A realidade de uma terceirizada

Ilustração feita com exclusividde por Fernanda Garcia (Kissy)

Tive que abrir uma empresa para começar a trabalhar. Vida de ilustrador é assim já faz um tempo, a maioria dos lugares não te paga se você não emite nota fiscal. Então a gente abre empresa para emitir nota e poder receber. É só por isso. A sede da minha empresa é o meu quarto mesmo. Total de funcionários: euzinha. Tem uma placa na minha mesa falando Marcella Tamayo – CEO. É bom estar preparada em caso de alguém vir me procurar.

Pois bem, quem tem essa vida está acostumado a trabalhar com febre, costas travadas, depressão e isso tudo. Não é certo, nem saudável, todo mundo sabe. Em 7 anos eu não devo ter tirado nem dois meses de férias (somando todos os dias pingados), e ainda com aquela culpa delícia. Quem é freelancer, terceirizado, sempre tem essa nuvem na cabeça. De que no mês que vem pode ter menos trabalho, então se algo apareceu nesse mês é bom não deixar escapar. A gente vira um polvo. Férias é igual a menos dinheiro e a gente já não tem dinheiro. O 13o é tipo um sonho dourado crocante abençoado apenas para os escolhidos da CLT.

Imagina a quantidade de roubada que a gente enfrenta nessa conta de preciso trabalhar + tô cansada + aimeudeus. Já peguei muito trabalho errado mas que fiz do mesmo jeito porque era o jeito.

Já trabalhei em lugar onde todo mundo era terceirizado menos os chefes. A galera emendando projetos por três anos sem férias, sem nada. A postura da Grande Empresa é sempre a de que eles estão dando a oportunidade pra gente, eles são muito legais. Somos todos muito talentosos, eles amam trabalhar com a gente, amam o nosso trabalho, faz mais carinho na minha vaidade que tá pouco, nossa, nossa, nossa! O prédio é bonito e perto do metrô, nossa nossa! Tem máquina de café, que amor! O pessoal chega para trabalhar às 10h, yaaay! – sem hora para sair, mas tudo bem porque somos uma… Família.

Mas a Grande Empresa nunca pode pagar nem uma semana de férias. Sempre vão entender o nosso lado, mas é uma pena mesmo: “É a postura da empresa, não a minha, sinto muito” diz o chefe com CLT e peru congelado no natal. Eles sempre esquecem do item “Férias da Equipe” quando montam o orçamento. O dinheiro da Grande Empresa serve para Heinekens, espressos, predião no bairro cheio de árvore. Todo mundo sabe que a vida contemporânea não gira sem goró, nem café, nem um lugar com rooftop (laje, em português) e solzinho. Ainda mais em São Paulo, essa terra de gente bronzeada e sossegada.

Enquanto isso, todo começo de mês o chefão da Grande Empresa chama todo mundo no salão quadrado para celebrar mais um mês de grandes crescimentos. Novs projetos, jobs, jobs, i love my job, omg! É importante incentivar a equipe. Acho que até agosto ele compra um iate. Ele ia comprar em dezembro mas a crise não deixou.

AÍ NÉ! Acontece de um terceirizado passar mal e ter que ser internado. Três anos trabalhando sem parar, sempre no pico do stress, com filho, e ainda botam a culpa na friagem do ar condicionado. De repente começam a falar que o trabalho dele nem é tão bom assim. A Grande Empresa começa a inventar todo o tipo de desculpa para cortar o vínculo com o terceirizado porque pega mal demitir uma pessoa doente. Empatia bombando aqui, galeeera! Então começam com uma coisa de “Temos um prazo inegociável, que correria, muitas coisas a entregar, puts…”. O terceirizado curtindo um desespero porque não pode perder o emprego. A Grande Empresa se sensibiliza “E se tentássemos fazer dar certo enviando material para ele aprovar do hospital?”. Boa! Isso aconteceu, gente.

Isso porque eu trabalho sentada desenhando. Minha saúde está ok e tenho mudado minha postura com relação a essas palhaçadas das Grandes Empresas (na maioria das vezes não dá certo, mas às vezes dá um pouco). Privilégio dos privilégios dos privilegiados.

Essa é a minha experiência. Ser freelancer no meio criativo é dureza. Ser freelancer na roça, eu nem imagino.

Tenho a esperança de que mentes iluminadas desse Brasilzão vão se encontrar numa virada de página e se unir para escrever uma lei mais moderna e justa para todo mundo (empregadores inclusive). Uma hora isso vai acontecer não tem jeito, ou a humanidade vai acabar se comendo inteira até acabar num arroto cheio de terno e peruca. Mas tenho esperança.

Até lá vou continuar cuidando da minha cabeça pra segurar a onda, comendo direito e aproveitando as promoções do mercado para comprar suco de laranja de vez em quando. Suco de laranja é tipo um investimento pra saúde, né? Tem vitamina C, dá uma alegriazinha. E ninguém pode ficar doente.

Ilustração feita com exclusividde por Fernanda Garcia (Kissy).

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Irmana

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Irma,

Perdi de novo. Acho que dessa vez eu me recupero mais rápido, pelo menos é o que eu sinto. Não, pera. Volta. Dessa vez eu vou me recuperar mais rápido, Irma. Sei disso porque estou mais segura. Viu? Estou tentando parar de falar “acho” o tempo todo. O “tentando” ainda é difícil, mas vou conseguir.

Acho que as palavras têm… Volta. As palavras têm a força dos vivos e dos mortos, Irma. Os alegres são alegres desde que se inventou a “alegria”. Os tristes são tristes desde que se inventou a “tristeza”. Toda a alegria e tristeza do mundo, do tempo, em duas palavras. Eu amo as palavras, Irma. Mas acho que elas podem trair nossa alma se não forem tratadas com carinho.

Vou me perdoar por esse “acho”.

Como te disse, hoje eu perdi de novo. Eu usaria a palavra “chateada” para descrever o que senti naquele momento, mas não foi uma chateação pura. Eu também fiquei “aliviada”, “grata”, “melancólica”, “forte” e “esperançosa”. Existe uma palavra para tudo isso? O que senti foi um azul fervendo em vermelho e rosa, Irma.

Perder me faz perceber alguns tipos de dor. Que me faz querer entender. Não sei o porque disso, de verdade, mas é quase automático o jeito que acontece. É uma espécie de reflexo, como se um exército de mini analistas eclodisse de uma nuvem para cutucar o machucado. Elaborando teorias, buscando referências no passado, em outras pessoas, catalogando cada pedaço do que sinto, descartando palavras que não resolvem o problema. É bem cansativo, ainda assim eu me esforço para ser o mais clara possível. Dessa forma, no final, uma nova parte de mim é desvendada. Não entender é uma aventura, Irma, mas entender qualquer coisa é um alívio. Eu faço isso por mim mesma.

Irma, que evolução! Eu faço isso por mim mesma! Quanta força pra quem passou tempo demais entre o “abster” e o “você primeiro”.

Até a próxima carta, amada mia. Até lá espero ter conseguido compreender melhor a “timidez”, a “melancolia” e a “solidão” que tanto me seguram. Lógico que nenhuma delas em seu estado puro, elas nadam em um oceano de outras coisas. Deixo esse mistério para depois.

Beijos da sua

Mana

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Fernanda Garcia (Kissy).

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