Engravidar, pode?

Ilustração por Marcella Tamayo exclusivamente para a Ovelha
Ilustração por Marcella Tamayo exclusivamente para a Ovelha

“Bom dia, um teste de gravidez, por favor.”

Uma pergunta simples e concisa. Nada que não pudesse ser respondido com um “R$ 15”. Fui atendida por dois vendedores, homens. O primeiro me ofereceu três modelos, do menos ao mais confiável, menos e mais caros. Escolhi o intermediário. Ao colocar o produto em um cesto, ele não conseguiu conter mais o olhar preocupado que assumiu desde que eu passei do pedido de um remédio para o teste: “Nossa, boa sorte, tomara que não dê nada”.

Incrédula, dei um meio sorriso, peguei meu cesto e fui para o caixa. Um remédio, dois remédios, uma pastilha Valda. “Esses dias passei pelo mesmo perrengue, graças a Deus deu negativo”, disse o segundo. Comentários feitos a uma cliente que, até ali, poderia estar grávida. Quase que por reflexo, fiz questão de dizer que queria que desse positivo. O primeiro, que continuava por perto, me olhou estranho. O outro, constrangido, desandou num discurso de ser contra o aborto. Melhor ainda. Quer dizer que ficar grávida era ruim, mas se eu estivesse grávida, aborto também seria algo péssimo. Eu que lidasse com essa má sorte que Deus não me deu a graça de me livrar.

Dessa vez, fazia a compra como um favor. Era desses favores que se faz e que se pede – aí também está um problema. Por que, afinal, não podemos consumir sozinhas e seguras esse produto? A resposta é evidenciada nos relatos dos primeiros parágrafos. Somos, sim, julgadas. E nos importamos mais ou menos com isso. Não consegui deixar de pensar: será que alguém faria algum comentário se eu estivesse acompanhada por um homem?

O julgamento aconteceu numa situação de consumo, regida pela famosa frase “o cliente tem sempre razão”. Pode até ser, mas clientes específicos, mulheres aparentemente fragilizadas [e também pobres, negros, moradores de periferia], não podem consumir sem receber um olhar torto, sem um pitaco não pedido.

Os atendentes eram homens. E isso significa que eles nunca passarão pela sensação de ter uma criança crescendo dentro de si, nem serão capazes de entender as questões psicológicas e físicas que isso envolve. O assunto é simplesmente complicado demais para ser reduzido a frases de abominação. Ainda mais vindo de profissionais que estão prestando um serviço.
 
[caption id="attachment_3284" align="aligncenter" width="1024"]Ilustração por Marcella Tamayo exclusivamente para a Ovelha Ilustração por Marcella Tamayo exclusivamente para a Ovelha[/caption]  
A gravidez sempre tem um peso e só parece ser aceitável no caso de um casal heterossexual, estável. Caso contrário, a gravidez tem sempre um culpado. Aquelas que carregam “o fardo”, no caso, nós mulheres. Fomos nós mulheres que não tomamos o anticoncepcional. Fomos nós que não tomamos a pílula do dia seguinte.

O corpo é nosso. O que passa na cabeça dessas pessoas? Posso querer e posso não querer estar grávida. Isso é da conta de quem? Aparentemente tenho muito que dar satisfação.

Ao compartilhar a história, ouvi de amigos que os vendedores ali só estavam sendo simpáticos, que eles sabem que quem procura esses testes geralmente está desesperada, e que jovens não costumam querer engravidar. Mas, calma, simpáticos a uma situação que nunca viverão? Isso me soa um pouco superior, não? Que peso esse comentário teria feito a alguém de fato jovem e desesperada?

Saí da farmácia aliviada por ter sido eu e não a pessoa que fez o teste quem passou por esse constrangimento. Qualquer hora volto na farmácia para anunciar que deu negativo e aí sim ganhar o direito de andar de cabeça erguida e poder me dizer digna da graça de Deus. Não é preciso muito esforço para perceber que tem algo errado.
 

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Texto pela colaboradora convidada Mariana Tokarnia.
Ilustração exclusiva por Marcella Tamayo.

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Cobertura Ovelha: Casa TPM

 
A editora Trip convidou a Ovelha para cobrir o evento Casa TPM deste ano. Ficamos muito honradas e felizes pela lembrança e fomos conferir o que rolou nos dias 29 e 30 de agosto no Nacional Club, zona oeste da cidade de São Paulo.

 

 
Este foi o primeiro evento que fizemos uma cobertura. E também foi o primeiro encontro entre algumas das principais colaboradoras Ovelha: Bê Gondar, Karoline Gomes, Bruna Bento, Bárbara Malagoli (Baby C) e eu, Nina.

 
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A edição deste ano da Casa TPM levantou dois temas, um para cada dia de evento. Os debates de sábado giravam em torno de como as mulheres estavam inseridas, representadas ou participando da tecnologia. No domingo, a discussão foi sobre consumo consciente.

Resolvemos apresentar nossas considerações num formato despretensioso, divertido, honesto e fluido, como um bate-papo. Como tem muitas fotos e texto, dividimos em mais duas páginas. Use as setas do teclado (← →) para navegar ou, no smartphone, passe com o dedo.

 
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Todas as fotos e GIFs por Nina Grando, Bárbara Malagoli e Bruna Bento.
 

 

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Mariana Tokarnia.
Ilustração exclusiva por Marcella Tamayo.

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