Por que a escolha do tema da violência contra as mulheres na redação do ENEM incomoda tanta gente? O que há de errado em discutir o tema que atinge milhares de pessoas no Brasil? Só neste ano, o disque 180, uma espécie de linha direta para denúncias do governo federal, recebeu 16 mil ligações relatando caso de violência contra mulheres. Uma média de 53 ligações diárias. Imagina, então, se contabilizarmos as chamadas ao tradicional 190? E as mulheres que escondem, dizem que caíram, escorregaram lavando o banheiro, bateram o olho na maçaneta da porta…
A violência contra mulher é um dos fatores que atrapalham a autonomia feminina. As agressões domésticas, junto com a gravidez na adolescência e a falta de direitos reprodutivos (leia-se aborto legal) são um obstáculo para a emancipação feminina não só no Brasil, mas na América Latina. E sem autonomia feminina, a sociedade se desfaz e a economia chora.
E quem diz isso não sou (só) eu.
Um relatório do Banco Mundial de 2012 celebra o papel das mulheres no crescimento econômico da América Latina nos anos 2000. Com um crescimento de 15% na participação no Mercado de trabalho, elas contribuíram com 30% da redução da pobreza na região da década (os homens, com 38%). Apesar de mais presentes no mercado de trabalho, a participação das mulheres continua presa nos mesmos guetos de sempre: trabalho doméstico, auxílio em escritórios e postos no setor de serviço. Ainda segundo o relatório, as mulheres brasileiras têm mais horas de estudo para exercer os mesmos cargos de liderança que os seus colegas homens e, claro, ainda sim ganhando menos.
O relatório aponta a falta de autonomia feminina como um dos maiores entraves para o crescimento econômico latino-americano.
E como se mede a falta de autonomia feminina? Os índices gritantes de gravidez na adolescência e violência doméstica são bons indicativos que as mulheres latinas não conseguem fazer o que querem da vida, mesmo que isso seja trabalhar mais pra trazer mais dinheiro pra casa. Para se ter uma ideia, no mundo, “1 em cada 3 mulheres sofrem com violência doméstica. Na América Latina, a estatística é 1 em cada 2 mulheres”.
E como mudar esse quadro? Ainda segundo o Banco, combatendo tudo aquilo que atrapalhe “a habilidade (das mulheres) fazerem suas próprias escolhas e colher seus resultados”. Ou seja, pra crescer é preciso combater a violência doméstica e gravidez indesejada, as principais chagas enfrentadas pelas mulheres latinas.
A ferida cutucada pelo ENEM é mais profunda do que parece. E falar que o tema é “feminazi” ou “doutrinação esquerdista” é de uma preguiça intelectual lamentável. Lutar contra a violência contra a mulher extrapola brigas ideológicas e se calar sobre isso só beneficia o agressor, o bandido que está em casa.
Emancipar a mulher significa conceder a ela o poder de escolha sobre o seu corpo, sobre suas ideais, a sua vida, o seu tempo. Significa dar a mulher o direito de ir e vir na hora que ela quiser, com a roupa que ela quiser, com sua integridade física intacta.
É, amigas. O querido slogan “meu corpo, minhas regras” nunca fez tanto sentido.
A briga pela emancipação feminina é complexa e envolve mexer no privilégio alheio, neste caso, no privilégio masculino. Liberar a mulher da obrigação do trabalho doméstico, por exemplo, significa que agora o “homem da casa” também precisa passar roupa, lavar o banheiro. Isso significa menos tempo pro futebol, menos tempo pra beber com os amigos, pra ver TV, pra jogar Call of Duty. E isso também significa que gradativamente mais mulheres terão tempo pro futebol, pra beber com os amigos, pra ver TV, e pra jogar Call of Duty (não é à toa que as meninas são odiadas no mundo dos games). Mexer nesses pequenos privilégios incomoda muita gente.
Emancipar uma mulher é uma tarefa complicada numa sociedade como a nossa e começa cedo, lá na base. Começa ao tentar criar uma menina livre, com os mesmos valores e oportunidades dos meninos a sua volta. Ela também pode gostar de matemática e de bichos e de crianças, e de brincar de casinha também, se ela quiser, ou de bombeiro. Ela pode casar tarde ou cedo, ter filhos tarde ou cedo (a vida é cheia de surpresas, vai saber). Ela pode escolher priorizar a vida pessoal ou a profissional.
Mas aí, mais uma vez, pra alguém conquistar um privilégio, alguém precisa ceder. Pra mulher ganhar espaço, o homem precisa ceder espaço. Nessa nova cultura, tem mais (mulheres) concorrentes no vestibular de engenharia, mais (mulheres) concorrentes à promoção no escritório. E é fácil transformar frustração em misoginia, como já vimos milhares de vezes no nosso dia-a-dia.
Se o assunto escandaliza, dá medo, é porque ainda precisamos aprender muito sobre ele. Por isso, é preciso sim falar de autonomia feminina no Brasil.
Gosto de pensar que, quando tomamos um remédio quando doente, a primeira reação do nosso corpo é de expurgo, de revolta, de rejeição ao elixir amargo que depois nos cura. Vamos falar de feminismo sim e vamos ver muito expurgo, muita misoginia, muita piada com assédio, muita violência física e psicológica, muita coisa podre. E depois, muitos anos, décadas, e talvez milênios depois, veremos calmaria, paz.
Arte feita com exclusividade por Sarah Assaf.
Por que a escolha do tema da violência contra as mulheres na redação do ENEM incomoda tanta gente? O que há de errado em discutir o tema que atinge milhares de pessoas no Brasil? Só neste ano, o disque 180, uma espécie de linha direta para denúncias do governo federal, recebeu 16 mil ligações relatando caso de violência contra mulheres. Uma média de 53 ligações diárias. Imagina, então, se contabilizarmos as chamadas ao tradicional 190? E as mulheres que escondem, dizem que caíram, escorregaram lavando o banheiro, bateram o olho na maçaneta da porta…
A violência contra mulher é um dos fatores que atrapalham a autonomia feminina. As agressões domésticas, junto com a gravidez na adolescência e a falta de direitos reprodutivos (leia-se aborto legal) são um obstáculo para a emancipação feminina não só no Brasil, mas na América Latina. E sem autonomia feminina, a sociedade se desfaz e a economia chora.
E quem diz isso não sou (só) eu.
Um relatório do Banco Mundial de 2012 celebra o papel das mulheres no crescimento econômico da América Latina nos anos 2000. Com um crescimento de 15% na participação no Mercado de trabalho, elas contribuíram com 30% da redução da pobreza na região da década (os homens, com 38%). Apesar de mais presentes no mercado de trabalho, a participação das mulheres continua presa nos mesmos guetos de sempre: trabalho doméstico, auxílio em escritórios e postos no setor de serviço. Ainda segundo o relatório, as mulheres brasileiras têm mais horas de estudo para exercer os mesmos cargos de liderança que os seus colegas homens e, claro, ainda sim ganhando menos.
O relatório aponta a falta de autonomia feminina como um dos maiores entraves para o crescimento econômico latino-americano.
E como se mede a falta de autonomia feminina? Os índices gritantes de gravidez na adolescência e violência doméstica são bons indicativos que as mulheres latinas não conseguem fazer o que querem da vida, mesmo que isso seja trabalhar mais pra trazer mais dinheiro pra casa. Para se ter uma ideia, no mundo, “1 em cada 3 mulheres sofrem com violência doméstica. Na América Latina, a estatística é 1 em cada 2 mulheres”.
E como mudar esse quadro? Ainda segundo o Banco, combatendo tudo aquilo que atrapalhe “a habilidade (das mulheres) fazerem suas próprias escolhas e colher seus resultados”. Ou seja, pra crescer é preciso combater a violência doméstica e gravidez indesejada, as principais chagas enfrentadas pelas mulheres latinas.
A ferida cutucada pelo ENEM é mais profunda do que parece. E falar que o tema é “feminazi” ou “doutrinação esquerdista” é de uma preguiça intelectual lamentável. Lutar contra a violência contra a mulher extrapola brigas ideológicas e se calar sobre isso só beneficia o agressor, o bandido que está em casa.
Emancipar a mulher significa conceder a ela o poder de escolha sobre o seu corpo, sobre suas ideais, a sua vida, o seu tempo. Significa dar a mulher o direito de ir e vir na hora que ela quiser, com a roupa que ela quiser, com sua integridade física intacta.
É, amigas. O querido slogan “meu corpo, minhas regras” nunca fez tanto sentido.
A briga pela emancipação feminina é complexa e envolve mexer no privilégio alheio, neste caso, no privilégio masculino. Liberar a mulher da obrigação do trabalho doméstico, por exemplo, significa que agora o “homem da casa” também precisa passar roupa, lavar o banheiro. Isso significa menos tempo pro futebol, menos tempo pra beber com os amigos, pra ver TV, pra jogar Call of Duty. E isso também significa que gradativamente mais mulheres terão tempo pro futebol, pra beber com os amigos, pra ver TV, e pra jogar Call of Duty (não é à toa que as meninas são odiadas no mundo dos games). Mexer nesses pequenos privilégios incomoda muita gente.
Emancipar uma mulher é uma tarefa complicada numa sociedade como a nossa e começa cedo, lá na base. Começa ao tentar criar uma menina livre, com os mesmos valores e oportunidades dos meninos a sua volta. Ela também pode gostar de matemática e de bichos e de crianças, e de brincar de casinha também, se ela quiser, ou de bombeiro. Ela pode casar tarde ou cedo, ter filhos tarde ou cedo (a vida é cheia de surpresas, vai saber). Ela pode escolher priorizar a vida pessoal ou a profissional.
Mas aí, mais uma vez, pra alguém conquistar um privilégio, alguém precisa ceder. Pra mulher ganhar espaço, o homem precisa ceder espaço. Nessa nova cultura, tem mais (mulheres) concorrentes no vestibular de engenharia, mais (mulheres) concorrentes à promoção no escritório. E é fácil transformar frustração em misoginia, como já vimos milhares de vezes no nosso dia-a-dia.
Se o assunto escandaliza, dá medo, é porque ainda precisamos aprender muito sobre ele. Por isso, é preciso sim falar de autonomia feminina no Brasil.
Gosto de pensar que, quando tomamos um remédio quando doente, a primeira reação do nosso corpo é de expurgo, de revolta, de rejeição ao elixir amargo que depois nos cura. Vamos falar de feminismo sim e vamos ver muito expurgo, muita misoginia, muita piada com assédio, muita violência física e psicológica, muita coisa podre. E depois, muitos anos, décadas, e talvez milênios depois, veremos calmaria, paz.
Por que a escolha do tema da violência contra as mulheres na redação do ENEM incomoda tanta gente? O que há de errado em discutir o tema que atinge milhares de pessoas no Brasil? Só neste ano, o disque 180, uma espécie de linha direta para denúncias do governo federal, recebeu 16 mil ligações relatando caso de violência contra mulheres. Uma média de 53 ligações diárias. Imagina, então, se contabilizarmos as chamadas ao tradicional 190? E as mulheres que escondem, dizem que caíram, escorregaram lavando o banheiro, bateram o olho na maçaneta da porta…
A violência contra mulher é um dos fatores que atrapalham a autonomia feminina. As agressões domésticas, junto com a gravidez na adolescência e a falta de direitos reprodutivos (leia-se aborto legal) são um obstáculo para a emancipação feminina não só no Brasil, mas na América Latina. E sem autonomia feminina, a sociedade se desfaz e a economia chora.
E quem diz isso não sou (só) eu.
Um relatório do Banco Mundial de 2012 celebra o papel das mulheres no crescimento econômico da América Latina nos anos 2000. Com um crescimento de 15% na participação no Mercado de trabalho, elas contribuíram com 30% da redução da pobreza na região da década (os homens, com 38%). Apesar de mais presentes no mercado de trabalho, a participação das mulheres continua presa nos mesmos guetos de sempre: trabalho doméstico, auxílio em escritórios e postos no setor de serviço. Ainda segundo o relatório, as mulheres brasileiras têm mais horas de estudo para exercer os mesmos cargos de liderança que os seus colegas homens e, claro, ainda sim ganhando menos.
O relatório aponta a falta de autonomia feminina como um dos maiores entraves para o crescimento econômico latino-americano.
E como se mede a falta de autonomia feminina? Os índices gritantes de gravidez na adolescência e violência doméstica são bons indicativos que as mulheres latinas não conseguem fazer o que querem da vida, mesmo que isso seja trabalhar mais pra trazer mais dinheiro pra casa. Para se ter uma ideia, no mundo, “1 em cada 3 mulheres sofrem com violência doméstica. Na América Latina, a estatística é 1 em cada 2 mulheres”.
E como mudar esse quadro? Ainda segundo o Banco, combatendo tudo aquilo que atrapalhe “a habilidade (das mulheres) fazerem suas próprias escolhas e colher seus resultados”. Ou seja, pra crescer é preciso combater a violência doméstica e gravidez indesejada, as principais chagas enfrentadas pelas mulheres latinas.
A ferida cutucada pelo ENEM é mais profunda do que parece. E falar que o tema é “feminazi” ou “doutrinação esquerdista” é de uma preguiça intelectual lamentável. Lutar contra a violência contra a mulher extrapola brigas ideológicas e se calar sobre isso só beneficia o agressor, o bandido que está em casa.
Emancipar a mulher significa conceder a ela o poder de escolha sobre o seu corpo, sobre suas ideais, a sua vida, o seu tempo. Significa dar a mulher o direito de ir e vir na hora que ela quiser, com a roupa que ela quiser, com sua integridade física intacta.
É, amigas. O querido slogan “meu corpo, minhas regras” nunca fez tanto sentido.
A briga pela emancipação feminina é complexa e envolve mexer no privilégio alheio, neste caso, no privilégio masculino. Liberar a mulher da obrigação do trabalho doméstico, por exemplo, significa que agora o “homem da casa” também precisa passar roupa, lavar o banheiro. Isso significa menos tempo pro futebol, menos tempo pra beber com os amigos, pra ver TV, pra jogar Call of Duty. E isso também significa que gradativamente mais mulheres terão tempo pro futebol, pra beber com os amigos, pra ver TV, e pra jogar Call of Duty (não é à toa que as meninas são odiadas no mundo dos games). Mexer nesses pequenos privilégios incomoda muita gente.
Emancipar uma mulher é uma tarefa complicada numa sociedade como a nossa e começa cedo, lá na base. Começa ao tentar criar uma menina livre, com os mesmos valores e oportunidades dos meninos a sua volta. Ela também pode gostar de matemática e de bichos e de crianças, e de brincar de casinha também, se ela quiser, ou de bombeiro. Ela pode casar tarde ou cedo, ter filhos tarde ou cedo (a vida é cheia de surpresas, vai saber). Ela pode escolher priorizar a vida pessoal ou a profissional.
Mas aí, mais uma vez, pra alguém conquistar um privilégio, alguém precisa ceder. Pra mulher ganhar espaço, o homem precisa ceder espaço. Nessa nova cultura, tem mais (mulheres) concorrentes no vestibular de engenharia, mais (mulheres) concorrentes à promoção no escritório. E é fácil transformar frustração em misoginia, como já vimos milhares de vezes no nosso dia-a-dia.
Se o assunto escandaliza, dá medo, é porque ainda precisamos aprender muito sobre ele. Por isso, é preciso sim falar de autonomia feminina no Brasil.
Gosto de pensar que, quando tomamos um remédio quando doente, a primeira reação do nosso corpo é de expurgo, de revolta, de rejeição ao elixir amargo que depois nos cura. Vamos falar de feminismo sim e vamos ver muito expurgo, muita misoginia, muita piada com assédio, muita violência física e psicológica, muita coisa podre. E depois, muitos anos, décadas, e talvez milênios depois, veremos calmaria, paz.
Uma vez, na faculdade de jornalismo, bati boca com um professor que insistia que a pílula era uma invenção do capitalismo para permitir a entrada da mulher no mercado de trabalho ao adiar ou evitar a gravidez. Ela também regula o ciclo menstrual, permitindo jornadas mais consistentes. Fiquei irritadíssima, primeiro porque eu não concordava, segundo porque eu não conseguia argumentar contra aquele homem tão respeitado entre as figuras da esquerda jornalística.
A minha memória, uma sádica, me fez lembrar desse momento de mal estar quando uma amiga me disse que queria saber mais sobre pílulas. Ela disse que se achava mal informada, e eu só conseguia pensar “quem sou eu pra falar qualquer coisa”.
Pensei de novo e vi que o que eu sei mesmo é que o importante mesmo é buscar estar bem informada, e pra mim isso significa se sentir um pouquinho desconfortável com aquilo que você sabe, mesmo tendo pesquisado bastante. Achar que não sabe o suficiente é sempre bom.
Parei de tomar pílula ano passado, após 14 anos de uma relação de só ganhos, inclusive ganho de peso. Comecei a tomar assim que menstruei porque eu engordava muito a cada ciclo e tinha muita acne, e a gineco na época me passou Selene. Nunca troquei, nunca tive reação além da retenção de peso e tive duas pausas desastrosas, horrendas. E foi justamente pensando nessas pausas que decidi parar.
Toda a minha vida reprodutiva foi regulada pelo mesmo hormônio artificial e isso me incomodou bastante de repente. Quando comecei a tomar, não me conhecia, não sabia nem que iria odiar Física pra sempre, imagina se saberia o que aquela bula dizia pra mim. No fim, nem sabia como o meu corpo funcionava sozinho. Estudando e lendo sobre feminismo, especificamente sobre as ativistas da saúde feminina na América do Norte, comecei a me questionar porque eu tomava um remédio tão forte por tanto tempo. Decidi parar e foi caótico. Fiquei 4 meses sem menstruar e, quando meu ciclo voltou ao normal, queria matar uns três para aliviar toda a raivinha que crescia no meu coração. Mas pronto, pronto. Passou, passou.
Voltando às ativistas de saúde feminina da década de 1960, é imprescindível falar do livro “Our Bodies, Ourselves” (Nossos corpos, nós mesmos), que salvo engano não tem edição em português. O livro é um almanaque confiável com tudo que é dúvida sobre a biologia feminina escrito pelas incríveis do grupo BWHBC, ou Boston Women’s Health Book Collective.
Outra musa minha, a jornalista Barbara Seaman, escrevia numa revista norte-americana também nos anos 1960 quando percebeu uma correlação altíssima de reclamações de inchaço, ganho de peso, depressão, queda de libido e trombose com a ingestão da recém lançada pílula anticoncepcional. Picada pelo bichinho “tem uma história aqui”, ela fuçou e fuçou e descobriu que os remédios eram vendidos sem as informações de efeitos colaterais na bula. Os médicos achavam que as mulheres não precisavam se preocupar com isso. Barbara e diversas outras mulheres levaram o problema pros salões do Senado dos Estados Unidos, que mudaram a lei, obrigando as farmacêuticas incluírem a bula nas caixinhas, com tudo o que seria importante.
E ainda hoje tomamos hormônio sem saber seus efeitos colaterais. Quem nunca emendou cartelas pra evitar ficar menstruada? E se arrependeu no mês seguinte, mas fez de novo meses ou anos depois. No caso da suspensão da menstruação por até anos seguidos, que é moda entre as meninas da nossa geração seja por pílulas contínuas ou por injeção, ainda não há estudos que dizem se há segurança ou riscos a médio e longo prazo. Mesmo assim, qual é o médico que nega quando a gente pede “doutor, não quero mais menstruar. Me passa aquela pílula que a minha amiga toma?”
O que se sabe com certeza é que a ingestão de certos hormônios estão ligados ao surgimento do câncer de mama em mulheres com ou sem histórico da doença na família.
Estudos mostram que mulheres que tomam contraceptivo oral têm mais riscos de desenvolver câncer de mama, especialmente se esses contraceptivos foram de alta concentração de estrogênio (950 microgramas de etinilestradiol ou 80 microgramas de mestranol) ou com média concentração de estrogênio (30 e 35 microgramas de etinilestradiol ou 50 microgramas de mestranol). A Selene, que eu tomava, é de média concentração. O risco, segundo os estudos, voltam à média após a interrupção do uso. Fora as varizes, coágulos, tromboses, enxaquecas, queda de libido…
No caso do câncer de mama, as reposições hormonais na época da menopausa também são aterrorizadoras.
Moral da história? Leia, leia, leia, leia tudo o que você puder antes de decidir pelo seu método anticoncepcional, seja ele só pra prevenir uma gravidez ou pra cuidar da acne, das TMPs, etc. Encha sua médica de perguntas, cada corpo é de um jeito e o que funciona pra mim pode não funcionar pra você. Seu corpo, suas decisões, suas regras. E se possível, fique em cima do seu histórico familiar. A combinação doenças cardiovasculares + pílula + cigarro é uma bomba relógio.
E o que eu diria para o professor do início do texto, se a discussão fosse hoje? A pílula libertou a mulher da maternidade e casamentos obrigatórios, mas ela é sim fruto de um sistema que privilegia o poder e o prazer masculino. Seja esse homem de direita, esquerda ou a passeio.