A treta do Troféu HQMIX 2015

A bomba estourou – ilustração feita com exclusividade por Janis Souza

Ao lado de várias outras quadrinistas, jornalistas e pesquisadoras de quadrinhos, participei da redação da carta de repúdio contra uma campanha de divulgação machista, promovida pelo Troféu HQMIX. O tardio pedido de desculpas veio num tom contrariado. Recusaram-se a fazer diálogo com a carta de repúdio, cujas claras exigências foram totalmente ignoradas, também faltou um pedido de desculpas pessoal, por um telefonema bastante inadequado.

Não sabe de nada? Faça o dever de casa dessa treta aqui, aqui ou aqui.

Apesar de assinada por mais de 300 profissionais relacionadas e relacionados à produção de HQ, além de leitoras e leitores, a carta foi ridicularizada por outros quadrinistas e recebida com resistência e menosprezo por alguns dos principais organizadores do prêmio. Falou-se muito das glórias do passado, das contribuições do prêmio para os quadrinhos brasileiros, do moralismo e da burrice das feministas, de Charlie Habdo, de mulher gostosa, mas até agora, pouco discutiu-se a respeito do que realmente importa à denúncia: o machismo naturalizado e a representatividade feminina nos quadrinhos nacionais.

Me proponho aqui a responder duas perguntas importantes para compreender melhor esse episódio. Por que nós, mulheres que fazemos a cena de quadrinhos acontecer, nos incomodamos tanto? E qual o problema da campanha do Trófeu HQMIX 2015? Vamos do básico, partindo do óbvio. Mulheres sempre desenharam e leram quadrinhos. Porém conhecemos poucas quadrinistas mulheres, em comparação a quadrinistas homens, por dois fatores principais.

 

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Sirlanney, sobre a dificuldade de ser levada a sério como quadrinista.
 
Primeiro, por culpa da socialização machista e compulsória das mulheres, voltada para o ambiente privado, afazeres domésticos, servidão ao homem e à família, que até hoje se manifesta nas mais cruéis e conservadoras formas. Em pleno ano 2015, tenho notícias de mulheres que apanham e são expulsas de casa por namorar, que tiveram seu direito à educação restringido pela própria família ou marido, mulheres que volta e meia são mantidas em cárcere privado pelo marido ou pelos pais, jovens mães que não podem se dedicar a uma profissão por criarem sozinhas seus filhos, abandonados pelos pais; jovens garotas que rejeitam oportunidades para agradar um namorado controlador, garotas que precisam se prostituir para sobreviver. Por essas e outras, a quantidade de mulheres, em qualquer ocupação não doméstica e não associada à maternidade ou o sexo, continua menor do que a de homens.

O outro fator é a invisibilização sistemática da produção de mulheres nos quadrinhos (e na história da humanidade). Ela acontece quando grandes nomes da indústria naturalizam a ausência de mulheres na área e menosprezam a massiva contribuição de mulheres à sua produção; quando os eventos não se preocupam em convidar mulheres para sua programação; quando antologias não incluem produções de mulheres, quando editoras não se propõem a publicar autoras, quando jornais e sites não procuram entrevistar mulheres, quando prêmios de importância nacional não contemplam nossas produções, quando conteúdos feministas tem mais chances de serem premiados se produzidos por homens, entre muitas outras formas mais ou menos veladas.

A invisibilização não acontece necessariamente por maldade ou preconceito de quem invisibiliza, mas é um hábito cuja reprodução se torna viciosa e inevitável, se não houver quem lhe combata objetivamente. Sem mulheres à vista, nossa ausência é naturalizada nos espaços da cena, a ideia dominante passa ser a de que não há mulheres presentes porque não gostamos ou não queremos participar. Consequentemente, menos pessoas sentirão nossa falta no futuro e assim vai. Acabamos sem espaço e o espaço que há é monopolizado por homens.

 

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Trecho de uma hq da autora Sahr
 
Agregue à ausência naturalizada de mulheres, o fato de que a maioria esmagadora dos autores de quadrinhos (e outras linguagens) costuma representar mulheres quase que exclusivamente em funções sexuais e românticas. Mesmo quando a personagem é uma super-heroína e seu arco na história nada tem a ver com sexo ou romance, ela ainda precisa ser sexy para o leitor. A maior semelhança entre a obra de um quadrinista facista, que insiste em desenhar super-heróis brasileiros, e a obra de um quadrinista underground, que se propõe desenhar temas de “contra-cultura”, é justamente o tratamento que ambos os autores dispensam às suas personagens. Se não a mulher como objeto-sexual, a mulher como saco de pancadas, cuja humilhação parece aliviar o rancor que autor e leitores sentem pelas mulheres. Não raro, a personagem objeto-sexual também é o saco de pancadas. Deste cenário é que surgem comentários como este:

 

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Na tentativa de ironizar a denúncia de machismo, a defesa ironiza o próprio prêmio. Direto da treta Trófeu HQMIX 2015.
 
O fortalecimento dessa atmosfera masculina e machista em volta dos quadrinhos, entre uma quantidade de quadrinistas que, por um longo tempo, se manteve pequena o bastante, sendo possível que a maioria se conhecesse e se relacionasse como broder, contribuiu para o empobrecimento da criticidade do meio, o tornou permissivo com a reprodução de mentalidades discriminatórias, com o baixo comprometimento dos autores em fazer pesquisa. Quando profissionais brasileiros de quadrinhos, cartuns e charges, combatem as críticas argumentando que sua produção é “só uma piada” ou que “os leitores interpretaram errado”, por exemplo, está refletida aí a falta de comprometimento em se aprofundar no que faz, a recusa em assumir as responsabilidades inerentes à sua linguagem.

Percebendo os problemas desse cenário, em 2010 mulheres jornalistas (Mariamma Fonseca, Samara Horta e Samanta Coan) se uniram para construir o site Lady’s Comics, dedicado a dar visibilidade ao trabalho das quadrinistas e outras mulheres envolvidas no fazer das histórias em quadrinhos. Em 2012, no Facebook, Paula Mastroberti criou o grupo de discussão Mulheres em Quadrinhos, um grupo aberto para problematizar a representação das personagens e os lugares da mulher nos quadrinhos e na sociedade. Finalmente, em 2013, Beatriz Lopes criou o grupo Zine XXX, que pessoalmente considero o gatilho para a transformação da disposição das mulheres quadrinistas.

 

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Beatriz Lopes tramando o futuro.
 
Movida pelas mesmas questões do Lady’s e do MeQ, Beatriz Lopes, uma jovem carioca feminista, organizou a antologia Zine XXX. A coleção de zines, financiada coletivamente, publicou em 2014 mais de 70 mulheres, entre profissionais e curiosas. Mais importante que a própria publicação, a reunião de quadrinistas profissionais com muitas jovens mulheres que queriam começar a fazer quadrinhos, dentro de um espaço que se afirmava explicitamente feminista, facilitou as primeiras articulações políticas entre quadrinistas brasileiras e outras agentes. O desejo da mobilização foi inaugurado pela construção de uma carta de repúdio, que denunciava o abuso de uma cosplayer por um quadrinista, ocorrido no FIQ de 2013, que em conjunto com outras manifestações instigou uma carta oficial do próprio FIQ.

Muitas quadrinistas e leitoras brasileiras aparecem, a maioria delas feminista, o que considero ser imprescindível. O debate da representação feminina invadiu até os nichos de quadrinhos mais conservadores e misóginos. Mais seguras e politizadas, as quadrinistas se dispõem a criticar os trabalhos dos colegas e a encarar conflitos com profissionais já reconhecidos dos quadrinhos e do “humor gráfico” brasileiros. Durante esses conflitos, nós já vimos de tudo: desde nos mandarem lavar a louça, menosprezarem nossa inteligência, nos chamarem de burras moralistas, criarem tumblrs falsos e atribuir a autoria a nós, produzirem quadrinhos e charges anti-feministas, publicarem tirinha caluniosa em jornal de grande circulação, boicotarem eventos de discussão da produção feminina, até “predar” sexualmente jovens quadrinistas.

As quadrinistas criaram projetos coletivos de webcomics, lançaram livros de quadrinhos autorais, antologias, passaram a participar de mais eventos, dar mais oficinas e entrevistas, nos conhecemos pessoalmente e fortalecemos parcerias e amizades. O Lady’s Comics, além de continuar produzindo conteúdo e registrando a existência das quadrinistas, organizou o primeiro Encontro Lady’s Comics em 2014, em Belo Horizonte. Criou o BAMQ, banco de dados de mulheres quadrinistas em 2015. Rute Aquino, Débora Santos e Amanda Alboino organizaram em 2014, em Fortaleza, o evento [Des]enquadradas. Recentemente conhecemos em São Paulo, a quadrinista Trina Robbins, num encontro especial e exigido pela própria autora. Aprendemos sobre a história da sua militância feminista nos quadrinhos norte-americanos e nos identificamos com os conflitos relatados. Nunca, o que eu chamo de “role das minas” nos quadrinhos, esteve tão em evidência, tão ativo, politizado e produtivo quanto se encontra hoje. Nunca houve tanta mina fazendo quadrinhos no Brasil.

 

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A peça da campanha que motivou a carta de repúdio.
 
Quando um evento, antologia ou iniciativa qualquer se propõe a representar e prestigiar a produção nacional de quadrinhos, nós mulheres entedemos que seremos representadas e prestigiadas. O que nos incomoda profundamente na campanha e na postura do Trófeu HQMIX é a explícita ausência de um cuidado e de um compromisso real com a responsabilidade de reconhecer e legitimar as mulheres como quadrinistas importantes, agentes de referência na construção da história dos quadrinhos brasileiros. O que vimos é a reafirmação da função das mulheres como objetos sexuais e a autorização do evento para que a representação do nosso corpo continue sendo compulsoriamente utilizado como mero recurso de alívio do ódio e tesão dos homens. O Trófeu HQMIX precisa repensar sua relação com as mulheres e com as produções delas.

Não é a primeira vez que o prêmio é amplamente criticado. Seja por premiar durante anos seguidos os mesmos indicados, sem falar na premiação do Danilo Gentili como “fã de quadrinhos”; ter o processo de indicações e votação pouco transparentes, contemplar apenas 13% de mulheres entre suas indicações em 2015 ou por compartilhar foto de mulher pelada no convite à premiação. É óbvio que este prêmio, apesar de sua memória e valiosas contribuições passadas, não honra e não representa o panorama atual de quadrinhos nacionais. Ao longo dos dias após a denúncia, fomos muito acusadas de estar ameaçando a carreira dos organizadores e a existência do próprio prêmio, o que me parecia um exagero. Tanto foi repetida essa acusação, que passei a acreditar que talvez, nós mulheres, realmente tenhamos esse poder de revolucionar o que está velho e datado, o que recusa-se atualizar.

 

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Por Carolina Ito, da Salsicha em Conserva, indicada ao Trófeu HQMIX 2015 na categoria “webcomics”
 
Escrevo este último parágrafo direcionado especialmente para as amigas e colegas quadrinistas, jornalistas, pesquisadoras, donas de lojas especializadas, editoras e organizadoras de eventos. A iniciativa da denúncia e seu desenvolvimento, possibilitou o exercício da articulação e a demonstração da nossa força de mobilização, que foi supreendente inclusive para nós. Considero grave a escassez de documentação das nossas ações, a falta de relatos pessoais e especializados fora do Facebook. Como disse a Trina em nosso encontro, se não escreverem sobre a gente, não entraremos para a história, seremos esquecidas. Por isso convido a todas para construir e registrar mais dos nossos próprios conhecimentos e impressões, documentar nós mesmas os conflitos. Prezar pelo estímulo e pela preservação deste sentimento de coletividade poderoso, que na última semana preencheu as janelinhas do nosso inbox, revelando parcerias poderosas!
 

Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza.

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