Leia: As máscaras de Kobo Abe

Ilustração feita com exclusividade por Malu Risi

Kobo Abe, pseudônimo de Kimifusa Abe, nascido em 1924 em Tóquio, é considerado um grande nome do vanguardismo literário japonês. Criado na Manchúria, Abe formou-se em medicina pela universidade de Tóquio, embora nunca tenha exercido a profissão. Após se formar, passou a escrever e publicar diversos poemas e contos em revistas de pequena tiragem e publicou do próprio bolso sua primeira coletânea de poemas, com a qual ganhou o Prêmio de Literatura Pós-guerra, em 1950. Após o fim da 2ª Guerra Mundial, filiou-se ao Partido Comunista Japonês, do qual foi expulso em 1962.

Abe carrega muitas influências de escritores ocidentais como Franz Kafka e Jorge Luis Borges e artistas japoneses como o cineasta Hiroshi Teshigahara e o diretor teatral Junji Kinoshita. Publicado no Japão pós-guerra em 1964, “O rosto de um outro” é a única obra do escritor que saiu no Brasil. Trazido pela finada e já intensamente saudosa editora Cosac Naify, o livro é um fac-símile de 3 cadernos de anotações e uma carta escritos pelo protagonista sem nome.

capaA premissa principal do romance carrega em si o peso de um thriller psicológico e existencial. Após ter seu rosto desfigurado devido a um acidente de laboratório envolvendo nitrogênio líquido, um cientista entra em colapso ao perceber que perdeu sua conexão com o mundo e, pior ainda, com sua esposa. Fica então obcecado em criar uma máscara verossímil ao rosto humano, utilizando materiais sintéticos.

O romance é estruturado em 3 cadernos endereçados à sua esposa, com observações sobre seu ostracismo social e reflexões que vão desde digressões filosóficas sobre identidade e liberdade até dissertações sobre como seria uma sociedade utópica de máscaras e identidades difusas. Com o passar das páginas, fica evidente a necessidade do cientista de construir uma nova identidade para acompanhar sua máscara. Não havia sentido criar um  novo rosto para um antigo habitante, a renovação deveria ser total.

Esquizóide e cada vez mais obsessivo, o cientista passa a ficar maravilhado com sua nova persona e esta, cada vez mais autônoma, começa testar seus novos limites e brincar com o conceito de liberdade e consciência. Com o tempo o narrador passa a testemunhar, como mero espectador, o intenso processo de separação de criador e criação.

Com a máscara firmando-se como uma entidade e tornando-se cada vez mais independente, o rosto original começa a recuar, remoendo-se de ciúme pela liberdade concedida à sua criação mas, ao mesmo tempo, satisfeito por sentir-se representado na sociedade.

Durante a leitura começamos a notar o perfil dissimulado do narrador, ocultando e revelando fatos essenciais quando lhe é mais conveniente. A desconfiança passa a se integrar no ritual de leitura e começamos a questionar quem é afinal o autor dos 3 manuscritos: o rosto ou a máscara. Essa dualidade de personalidades dá o tom fluido ao romance, que quase não possui diálogo nem personagens.

[caption id="attachment_9205" align="aligncenter" width="700"]Cena do filme 'A face do outro', de Hiroshi Teshigahara Cena do filme ‘A face do outro’, de Hiroshi Teshigahara[/caption]

O fac-símile dos cadernos coloca o leitor na mesma perspectiva que a esposa, a destinatária original os manuscritos. Assim, o autor o observa sadicamente enquanto evolui a leitura dos caderninhos até a carta final, obrigando-o a passar por uma gama de emoções, da empatia ao asco. Abe cria assim uma importante dinâmica entre um narrador ambíguo e o leitor desconfiado; a paranoia reveza entre os sujeitos da leitura e da escrita.

O documento final é a culminação do processo de mutação do cientista e os acontecimentos a partir da leitura da carta mudam o rumo do romance, colocando em xeque a sanidade e a identidade dos personagens. Porém, em consideração à spoilerfobia, as conclusões pertencem aos próprios leitores.

O livro já foi adaptado para o cinema por Hiroshi Teshigahara, em 1966. Veja o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=wa6BitYbhZU

 


Fontes:
http://www.independent.co.uk/news/people/obituary-kobo-abe-1480301.html

The Scientifically Surreal, Eerily Erotic Novels of Kobo Abe


http://www.britannica.com/biography/Abe-Kobo

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Mais de Fabi Oda

Dada: as mulheres do movimento dadaísmo

Enquanto a autoria do famoso readymade de Duchamp, “a Fonte”, é questionada, uma nova exposição examina o trio de mulheres que realmente lideraram o dadaísmo do início do século 20.

 

 
A escultura readymade do urinol de Marcel Duchamp, entitulada “a Fonte”, foi eleita a obra artística mais influente do século 20. Recentemente, no entanto, surgiram dúvidas se Duchamp de fato comprou ou não o urinol e o chamou de arte – muitos historiadores da arte acreditam agora que a famigerada peça foi, na verdade, a obra de  outra artista dadaísta e excêntrica, a baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven. O nome lhe parece familiar? Para muito de nós, provavelmente não. Elsa, apesar da genialidade de seu trabalho e vida, nunca teve a fama nem a notoriedade recebida pelos seus colegas dadaístas homens.

 

 
Sophie Taeuber-Arp, Hannah Hoch e Elsa von Freytag-Loringhoven são três mulheres que foram as principais artistas do movimento vanguarda Dadaísta: um movimento que sempre fora historicamente associado com seus protagonistas masculinos. Apesar da da relativa obscuridade comparado aos nomes como Duchamp ou Manray, essas três mulheres contribuíram significativamente para o dadaísmo, através de obras de arte feitas a partir de uma gama vertiginosamente diversificada de mídias, incluindo colagem, cenografia, têxtil, escultura e objetos-escultura encontrados. Suas práticas incluem até exemplos de arte performática que ainda permanecem notavelmente atuais, apesar de terem quase um século. Esse trio, por muitas vezes esquecido, é o destaque da DADA Differently – traduzido Dada Diferente – uma exposição coletiva no Museu Haus Konstruktiv, em Zurique.

O Dada representou uma quebra radical da compreensão tradicional não só da arte, mas da razão e da própria lógica. Formado na politicamente neutra Suíça como reação aos horrores da Primeira Guerra Mundial, Dada imaginou uma arte tão sem sentido como o mundo em seu entorno. No entanto, apesar de sua sátira inovadora e iconoclastia cultural, Dada permaneceu como um movimento que abrigava e normalizava a misoginia do começo do século 20 assim como outras escolas de vanguarda da época. A marginalização dos trabalhos de Taeuber-Arp, Höch, and von Freytag-Loringhoven refletem isso.

A andrógena von Freytag-Loringhoven foi uma pioneira em performance artística, cuja arte e, crucialmente, vida desafiava ferozmente as convenções burguesas artísticas e morais. Ela ganhou notoriedade por sua estética proto-punk; fotografias mostravam a artista com um sutiã feito de latas de sopa, vestindo um canário enjaulado como colar, ou com seus cabelos raspados tingidos de vermillion. Em 1913, a caminho do cartório para se casar com um barão sem dinheiro, von Freytag-Loringhoven pegou um anel de ferro na rua e declarou ser um Enduring Ornament: um dos primeiros objetos readymade do mundo. Fazendo isso, minou a concepção ocidental do obra de arte como algo necessariamente agradável e única – dois anos antes de Duchamp e Francis Picabia fazerem o mesmo.

 

 

 

 
As fotomontagens de Höch cortam e fatiam imagens da vida contemporânea para criar novos significados enquanto minam compreensões do antigo. Enquanto essa colagens inovadoras tenham recebido aclamação recentemente, outros aspectos de sua prática – como as estranhas bonecas Dada – são menos conhecidos. Com olhos largos e arregalados e atributos sexuais secundários exagerados, as bonecas de pano continham a marca da incisiva sensibilidade crítica de Höch.

 

 

 
Pintora, dançarina e cenógrafa, Taeuber-Arp também subverteu o tradicionalmente feminino meio têxtil para fins mais radicais, criando marionetes articuladas para serem utilizadas em uma peça que integrava dança Dada com o nascente movimento psicanalítico. Fantoches como König Hirsch: Clarissa (1918) eram criados para expressar estados interiores, através do movimento expressivo libertado das restrições da anatomia humana.

 

 

 

 
Zurique foi a cidade na qual o movimento Dada ganhou seu nome e definição em 1916, no famoso cabaré Voltaire. É apropriado então, que em seu aniversário de 100 anos, o movimento nos ofereça a exposição DADA Differently, uma oportunidade para revisitar o Dada sob a luz da contribuição de todos seus membros – não apenas os homens.

 

 
Exposição “DADA Differently: Sophie Taeuber-Arp, Hannah Höch, Elsa von Freytag-Loringhoven”, rola de 25 de fevereiro até 8 de maio de 2016 no Museu Haus Konstruktiv, Zurique


Imagens retiradas daqui: 1 / 2 / 3 / 4

 
 

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capaA premissa principal do romance carrega em si o peso de um thriller psicológico e existencial. Após ter seu rosto desfigurado devido a um acidente de laboratório envolvendo nitrogênio líquido, um cientista entra em colapso ao perceber que perdeu sua conexão com o mundo e, pior ainda, com sua esposa. Fica então obcecado em criar uma máscara verossímil ao rosto humano, utilizando materiais sintéticos.

O romance é estruturado em 3 cadernos endereçados à sua esposa, com observações sobre seu ostracismo social e reflexões que vão desde digressões filosóficas sobre identidade e liberdade até dissertações sobre como seria uma sociedade utópica de máscaras e identidades difusas. Com o passar das páginas, fica evidente a necessidade do cientista de construir uma nova identidade para acompanhar sua máscara. Não havia sentido criar um  novo rosto para um antigo habitante, a renovação deveria ser total.

Esquizóide e cada vez mais obsessivo, o cientista passa a ficar maravilhado com sua nova persona e esta, cada vez mais autônoma, começa testar seus novos limites e brincar com o conceito de liberdade e consciência. Com o tempo o narrador passa a testemunhar, como mero espectador, o intenso processo de separação de criador e criação.

Com a máscara firmando-se como uma entidade e tornando-se cada vez mais independente, o rosto original começa a recuar, remoendo-se de ciúme pela liberdade concedida à sua criação mas, ao mesmo tempo, satisfeito por sentir-se representado na sociedade.

Durante a leitura começamos a notar o perfil dissimulado do narrador, ocultando e revelando fatos essenciais quando lhe é mais conveniente. A desconfiança passa a se integrar no ritual de leitura e começamos a questionar quem é afinal o autor dos 3 manuscritos: o rosto ou a máscara. Essa dualidade de personalidades dá o tom fluido ao romance, que quase não possui diálogo nem personagens.

O fac-símile dos cadernos coloca o leitor na mesma perspectiva que a esposa, a destinatária original os manuscritos. Assim, o autor o observa sadicamente enquanto evolui a leitura dos caderninhos até a carta final, obrigando-o a passar por uma gama de emoções, da empatia ao asco. Abe cria assim uma importante dinâmica entre um narrador ambíguo e o leitor desconfiado; a paranoia reveza entre os sujeitos da leitura e da escrita.

O documento final é a culminação do processo de mutação do cientista e os acontecimentos a partir da leitura da carta mudam o rumo do romance, colocando em xeque a sanidade e a identidade dos personagens. Porém, em consideração à spoilerfobia, as conclusões pertencem aos próprios leitores.

O livro já foi adaptado para o cinema por Hiroshi Teshigahara, em 1966. Veja o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=wa6BitYbhZU

 


Fontes:
http://www.independent.co.uk/news/people/obituary-kobo-abe-1480301.html

The Scientifically Surreal, Eerily Erotic Novels of Kobo Abe


http://www.britannica.com/biography/Abe-Kobo

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