O que buscamos nos livros de colorir?

Os livros de colorir para adultos são definitivamente o fenômeno editorial do ano. As edições de Jardim Secreto e sua sequência, Floresta Encantada, chegam aos montes nas livrarias e esgotam em poucos dias, o mesmo acontece com as caixas de lápis de cor que vão sumindo das estantes. Ninguém entende muito bem de onde surgiu essa onda, muitos embarcam nela, outros preferem analisar de longe – com um ar de superioridade, vale ressaltar.

Muita gente acredita que os livros de colorir para adulto são um sintoma dessa geração leite com pera – ou Millennium – que se recusa a crescer. É uma hipótese preguiçosa, cheia de preconceitos e generalizações que não dá conta de explicar esse fenômeno editorial, porque os números não batem. Jardim Secreto é um sucesso tão grande justamente porque vai além de um nicho e engloba um público diversificado. Não são apenas os jovens de classe média, desocupados e bobinhos, que compram os tais livros. Na verdade, talvez esse público não seja nem mesmo a maioria dos consumidores. Nos últimos meses trabalhei em uma livraria em um bairro de classe média alta do Rio de Janeiro e pude observar de perto quem consome os livros de colorir: Velhinhas, crianças, garotas jovens, senhoras de meia idade que estão tentando parar de fumar e por aí vai. Foi assim que constatei que não há um único fator que explique o porquê de tanto sucesso. Ao ver pilhas de livros sendo vendidas diariamente só consigo pensar em pacto. Johanna Basford deve ter vendido a alma pra conseguir desenhar aquele infinito de folhinhas e ganhar tanto dinheiro. Mas não me iludo, por que, em pleno 2015, nada é tão místico assim.

 
[caption id="attachment_4165" align="alignnone" width="880"]Johanna Basford: a artista por trás do fenômeno dos livros de colorir para adultos Johanna Basford: a artista por trás do fenômeno dos livros de colorir para adultos[/caption]  
Acredito que a onda Jardim Secreto se deve mais a uma jogada genial de marketing editorial do que a valores de uma geração – mas, obviamente, o marketing se inspira em comportamentos contemporâneos, ao mesmo tempo em que os alteram. Livros nunca foram os objetos mais valiosos do mundo, com a invenção dos e-readers e a disponibilização pirata de conteúdos – que eu amo -, as editoras precisam rebolar para se manterem como indústrias lucrativas a longo prazo. Para isso, é preciso confiar e estimular todo fetichismo próprio a nossa condição humana: dá-lhe capa dura, edições comemorativas, capas elaboradas, conteúdo exclusivo e…livros interativos! Os livros não são mais histórias, são experiências que não podem ser reproduzidas. Ninguém pode piratear a experiência de colorir o Jardim Secreto – embora possa tirar xerox das ilustrações -, ou de destruir o Destrua este diário. Dessa forma, os livros interativos são a criação de um novo mercado e a salvação – pelo menos temporária – de uma indústria. É fácil entender porque Jardim Secreto se tornou um produto, mas ainda falta explicar porque se tornou um dos livros mais vendidos mundialmente.

O sucesso de livros interativos não pode ser explicado por um fator ou um nicho e, sim, por um contexto. Vivemos em uma sociedade em que é preciso desenvolver conhecimentos e habilidades intelectuais para ganhar dinheiro – e isso não quer dizer ser rico, mas apenas conseguir um emprego – , em função disso, há cada vez mais um esquecimento de certos gestos. Obviamente, é preciso um recorte de classe, nem todos vivem neste tempo; uma característica da história é que diferentes temporalidades podem coincidir. Falo de um lugar bem específico, da classe média carioca, e me comunico, provavelmente, com pessoas que vivem uma realidade similar, afinal, esse é um texto publicado pela internet sobre um livro de colorir – e não sei se isso precisa ser notado, mas livros são objetos que participam da vida de uma minoria privilegiada. No entanto, ainda que minhas impressões sejam parciais e relativas, a ordem econômica se impõe materialmente e o que ela nos diz é que saber usar a internet é mais importante do que saber lavar seu banheiro.

Sobrevivemos sob uma série de imperativos que constroem uma teia ilógica que certamente vão nos levar a um futuro, no mínimo, complicado. As contradições são gritantes, mas quando estamos presos em uma ponta é fácil ignorar o resto. Enfim, hoje, a classe média urbana e globalizada compartilha um estilo de vida: Passamos horas presos no trânsito e, ao fim do dia de trabalho, nos encaminhamos até academias para nos exercitar com o objetivo de nos manter saudáveis (e isso quer dizer, nos manter magros e atraentes de acordo com os padrões); conhecemos pessoas por aplicativos; postamos selfies para nos sentirmos mais amados e bonitos; pagamos caro para alguém nos ouvir, porque precisamos manter a saúde mental; aprendemos técnicas de meditação e espiritualidade para manter a saúde mental; nos enchemos de alimentos orgânicos, sucos verdes, antioxidantes, linhaça, chia e tudo mais que possam inventar para manter a saúde, ao mesmo tempo em que usamos um desodorante que pode nos dar um câncer; amamos nossos filhos acima de tudo, por isso, aos dez meses de idade, eles já são donos de um tablet cheio de joguinhos educativos; gravamos mensagens de áudio no whatsapp para não termos tendinite aos 30 anos; detestamos atender ligações; de uma condição existencial não conseguimos nos livrar: elevadores ainda exigem interações sociais muito estranhas – caso alguém tire os olhos do celular para olhar quem entrou e saiu.

 
Foto de Johanna Basford
 
É através desse modo de vida que os livros de colorir se inscrevem como uma promessa. O sucesso não está na beleza das ilustrações, mas na escolha de um discurso. O Jardim Secreto carrega uma dupla nostalgia; a saudade de tempo mais simples que foi a nossa infância individual e o nosso passado enquanto humanidade. Esses livros permitem um retorno aos gestos esquecidos pela história, mas dentro de uma perspectiva contemporânea, na qual o prazer de realizar algo manualmente é transformado em uma necessidade terapêutica. Sem dúvida colorir deve servir como uma terapia para algumas pessoas, assim como eu exorcizo minhas emoções lavando meu banheiro. A urgência em consumir esse produto é a mesma busca própria aos seres humanos: um pouco de prazer e/ou conforto. Isso só se torna sintomático quando percebemos que há uma estranha confusão entre os termos “prazer” e “terapia” ou “prazer” e “saúde”. Chegamos a um tempo em que todas as ações devem ter finalidade: colorimos para nos aliviar do estresse. Assim, toda busca já supõe um alvo ou, melhor, um produto. Não há mais processo ou dúvida, as insatisfações são medicadas, o ócio tem seu valor produtivo e a recreação infantil se torna parte da linha de montagem.

Aponto essas características sem julgamento, me incluo nessa realidade e não acredito que esses atos sejam condenáveis, porque são apenas consequências de um problema muito maior. Identificar nossos hábitos que às vezes são um tanto absurdos, faz parte de uma autocrítica, principalmente, é o único meio para entender o surgimento de novas tendências. Acho preguiçoso se apegar a uma moral que condena tudo que é contemporâneo com frases repetidas “Ah, a pós-modernidade!”, “Ah, essa jovens mimados”, “Ah, essa modernidade líquida!” e por aí vai. Acho boba toda crítica que parte de uma distância arrogante que claramente pressupõe que existem os outros, os iludidos, e você, o crítico esclarecido. Breaking news: Vivemos em um sistema que se opera por meio da fantasia e você, a partir do momento que conta uma história usando o pronome “eu”, faz parte disso.

O que as pessoas estão em busca é de uma promessa para ocupar suas mentes zuadas e suas mãos vazias. Talvez elas sejam idiotas, alienadas e desprovidas de capacidade crítica. Talvez elas sejam exatamente como nós, pessoas em busca de algo. É claro que os caminhos e os desejos nos conduzem a posições muito diferentes. Não somos todos iguais. Somos uma confusão de perspectivas e anseios. Mas, se eu odeio tanto aquele que só me enxerga sem noção de alteridade e, portanto, me silencia, não posso ou não deveria fazer o mesmo. Não que seja fácil, é mais uma tentativa a se buscar.
 
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Imagens retiradas do site da autora, Johanna Basford.
 
[infobox maintitle="NOTA:" subtitle="Inicialmente o título do texto era Somos todos coloristas?. No entanto, fomos alertadas para a complicada aproximação desse titulo com o termo colorismo. Para não causar nenhum tipo de desconforto para nossas leitoras, resolvemos alterar." bg="red" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"]

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Mais de Taís Bravo

Nana Queiroz e os presos que menstruam

Atualmente, vivemos uma forte onda reacionária em nosso país. No Congresso Nacional, votam a favor da redução da maioridade penal. Nas ruas, por muito pouco lincham corpos negros. A grande mídia ratifica e incita a violência em um discurso que preza pela ignorância e o ódio. Em meio a esse cenário desesperador, surge uma brecha de esperança: “Presos que menstruam”. O livro, escrito pela jornalista e ativista Nana Queiroz, conta a vida de algumas presidiárias brasileiras e provoca um sentimento poderosos e urgente: a empatia. Nessa entrevista, Nana conta pra gente um pouco de sua história, seu processo criativo e a repercussão de seu livro.

 
Ovelha: Em “Presos que menstruam” há histórias de muitas mulheres, mas sua voz passa discretamente entre elas. Pela narrativa, não dá pra saber quem você é e como começou seu projeto. Me parece que o foco é realmente a experiência dessas mulheres e não a sua. Mas eu gostaria de saber mais sobre sua história, seu engajamento com o feminismo e o processo de escrever o livro. Como tudo isso começou? Existe uma relação entre a Revista AzMina , o movimento “Não Mereço Ser Estuprada” e o livro?

Nana: O livro é resultado daquela magia que as mulheres fortes têm em outras mulheres. Ele foi inspirado numa grande mulher chamada Rosália Naves que, num jantar, me contou sobre sua experiência trabalhando por anos no sistema carcerário feminino. Eu fiquei hipnotizada. Tentei ler mais sobre o tema depois do jantar, mas quando comecei a pesquisar na internet, não tinha nenhum livro, não tinha nenhum artigo, não tinha nada sobre as mulheres presas: elas eram completamente invisíveis. Eu tinha que quebrar esse silêncio. A pesquisa começou em 2010 e todo o processo de criação do livro durou pouco menos de cinco anos. Mas não posso dizer que minha relação com o feminismo tenha começado ali.

A verdade é que o feminismo não mudou minha vida, quem mudou foi o machismo! O feminismo é apenas o estado natural das coisas. Eu nasci feminista pois nasci com a consciência de minha dignidade e a consciência de que eu não era menor que nenhum dos meus 3 irmãos homens. Aos 8 anos, lembro que meu pai me pediu para lavar louças e eu retruquei “só se eu começar a ver você lavando louças também!”. 
Nós temos que entender que o feminismo é um movimento que nos chama para a natureza, que nos chama pro estado natural das coisas. O machismo nos vendeu a mentira de que diferenças biológicas nos fazem merecer tratamento diferente e menos respeito. Isso é uma grande mentira. 

Enfim, tudo isso para dizer que não existe uma história de como eu conheci o feminismo e ele me salvou, entende? Essa sensação de dignidade sempre esteve comigo e foi isso que gritou quando comecei, em 2014, o Não Mereço Ser Estuprada (que, vale dizer, não foi um movimento meu, mas de 200 mil mulheres brasileiras incrivelmente corajosas), e isso também que motiva a criação da Revista AzMina. Tudo isso está mergulhado numa convicção de que o feminismo não é só um movimento social e político, ele é a única verdade possível. Feminismo não é o oposto de machismo. Feminismo é a ideia de que, enquanto seres humanos, as mulheres têm dignidade à altura da masculina. Não mais, nem menos. Reconhecer isso é libertador não só para as mulheres, mas para a sociedade como um todo, que destrava 50% de seu potencial de curar, transformar, criar, gerar renda, fazer arte. Quem ganha é a humanidade.

  
Ovelha: Me parece que sua intenção não é vitimizar ou defender a inocência dessas mulheres, mas expor que, ainda que seus crimes não justificam os abusos que sofrem do sistema penitenciário. Uma ideia que é ignorada não só pelas instituições públicas, mas também pela opinião popular que cada vez mais reafirma – incitada pela grande mídia – que diretos humanos só são válidos para “humanos direitos”.  O modo como você escolheu escrever esse livro, a partir da narrativa das presidiárias, é uma tentativa de demonstrar que elas são seres humanos e não monstros que precisam ser extintos da sociedade? De certa forma, o livro pode ser lido como um pedido por um pouco mais de empatia?

Nana: Engraçado que a necessidade de empatia era essencial também para eu pudesse escrever o livro, sabe? Eu nunca cometi crimes, mas já fui vítima de vários, assim como pessoas que eu amo. Por isso, há sempre a tentação de julgar, de se colocar em uma posição moralmente superior. Mas isso mudou definitivamente pra mim quando eu conheci a Safira. 

Eu me identificava muito com ela. Safira era uma moleca crescida, como eu, muito sonhadora, guerreira, tinha muita vontade de ter um grande amor, mas ao mesmo tempo, era muito dona de si, achava que a condição de mulher não a diminuía e queria desbravar terrenos masculinos. Eu me vejo assim. E também, como ela, nasci em uma família grande na periferia e era a filha mais velha, com responsabilidades pelos 5 menores. Sonhava em crescer na vida e me tornar uma grande mulher e profissional, como ela. 

Pequenas diferenças na nossa história, porém, me fizeram aluna da USP, jornalista, escritora, casada com um homem bom e generoso, enquanto ela acabou se casando com um homem agressivo, engravidando cedo e sendo obrigada a deixar a escola. Percebi que éramos tão parecidas que, se eu tivesse vivido a vida dela, e ela a minha, era possível que a gente estivesse ali naquela mesma mesa, mas de lugares trocados. 

Quando eu escrevi essas histórias eu esperava sinceramente que houvesse uma Safira para cada pessoa que lesse. Que cada um pudesse se encontrar ali em alguma daquelas mulheres e ver que monstros só existem em histórias de criança e filmes ruins de Hollywood. Na vida real existem pessoas como nós que, diante de situações difíceis, tomaram decisões ilegais ou pouco acertadas. Mas continuam sendo gente e, em sua maioria, mais parecidas conosco do que imaginamos.

 

 
Ovelha: Como esta sendo a recepção do livro?  E o processo de transformá-lo em filme?

Nana: A recepção do livro tem sido uma delícia de surpresa. Inicialmente, os comentários intolerantes nas matérias sobre ele estavam me destruindo. Mas, logo surgiu em vários estados a iniciativa de coletar absorventes para as presidiárias e isso foi um afago. Nos mostra que ainda existe muita gente no Brasil que acredita que o sistema carcerário deve ressocializar e não apenas punir. 

Já o filme é uma maneira de atingir mais pessoas com essa mensagem. A gente sabe que, no Brasil, muita gente é avessa à leitura, principalmente de livros de não-ficção. Espero que essas pessoas possam também ser levadas à reflexão nas telonas ou telinhas. Junto a duas cineastas de Brasília, Lídia Oyo e Liana Faria, ganhei um edital em Brasília para produzir um média-metragem. Neste momento, estamos em fase de captação de recursos para transformar esse média no piloto de uma série, que pretendemos vender para um canal de TV ou até para o Netflix, quem sabe. Empresas interessadas em apoiar ou patrocinar o projeto podem saber mais sobre ele no site.

 
Ovelha: Li “Presos que menstruam” em dois dias. A sua escrita é muito envolvente e, de certa forma, é prazeroso acompanhar suas palavras. No entanto, é difícil dizer que amei seu livro ou mesmo admitir esse prazer da leitura. Não parece justo visto que seu conteúdo é tão pesado e real. Em muitos momentos, senti uma profunda sensação de impotência. Me perguntei – e ainda pergunto – o que posso fazer para ajudar a vida de mulheres como Camila e Gardênia. Acredito que foi em função dessa questão que surgiram movimentos em diversos lugares do país para organizar doações de absorventes para os presídios. Como tem sido acompanhar o nascimento desses eventos em solidariedade às presidiárias? 

Nana: Enquanto eu escrevi me debati com isso também. Naturalmente, enquanto escritora, eu queria fazer um bom trabalho, um livro saboroso de ler. Mas a verdade é que, no fim das contas, eu decidi que tudo isso deveria servir a um propósito claro: ser claro, atingir mais mais pessoas, ser eficiente em tocar o leitor e transmitir uma mensagem. Esta era a maneira como eu iria ajudar essas mulheres. E talvez dar uma forcinha para que outras não precisassem passar pelo mesmo. Pode ser um pouco de arrogância da minha parte achar que posso fazer alguma diferença com apenas um livro, mas a iniciativa dos absorventes me mostrou que nenhuma atitude feita com consciência e esforço, por menor que seja, passa pelo mundo sem causar algum tipo de efeito. Espero que isso não tenho soado auto-ajuda demais – risos – falei com sinceridade.

 
Ovelha: E, por fim, na sua opinião, como podemos ajudar essas mulheres?Como podemos colaborar para que nossa sociedade seja menos abusiva, machista e injusta?

Nana: Primeiro, que se enxergue as mulheres enquanto mulheres, considerando suas especifidades de gênero. Que exista a distribuição de absorventes, o pré-natal para gestantes, creches dignas para os bebês presos, tratamento ginecológico preventivo, acesso a trabalho e facilidades para as mulheres mantenham o contato com seus filhos. Entre os fatos que presenciei ou me foram relatados, me inquietou muito a situação dos bebês presos e das gestantes. Temos cerca de 350 crianças presas no Brasil hoje, vivendo em celas imundas e sem condições minimamente dignas. Grávidas são torturadas e bebês são obrigados a assistir à tortura da mãe. E essas crianças nem sequer precisam estar presas. O perfil dos crimes que levam as mulheres à cadeia é diferente dos que levam o homem a cadeia. Só 10% das mulheres cometeram crimes violentos, ou seja, crimes contra a pessoa. Logo, a maioria delas poderia estar amamentando em casa, cumprindo pena domiciliar. Já existe a caneleira eletrônica, tecnologicamente isso é possível. 

Naturalmente, as presas perigosas tem mesmo que ser afastadas do convívio social, e eu de maneira nenhuma vou defender a impunidade. Mas existem casos e casos e, para crimes mais leves, há uma série de penas alternativas que poderiam ser muito benéficas para as mulheres, no caso, por exemplo, do tráfico de drogas no pequeno escalão – que é só aquela pessoa que vende mesmo, não é o líder do tráfico, não mata, não achaca. Furto, roubo de supermercado, caixa eletrônico… sabe essas bobagens? Chamariz de assalto, porque ela é bonita e dá um chamariz confiante, um destaque para atrair vitimas… Além disso, a mídia precisa se repensar. A mídia só olha para mulheres quando há casos escandalosos como os de Suzane Richthofen. Isso dá à população uma impressão equivocada sobre quem são as mulheres presas. Como eu disse, Suzane pertence a uma minoria de 10%.

Na verdade, acho que é necessário repensar o sistema carcerário como um todo, e como a gente bota gente na cadeia no Brasil. Nosso sitema carcerário é falido, estamos gastando demais, prendendo gente demais, superlotando e cada vez reinserindo menos gente na sociedade – a taxa atual de reincidência no crime é de 70%, muito alta. É importante que a gente repense isso.

As mulheres, por exemplo. Antes de entrar no crime, muitas são vítimas da violência doméstica. Um estudo no Rio Grande do Sul (RS) mostrou recentemente que cerca de 40% das mulheres que foram presas no estado estavam imediatamente fugindo da violência doméstica. Ou seja, o marido batia (ou estuprava) nela e nos filhos e ela teve que fugir. Sozinha, não conseguiu sustentar os filhos. Ou ela resolveu traficar para conseguir dinheiro para sair de casa e fugir da violência doméstica, ou o próprio marido batia nela para que ela cometesse os crimes pra ele. Tinha maridos que obrigavam as mulheres a vender drogas pra eles. Veja bem, essas mulheres são vitimas, não são criminosas. Como a sociedade está tratando isso? Gastamos entre dois e três mil reais por detenta, por mês, no Brasil. Esse dinheiro não poderia servir para prevenir que essas mulheres fossem presas? Eu acho que trabalhar na prevenção é a coisa mais inteligente que podemos fazer enquanto sociedade.

 

Entrevista feita pela colaboradora Taís Bravo.

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É através desse modo de vida que os livros de colorir se inscrevem como uma promessa. O sucesso não está na beleza das ilustrações, mas na escolha de um discurso. O Jardim Secreto carrega uma dupla nostalgia; a saudade de tempo mais simples que foi a nossa infância individual e o nosso passado enquanto humanidade. Esses livros permitem um retorno aos gestos esquecidos pela história, mas dentro de uma perspectiva contemporânea, na qual o prazer de realizar algo manualmente é transformado em uma necessidade terapêutica. Sem dúvida colorir deve servir como uma terapia para algumas pessoas, assim como eu exorcizo minhas emoções lavando meu banheiro. A urgência em consumir esse produto é a mesma busca própria aos seres humanos: um pouco de prazer e/ou conforto. Isso só se torna sintomático quando percebemos que há uma estranha confusão entre os termos “prazer” e “terapia” ou “prazer” e “saúde”. Chegamos a um tempo em que todas as ações devem ter finalidade: colorimos para nos aliviar do estresse. Assim, toda busca já supõe um alvo ou, melhor, um produto. Não há mais processo ou dúvida, as insatisfações são medicadas, o ócio tem seu valor produtivo e a recreação infantil se torna parte da linha de montagem.

Aponto essas características sem julgamento, me incluo nessa realidade e não acredito que esses atos sejam condenáveis, porque são apenas consequências de um problema muito maior. Identificar nossos hábitos que às vezes são um tanto absurdos, faz parte de uma autocrítica, principalmente, é o único meio para entender o surgimento de novas tendências. Acho preguiçoso se apegar a uma moral que condena tudo que é contemporâneo com frases repetidas “Ah, a pós-modernidade!”, “Ah, essa jovens mimados”, “Ah, essa modernidade líquida!” e por aí vai. Acho boba toda crítica que parte de uma distância arrogante que claramente pressupõe que existem os outros, os iludidos, e você, o crítico esclarecido. Breaking news: Vivemos em um sistema que se opera por meio da fantasia e você, a partir do momento que conta uma história usando o pronome “eu”, faz parte disso.

O que as pessoas estão em busca é de uma promessa para ocupar suas mentes zuadas e suas mãos vazias. Talvez elas sejam idiotas, alienadas e desprovidas de capacidade crítica. Talvez elas sejam exatamente como nós, pessoas em busca de algo. É claro que os caminhos e os desejos nos conduzem a posições muito diferentes. Não somos todos iguais. Somos uma confusão de perspectivas e anseios. Mas, se eu odeio tanto aquele que só me enxerga sem noção de alteridade e, portanto, me silencia, não posso ou não deveria fazer o mesmo. Não que seja fácil, é mais uma tentativa a se buscar.
 

Imagens retiradas do site da autora, Johanna Basford.
 

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