Cinema Feminista em Berlim

A 3ª edição da Berlin Feminist Film Week, semana dedicada ao cinema feminista, começou na terça-feira (8), no Dia Internacional da Mulher. “É sobre chamar a atenção para discussões feministas. Mas claro que deve-se discutir feminismo todos os dias”, diz a sueca Karin Fornander, que idealizou o evento e, desde então, o organiza de forma independente.

No cinema Babylon, no centro de Berlim, pessoas chegam com antecedência em busca dos ingressos restantes para a primeira sessão da mostra. Aos poucos, o saguão começa a lotar com um público bem variado. Nem só mulheres, não só jovens nem só alemães estão presentes. O público é bastante internacional e inclui todo tipo de gente que se encontra nas ruas de Berlim (ou seja, diferentes estilos, gêneros e raças misturados). Isso era exatamente o que Karin imaginava para seu festival.

“Entendo que exista uma ideia separatista no feminismo, que se queira organizar algo só entre mulheres. Às vezes é realmente melhor estar só entre mulheres, sem ter a perspectiva masculina ou argumento masculino. Mas com um festival como esse, podemos chegar a pessoas que ainda não tem muito conhecimento sobre o tema, e por isso quero que ele seja aberto a todos.”

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Karin enxerga as produções cinematográficas feministas como um meio mais direto de chegar a um público leigo no assunto. “Acho que filmes são muito bons para pessoas que nunca tiveram a ver com o movimento feminista. Elas podem olhar o filme sem pensar muito e sem saber muito a respeito antes de assisti-lo.”

Ao levar ao público algo que ele não conhece, foram escolhidos para a abertura dois filmes de temáticas que ainda recebem pouca atenção: o movimento feminista negro e filmes feministas de ficção científica.

O primeiro filme exibido foi o documentário “Reflections unheard: Black Women in Civil Rights”, feito pela americana Nevline Nnaji, que conta histórias pessoais de ativistas mulheres do movimento negro dos anos 1960. Os relatos dessas mulheres revelam a luta para participar de um movimento negro dominado por homens e de um movimento feminista liderado por mulheres brancas de classe média.

Advantageous - Dir- Jennifer Phang

O segundo foi o longa “Advantageous”, da diretora Jennifer Phang. O filme é um dos poucos trabalhos de ficção científica dirigido, escrito e estrelado por mulheres. Nele, a protagonista se vê prestes a perder o emprego como porta-voz da empresa Center for Advanced Health and Living por ter uma aparência já um pouco velha – mesmo estando entre seus 40 anos. Sem opções para dar uma boa educação para sua filha, ela se desespera e se submete a um procedimento cirúrgico extremo (feito pela mesma empresa), a fim de se tornar mais jovem. Seu objetivo é voltar a trabalhar e, assim, pagar a educação da filha em uma escola particular.

A Bárbara Gondar já falou sobre ele aqui na Ovelha.

Os dois filmes já deram uma ideia do que se trata o festival: trazer temáticas feministas de perspectivas inesperadas.

Temas e escolha dos filmes

Na programação, estão três curtas brasileiros: “ISTO”, de Mariana Collares; “Bird Skin” (Pele de Pássaro), de Clara Peltier; e “Mother of Pearl” (Madrepérola), de Deise Hauenstein. Os três foram os únicos filmes brasileiros que Karin recebeu nas inscrições para o festival. “São de uma qualidade muito alta, são bonitos e bem produzidos. Não posso falar muito sobre o movimento feminista na América do Sul, porque não sei muito sobre isso. Mas tenho a impressão de que está se formando uma nova onda (feminista) muito forte agora”, opina.

Os filmes são escolhidos pela própria Karin, em um processo de análise do material inscrito e de constante busca por coisas novas. O importante é que as produções tenham mulheres como protagonistas e que suas representações fujam de estereótipos femininos. Elas não precisam ser necessariamente feitas só por mulheres, mas também por diretores, produtores, atores que não se identifiquem com a cultura tradicional de gênero.

[caption id="attachment_9767" align="aligncenter" width="700"]Karin Fornander fala sobre a criação do Festival de Cinema Feminista de Berlim Karin Fornander fala sobre a criação da Semana de Cinema Feminista de Berlim[/caption]

Quanto ao conteúdo, ele deve se encaixar às ideias feministas. Relacionado a isso, as temáticas podem ser variadas. “Quando se tem um tema específico, a gente acaba se limitando para escolher os filmes e eu acho legal ter diferentes temáticas dentro do festival. Assim, todo ano tem coisas novas, eu aprendo coisas novas e outras perspectivas conseguem ser apresentadas”, explica Karin. Neste ano, alguns dos assuntos presentes na Berlin Feminist Film Week são Body Positive (sobre o empoderamento das mulheres através do corpo), representatividade negra e lésbica, filmes de comédia e filmes feministas de ficção científica.

Criação do evento

A Berlin Feminist Film Week teve sua primeira edição em 2014. Karin trabalhava na companhia de cinema Mobile Kino, que promove sessões de cinema temporárias em diferentes locais de Berlim, e teve a ideia de organizar um programa com curtas-metragens feministas. Conversando com amigos sobre a organização, eles descobriram que em Londres existia o London Feminist Film Festival. “Vimos que não havia até então nenhum festival do tipo em Berlim e tínhamos aí um espaço para fazer alguma coisa semelhante ao de Londres”. Para a primeira edição, a organizadora tinha poucas expectativas e achava que só seus amigos e conhecidos viriam ao festival.

Para sua surpresa, desde 2014, o evento chamou atenção de mais pessoas além do círculo de amizade de Karin. Sorte para os que moram em Berlim. Baseado no saguão cheio do cinema Babylon no dia da abertura, a Berlin Feminist Film Week ainda terá muitas edições.

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Mais de Débora Backes

Casadas e grávidas ao mesmo tempo

Ao checar a minha timeline do Facebook em busca de coisas interessantes (o que quase nunca tem), vi a postagem de uma amiga. O título do texto me chamou a atenção logo de cara e o abri para ler: “My Wife and I are (both) Pregnant” (Minha esposa e eu estamos (ambas) grávidas, seria a tradução em português). Pensei: “Que sorte! E que coragem! Ter dois bebês ao mesmo tempo deve ser difícil. Mas deve ser bom por um lado, exatamente porque AS DUAS estão grávidas AO MESMO TEMPO”.

Mas claro que duas mulheres grávidas, casadas, vivendo na mesma casa não é tão simples como possa parecer. Depois de ler a matéria da New York Magazine percebi quantas coisas e diferentes sentimentos isso poderia implicar.

Lendo a história do casal Kate e Emily, vi que a coisa é muito mais complicada do que simplesmente “que bom, finalmente alguém vai entender EXATAMENTE porque estou me sentindo assim ou assim ou assado… E vai me ajudar!” Explico, do começo.

Kate e Emily começaram a tentar a gravidez após se casarem. Na clínica de fertilização, a médica escolheu Emily, por ser a mais jovem do casal, para tentar as inseminações. Mas Kate se viu querendo algo que, até então, não tinha tanta certeza que desejava: ela queria ficar grávida. Ambas concordaram e as tentativas começaram. Depois de seis meses tentando com Kate, a médica sugeriu que era a hora de Emily! “Você tá louca? E se as duas ficarem grávidas?”, perguntou Kate. “Ah, as chances disso acontecer são muito pequenas”, respondeu a médica.

Pronto. Emily engravidou na primeira tentativa, deixando Kate feliz mas meio frustrada. Kate já estava no meio do tratamento, e a gravidez de Emily ainda estava muito no início e qualquer coisa poderia acontecer, então a médica decidiu fazer mais uma inseminação em Kate. E pá! O resultado para Kate também foi positivo!

O relato é contado da perspectiva das duas separadamente. O que é interessante, pois ambas ficam livres para falar de seus sentimentos (algumas vezes de frustração pela gravidez ser mais fácil para uma do que para a outra) e dos esforços para se ajudar mutuamente. No momento do parto, como em alguns outros, ambas tentam não mostrar fraqueza nem pena, apesar de estarem se colocando em um esforço físico e emocional enorme para ajudar a parceira. Isso que é o lindo da história! Elas sabem das dificuldades uma da outra e, por isso mesmo, fazem de tudo para se apoiar da melhor forma possível.

 

 
Acho que uma das falas de Kate define bem a situação do casal durante os nove meses:

Os prós e contras de ter sua esposa, outra mulher, passando pela gravidez, trabalho de parto e maternidade ao mesmo tempo, é que você não consegue evitar comparações. Minha gravidez estava três semanas atrás da de Emily. Ela ia sentir algo que algumas semanas depois eu também iria sentir. Teve coisas muito parecidas, mas outras que eram tipo, ‘uau, espera um minuto, porque seus mamilos estão assim e os meus estão assim?!’

Mais adiante ela fala que o processo só funcionou porque o sentimento de pena estava proibido entre as duas: “Acho que o clichê da gravidez é que a esposa reclama muito. Mas qual é o sentido? Você reclama porque você quer que sintam pena. Você quer que a outra pessoa fale ‘Oh, baby, eu vou cuidar de você’. Nós não podíamos fazer isso. Não tínhamos energia para sentir pena! Os prós é que ambas sentíamos as mesmas coisas e tínhamos alguém que nos compreendia, mas sem sentir pena. Tinha empatia, mas sem pena!”

As duas se organizaram em tudo. Desde as tarefas domésticas, como quem vai cozinhar e lavar roupa na semana, até nas preparações antes do parto – afinal, a mala pro hospital tinha que estar pronta, já que a qualquer momento, uma delas podia entrar em trabalho de parto! Nunca passou pela minha cabeça até ler o texto, mas é claro que nenhuma das duas podia fazer tarefas pesadas! E aí, como faz se a pessoa que mora com você, e deveria te ajudar nesse momento, está tão cansada e com dores quanto você? O casal contou muito com ajuda de parentes e amigos (por sorte!).

A gravidez foi só uma parte do processo que as duas enfrentaram e ainda vão enfrentar juntas. Os meninos Reid e Eddie nasceram saudáveis e lindos! Depois do nascimento, as duas se encontram diante desse mundo novo que é a maternidade, em que não serão somente mães do filho que geraram biologicamente, mas do filho da esposa. E há aí o desafio em se conectar com os dois filhos igualmente, sem escolher o próprio como favorito.

A história me chamou atenção por muitos motivos, mas o principal: pela perspectiva de duas mulheres passando pelo mesmo processo, ao mesmo tempo, e por revelar como, mesmo assim, gravidez e maternidade são coisas complexas. Terminei a leitura com a impressão de que a gravidez não ficou mais fácil ou mais difícil pelas duas estarem, de fato, juntas nessa. Pelos relatos, há certas dificuldades que talvez outros casais (em que só uma delas estivesse grávida) não tivessem, mas outras coisas positivas também. No final, o que importa é que os dois garotos serão criados com muito amor por duas mulheres fortes (e com uma baita história pra contar sobre o seu nascimento).

 


Imagem feita com exclusividade por Bárbara Malagoli (Baby C)

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Berlin Feminist Film Week, semana dedicada ao cinema feminista, começou na terça-feira (8), no Dia Internacional da Mulher. “É sobre chamar a atenção para discussões feministas. Mas claro que deve-se discutir feminismo todos os dias”, diz a sueca Karin Fornander, que idealizou o evento e, desde então, o organiza de forma independente.

No cinema Babylon, no centro de Berlim, pessoas chegam com antecedência em busca dos ingressos restantes para a primeira sessão da mostra. Aos poucos, o saguão começa a lotar com um público bem variado. Nem só mulheres, não só jovens nem só alemães estão presentes. O público é bastante internacional e inclui todo tipo de gente que se encontra nas ruas de Berlim (ou seja, diferentes estilos, gêneros e raças misturados). Isso era exatamente o que Karin imaginava para seu festival.

“Entendo que exista uma ideia separatista no feminismo, que se queira organizar algo só entre mulheres. Às vezes é realmente melhor estar só entre mulheres, sem ter a perspectiva masculina ou argumento masculino. Mas com um festival como esse, podemos chegar a pessoas que ainda não tem muito conhecimento sobre o tema, e por isso quero que ele seja aberto a todos.”

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Karin enxerga as produções cinematográficas feministas como um meio mais direto de chegar a um público leigo no assunto. “Acho que filmes são muito bons para pessoas que nunca tiveram a ver com o movimento feminista. Elas podem olhar o filme sem pensar muito e sem saber muito a respeito antes de assisti-lo.”

Ao levar ao público algo que ele não conhece, foram escolhidos para a abertura dois filmes de temáticas que ainda recebem pouca atenção: o movimento feminista negro e filmes feministas de ficção científica.

O primeiro filme exibido foi o documentário “Reflections unheard: Black Women in Civil Rights”, feito pela americana Nevline Nnaji, que conta histórias pessoais de ativistas mulheres do movimento negro dos anos 1960. Os relatos dessas mulheres revelam a luta para participar de um movimento negro dominado por homens e de um movimento feminista liderado por mulheres brancas de classe média.

Advantageous - Dir- Jennifer Phang

O segundo foi o longa “Advantageous”, da diretora Jennifer Phang. O filme é um dos poucos trabalhos de ficção científica dirigido, escrito e estrelado por mulheres. Nele, a protagonista se vê prestes a perder o emprego como porta-voz da empresa Center for Advanced Health and Living por ter uma aparência já um pouco velha – mesmo estando entre seus 40 anos. Sem opções para dar uma boa educação para sua filha, ela se desespera e se submete a um procedimento cirúrgico extremo (feito pela mesma empresa), a fim de se tornar mais jovem. Seu objetivo é voltar a trabalhar e, assim, pagar a educação da filha em uma escola particular.

A Bárbara Gondar já falou sobre ele aqui na Ovelha.

Os dois filmes já deram uma ideia do que se trata o festival: trazer temáticas feministas de perspectivas inesperadas.

Temas e escolha dos filmes

Na programação, estão três curtas brasileiros: “ISTO”, de Mariana Collares; “Bird Skin” (Pele de Pássaro), de Clara Peltier; e “Mother of Pearl” (Madrepérola), de Deise Hauenstein. Os três foram os únicos filmes brasileiros que Karin recebeu nas inscrições para o festival. “São de uma qualidade muito alta, são bonitos e bem produzidos. Não posso falar muito sobre o movimento feminista na América do Sul, porque não sei muito sobre isso. Mas tenho a impressão de que está se formando uma nova onda (feminista) muito forte agora”, opina.

Os filmes são escolhidos pela própria Karin, em um processo de análise do material inscrito e de constante busca por coisas novas. O importante é que as produções tenham mulheres como protagonistas e que suas representações fujam de estereótipos femininos. Elas não precisam ser necessariamente feitas só por mulheres, mas também por diretores, produtores, atores que não se identifiquem com a cultura tradicional de gênero.

Quanto ao conteúdo, ele deve se encaixar às ideias feministas. Relacionado a isso, as temáticas podem ser variadas. “Quando se tem um tema específico, a gente acaba se limitando para escolher os filmes e eu acho legal ter diferentes temáticas dentro do festival. Assim, todo ano tem coisas novas, eu aprendo coisas novas e outras perspectivas conseguem ser apresentadas”, explica Karin. Neste ano, alguns dos assuntos presentes na Berlin Feminist Film Week são Body Positive (sobre o empoderamento das mulheres através do corpo), representatividade negra e lésbica, filmes de comédia e filmes feministas de ficção científica.

Criação do evento

A Berlin Feminist Film Week teve sua primeira edição em 2014. Karin trabalhava na companhia de cinema Mobile Kino, que promove sessões de cinema temporárias em diferentes locais de Berlim, e teve a ideia de organizar um programa com curtas-metragens feministas. Conversando com amigos sobre a organização, eles descobriram que em Londres existia o London Feminist Film Festival. “Vimos que não havia até então nenhum festival do tipo em Berlim e tínhamos aí um espaço para fazer alguma coisa semelhante ao de Londres”. Para a primeira edição, a organizadora tinha poucas expectativas e achava que só seus amigos e conhecidos viriam ao festival.

Para sua surpresa, desde 2014, o evento chamou atenção de mais pessoas além do círculo de amizade de Karin. Sorte para os que moram em Berlim. Baseado no saguão cheio do cinema Babylon no dia da abertura, a Berlin Feminist Film Week ainda terá muitas edições.

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