No movimento negro nos preocupamos muito com a questão dos jovens nas universidades e a necessidade das cotas. De tanto me preocupar com isso, nunca tinha parado para pensar no que acontece depois que estudamos e tentamos alcançar o mercado de trabalho, por isso fui pega de surpresa pelo mix de sensações de quando alcancei meu emprego dos sonhos.
Eu deveria pensar que era muita sorte para uma mulher negra só. Há pouco mais de seis meses adquiri meu primeiro diploma universitário, abusando de um privilégio que a maioria dos outros jovens negros não têm: uma família com condições de pagar as mensalidades do curso e investir na educação (por mais difícil que tenha sido). Não demorou muito e eu tive que me mudar da cidade em que estava, do bairro de periferia em que deixei meus pais. Era na Capital que as oportunidades estavam e eu consegui uma delas.
Mas tudo bem! Todo mundo na minha velha cidade achava que eu não era praquele lugar mesmo. Que eu tinha uma mente mais aberta e precisava de espaço para crescer. Que eu tinha nascido para a cidade grande. Além disso, eu trabalharia com o que eu sempre quis, com pessoas tão jovens e politizada quanto eu.
Toda essa atitude positiva me acompanhou até eu chegar no meu novo lar… E não me sentir em casa. Até eu conhecer o bairro nobre em que meu novo emprego fica e o fato de que meus companheiros de trabalho vinham dos arredores. Aqui, não importa aonde eu for, todo mundo é branco.
Todo dia tem sido uma luta para não caminhar sem olhar para o chão, intimidada com as posturas sempre confiantes, para ter assunto com pessoas que falam sobre a infância no condomínio ou como aprenderam a cozinhar com a empregada.
Da fila do elevador até o meu setor, passando pelos papos no refeitório. Nem mesmo saindo da empresa e me aventurando em eventos ou conhecendo novos bairros. Ninguém é preto como eu.
Minha impressões de recém chegada e admirações com novas descobertas não importam para tanta gente blasé. Mas não aquele blasé proposital, é aquele blasé meio sem querer, de quem já viu muito na vida e não se surpreende mais. Embora as vezes eu tenha a impressão de que as pessoas podem estar tão assustadas e admiradas quanto eu, mas não demonstram.
Todo dia tem sido uma luta para não caminhar sem olhar para o chão, intimidada com as posturas sempre confiantes, para ter assunto com pessoas que falam sobre a infância no condomínio ou como aprenderam a cozinhar com a empregada.
Na minha antiga cidade meu diferencial profissional era saber falar inglês, principalmente sendo negra. Aqui todo mundo fala inglês e obviamente já morou fora, provavelmente vão perguntar admirados quando souberem que você nunca saiu do país: “mas você nunca viu a neve?!”. Mas claro que todo mundo sustenta um discurso politicamente correto e até decorado, se alegrando ao lembar que agora as viagens são para todos.
No auge do seu estilo despojado chique, agem como se não ligassem para a aparência, mas estão fabulosos diariamente, com cada peça de seus looks escolhidos a dedo, é claro. Como essa peça super tendência foi parar no seu guarda-roupa desencanado?!
Ninguém tem o cabelo igual o meu, mas todos acham incrível que eu assuma minhas raízes… Mas só porque é legal achar isso, pois no fundo, ninguém vive sem chapinha. Imagina sair de casa com frizz e um pouquinho de volume? Iam ficar parecendo… Eu.
Eu nunca tinha me incomodado com feministas brancas até conhecer algumas que dizem querer mudar o mundo, mas não se importam com os relatos de uma negra de periferia, pois acham que todas as mulheres sofrem igualmente com o machismo.
Para mim hoje parece muito irônico que eu não me encaixava na minha cidade natal pois tinha expectativas de vida maiores que a de outras mulheres devido aos meus privilégios, mas também não me pertenço ao lugar onde tais expectativas me levaram, pois saí das sombras da periferia onde as mulheres negras deveriam estar escondidas. Pois deveria estar fingindo que nada de novo me incomoda e que deixei todas as minhas raízes para trás.
No fim das contas, acabo socializando muito mais com a moça da faxina, a balconista da lanchonete ou o porteiro do prédio. Percebendo que nem todo mundo é branco… Algumas pessoas são negras.
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Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)

