Durante três anos, trabalhei como curadora de jogos digitais em um festival internacional de arte e tecnologia bastante conhecido. Durante três anos, ouvi a mesma pergunta: mas o que você faz? A resposta para essa pergunta é ao mesmo tempo simples e complicada. Eu poderia dizer apenas que seleciono os jogos que serão exibidos no festival, mas, na maior parte das vezes, quem pergunta não se satisfaz com esta resposta e diversas questões aparecem em seguida.
As mais frequentes costumam ser: quantas pessoas trabalham com você? quem escolhe os jogos para você selecionar? mas quem é decide quais jogos entram? mas você tem algum contato com os desenvolvedores? quem instala e testa? você é estagiária? eu fiz um jogo, posso te mandar? você conhece o jogo [insira aqui o nome]? porque o jogo tal não está na exposição deste ano? e, claro, a pergunta que não quer calar: VOCÊ JOGA?
Todas essas perguntas parecem ao mesmo tempo bastante inocentes e um tanto óbvias, mas, se você for pensar a respeito, elas estão carregadas de “probleminhas”. Esse probleminhas tem algumas origens: eu sou uma mulher num ambiente predominantemente masculino, eu pareço jovem demais para assumir um cargo de suposta importância, eu me apresento de maneira pouco séria em ambientes vistos como formais.
O festival no qual eu trabalhava reúne diversas linguagens eletrônicas em um mesmo espaço expositivo, promovendo o diálogo entre arte e meios digitais. Dentro deste ambiente, existem curadorias um pouco mais autônomas, como é o caso de animação, games e cinema digital, por exemplo. Para cada uma delas, há um curador responsável por toda a categoria, que trabalha juntamente com os curadores gerais organizadores do evento e as outras equipes responsáveis pela montagem, equipamentos, manutenção, educativo e conteúdo do festival.
Então, em resposta às primeira perguntas: eu trabalhava sozinha na parte de games, era responsável por pesquisar muito e selecionar os jogos. Sim, era eu mesma quem decidia quais entravam quais não entravam, passando pelo aval apenas do curador geral da exposição. Eu testava, instalava e testava novamente. Eu entrava em contato com os desenvolvedores brasileiros e internacionais, convidava-os para participar do festival e me responsabilizava completamente pelo conteúdo que eu estava selecionando para ser exibido.
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Ilustração exclusiva por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)[/caption]
Não, eu não sou estagiária, sou formada, faço mestrado em jogos digitais e tenho sim experiência e repertório mais do que suficiente para um cargo deste tipo. Sim, você pode me mandar seu jogo, contanto que ele seja um jogo independente, experimental e que trabalhe com questões poéticas e estéticas condizentes com a exposição na qual estou trabalhando. Eu não tenho obrigação de aceitar seu jogo, e nem mesmo de responder aos seus questionamentos sobre o motivo pelo qual seu jogo não foi aceito.
É possível que eu conheça ou não o jogo do qual você está falando. Eu tenho a mesma chance de conhecer um jogo que qualquer outra pessoa ocupando a mesma função que eu, tendo acesso aos mesmos conteúdos que eu tenho e tendo interesses semelhantes. Pode ser que este jogo que voce presume que eu não conheça, não esteja na exposição por diversos motivos: ele não conversa com a temática proposta, os desenvolvedores não responderam ao convite, ele não funciona em uma exposição com fluxo intenso de visitantes, ou, pode ser que eu não o conheça mesmo.
Vamos fazer uma exerciciozinho de imaginação. Vamos imaginar que seu seja um homem de 28 anos que aparente ser um pouco mais jovem e tenha cabelos coloridos, piercings, tatuagens e use roupas casuais. Este homem é curador de jogos digitais em um festival de arte. Quantas pessoas perguntariam para ele abismadas: VOCÊ JOGA? Eu diria, pela minha experiência, que muito poucas. Atrevo-me a dizer ainda que o fato de ele parecer jovem e casual só contribuiria para a imagem dele como curador de jogos digitais. Diria ainda que as as outras perguntas “problema” – que agora a gente já pode parar com o eufemismo e chamar de machistas – seriam reduzidas pela metade (ou nem mesmo existiriam).
Ter que me justificar todos os dias para poder exercer um trabalho é extremamente desgastante. Ter que me apresentar muitas vezes como “assistente de curadoria” em vez de “curadora” só para não ter que ficar me explicando é simplesmente horrível e degradante. Ser questionada diariamente por pessoas que simplesmente presumem que você não tem a mínima ideia do que você está fazendo/dizendo apenas porque você – obviamente, sendo mulher – não poderia conhecer aqueles jogos ou pior, jogá-los!
EU JOGO SIM! Jogo como uma garota, tenho minhas preferências, minhas manias e hoje começo a contar para vocês, de uma maneira bastante pessoal, aqui na Ovelha, minhas experiências na área e principalmente o que eu venho jogando, já joguei e quero jogar! Sem questionamentos, sem justificativas, só eu, os joguinhos e vocês. Bora?
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Ilustrações feitas com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)






