Setembro amarelo: vidas que balançam

Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)

A primeira vez que eu considerei não continuar com essa tal “vida” eu tinha seis anos. Eu havia brigado com a minha irmã mais velha e me sentido muito culpada por isso. Sentindo-me não merecedora de continuar, misturei detergente (que, na minha imaginação, seria capaz de me matar) no leite do sucrilhos e comecei a tomar. O gosto ruim me impediu de continuar e só então fui tomada pela culpa da dor que poderia estar causando à minha mãe – dor que segurou minha mão e minha cabeça diversas vezes.

Depois dessa foram poucas tentativas, mas muitos e muitos planos, numa batalha interna exaustiva. Por vezes, quando agir contra minha vida me parecia extremo ou dramático, eu celebrava adoecimentos internamente e negligenciava minha saúde, como maneira de, quem sabe, deixar a própria morte chegar, ajudando-a a acelerar o passo.

A verdade é que existir me é uma coisa muito cansativa com a qual nunca me dei bem – e parar para olhar as flores ou os grafites da cidade, que me agradam mais, não reduz em nada essa fadiga. Não importa quais planos ou projetos eu tenha pro futuro, eles nunca parecem compensar um dia-a-dia de estar num mundo que muito me incomoda – não importa meu humor ou quão bem eu esteja.

Setembro, coincidentemente mês do meu aniversário, é também mês da prevenção ao suicídio (conhecido como Setembro Amarelo). Muitas campanhas que vejo pela internet me incomodam porque parecem partir de pessoas que não sabem o que é considerar morrer, desejar morrer. Porque isso não é, definitivamente, questão de parar para cheirar as flores ou apreciar as pequenas coisas. Se você está namorando a única porta de saída é porque o perfume da flor deixou de compensar tem um tempo.

Decidi escrever sobre isso, então, como aconselhamentos de quem sabe o quanto essa briga dentro da nossa cabeça é difícil.

Não é sempre que eu considero suicídio. Eu tenho crises em que, repentinamente, acho a vida ou demasiadamente insuportável ou me acho não merecedora da vida, entrando numa espiral de culpa e autodestrutividade. É difícil, mas é importante aprender a romper com a espiral.

Você pode tentar se distrair. Enganar sua cabeça pra que ela foque em outra coisa. Às vezes isso é possível. Ler um livro, ver um filme, uma série, olhar o tumblr, jogar videogame. Tem vez que tudo que você precisa é esquecer essas ideias. Mas eu sei que nem sempre isso é possível.

Lembre-se das coisas que te mantém aqui. Você tem um sonho para o futuro e tem enfrentado as dores para realizá-lo? Pense nele. Se pensar nos seus sonhos te levar a pensar na impossibilidade deles, pense no quanto você já tem feito para atingi-los e no quão injusto contigo seria parar agora.

Se você é como eu e fica no mundo pela companhia, pense nas pessoas que você ama. É muito fácil, quando entramos nessa espiral, que pensar nessas pessoas nos faça nos sentirmos egoístas por querermos abandonar a vida e sabermos que isso causará dor a elas – o que pode piorar ainda mais a culpa e autodestrutividade – então tente pensar nos motivos pelos quais aquelas pessoas te amam. Pense no que elas valorizam em você. Pense que você tem valor pra elas – e que elas não podem estar tão erradas sobre você, afinal, você também gosta delas, você sabe que elas são pessoas inteligentes.

Pense nas coisas que você faz e que você valoriza. Você as tem. Você não se odeia sempre. É difícil lembrar-se disso nessas horas, mas o esforço é importante. O que você gosta em você? O que é bom em você? O que você pode fazer pra mudar aquilo que você não gosta em você?

Se você sente que não fará falta, lembre que você está mentindo pra si mesmo. Você faz falta – e se for pra uma pessoa já é muita coisa. O nosso mundinho capitalista muitas vezes nos faz pensar quantitativamente ou associar nosso valor a coisas estúpidas – mas você tem muito valor. Você é uma pessoa única com potencialidades únicas. E, num mundo cheio de gente, isso pode não parecer muita coisa, mas é.

 
[caption id="attachment_6539" align="aligncenter" width="800"]Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy) Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)[/caption]  
Conte para alguém em quem você confia. Ligue para a pessoa e diga: “eu estou pensando em me matar, me ajuda”. Eu sei que isso é muito difícil – a gente tem medo de não ser compreendida ou de machucar a outra pessoa – mas ter ajuda e companhia nessas horas pode fazer toda a diferença.

Se a vida está muito, mas muito difícil, lembre que por um fim nela acaba com a possibilidade de você viver tempos melhores. A fase em que eu mais tive ideações suicidas – ou seja, desejei e planejei me matar – foi na minha adolescência, um tempo bastante complicado da minha história. Eu sou uma pessoa muito mais feliz hoje (e sim, mesmo que eu ainda tenha uma série de crises e uma série de questões de saúde mental, eu me considero uma pessoa muito feliz. Pode parecer contraditório, mas eu acho que existir como humana é uma contradição mesmo, haha). Eu conheci pessoas com as quais me dou muito bem. Conheci o amor da minha vida, com quem estou já há sete anos. Eu conheci causas pelas quais eu quero lutar. Eu estou me tornando uma pessoa da qual eu me orgulho.

E, nos aspectos de pensar uma vida melhor, um conselho que eu acho fundamental é: livre-se das pessoas que te fazem mal. Saia dos relacionamentos abusivos. Se afaste de pessoas que querem que você seja outra. Eu sei que nem sempre isso é possível, pois muitas vezes essas pessoas são da sua família e você precisa conviver com elas, morar com elas. Mas reduza ao máximo essas pessoas e se aproxime ao máximo daquelas que te aceitam e te amam. Eu sei que cortar relacionamentos é algo difícil e a gente pode pensar “poxa, mas fulana não faz por mal” – foda-se. Você está protegendo a sua vida e não importa quão bem intencionada a sua prima é quando diz que você deveria ser x ou y, se ela está potencializando ideias negativas tuas, isso precisa acabar.

Procure ajuda. Procure acompanhamento psicológico – e, o mais importante nisso, procure uma profissional com a qual você se sinta confortável, em quem você confie. Terapia só funciona quando você se sente à vontade. A depender do teu caso e situação, pode ser que você precise de ajuda psiquiátrica. Não há nada de errado com isso. A gente precisa das ajudas que precisa e precisar de ajuda não faz ninguém ser fraca.

Eu sei que nem todo mundo vive as ideações da mesma maneira. Esses conselhos são apenas o que funciona pra mim e como cada pessoa é uma pessoa, cada cabeça é uma cabeça e cada caso é um caso. Mas se funcionar e ajudar duas ou três pessoas eu já me sinto bastante feliz.

Se você ama alguém que sofre de ideações suicidas, esteja do lado dela e demonstre estar lá pra ela. Escute os choramingos, desabafos, crises. Mas não se culpe se você não aguentar ou não der conta de vez em quando. Nós todos temos que cuidar da nossa própria saúde mental e cuidar de alguém em profundo sofrimento pode ser cansativo.

Mais importante: não se culpe se a pessoa eventualmente perder essa luta. É uma luta dela e, por mais que pessoas ao nosso redor possam ajudar ou apoiar, no fim quem tem que derrotar nossos monstros somos nós. E a última coisa que nós desejamos é que vocês se sintam culpados. Mesmo.

Suicídio não é uma questão fácil de lidar, de se conversar. É um tema rodeado de estereótipos, de medos, de tabus. Mas é um tema que a afeta a vida de muitas pessoas, de maneiras extremamente dolorosas e sobre o qual precisamos falar. Precisamos conversar e assumir nossas experiências para que mais pessoas possam sentir-se confortáveis em se abrir sobre o tema, procurar ajuda. Precisamos nos unir, nos fortalecermos.

E, por fim, se você estiver pensando: “afe, mas psicóloga e com esses problemas?” deixe-me responder que psicólogos são pessoas, humanas, imperfeitas, sujeitas a todo tipo de sofrimento e adoecimento – e que isso não reduz em nada nossa capacidade de ouvir, compreender, esclarecer e auxiliar a jornada dos outros. Talvez isso até garanta que, na hora em que você estiver sofrendo, saibamos que parar para cheirar flores não resolve tudo.
 
[separator type="thin"] Ilustrações feitas com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)

Escrito por
Mais de Cacau Birdmad

Não seja bonita

Uma das questões presentes por muito tempo na minha vida era que eu nunca soube dizer se eu sou bonita. Talvez isso não seja uma questão para todos, mas me incomodava. Eu sou ou não sou bonita?

Eu sofri bullying na adolescência e um de seus principais enfoques era este: que eu não era, nem nunca seria, bonita. Tomei pedrada, fui perseguida com garrafas cheias de areia, tudo por isso – ah, e por homofobia! Suspeitavam que eu fosse lésbica, claro. Não erraram muito, hoje sei que sou bissexual, mas naqueles tempos eu só era uma menina esquisita. E nada mais esquisito, para os tradicionais, do que romper com a heteronormatividade, o que logo nomeou a minha esquisitice.

Meu cabelo era um liso no processo de tornar-se cacheado, sempre armado e cheio de frizz. Da minha pele destacavam-se fundas olheiras e um punhado de veias esverdeadas. Eu era quieta, cabisbaixa e infantil – apesar de madura para algumas coisas. Mantinha o nojo dos meninos e uma intensa misoginia internalizada, considerando qualquer feminilidade fútil.

Quando os cachos terminaram de se formar eu tive de usar aparelho, para compensar na aparência, mas também passei a usar a câmera para descobrir meu rosto. Fotos e mais fotos, repetidas, buscando aceitar aquela cara que era minha. Essa busca acabou por tornar-se uma busca por mim e fui aos poucos me encontrando, sendo um dos primeiros passos a entrada subcultura Gótica.

Mudei-me. Hoje meus cabelos são lisos, por vontade das águas de São Paulo, vermelhos e com ambas laterais raspadas – máquina zero, quando a preguiça não é grande. Passei a usar maquiagem, antiga inimiga, para transformar meu rosto em um hibridismo de Morticia e Elvira. A pergunta, porém, permanecia: sou ou não sou bonita? Eu gostava do meu reflexo no espelho, mas isso, por algum motivo, não respondia. E aí vem a questão: o que raios responde?

Somos seres complexos e existimos expostos e em companhia de outros. Somos também, portanto, aos olhos dos outros. Muito de nós, porém, não é acessível a grande parte desses outros que tem, no máximo, nossa aparência como mensagem sobre nós. Talvez a certeza de que esta é bonita, agradável, apazigue um pouco a ansiedade de não ser capaz de transmitir aquelas coisas que nos agradam sobre nós mesmos. De não podermos controlar nossa primeira impressão.

E a minha impressão é que ser bonita fica, justamente, muito a cargo dos outros. Na verdade, é bastante difícil adjetivar-se num geral, mas enquanto podemos “ouvir” ou “ver” nossos pensamentos e ideias, sentir nossos sentimentos, só temos acesso à nossa imagem através de reflexos ou registros fotográficos. Nossa aparência é, principalmente, diante de olhos outros.

Mas esses outros não são unanimidade. A beleza é uma construção cultural, mas também pessoal – o que resulta em avaliações bastante subjetivas e inconstantes. Ninguém pode dar a resposta definitiva de que uma pessoa é ou não bonita, portanto. Apenas que pessoas acham ela bonita, que pessoas acham ela feia e talvez motivos para essas impressões.

No máximo poderíamos nos comparar às imagens propostas-impostas como ideais pela mídia, porém como se comparar a outro ser humano? Isso é realmente possível? Afinal, se a Angelina Jolie é bonita, ser bonita como ela significaria, de certa forma, ser ela. Afinal, não pode ser apenas uma característica da pessoa que a define como tal. O que a torna bonita não é, por exemplo, a boca. Eu imagino que eu, com a boca dela, resultaria numa imagem completamente diferente. É a totalidade da aparência dela – e, ainda assim, para muitos ela não será considerada bonita. Como já disse: o troço é bastante subjetivo.

Se ser bonita é, portanto, ser como os modelos impostos, isto é impossível, porque só podemos ser quem somos e, mesmo através de cirurgias plásticas, dificilmente podemos transformarmo-nos no outro. E, mesmo que teçamos “regras gerais” destas imposições, como ser magra, branca, loira e de nariz-da-Disney, nada garante que estas possam ser aplicadas à miríade de aparências e corpos existentes – em outras palavras – que esse visual te caia bem! Além disso, é loucura limitar beleza a um espectro tão restrito, diante da infinitude de aparências humanas possíveis.

Mesmo no aspecto da aparência – e muito além dele – poucas coisas são mais importantes do que gostar de si. Isto cabe apenas a nós. E deve ser feito, na medida do possível, sem o comparar-se com o outro – que sempre será outro e, alem disso, único.

Isso me levou a conclusão básica de que ser bonita é impossível. Pelo menos como veredicto definitivo. Você sempre será bonita pra uns, feia pra outros. Não há resposta para a pergunta: “eu sou bonita?” – não é à toa que ela me encafifava tanto! E não é à toa que eu sofria com a ideia que tanto perseguimos de “sentir-se bonita” – independente dos padrões, porque é algo que parece residir muito fora da gente.

Uma pergunta que me parece um tanto mais respondível, porém, é se você gosta de você. E, na verdade, é uma pergunta muito mais importante do que a primeira. Porque outra coisa que, bem, não dá tempo de abordar é que ninguém precisa ser bonito. Há mais a que se oferecer, ainda que nem sempre acessível a uma primeira impressão, e há mais a que se esperar das pessoas. Mas, mesmo no aspecto da aparência – e muito além dele – poucas coisas são mais importantes do que gostar de si. Isto cabe apenas a nós. E deve ser feito, na medida do possível, sem o comparar-se com o outro – que sempre será outro e, alem disso, único.

E hoje, bem, eu não quero ser bonita – isso me parece um objetivo pouco alcançável – eu quero é ser alguém que eu gosto. Alguém que eu me orgulhe. Alguém, por mais estranho que isso vá soar, que me represente.

(imagem: F. Earl Christy)

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