Assista: XX, terror feito por mulheres

Estou com fome.

Esse é o desfecho do curta A Caixa, parte da antologia de terror XX, recentemente lançada na Netflix. Com cenas dirigidas por Jovanka Vuckovic, Annie Clark (sim, nossa adorada St Vincent!), Roxanne Benjamin, e Karyn Kusama, o filme inova em trazer somente a perspectiva feminina para o mundo do terror – muitas vezes deixadas de lado. Embalado pelas animações de Sofia Carillo, o tom melancólico não abandona a tela, e cada transição sugere o quão visceral a antologia pode ser.

Apesar de trazer temáticas típicas do terror mainstream (terror familiar, assassinatos misteriosos, demônios e criaturas), a perspectiva feminina faz toda a diferença – principalmente estética. Ou seja, se você não é fã de terror, mas adora uma cena bem montada e uma trilha sonora envolvente, esse filme é também para você.

O primeiro curta, denominado A Caixa (Vuckovic), já traz o tom pesado dos demais que o seguirão. O enredo conta a história de Susan, uma mãe que vê seu filho mais novo deixar de se alimentar após espiar o conteúdo de uma caixa pertencente a um estranho no metrô. Sem entender muito bem o que acontece, Susan vai deixando a questão progredir – e assim se iniciam os atritos em casa, sobretudo com seu marido.

O curta chamado A Festa de Aniversário (Clark) traz a história de Mary, uma mãe preocupada em oferecer à sua filha Lucy uma festa de aniversário, mas que encontra o corpo de seu marido em um dos cômodos na manhã da comemoração. As tentativas de Mary em esconder o corpo e fazer de tudo para agradar sua pequena filha são o centro da história – e é extremamente angustiante acompanhar esse pequeno relato de maternidade.

Já o Seu Único Filho Vivo (Kusama) conta a história de Cora, uma mãe com um passado enigmático, e seu filho Andy, que acaba de completar 18 anos. Como se a dinâmica entre Cora e Andy não fosse suficientemente estranha, a forma com a qual o garoto é visto pelo resto dos habitantes da cidade mostra que algo está errado com ele – e a última interpretação que podemos fazer é de que pode se tratar de um spin-off de O Bebê de Rosemary.

A genialidade desses quatro pequenos filmes reside na capacidade das diretoras de falar sobre os medos e horrores da maternidade sem romantizá-los. Apesar de se tratar de uma ficção, os sentimentos das mães são tratados de maneira muito honesta: o cansaço de ser a única responsabilizada pelos eventuais problemas das crianças, com o peso de ser a mãe perfeita e proteger os filhos de todas as frustrações, e o medo de falhar enquanto mãe e ver o próprio filho tornar-se alguém irreconhecível.

O peso da maternidade é, de fato, aterrorizante. Mas outra obrigação tradicionalmente feminina é a do sacrifício e do afeto. O terceiro curta de XX, Não Caia (Benjamin), mostra como os relacionamentos interpessoais podem ser um fardo para nós. Seguindo a receita clássica do terror, o filme mostra como Gretchen, a mais sensível do grupo de quatro jovens aventureiros, acaba sendo vítima de um monstro – tornando-se ele próprio. As relações dela com outras pessoas mostram como Gretchen é mais sensível e preocupada com seus companheiros, principalmente seu irmão, sendo a única a tentar cuidar de tudo – um trabalho emocional sempre protagonizado por nós mulheres.

O filme, portanto, conta de modo geral como mulheres estão mais propensas a aceitarem sacrifícios para agradar aqueles que amam – principalmente enquanto mães. Através de situações extremas, cada personagem feminina se desdobra em sua forma – algumas literalmente dão o sangue e o corpo para satisfazer a própria família.

E é aqui que o filme deixa de ser ficção: não é, de fato, aterrorizante o quanto nos expomos e nos arriscamos para o contento de quem amamos – muitas vezes sem o reconhecimento devido? Quantas vezes não podemos demonstrar como realmente nos sentimos sem que passemos por negligentes?

A fome que Susan sente em A Caixa (na minha opinião, o melhor e mais aterrorizante dos filmes) é uma mescla de ansiedade e cansaço que aflige a maioria das mulheres, a maioria das mães. Não estamos todas sedentas por um mínimo reconhecimento pelos fardos emocionais que muitas vezes temos? Não estamos cansadas da imposição da maternidade sobre nós? Retratar esse sentimento usando uma das sensações mais básicas do ser humano, a que nos guia aos seios de nossas mães, a fome, coloca em perspectiva se isso que sentimos deve continuar sendo uma imposição naturalizada ou se devemos desconstruí-la antes que ela destrua mais mulheres (figurativa e literalmente).

Pois é. Eu também estou com fome – e não falo de apetite.

Escrito por
Mais de Júlia Rocha

#nossoamigosecreto

A recente campanha #meuamigosecreto tem mobilizado uma série de meninas a denunciar o comportamento incoerente de outros com relação ao preconceito e à discriminação – principalmente o machismo. A hashtag, que você pode acompanhar aqui, me lembrou muito a campanha #PrimeiroAssedio: mais uma vez as mulheres não vão se calar frente aos abusos diários. Mais do que isso, vamos expor tudo o que aguentamos em nossas relações interpessoais. O mais interessante desse fenômeno é o que ele tem levantado sobre exposição nas redes sociais.

Há dois meses eu escrevi um texto expondo um ex-namorado que foi extremamente abusivo comigo. O texto, que quase foi publicado aqui na Ovelha, ganhou uma série de likes, sendo muitos desses vindo de amigos que tenho em comum com esse ex. Também recebi muitas mensagens de apoio e carinho de conhecidos que afirmavam não fazer ideia do que havido acontecido entre nós e o quanto eles sentiam muito por não terem me ajudado. O que isso tem a ver? Meu texto foi feito praticamente da forma que a campanha tem sido estruturada: sem identificação, sem citar nomes, apenas descrição de fatos – que, convenhamos, passam a não ser mais segredo quando eles acontecem em público. O que me entristeceu muito foi o fato de que diversas pessoas questionaram a minha decisão de expô-lo, mas não foram empáticas o suficiente para entender que aquilo não era inédito. Tudo o que eu fiz foi reiterar e retomar fatos que aconteceram na frente de todos, e que todos resolveram ignorar.

Pois bem, o meu ponto principal aqui é o seguinte: nós não devemos temer ao expor um homem que foi abusivo, seja conosco, seja com alguma amiga/conhecida/desconhecida nossa (até porque se não há nomes não é possível dizer que houve de fato uma exposição, certo?). A nossa maior preocupação deve ser não expormos as meninas, que sim devem ser protegidas de retaliações e ainda mais abusos – e me enche de alegria ver CENTENAS de meninas na minha timeline que expuseram suas angústias de maneira concisa e muito, muito poderosa.

Portanto, meninas que se incomodam com a exposição de caras nas redes sociais, será que não vale mais a pena refletir sobre o porquê a moça em questão está fazendo isso, em vez de simplesmente tachá-la de injusta ou exagerada? Exagero já não é o que sofremos diariamente com caras desconhecidos e conhecidos? O abuso no âmbito interpessoal não é tão grave quanto o que não o é? Tenho certeza de que todas nós nos identificamos com cada um dos microrrelatos – tudo poderia ter acontecido com qualquer uma de nós, todas nós temos amigos que poderiam ter feito qualquer uma dessas coisas.

Paremos de ter medo e paremos de defender os homens – eles já têm aparatos demais para isso. Preocupemo-nos em expor as situações para que todos os homens se identifiquem e, de fato, desconstruam seus privilégios e opressões. Cada uma de nós quer se sentir confortável o suficiente com nossos amigos homens (e aqui me refiro ao gênero masculino de modo geral, independentemente da orientação sexual, da etnia e da condição social), o que só irá acontecer quando eles pararem de nos oprimir.

#nossoamigosecreto está precisando baixar a bola e nos respeitar um pouco mais.

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XX, recentemente lançada na Netflix. Com cenas dirigidas por Jovanka Vuckovic, Annie Clark (sim, nossa adorada St Vincent!), Roxanne Benjamin, e Karyn Kusama, o filme inova em trazer somente a perspectiva feminina para o mundo do terror – muitas vezes deixadas de lado. Embalado pelas animações de Sofia Carillo, o tom melancólico não abandona a tela, e cada transição sugere o quão visceral a antologia pode ser.

Apesar de trazer temáticas típicas do terror mainstream (terror familiar, assassinatos misteriosos, demônios e criaturas), a perspectiva feminina faz toda a diferença – principalmente estética. Ou seja, se você não é fã de terror, mas adora uma cena bem montada e uma trilha sonora envolvente, esse filme é também para você.

O primeiro curta, denominado A Caixa (Vuckovic), já traz o tom pesado dos demais que o seguirão. O enredo conta a história de Susan, uma mãe que vê seu filho mais novo deixar de se alimentar após espiar o conteúdo de uma caixa pertencente a um estranho no metrô. Sem entender muito bem o que acontece, Susan vai deixando a questão progredir – e assim se iniciam os atritos em casa, sobretudo com seu marido.

O curta chamado A Festa de Aniversário (Clark) traz a história de Mary, uma mãe preocupada em oferecer à sua filha Lucy uma festa de aniversário, mas que encontra o corpo de seu marido em um dos cômodos na manhã da comemoração. As tentativas de Mary em esconder o corpo e fazer de tudo para agradar sua pequena filha são o centro da história – e é extremamente angustiante acompanhar esse pequeno relato de maternidade.

Já o Seu Único Filho Vivo (Kusama) conta a história de Cora, uma mãe com um passado enigmático, e seu filho Andy, que acaba de completar 18 anos. Como se a dinâmica entre Cora e Andy não fosse suficientemente estranha, a forma com a qual o garoto é visto pelo resto dos habitantes da cidade mostra que algo está errado com ele – e a última interpretação que podemos fazer é de que pode se tratar de um spin-off de O Bebê de Rosemary.

A genialidade desses quatro pequenos filmes reside na capacidade das diretoras de falar sobre os medos e horrores da maternidade sem romantizá-los. Apesar de se tratar de uma ficção, os sentimentos das mães são tratados de maneira muito honesta: o cansaço de ser a única responsabilizada pelos eventuais problemas das crianças, com o peso de ser a mãe perfeita e proteger os filhos de todas as frustrações, e o medo de falhar enquanto mãe e ver o próprio filho tornar-se alguém irreconhecível.

O peso da maternidade é, de fato, aterrorizante. Mas outra obrigação tradicionalmente feminina é a do sacrifício e do afeto. O terceiro curta de XX, Não Caia (Benjamin), mostra como os relacionamentos interpessoais podem ser um fardo para nós. Seguindo a receita clássica do terror, o filme mostra como Gretchen, a mais sensível do grupo de quatro jovens aventureiros, acaba sendo vítima de um monstro – tornando-se ele próprio. As relações dela com outras pessoas mostram como Gretchen é mais sensível e preocupada com seus companheiros, principalmente seu irmão, sendo a única a tentar cuidar de tudo – um trabalho emocional sempre protagonizado por nós mulheres.

O filme, portanto, conta de modo geral como mulheres estão mais propensas a aceitarem sacrifícios para agradar aqueles que amam – principalmente enquanto mães. Através de situações extremas, cada personagem feminina se desdobra em sua forma – algumas literalmente dão o sangue e o corpo para satisfazer a própria família.

E é aqui que o filme deixa de ser ficção: não é, de fato, aterrorizante o quanto nos expomos e nos arriscamos para o contento de quem amamos – muitas vezes sem o reconhecimento devido? Quantas vezes não podemos demonstrar como realmente nos sentimos sem que passemos por negligentes?

A fome que Susan sente em A Caixa (na minha opinião, o melhor e mais aterrorizante dos filmes) é uma mescla de ansiedade e cansaço que aflige a maioria das mulheres, a maioria das mães. Não estamos todas sedentas por um mínimo reconhecimento pelos fardos emocionais que muitas vezes temos? Não estamos cansadas da imposição da maternidade sobre nós? Retratar esse sentimento usando uma das sensações mais básicas do ser humano, a que nos guia aos seios de nossas mães, a fome, coloca em perspectiva se isso que sentimos deve continuar sendo uma imposição naturalizada ou se devemos desconstruí-la antes que ela destrua mais mulheres (figurativa e literalmente).

Pois é. Eu também estou com fome – e não falo de apetite.

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