Sobre maquiagem e empoderamento

Crédito: @michellemoe
Quando nós falamos que a maquiagem nos dá confiança, o que realmente queremos dizer com isso?

Volta e meia eu observo discussões a respeito do papel empoderador da maquiagem. Ou do papel aprisionador da maquiagem.

Eu sempre saio com um gosto ruim na boca dessas discussões, com a sensação de que qualquer conclusão é incompleta – porque nossa sociedade é complexa e contraditória de modo que uma resposta não me parece resposta.

Um aviso de antemão que qualquer pessoa ao meu redor sabe: eu adoro maquiagem. O processo de pintar meu rosto e descobrir o resultado disso sempre me enche de animação. Essa não é uma paixão compartilhada pela grande maioria das minhas amigas e eu posso contar em uma mão aquelas que topariam conversar sobre bases ou batons.

[caption id="attachment_15655" align="alignnone" width="700"] Detalhes de algumas das minhas maquiagens[/caption]

Eu não amei maquiagem sempre, porém, e eu acho importante falar disso porque parte desse ódio prévio tem a ver com o porquê de eu sempre me sentir insatisfeita com discussões a respeito desse assunto.

No período de pré-adolescência e adolescência eu detestava qualquer coisa que pudesse ser percebida como vaidade. Eu usava camisetões que escondiam meu corpo, calças de moletom, não penteava o cabelo e mal lavava o rosto. Vaidade para mim era sinal, como frequentemente é colocado na nossa cultura, de futilidade e superficialidade.

Eu sofria diversas agressões por não ser como as meninas bonitas da minha escola, então minha estratégia patética foi procurar me fazer sentir-me superior por negá-las e depreciá-las. Eu não era bonita – mas era melhor! Era inteligente! Como se essas coisas se anulassem, claro! Porque eu não gastava meu precioso tempo com aparência, não! Eu era pura, autêntica, verdadeira e… Presa nos padrões de um feminino maniqueísta.

Voltando pra discussão sobre maquiagem como empoderamento ou não, os argumentos que eu frequentemente escuto são (e sim, assumo que estou simplificando horrores a bagaça):

  • Maquiagem me traz confiança e, portanto, coragem e poder para enfrentar as situações. Eu crio ou encontro minha própria beleza.
  • Maquiar-se é aderir a um padrão de beleza e, portanto, não é exatamente uma escolha – já que a não adesão é punida.
    Não é, portanto, um poder.

Mas a realidade é que a maquiagem não é exatamente o ponto de discussão, no fim das contas. A sociedade não é a favor da mulher usar maquiagem. Ela é a favor da mulher ser bonita e decorativa – preferencialmente sem fazer esforço nenhum pra isso, ou sem deixar esforço nenhum aparente.

Assim como a mulher que não utiliza maquiagem é socialmente punida, a mulher que utiliza maquiagem também o é, ainda que de outra forma.

A maquiagem é frequentemente colocada como um artifício maligno, uma farsa. Como a bruxa que toma a forma de uma bela donzela para desnortear ou seduzir o pobre e nobre homem.

Quantas reportagens ou posts nós já não vimos sobre celebridades sem maquiagem, seja para colocá-las como feiosas enganadoras, seja para enaltecê-las como belas *DE VERDADE*, por não precisarem de estratégias escusas para a decoração ou sedução?

O que eu quero dizer é: com maquiagem ou sem maquiagem, a mulher será punida. Ela só não o será se conseguir sustentar seu papel decorativo em tempo integral, sem deixar escapar qualquer ideia de esforço nessa direção.

Balenciaga. No make up today.

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Nessas horas o certo horror à maquiagem que eu vejo às vezes ser exibido me remete muito à menina que eu fui, procurando um jeito mais “puro” de ser mulher, quando isso só alimenta oposições que não contemplam nossa complexidade como humanas. A sociedade propõe múltiplos modelos de mulher ideal: super arrumada, naturalmente bela, que abre livros e não pernas – nenhum deles, ao meu ver, nos liberta.

Por isso, eu sinto que o que realmente deveríamos discutir, ao invés de maquiagem, é a ideia da beleza como atributo fundamental da mulher. Discutir por que e a quem serve sermos bonitas – para que nossas vozes sejam ouvidas, para que nossas histórias sejam contadas, etc.

Agora, caminhando mais pro outro canto do debate, é inevitável questionar: encaixar-se num padrão de beleza é empoderamento social? Quando nós falamos que a maquiagem nos dá confiança, o que realmente queremos dizer com isso?
Vou começar dizendo que eu compreendo que minha visão passa pelo recorte de eu ser uma mulher cis, branca, mais pra magra e able-bodied, ou seja, já muito contemplada pelos padrões e pela desejabilidade social. Ou seja: eu não posso dizer sobre a experiência de outras mulheres com outras trajetórias.

… o que realmente deveríamos discutir, ao invés de maquiagem, é a ideia da beleza como atributo fundamental da mulher. Discutir por que e a quem serve sermos bonitas

Tendo isso em mente, retorno: o que se quer dizer com “maquiagem me dá confiança” – por que ela traz confiança? Será que não é justamente por nos aproximar de um padrão e, portanto, nos colocar como potencialmente desejáveis – um valor que somos intimadas a almejar ao longo de nossa criação?

Se nós somos cobradas por toda nossa vida a sermos bonitas, será que preencher essa categoria é de fato uma escolha? Independente da confiança que essa sensação nos dá, eu não consigo enxergar isso como socialmente empoderador, ou seja, como algo que transforme a situação social da mulher. E eu acho que confundir individual com social é algo perigoso das mais variadas formas, o que não quer dizer que eu desconsidere que essas coisas esferas se constroem mutuamente.

Uma reflexão semelhante é trazida no texto de Romy Oltuski para o Man Repeller (infelizmente disponível apenas em inglês) que defende um movimento de neutralidade do corpo ao invés de amor ao corpo. Eu realmente às vezes sinto que ao invés de brigarmos por usar ou não maquiagem, deveríamos brigar para sermos socialmente valorizadas como seres humanos sejamos bonitas ou feias, produtoras de tesão ou não. Porque sobra homem feio no mundo profundamente autorizado a existir, dar opinião, se por ou se opor ao que for e foda-se.

Isso significa que eu te acho uma má militante por usar maquiagem ou por procurar se sentir bonita? Olhe, Azathoth me livre de entrar nessa postura religiosa de exigir militantes imaculados pela cultura, que se autoflagelam quando se percebem humanos.

Eu não acredito em beleza ou maquiagem como empoderamento social, ou seja, como ferramenta para fortalecer as mulheres como coletivo – mas eu acredito que se pode ter sim um papel nas nossas jornadas individuais. E nossas jornadas individuais são importantes. Ser quem queremos ser e como queremos parecer é importante. Afinal, eu acredito que só existimos uma vez – curtíssima e que acaba de repente – e, portanto, devemos nos conceder gentilezas quando pudermos. Não poderemos pra sempre, afinal.

A maquiagem pode nos servir de escudo nas mais diversas situações, também. Nos proteger das mais diversas violências – e isso pode servir para guardarmos a energia que despenderíamos nelas para lutarmos em outros espaços e contextos. Isso também é importante. Mas isso também não significa vitória do coletivo, porque apenas indica a infinidade de golpes que podemos tomar.

Eu espero que numa sociedade futura a maquiagem possa estar disponível a todos como uma forma de brincarmos com nossas imagens, nunca de adaptá-las. Espero que numa sociedade futura conferir o espelho tenha pouco significado e sejamos livres para ser quem somos, como somos, sem precisarmos oferecer algo nosso para o consumo. Sem precisarmos justificar nossa existência a partir de uma imagem palatável.

went overboard at the sticker store

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Eu não pretendo que esse texto responda as questões ou encerre os debates. Meu conhecimento teórico e prático é bastante pequeno e está longe de ser capaz de qualquer dessas coisas. Essa é apenas uma tentativa de abrir outros aspectos e alimentar nossa busca por respostas que, mais do que nos satisfazerem, nos movam.

Enquanto isso, eu espero que você possa fazer de si o que for melhor para o seu momento pessoal e que olhe para o lado com abertura e uma dose de carinho, porque se tem uma coisa que mulher recebe todo dia é olhar atravessado.
 

Escrito por
Mais de Cacau Birdmad

Pare sua vida e jogue Undertale

Quem convive comigo no dia-a-dia fora de ambientes de labuta, nos quais eu posso expressar minhas facetas com maior liberdade, certamente ouviu falar de Undertale. E ouviu que tinha que jogar. Agora. Nesse exato minuto. Juro, vai, tá só 20 pila no Steam e eles aceitam boleto, cartão, etc.!

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É difícil explicar porque você precisa jogar Undertale. Falar sobre o jogo é risco sério de dar spoilers – algo que eu geralmente não me importo. Nunca senti que spoiler realmente estragava alguma coisa. Aí joguei Undertale – e foi mais uma coisa que esse jogo mudou na minha vida.

Então, sem estragar o jogo: Undertale é certamente o melhor RPG do ano. Ele é metalinguístico de uma maneira não punhetada, ele tem personagens super carismáticos que você pode escolher conhecer, ele tem um sabor de infância sem ser infantil, ele tem vários cachorros e você pode ir num date romântico com um esqueleto. O que mais você poderia querer?

Se você for jogar um jogo esse ano, jogue Undertale. Especialmente se você gosta de jogos. Se você é uma pessoa que ama, consome e pensa essa mídia, você irá aproveitá-lo ainda mais.

Se você não é ligada em jogos, não fica falando “ai, gente, o potencial dessa mídia” e discursando por horas sobre isso, jogue Undertale. É um jogo muito divertido. Você vai ter uma ótima experiência.  Você não precisa amar, consumir e pensar essa mídia para amá-lo.

E, se você não jogou Undertale…

 

 

Ok.
 

 

COMEÇANDO OS SPOILERS!!!

Sério.

 
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Ok.
 

Undertale é um RPG sobre jogos e sobre ser o jogador. A princípio, tanto sua arte quanto mecânica parecem simples: um pixel art nostálgico, tantas vezes presente em jogos indies, e um sistema de turnos clássico somado a mecânicas de bullet hell. Ele de cara apresenta uma novidade que faz toda a diferença, porém: a possibilidade de não matar seus “inimigos”, mas agir de modo persuadi-los a não lutar. Isso torna agredir uma escolha – e o jogo vai te fazer pensar sobre ela.

 
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Em Undertale suas escolhas tem consequências. Até mesmo apertar o botão de Reset ou escolher investigar outros finais. Suas ações são, de certo modo, permanentes – ou ao menos impregnantes. O mundo de Undertale não é para nós, do modo que tantos jogos são. Seus personagens não estão ali para prover nossa experiência, mas habitando um mundo.

 
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Talvez por isso quando me dei conta que teria de enfrentar um personagem eu acabei batalhando entre lágrimas. O jogo conseguiu me tocar de modo que ferir aquele personagem tinha um significado que nenhuma batalha em jogo já teve. Aquele não era meu momento épico de glória, como essas lutas costumam ser: era uma necessidade feita com pesar.

Eu não consegui “ver tudo” de Undertale ao jogar. Não matei ninguém na minha Neutral Run (afinal, se o jogo me dava essa novidade era ela que eu queria conhecer) e depois fiz o Pacifist Ending. Abrir o jogo novamente me fez dar de cara com a consequência de re-jogar: tirar daqueles personagens seu final feliz. Pra que? Apenas pelo meu prazer.

Como tantas coisas que fazemos em jogos: apenas porque podemos, apenas porque nosso prazer manda.

Fechei o jogo. Não abro mais. Quero aquele pessoal feliz pra sempre nos meus saves. – Eu tinha outros recursos, afinal, como vídeos de gameplay de outros.

Só assim tive contato com a violência que é matar aqueles personagens, especialmente na trágica Genocide Run – na qual você elimina absolutamente todos os monstros. Ruas vazias, sem a alegria que encontrei quando joguei.

Mas você não precisa matar todo mundo pra que existam efeitos, também. Um personagem que some já faz falta para outros. Sua ausência não é indiferente. Assim como no mundo.

Undertale te ensina sobre empatia e bondade através das consequências de sê-lo ou não. Ele delicadamente supera todos sistemas de moralidade e escolhas “relevantes” que jogos com muito mais dindin nos oferecem.

E, acima de tudo, palpável em cada monstro, em cada música, em cada cenário, sente-se: Undertale é feito com profundo amor e atenção.

Bem, caso alguém lá de cima que não jogou tenha ignorado meus pedidos, não vou me adentrar em mais detalhes. Você ainda pode ter o gosto de conhecer os personagens dessa história sozinha – mesmo que vá entrar nela cheia de avisos agora, né?

Manda um  abraço pro Papyrus por mim.

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