Que horas ela volta?

“Que horas ela volta?” é um filme da cineasta paulistana Anna Muylaert, cuja obra mais conhecida talvez seja “Durval discos”, de 2002, e tem no elenco a Regina Casé – que, apesar de ser atriz, é mais famosa por apresentar programas de TV como “Brasil Legal”, “Muvuca” e “Esquenta!” – e a revelação/musa do ano Camila Márdila.

O filme conta a história da empregada doméstica Val (Casé), que se muda para São Paulo, deixando sua filha pequena Jéssica (Márdila) em Pernambuco, para trabalhar na casa de uma família classe média-alta. Anos depois, Jéssica decide vir morar na capital paulista com a mãe porque sonha em passar no vestibular da FAU-USP.

Mas o que falar desse filme que praticamente todo mundo já viu (afinal, entrou em cartaz no dia 27 de agosto), já comentou e curtiu pakas (outras pessoas nem tanto)? Bom, vamos dividir em partes:

[caption id="attachment_6931" align="aligncenter" width="1024"]Regina Casé as Val in The Second Mother</em Regina Casé é a Val em Que horas ela volta?[/caption]  

1) A questão das domésticas/babás

A problemática do filme é a Val não ter acompanhado a infância/adolescência de sua filha porque precisava ganhar dinheiro para sustentá-la lá em Pernambuco cuidando do filho da patroa de SP. Patroa que tem zero intimidade com seu filho, de mesma idade da Jéssica, porque dedica a maior parte do seu tempo ao trabalho de estilista.

Quando eu entrevistei a Anna Muylaert para o G1, ela disse: “Percebi que na figura da babá estavam contidos grandes paradoxos da sociedade brasileira: paradoxos sociais, afetivos e culturais que circundavam todos em relação à questão da educação”. E é isso. A babá, que está lá para cuidar da criança, acaba se transformando na doméstica que dorme no quartinho dos fundos e dá comidinha na boca dos adultos.

APENAS em junho deste ano a PEC das domésticas foi regulamentada. Isto é, “o que estava no escopo do escravagismo, está virando profissão. Todo mundo quer trabalhar e voltar pra casa. Todo mundo prefere viver a própria vida em vez de viver a vida do outro”, nas palavras da própria cineasta. A mudança da PEC dará direitos a essas mulheres enquanto o filme da Anna trará a discussão para que nossa sociedade reveja esses valores. Não dá para tratar alguém como se fosse “parte da família”, colocando-a numa posição inferior.

Só consigo dizer parabéns à cineasta por ter escancarado essa situação de exploração que as domésticas sofrem no Brasil. Foi um dos maiores atos feministas que vimos no cinema brasileiro nos últimos anos certamente.

E como a Nina Lemos disse, em seu blog na revista TPM, é uma vergonha ver o filme ao lado de pessoas que não vivem isso, como os europeus. “Eu sei, se você está dizendo eu acredito. Mas quem na Europa vai acreditar que essa situação é real? Acho que vão pensar que a diretora é genial, mas que criou uma história surrealista muito boa, não que isso seja real. Porque isso é muito bizarro. Isso é inconcebível”. Vale ler o texto da Nina.

 
the-second-mother
 

2) A questão da mulher da classe C

Jéssica é a mina que vem pra causar com a elite paulistana. Pula na piscina dos patrões da mãe, come o sorvete do filhinho dos patrões da mãe. Mas e daí? O sorvete está lá, a piscina está lá e Jéssica não é a doméstica da história. Ela é uma mulher da classe C que está aí prestando o vestibular mais concorrido do Brasil.

Ela é uma garota inteligente, que aprecia livros e pintura, mas quer estudar Arquitetura porque começou a trabalhar quando muito novinha com o tio dela em obras, aprendendo a desenhar plantas de casas e edifícios.

Além do mais, ela é bonita e atraente, o que soa como uma ameaça para a patroa. Elas entram em conflito em boa parte da trama e, de uma cena que Jéssica toma uma bronca de sua mãe, vem a fala que resume a luta pela igualdade social: “Eu não acho que eu sou superior. Eu só não acho que eu sou inferior”.

Engole essa e vá lavar seu próprio copo d’água, madame. A Jéssica do presente não é obrigada a seguir a profissão de doméstica da sua mãe. Ela será arquiteta se ela quiser e conquistar seu objetivo de entrar numa faculdade.

q hras

Esperamos que continue o boca-a-boca sobre o “Que horas ela volta?”, que ele seja exibido em muitas salas de cinema de todo o país, que ele faça uma boa campanha ao Oscar, que muita gente ainda discuta sua mensagem, e que Anna Muylaert faça daqui pra frente mais filmes com pegada feminista.

E se você está meio por fora do assunto. Assista ao trailer e vá ao cinema:

 

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Links da semana

Olá, ovelhitas!

Mais uma semana com um monte de coisas legais, importantes e inspiradoras que vimos e achamos que merecem a atenção de vocês.


// ATRIZES E A IDADE

Está difícil até para as musas. Além de oferecerem metade do salário de David Duchovny para o revival de “Arquivo X”, Gillian Anderson ainda tem que ouvir um tabloide falando de suas rugas. O “Daily Mail” publicou uma matéria em que analisa quais cirurgias plásticas Gillian deveria fazer. A atriz respondeu em seu Twitter, com bom humor, que não tem vergonha de envelhecer.


 

// DESIGUALDADE

Vale a leitura dessa matéria da “Atlantic” sobre trabalhadores afro-americanos, que tendem a ser mais vigiados por seus chefes do que seus colegas brancos, o que significa que pequenos erros são mais propensos a serem capturados, o que ao longo do tempo leva a piores avaliações de seus desempenhos e salários mais baixos.  


 

// PRIMEIRA NEGRA

Channing Dungey é a primeira mulher negra a chefiar a programação de uma emissora de TV nos EUA. Com a saída de Paul Lee, ela assumiu a presidência da ABC, canal que exibe séries como “Scandal” e “How to get away with murder”.

 


// O MOVIMENTO É SEXY

Quer saber como se faz para ter um corpo de praia? Não busque no Google. Clique aqui.  

 


 

// EUA

Erica Garner, filha de Eric Garner, homem negro que foi morto pela polícia americana, gravou um vídeo em que fala da sua vida após a perda de seu pai e mostra apoio ao pré-candidato democrata à presidência Bernie Sanders. É muito triste, mas temos que saber. Leia a matéria e veja o vídeo:

 


 

// MÉXICO

Com a visita do papa Francisco ao México, o jornal “El País” falou com os jovens do município de Ecatepec sobre feminicídio. Veja o vídeo aqui.

 


 

// HERMIONE CONTRA O PATRIARCADO

Vídeo incrível o BuzzFeed mostra como “Harry Potter” seria se fosse contado pela perspectiva de Hermione Granger. Assista aqui.

 


 

// MÚSICA

Saiu o clipe da música “Clearest blue”, do Chvrches. A Lauren aparece meio perdida numa floresta nublada, usando armadura, e depois dançando numa balada de vestido vermelho.

 


 

// DESAFIO DA MATERNIDADE

Como toda semana a internet nos presenteia com uma corrente nova, a última foi o “desafio da maternidade”, em que mães falaram sobre as dores e alegrias de se ter um baby. Cansadinha da babação, a comediante Ellie Taylor resolveu mostrar o desafio que é não ser mãe. Veja.

 


 

// DICAS DA GRIMES

Nossa musa Claire Boucher, aka Grimes, diz quais são seus cinco livros favoritos da vida.

 


 

// PESQUISA

As respostas notavelmente diferentes que homens e mulheres dão quando perguntados sobre quem é o mais inteligente da classe. Um estudo feito pelo antropologista Dan Grunspan, da Universidade de Washington. Leia aqui.

   

 


 

// REFUGIADAS

Nessa matéria sobre mulheres refugiadas, elas explicam por que se sentem mais seguras dormindo lá fora no frio e falam sobre a violência e o abuso que sofrem nos campos transitórios de refugiados na Europa.

Você não sabe em quem confiar

 


 

// BELEZA

O Huffington Post fez uma matéria sobre a nigeriana Olajumoke Orisaguna, uma vendedora de pães que foi descoberta pelo fotógrafo TY Bello e agora está ajudando a lançá-la como modelo. Leia aqui.   

 


// GAGA NO GRAMMY

Confesso que eu não gosto de Lady Gaga, por motivos de tenho-outros-ídolos. Porém, como só se fala sobre a homenagem que ela fez no Grammy Awards ao David Bowie, clique aqui para ver o vídeo do show.

 


// SEM TABU

A ilustradora Frances Cannon, de 23 anos, quer discutir os tabus do corpo feminino com os seus desenhos. “É ok ter corpos que são diferentes ou que a sociedade não considera bonitos”, diz ela. A “Dazed” entrevistou ela.

 

 


//ALESSANDRA OROFINO

Perfil da cofundadora do Meu Rio, uma rede de ação que conecta mais de 200 mil pessoas interessadas em transformar a cidade. Vale ler pra conhecer.

 


// ALUNAGEORGE

Novo clipe da AlunaGeorge para dar uma dançadinha.

 


Até a próxima semana, ovelhitas! Força \o/

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outras pessoas nem tanto)? Bom, vamos dividir em partes:

 

1) A questão das domésticas/babás

A problemática do filme é a Val não ter acompanhado a infância/adolescência de sua filha porque precisava ganhar dinheiro para sustentá-la lá em Pernambuco cuidando do filho da patroa de SP. Patroa que tem zero intimidade com seu filho, de mesma idade da Jéssica, porque dedica a maior parte do seu tempo ao trabalho de estilista.

Quando eu entrevistei a Anna Muylaert para o G1, ela disse: “Percebi que na figura da babá estavam contidos grandes paradoxos da sociedade brasileira: paradoxos sociais, afetivos e culturais que circundavam todos em relação à questão da educação”. E é isso. A babá, que está lá para cuidar da criança, acaba se transformando na doméstica que dorme no quartinho dos fundos e dá comidinha na boca dos adultos.

APENAS em junho deste ano a PEC das domésticas foi regulamentada. Isto é, “o que estava no escopo do escravagismo, está virando profissão. Todo mundo quer trabalhar e voltar pra casa. Todo mundo prefere viver a própria vida em vez de viver a vida do outro”, nas palavras da própria cineasta. A mudança da PEC dará direitos a essas mulheres enquanto o filme da Anna trará a discussão para que nossa sociedade reveja esses valores. Não dá para tratar alguém como se fosse “parte da família”, colocando-a numa posição inferior.

Só consigo dizer parabéns à cineasta por ter escancarado essa situação de exploração que as domésticas sofrem no Brasil. Foi um dos maiores atos feministas que vimos no cinema brasileiro nos últimos anos certamente.

E como a Nina Lemos disse, em seu blog na revista TPM, é uma vergonha ver o filme ao lado de pessoas que não vivem isso, como os europeus. “Eu sei, se você está dizendo eu acredito. Mas quem na Europa vai acreditar que essa situação é real? Acho que vão pensar que a diretora é genial, mas que criou uma história surrealista muito boa, não que isso seja real. Porque isso é muito bizarro. Isso é inconcebível”. Vale ler o texto da Nina.

 
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2) A questão da mulher da classe C

Jéssica é a mina que vem pra causar com a elite paulistana. Pula na piscina dos patrões da mãe, come o sorvete do filhinho dos patrões da mãe. Mas e daí? O sorvete está lá, a piscina está lá e Jéssica não é a doméstica da história. Ela é uma mulher da classe C que está aí prestando o vestibular mais concorrido do Brasil.

Ela é uma garota inteligente, que aprecia livros e pintura, mas quer estudar Arquitetura porque começou a trabalhar quando muito novinha com o tio dela em obras, aprendendo a desenhar plantas de casas e edifícios.

Além do mais, ela é bonita e atraente, o que soa como uma ameaça para a patroa. Elas entram em conflito em boa parte da trama e, de uma cena que Jéssica toma uma bronca de sua mãe, vem a fala que resume a luta pela igualdade social: “Eu não acho que eu sou superior. Eu só não acho que eu sou inferior”.

Engole essa e vá lavar seu próprio copo d’água, madame. A Jéssica do presente não é obrigada a seguir a profissão de doméstica da sua mãe. Ela será arquiteta se ela quiser e conquistar seu objetivo de entrar numa faculdade.

q hras

Esperamos que continue o boca-a-boca sobre o “Que horas ela volta?”, que ele seja exibido em muitas salas de cinema de todo o país, que ele faça uma boa campanha ao Oscar, que muita gente ainda discuta sua mensagem, e que Anna Muylaert faça daqui pra frente mais filmes com pegada feminista.

E se você está meio por fora do assunto. Assista ao trailer e vá ao cinema:

 

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