem já está há muito tempo na rua e sofrendo de abstinência, abstinência de comida, droga, carinho, humanidade. O semáforo abriu. O carro da frente andou, eu andei, o carro da frente parou bruscamente, eu parei, apenas alguns centímetros de onde eu estava antes. O homem do lado de fora da minha janela de passageiro deu uma paulada no vidro. Ela rachou. O homem deu uma segunda paulada no vidro. O vidro se soltou da porta do carro e foi lançado para cima do banco de passageiro, enquanto o homem tentava entrar no carro pela janela. Eu joguei meu carro para pista da esquerda, atravessei todas as pistas e entrei na rua esquerda da bifurcação. O homem ficou dependurado da minha janela por um segundo, e então caiu para fora com o impulso do carro. Não olhei para trás, apenas arranquei, meu pensamento ressoando “Graças a deus ele não tinha uma arma, graças a deus ele não tinha uma arma”.
—
Umas duas semanas antes, eu estava na fila do teatro da Maria Antônia com meu namorado esperando uma peça começar. Precisei ir ao banheiro. O banheiro feminino do Maria Antônia é um tanto antigo. Os cubículos tem portas que chegam até o chão, com maçanetas que parecem de porta de casa. A menina que usava o cubículo que eu escolhi usar havia esquecido de trancar a porta: eu tentei entrar, vislumbrei duas pernas brancas e o topo de uma cabeça de cabelos pretos e BUM, fechou a porta na minha cara. Eu me apressei para escolher outro cubículo antes que a menina saísse e visse o meu rosto.
Quando eu voltei para a fila comentei o ocorrido com meu namorado. “É a segunda vez que isso me acontece esse mês, acredita?” falei. “Eu realmente queria que as pessoas prestassem mais atenção se elas trancam ou não a porta do banheiro, porque eu realmente não queria ficar invadindo a privacidade delas desse jeito. Sem contar que é super violento isso de ter uma pessoa bater a porta na sua cara.” Fiz uma pausa. “E é engraçado, pra essa menina do banheiro quem cometeu a violência fui eu, não ela. Ela deve ter saído do banheiro, e agora está em algum lugar dessa fila, contando para a pessoa que está com ela que alguém tentou entrar no banheiro enquanto ela estava lá. Aposto que ela está pensando ‘Em algum lugar dessa fila está uma menina que cometeu uma violência contra mim’.” Parei por um momento e tentei adivinhar qual daquelas meninas seria a menina que eu por um breve instante vi urinando.
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Cruzei o centro da cidade rezando para que ninguém me abordasse com a janela estourada. Tirei meus vinte reais da carteira e deixei em baixo da minha coxa para o dinheiro estar em fácil alcance caso alguém chegasse perto de mim.
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Em 2012 eu estava no meu carro com um antigo namorado. Estávamos indo votar quando um motoqueiro bateu um revólver no vidro pedindo nosso dinheiro e celular. Lembro que no primeiro instante não entendi o que estava acontecendo. Eram dois homens em uma moto, e o homem da garupa usava uma camiseta amarela, seu ventre inchado, parecendo que ele tinha peitos. “Estou sendo assaltada por uma mulher de meia idade?” pensei, antes de entender: eram objetos roubados que ele havia enfiado dentro da camiseta. Existe uma lei que diz que em época de eleição pessoas só podem ser presas se pegas em flagrante. Estatisticamente, os dias em torno das eleições são os dias nos quais ocorre o maior número de assassinatos do ano (em ano de eleição). Eu fiquei nervosa (nunca havia sido assaltada) e entreguei minha carteira. “Não, só o dinheiro” falou o homem da moto. Eu abri minha carteira para mostrar que não tinha nada e passei meu celular, um troço dobrável que tinha rádio fm e mandava SMS, mas não fazia muito além disso. O cara da moto devia ter um melhor. Eles abriram a porta do banco de trás do meu carro, onde eu havia jogado alguns livros que trouxera do trabalho. “O que é isso?” ele perguntou. “Cadernos” respondi, completamente transtornada. Os livros eram edições especiais que valiam R$200, quase o triplo do preço do meu celular. Os homens foram embora. Nós seguimos, chegamos no colégio eleitoral e votamos. No colégio eleitoral os policiais nos informaram que já haviam recebido queixas sobre esses homens e que a arma devia ser verdadeira já que era pesada. Cheguei em casa me perguntando em quem aquelas pessoas teriam votado para fazer de São Paulo um lugar melhor.
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Cheguei na casa da minha vó para deixar o carro, agora sem janela, na garagem dela. Liguei para o meu namorado e contei o que aconteceu. “Se eu tivesse sido mais educada” solucei “isso não teria acontecido. Talvez se eu tivesse falado claramente que não ia dar nada e tivesse esperado ele ir para o próximo carro antes de sair isso não teria acontecido”. Meu namorado me assegurou de que eu era uma vítima do acontecimento e que não havia nada que eu pudesse ter feito. Pensei no meu carro, cuja janela eu teria que substituir pela segunda vez (a primeira vez foi perdida em um furto onde roubaram uma mochila e potes de doce de leite que estavam guardados no banco de trás). Pensei na casa da minha vó, onde agora iria poder me abrigar, nos meus pais, que estavam vindo me encontrar. No meu vidro quebrado e na mão do homem que me atacou. Onde será que ele está agora, enquanto eu choro na garagem da minha avó dando graças a deus que ele não tinha um revólver? Me senti nojenta e não me senti uma vítima.
—
Depois de encontrar os meus pais, fomos almoçar. Eu ainda estava muito inquieta, me sentindo enjoada. Um pensamento acendeu por um segundo na minha cabeça. “Isso tinha que mudar minha vida?” Largar meu emprego, pensar no que eu realmente queria fazer, ir morar na praia. Na minha visão periférica do olho direito sentia algo sólido, na mesma altura onde o homem socava o vidro. Estava conversando com meus pais sobre mestrado, pedindo a opinião deles sobre as áreas nas quais penso em prestar. Meu pai me contava de um livro de um matemático russo que ele leu, no qual o matemático falava sobre probabilidade. “Ele fala que no fim, o que todas as pessoas de sucesso, independente de qual área, têm em comum, é a perseverança. Não existe sorte, existe acaso. Quanto mais tempo você se expõe a uma situação, mais existe a chance de o acaso te apresentar com uma oportunidade. O importante é o tempo de exposição.” Lembrei de uma piada que eu fazia no colegial, quando estávamos estudando probabilidade. “Qual a probabilidade de um dado de seis lados cair no número doze?” “Cinquenta por cento. Ou cai, ou não cai.” Qual a probabilidade de se nascer rico e ter todas as oportunidades do mundo? Nascer pobre e não ter nenhuma? Cair nas drogas, pegar a bifurcação errada, dar a carteira inteira ao invés de só o dinheiro, não desviar quando um carro invade a sua pista na contramão durante a chuva?
Cinquenta por centro. Ou nasce, ou não nasce.
—
Quando meus pais chegaram para me buscar na casa da minha avó, meu pai me perguntou. “Será que você não se expõe demais?” Me explicou que, na minha condição de ter nascido moça, eu era sempre alvo de violência. Que eu fazia escolhas: sair de casa, sair sozinha, estar na zona leste (onde ocorreu o ataque). Que se eu optasse por não ir na zona leste sozinha talvez essas coisas não acontecessem, que eu deveria me expor menos. Quis responder que existir em São Paulo era a única exposição da qual eu precisava para me expor a violência, mas estava muito cansada e triste e em vez disso não falei nada.
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Depois do almoço meus pais me deixaram em casa. Ainda inquieta, sentei no sofá. Me perguntei quanto tempo eu poderia me permitir ficar inquieta com essa situação antes de entrar no campo da vitimização. Em seguida me perguntei se, caso eu parasse rápido demais de me sentir inquieta, isso iria significar que eu estou tão alienada pela televisão e vida moderna que não consigo dar importância nem para situações onde eu poderia ter me machucado de forma extrema. Me perguntei, por último, onde estaria o homem que quebrou minha janela, nesse exato momento. Será que ele se machucou quando eu arranquei com o carro? Os carros atrás de mim fizeram como, deram a volta em torno dele para ultrapassar o semáforo antes que ele conseguisse agredir eles também? Será que ele ficou sozinho parado no meio da avenida? Será que ele lembra do que aconteceu, será que ele está pensando em mim, me odiando?
Onde será que estão dos dois homens que apontaram um revolver na minha cara em 2012 e pediram o meu celular? Será que o homem da camiseta amarela ainda pensa em mim, a menina do carro vermelho que não tinha dinheiro na carteira e só tinha um celular de merda?
Onde está a pessoa, que eu nunca cheguei a ver, mas sempre imagino como dois meninos adolescentes, que roubou a minha mochila e o doce de leite do meu carro? Será que comeram o doce de leite em casa? Quem será que veste agora aquelas roupas que estavam na mochila? Tinha uma câmera fotográfica analógica com fotos da viagem da qual eu acabara de voltar. Será que chegaram a revelar o filme, não os assaltantes, mas talvez alguém que encontrou a máquina em um terreno baldio e agora olha para aquelas fotos de uma represa no interior de São Paulo e se pergunta quem teria tirado aquela foto?
Passei o dia com caquinhos de vidro pinicando a minha pele. Tentei tirar eles da minha calça com os dedos mas não consegui pegar tudo.
—
Esse não é um texto com uma conclusão. Não sei o que falar agora, e não sei o que pensar. O homem era vítima de um sistema que me beneficia, eu era vítima de um sistema que me beneficia, somos todos vítimas, vítimas, vítimas. Não existia nada que eu pudesse ter feito de diferente, existia tudo que eu pudesse ter feito de diferente, honestamente não faço ideia.
Quais as chances de que a gente cruze os nossos caminhos novamente? Um dia eu estarei andando na rua não vendo a pessoa que está dormindo embaixo do viaduto. Um dia escolho de novo a bifurcação errada. Um dia sento na minha casa não me expondo e alguém pula o muro.
Se eu me expor a tudo tempo o suficiente, cinquenta por cento de chance. Não existe acaso. Só existe perseverança.
Imagine esta cena: você está andando na rua quando um estranho passa, estica a perna e faz você tropeçar. O que você está fazendo, você pergunta. Não é certo fazer as pessoas tropeçarem no meio da rua. Nossa, responde o estranho, percebo que as minhas ações fizeram parecer que sou uma pessoa que tropeça os outros na rua, mas prometo que essa nunca foi minha intenção. Eu sinto muito. Vou refletir a respeito disso, diz o estranho. E então ele vira e vai embora, deixando você estatelada no meio da rua.
Imagine esta cena: uma atriz brasileira extremamente conhecida escreve um texto a respeito de feminismo. Nesse texto, ela põe que a mulher só estará verdadeiramente livre do machismo quando ela mesma chegar ao glorioso nível conhecido como “ser homem”. Além dessa asneira grotesca, ela ainda por cima descreve sua babá negra como uma “mulata mineira que causava furor por onde passasse”, sendo ‘elevada’ pelos homens “uivando, ganindo, gemendo nas obras”. Alguns dias depois a atriz brasileira extremamente conhecida publica um “Mea culpa”, assumindo, mas não explicando, o racismo e machismo de seu texto. Meses antes desse acontecimento, uma campanha de homens assumindo a culpa do machismo deles intitulada “Mea culpa” ganhou espaço na mídia e nas redes sociais.
Imagine esta cena: uma produtora que trabalha para um museu de grande relevância cultural em São Paulo tem seu corpo violado por parte de um dos integrantes do coletivo de fotografia que irá expor no dito museu. Enquanto ela pousava para uma foto, o agressor se sentiu no direito de passar a mão no peito dela. Depois da agressão, o coletivo, o museu e a produtora se reúnem para deliberar a respeito do ocorrido, e chegam ao acordo de que o agressor não poderá atender à abertura da exposição, mas, honrando seu nome de agressor, ele aparece mesmo assim. O coletivo então (só então) publica uma carta aberta onde dizem rechaçar “qualquer atitude preconceituosa, racista, homofóbica e machista”. Não se pronunciam a respeito de terem escolhido manter o fotógrafo no coletivo.
Esse texto não tem como objetivo criticar ainda mais o texto que a Fernanda Torres publicou no espaço #AgoraÉQueSãoElas ou o acontecido com o coletivo de fotografia SelvaSP na ocasião de sua exposição no MIS, ou falar sobre os inúmeros casos públicos de machismo no nosso dia a dia. Alguém percebeu uma semelhança entre os três exemplos acima? Em todos eles, vemos uma situação onde o agressor poderia ter ajudado a vítima, mas escolhe em vez disso “assumir a culpa” e seguir em frente, feliz e satisfeito com o fato de que deixou claro para tudo e todos que rechaça atitudes machistas, racistas e homofóbicas (insira aqui os seus aplausos). A diferença? O primeiro exemplo é inventado, os outros podem ser encontrados facinho facinho a um clique de distância. São só dois exemplos, mas eu poderia ter enchido a tela.
Tenho ficado um pouco preocupada ultimamente. Quando li a respeito do ocorrido entre o coletivo SelvaSP e a produtora do MIS, corri para a página deles para ver se eles tinham se pronunciado. Haviam sim, mas honestamente? Grandes bostas. Somos contra o machismo e homofobia? Que ótimo queridos, fico muito grata. Agora, vocês estão conscientemente escolhendo manter o seu nome afiliado a um fotógrafo acusado de assédio sexual. Vocês têm todo o direito de fazer essa escolha, mas se vocês de fato estão comprometidos a refletir, como dizem em sua carta aberta, convêm explicar o raciocínio por trás dessa escolha. A mesma coisa vale para a carta da Fernanda Torres. Fico muitíssimo feliz que ela se prontificou em colocar o quanto lhe foi elucidado que ela de fato estava sendo machista e racista. Porém. Porém. Não convêm agora usar o amplo espaço de fala dela, não para explicar que ela nunca teve a intenção de ser machista, mas sim para explicar o porquê de sua fala ser considerada machista e racista? De explicar porque você não pode sensualizar o assédio da sua babá negra? Explicar que mulheres negras têm sido sujeitas a objetificação e sexualização em um nível infinitamente maior que mulheres brancas, e que isso data desde a época da colonização quando as mulheres negras eram estupradas pelos colonizadores? O ideal não seria usar esse espaço de fala para ensinar, educar, ajudar aqueles que você expôs ao seu racismo e machismo naturalizado? Usar esse espaço, não para garantir a todos que foi sem querer, mas para mostrar o que você aprendeu quando aprendeu que o que você falou foi errado, e contribuir para que outros não cometam o mesmo erro que você?
Eu escolhi usar esses dois exemplos mas tenho uma lista infinita de escolhas na ponta dos dedos. Com a popularização e aceitação midiática maior dos movimentos sociais temos observado uma movimentação interessante do mercado, a do abraçar a causa. Temos propagandas abraçando o feminismo, programas de televisão, revistas. Temos pessoas que cobram, e por conta dessas pessoas temos grandes artistas de televisão que se sentem pressionados o suficiente a escrever uma carta de retratação. E é ai que entra a segunda parte do que tem me incomodado.
Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio.
Nos dois casos que eu citei, o que mais me surpreendeu, a razão por eu ter escolhido eles como exemplos, foi a resposta do público após a divulgação dos pedidos de desculpas. Qual foi a minha surpresa em ver comentários na página do coletivo de fotografia exaltando a coragem deles de terem publicado uma retratação. O alívio no suspiro coletivo das pessoas ao lerem a carta de “Mea Culpa” da Fernanda Torres. Ufa, pensamos coletivamente, acho que no fim das contas ela não era racista. Que sorte. Eu gostava tanto dela.
Precisamos exigir mais de nossos ofensores acidentais. Sim, que bom que a Fernanda Torres pediu desculpas. Mas, honestamente? É o mínimo do mínimo. E fazer uma carta falando que sente muito e não parar para levantar a pessoa que derrubou no chão – isso é inaceitável. E está na hora de tomarmos isso como inaceitável. Como preguiçoso, como trabalho dúbio. Sim, precisamos ter flexibilidade, ter paciência, dedicação, vontade de educar. Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio. Significa cobrar mais, significa exigir aquilo que nos é devido: não pedidos-de-desculpas-panos-quentes pra livrar sua barra com as feministas, mas sim ações engajadas, que de fato promovam mudanças nos danos causados pelas suas ações. Não é impossível, tivemos um exemplo muito bom disso com a carta aberta da sorveteria Me Gusta, depois de um caso de homofobia praticado por um funcionário no ano passado. A sorveteria não só assumiu responsabilidade pelo ocorrido, como se responsabilizou por educar os funcionários a respeito de homofobia e promoveu um beijaço LGBT na própria sorveteria. Uma curiosidade importante: o gerente de comunicação da sorveteria é gay. Não é a toa que estavam preparados para remediar o mal que foi causado em seu estabelecimento.
Chega de pedidos meia-boca de desculpa. Chega de falta de comprometimento na hora de remediar o que o seu “acidente” causou. Somos muitas. É não é de migalhas que uma multidão sobrevive.