Já que você é uma puta mesmo

Ilustração feita com exclusividade por Malu Risi;

Amiga, senta aqui, vamos conversar sobre essa verdade inevitável.

A coisa mais fácil que você vai conseguir no mundo por ser mulher é que te digam uma coisa: que você é uma puta. Tudo que você fizer, não importa o seu nível de ingenuidade, pureza ou a integridade do seu hímen, levará alguém a te dizer, em algum momento da sua vida, que você é uma puta.

É adolescente e começou a dar uns beijinhos por aí? Puta.

Arrumou um namoradinho? Puta.

Decidiu que o supracitado é um menino ponta firme, querido, que te respeita e quer perder sua virgindade com ele? Puta.

Deu pro primeiro que viu na frente porque não acredita nesse papo de pureza? Puta.

Fez virilha cavada? Puta.

Usou batom ou esmalte vermelho? Puta.

Transou no primeiro encontro? Puta.

Botou aquele vestido colado? Puta.

Minissaia? Coisa de puta.

Se manifestou politicamente pela equidade de gênero, ou seja, se assumiu feminista? Puta. Puta, porca, suja, fedida e peluda.

É bissexual? Puta e ainda por cima safada.

Poliamorista? Puta.

Sai com as amigas solteiras a noite pro bar? Puta.

Tem namorado e sai com as amigas sem ele? Puta.

Escolheu um curso na faculdade que é cheio de homem? Puta.

Passou naquela matéria dificílima? Claro, fez favores sexuais pro professor, né, sua puta.

Foi promovida? Puta. Deu pro chefe, óbvio.

Gosta de qualquer atividade julgada masculina pelo senso comum, tipo futebol ou videogame? Puta querendo chamar atenção.

Amamentou em público? Puta descarada que exibe os peitos.

Mãe solo? Puta das putas.

Posou nua? Puta.

Gosta de beber? Puta.

Gosta de fumar unzinho? Puta drogada.

Foi assediada? Bem feito, ninguém mandou agir igual uma puta.

Apanhou do marido? Bom, ele deve ter descoberto que você é uma puta.

Às vezes a gente fica se remoendo porque não queremos ser vistas em determinado lugar numa certa hora. Ou ficamos preocupadas ao exibir um decote mais generoso. Tem também aquelas que deixam de sair com todas as amigas quando namoram, porque vai que algum conhecido te vê por aí na noite sem o seu varão à tiracolo. Ou ainda, mulheres que acham que uma vez comprometidas, não tem o direito de se masturbar.

Só que esse fatídico momento marcado pelo julgamento alheio vai chegar, infalivelmente. Daí, minha querida, você vai ser a puta, a vagabunda, a fácil, a galinha, a suja, a vadia, a meretriz, a sirigaita, a piranha, a piriguete… e mesmo se você agir de forma impecável, totalmente dentro das diretrizes cristãs, tal qual uma flor da família tradicional brasileira, trago notícias: eventualmente você será a corna, a frígida, a mal comida. Não tem escapatória. Se você é mulher, sua sexualidade, exercida ou não, sempre será usada contra você.

Nem a Sandy escapa dessa máxima. Então, assim, já que você vai ser puta aos olhos de outrem, sob quaisquer circunstâncias, pare de se privar de fazer certas coisas pelo medo de que isso vá acontecer. Troque essa apreensão torturante por uma certeza libertadora.

Elimine logo essa preocupação da sua cabeça. Foca no trabalho, na carreira, nos seus filhos, no seu marido, no seu hobbie, em teorias pra próxima temporada de Stranger Things, em capturar nhenhentos Magikarps pra evoluir pra um Gyarados porque, mais cedo ou mais tarde, isso vai cair sobre você também.

Já que você é uma puta mesmo, aproveite a estadia e faça logo a porra que você quiser.

 
[separator type="thin"] Ilustração feita com exclusividade por Malu Risi.
 

Mais de Débora Nisenbaum

O inevitável espelho da mulher bissexual

Chegamos na casa de Joana*, já naquela ansiedade de quem sabe o que vem a seguir. Ela me levou pro quarto. Deitei seu corpo na cama, beijando seu pescoço. Uns amassos a mais e umas roupas a menos, ela diz

apaga a luz.

Como assim, apaga a luz?

tô feia, não me sinto confortável.

Joana é uma das mulheres mais maravilhosas que eu já conheci. Inteligente, independente, estilosa, linda de qualquer ângulo e em todos os detalhes. E eu ia transar com ela de luz apagada porque aparentemente eu era a única pessoa naquele quarto que enxergava tudo isso.

Ser bissexual e mulher é uma experiência muito complexa e surpreendente. Das vivências que tive, a que mais me marcou foi a oportunidade de enxergar as mulheres com quem eu me relacionei como um reflexo daquilo que eu mesma sou. Claro que é possível notar isso sendo lésbica, mas a bissexualidade acaba permitindo que a gente perceba as discrepâncias quando nos relacionamos com gêneros diferentes. E infelizmente elas são assustadoras.

Nos meus relacionamentos com homens, a socialização masculina era bastante evidente. Dava pra perceber que eles sempre tentavam se mostrar fortes, independentes, pragmáticos. Mas se eles falhavam em assinalar todos os quadradinhos da ficha de Cabra Macho™ essa falha não impedia que eles se relacionassem e também não fazia com que eles tivessem um mau juízo de si mesmos. Vida que segue, bola pra frente, na maior parte das vezes ninguém vê essa ausência da performance do machão como um defeito. Se ele chora, é sensível. Se não é fortão, é porque é inteligente. Se é gordo, tem um super senso de humor. Para as mulheres, não é bem assim. Lembra daquela pesquisa que diz que o maior medo dos homens quando encontram uma mulher que conheceram pela internet é de que ela seja gorda? Pras minas, o maior medo é de que o cara seja um assassino.

Prioridades, né.

Voltando à Joana: ela era uma pessoa muito mais fascinante do que a grande maioria dos homens com quem eu já saí. E ela se achava feia. Esquisita. Praticamente não saía de casa sem maquiagem, não gostava de tirar foto. Era, como grande parte das mulheres, extremamente preocupada com seu peso, embora não parecesse estar cinco quilos acima do que é considerado ideal. E isso me doía de um jeito horrível — em parte porque rasga a gente por dentro ver uma pessoa querida com baixa autoestima. Em parte porque… bom, porque eu sabia que já fui, sou, ou serei a Joana de alguém.

Num relacionamento, seja ele qual for, a gente devagarzinho vai notando os traumas, as feridas, os pontos mais sensíveis de quem a gente gosta. A diferença, quando você é mulher e se relaciona com mulheres, é que você percebe um monte desses machucados como resultantes de um contínuo e inescrupuloso esmagamento sistemático da nossa autoestima. Desde que somos pequenas, somos criadas para acreditar que nunca estamos bonitas e nunca somos suficientes. E somos diariamente bombardeadas com mensagens que continuam reiterando essa perspectiva apodrecida de nós mesmas — e alterando a nossa percepção acerca de como deveríamos ser.

Nenhum dos homens com quem me relacionei me pediu pra apagar a luz — e uma boa parte deles não tinha um corpo padrãozinho. Nenhum tinha vergonha do seu cabelo, das espinhas no rosto, do formato dos genitais. Isso sequer era assunto com eles. E isso não é um problema, isso é ótimo. Só me dói que não seja assim com as mulheres. Me dói que não seja assim com a Joana. Me dói que não seja assim comigo.

*Nome fictício.
 

Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez a.k.a. Emily

Leia mais
Amiga, senta aqui, vamos conversar sobre essa verdade inevitável.

A coisa mais fácil que você vai conseguir no mundo por ser mulher é que te digam uma coisa: que você é uma puta. Tudo que você fizer, não importa o seu nível de ingenuidade, pureza ou a integridade do seu hímen, levará alguém a te dizer, em algum momento da sua vida, que você é uma puta.

É adolescente e começou a dar uns beijinhos por aí? Puta.

Arrumou um namoradinho? Puta.

Decidiu que o supracitado é um menino ponta firme, querido, que te respeita e quer perder sua virgindade com ele? Puta.

Deu pro primeiro que viu na frente porque não acredita nesse papo de pureza? Puta.

Fez virilha cavada? Puta.

Usou batom ou esmalte vermelho? Puta.

Transou no primeiro encontro? Puta.

Botou aquele vestido colado? Puta.

Minissaia? Coisa de puta.

Se manifestou politicamente pela equidade de gênero, ou seja, se assumiu feminista? Puta. Puta, porca, suja, fedida e peluda.

É bissexual? Puta e ainda por cima safada.

Poliamorista? Puta.

Sai com as amigas solteiras a noite pro bar? Puta.

Tem namorado e sai com as amigas sem ele? Puta.

Escolheu um curso na faculdade que é cheio de homem? Puta.

Passou naquela matéria dificílima? Claro, fez favores sexuais pro professor, né, sua puta.

Foi promovida? Puta. Deu pro chefe, óbvio.

Gosta de qualquer atividade julgada masculina pelo senso comum, tipo futebol ou videogame? Puta querendo chamar atenção.

Amamentou em público? Puta descarada que exibe os peitos.

Mãe solo? Puta das putas.

Posou nua? Puta.

Gosta de beber? Puta.

Gosta de fumar unzinho? Puta drogada.

Foi assediada? Bem feito, ninguém mandou agir igual uma puta.

Apanhou do marido? Bom, ele deve ter descoberto que você é uma puta.

Às vezes a gente fica se remoendo porque não queremos ser vistas em determinado lugar numa certa hora. Ou ficamos preocupadas ao exibir um decote mais generoso. Tem também aquelas que deixam de sair com todas as amigas quando namoram, porque vai que algum conhecido te vê por aí na noite sem o seu varão à tiracolo. Ou ainda, mulheres que acham que uma vez comprometidas, não tem o direito de se masturbar.

Só que esse fatídico momento marcado pelo julgamento alheio vai chegar, infalivelmente. Daí, minha querida, você vai ser a puta, a vagabunda, a fácil, a galinha, a suja, a vadia, a meretriz, a sirigaita, a piranha, a piriguete… e mesmo se você agir de forma impecável, totalmente dentro das diretrizes cristãs, tal qual uma flor da família tradicional brasileira, trago notícias: eventualmente você será a corna, a frígida, a mal comida. Não tem escapatória. Se você é mulher, sua sexualidade, exercida ou não, sempre será usada contra você.

Nem a Sandy escapa dessa máxima. Então, assim, já que você vai ser puta aos olhos de outrem, sob quaisquer circunstâncias, pare de se privar de fazer certas coisas pelo medo de que isso vá acontecer. Troque essa apreensão torturante por uma certeza libertadora.

Elimine logo essa preocupação da sua cabeça. Foca no trabalho, na carreira, nos seus filhos, no seu marido, no seu hobbie, em teorias pra próxima temporada de Stranger Things, em capturar nhenhentos Magikarps pra evoluir pra um Gyarados porque, mais cedo ou mais tarde, isso vai cair sobre você também.

Já que você é uma puta mesmo, aproveite a estadia e faça logo a porra que você quiser.

 

Ilustração feita com exclusividade por Malu Risi.
 

" />