Murakami, querido, continue com o que sabe

Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez

O eterno candidato ao prêmio Nobel de Literatura Haruki Murakami rompeu os limites geográficos do círculo literário japonês quando sua obra invadiu livrarias internacionais na década de 1980. Queridinho do público xófen e descolado japonês, ele conquistou o nível de best-seller ao conseguir discutir com profundidade temas filosóficos e tão frequentes na sociedade atual: a solidão e o âmago das relações humanas.

Murakami é um mestre em criar ambientes sutilmente surreais, aqueles que você só percebe a incompatibilidade com a realidade muito tempo depois (alguém lembrou imediatamente do combo menina-em-cima-de-um-cavalo-pintando-a-parede-com-sangue do filme “Durval Discos”?). Seus romances conseguem conciliar a ambientação da sociedade e a dinâmica japonesa moderna com inserções pontuais non-sense, como a maravilhosa aparição de Coronel Sanders, da rede de fastfood KFC, e Johnnie Walker-keep-walking, em Kafka à beira mar.

Dentre as muitas tropes [figuras de linguagem] utilizadas pelo autor – as inúmeras referências musicais de jazz e rock ocidental, suas meticulosas descrições de receitas culinárias e a constante presença de gatos como um elemento introdutório para o surreal – está a presença de personagens marcadas por seu isolamento, pela sua inadequação social e pelos seus cotidianos meticulosos e ponderados.

No entanto, no meio de narrativas maravilhosas como Caçando carneiros e Kafka à Beira-Mar, que exploram com maestria o surrealismo moderno na literatura, temos 1Q84 com tooodos seus problemas:

cover-1Q84No livro, o escritor nos apresenta duas personagens principais cujas histórias caminham em aparente paralelo: Tengo é um aspirante a escritor e professor de matemática enquanto Aomame (Vagens verdes em japonês, não me pergunte porque) é uma professora de ginástica que, por acaso, também é uma assassina profissional nas horas vagas e trabalha para uma viúva que tem um abrigo para mulheres que sofreram agressão e abuso sexual. Os personagens se conhecem brevemente durante a infância, após um episódio que marca profundamente ambos, criando uma conexão que nunca conseguiram se livrar, mas tomam caminhos diferentes e nunca mais se cruzam.

No melhor estilo Alice através do espelho, os dois personagens se veem em uma realidade sutilmente alternativa após Aomame utilizar um atalho em uma congestionada via expressa para conseguir chegar ao seu destino. A primeira dica são as duas luas que aparecem estateladas no céu. A partir desse ponto, as histórias se tangenciam, Tengo é convidado para reescrever um romance peculiar chamado A Crisálida de Ar, escrito por Fuka-Eri, uma garota de 17 anos, filha do líder da seita fanático-religiosa Sakigake. Do outro lado da narrativa, Aomame recebe o job de matar esse mesmo líder e o cenário está posto para altas trapalhadas e confusões!  ~apagr~

O revezamento entre capítulos de suas personagens chega a criar uma espiral de monotonia, mas é compensada pela complementariedade das duas personalidades tão opostas. Enquanto Tengo é uma pessoa frustrada, passiva e medíocre dentro de seu cotidiano, Aomame é ativa, com uma autoconsciência assustadora e uma frieza e racionalidade marcante, porém o tom quase cartunesco deixa a trajetória principal das personagens inverossímil. De fato, Tengo e Aomame parecem sair de um anime dos anos 1990, suas reações são tão apáticas e automatizadas que fazem Shinji Ikari – de Neon Genesis Evangelion – parecer o capitão ação.

A frustração com o fato de Murakami não saber o que fazer com uma personagem feminina tão forte e empoderada é grande. Afinal, Aomame é uma fucking assassina profissional que tem como alvos agressores sexuais, dentre eles o líder de uma seita pedófilo que utiliza de argumentos holísticos para justificar suas ações. Mas o discurso da personagem é tão incompatível com suas ações que o cenário todo fica forçado. Em nenhum momento ela reflete profundamente sobre suas ações nem assume uma postura realmente confrontadora; sua ocupação parece que surgiu mais por conveniência (uma habilidade inata de passar despercebida e de ter um rosto completamente esquecível) e não por uma militância ou um senso de justiça distorcido.

Pior ainda é a falta de sensibilidade e noção do autor ao utilizar episódios gráficos de violência sexual, como as extensas cenas de estupros e pedofilia, como escada para desenrolar a trama principal. Assim, Murakami aproxima-se demais do clichê Women in Refrigerator (do qual as mulheres sofrem as mais absurdas violências como mero dispositivo na narrativa) e perde uma grande oportunidade de aprofundar suas personagens e criar uma trama mais complexa e profunda.

Embora o romance tenha tido ótimos momentos, personagens secundárias maravilhosas e tenha sido um grande sucesso de vendas, fazendo seus ávidos fãs aguardarem a lenta a tradução de seus 3 volumes, 1Q84 pecou ao criar um ambiente inverossímil, inconsistente e caricato, não conseguindo abordar de uma maneira mais problemática as perversidades de seus antagonistas.

Escrito por
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  • Fernanda Garcia

    Apenass: obrigada por esse post!! Eu tava bem interessada nesse livro, bom saber esses pontos.