Entrevistamos a Luiza do canal Tá, Querida ♡

Como não jornalista que sou, porém muito curiosa nas artes da escrita, fui ousada e alegre em fazer uma entrevista. O problema de não ter nenhuma graduação em jornalismo é não ter um parâmetro de como entrevistar alguém (entre muitos outros problemas, risos), mas também pode ser uma grande virtude porque pode quebrar o formato academicista e quadrado. Tenho certeza que não sou pioneira, mas fiz essa introdução apenas para te confirmar que as coisas sairão dos trilhos nos próximos parágrafos, tá, querida? #AquiÉfreeStaile

Provavelmente conheci a Luiza em 2014 quando, no Rio de Janeiro, estavam bombando os encontros de coletivos e grupos virtuais de feminismo. Nos esbarramos várias vezes, entre eventos feministas, marchas, feiras de arte gráfica independente. Depois de um período sem internet no começo do ano, quando a luz do http voltou à minha vida, descobri com o maior sorrisão no rosto que ela havia aberto um canal no YouTube. Sem mais delongas, postarei nossa conversa maravilhosa em forma de uma entrevista desconstruída (palavra do ano, amo).

DICULGAÇAOCANAL (1)

Tá, Querida, #RumoAos15k

(Quem está lendo a entrevista em 2020 está rindo com o #RumoAos15k, certeza)

Ovelha: Oi miga, tudo bem? Desculpa a demora para te mandar a entrevista, é que é muito difícil entrevistar alguém que, apesar de você já conhecer pessoalmente e ter compartilhado ambientes de luta, admira tanto pode acabar sendo um empecilho, hahaha. Então na verdade eu não estava atribulada não, só chupando o dedo tentando não parecer uma idiota, fazendo perguntas mais do mesmo.
O que me leva à primeira pergunta. Como mulheres, sabemos que temos inseguranças mil e você trabalha muito bem a segurança de nossos corpos. Se você puder contar um pouco como foi realizar o seu trabalho de conclusão de curso, tenho certeza que muitas de nós vamos amar saber sobre!

Tá, Querida: quando eu fui num rolê que você tava fiquei muito besta de ver que a gente era tipo migas hahahahahaha. Enfim…fiquei muito feliz de saber que é um amor louco mútuo!!! <3 haha. Agora vamos as perguntas que eu tbm amei!!!! <3333

A história é meio longa. Vou tentar resumir. Em 2013 eu fiz um intercâmbio de 1 ano para a Inglaterra. Como era uma bolsa do Ciências Sem Fronteiras eu precisaria executar um projeto durante o intercâmbio para apresentar ao CNPQ. O projeto que fiz foi o #curtadocumentárioexperimental Espelho Torcido. O curta se trata de imagens de partes do meu corpo pelado, mostrando todas aos pedaços que mais odiava em mim. A ideia era tentar de alguma forma me forçar a encarar meu próprio corpo. Eu coloquei o vídeo na internet e tive uma ótima repercussão! Saiu em blogs, páginas, tumblrs etc. A partir daí várias pessoas me procuraram com depoimentos maravilhosos de como o filme havia ajudado em seus processos de empoderamento. E dessa forma eu acabei me empoderando também. E foi maravilhoso! Esse projeto serviu de partida inicial para eu depois vir a desenvolver meu TCC, um curta documentário chamado GORDA.

A ideia era tentar proporcionar a outras mulheres o mesmo processo que aconteceu comigo. Ao se deixarem ser filmadas, elas poderiam de alguma forma conseguir enxergar beleza em seus corpos. Sendo assim, o documentário trata da relação de 3 mulheres gordas com seus próprios corpos.

Quando fechei a ideia do projeto, coloquei na internet um formulário para a seleção das personagens! Em duas semanas, obtive 554 inscrições! Eu fechei imediatamente com medo de não dar conta do volume de depoimentos que teria para ler. (Os depoimentos desse formulário são maravilhosos, inclusive. Valeria fazer uma página só disso! haha) Fiquei uns bons meses debruçada nesses depoimentos para selecionar as personagens! Foi um processo bem difícil e demorado. As gravações também foram complicadas.

Produzi tudo praticamente sozinha entre arranjar locação, comprar figurino, conseguir equipamento, alimentação… Tudo saindo do meu bolso. Mas em compensação, tive uma rede de apoio imensa na internet. Toda a equipe do filme foi formada por mulheres que conheci na internet! Isso sem contar todas as outras que ajudaram compartilhando, apoiando e dando amor e força pra continuar! Foi um processo super difícil e desgastante, mas hiper recompensador e maravilhoso. Nunca havia experimentado tanto amor em uma relação de trabalho assim! Só pra falar que as minas são ABSOLUTAS! Enfim… O filme ainda não está pronto, mas vai sair! Se tudo certo até o final do ano eu lanço ele bem lindão no YouTube! A ideia é que todas as gordas (e as não gordas tbm) assistam! Como eu sei que não tô só, tenho fé que esse filme vai fazer muito barulho na interweb e vai ajudar muitas minas!

Espelhocapa2

Captura de Tela 2016-09-15 às 03.12.42

Ovelha: Como eu sempre queimo a largada, me conta, qual o seu nome, o que você faz, quantos anos você tem, onde você mora, de onde você é, qual o seu signo (brinks, sei que você não acredita) etc? Resumidamente, WHO ARE YOU IN THE LINE OF THE BREAD, Risos.

Tá, Querida: Meu nome é Luiza Santos Junqueira Ribeiro, eu trabalho como editora de vídeo (e trocentas outras coisinhas) no Canal Curta! que é um canal muito massa e um dos únicos independentes da TV brasileira. Tenho 24 anos. Moro no Rio de Janeiro. Sou de São José dos Campos – SP. Não acredito muito em signo (mas acredito um pouco haha), sou aquariana com os outros dois coisos em libra e um monte de outros coisos em capricórnio também. Eu curto muito comida! Acho que é isso!

Ovelha: Eu, como você, também migrei e isso mudou muita coisa em mim. Conhecer uma nova realidade, fazer parte dessa nova realidade e conhecer pessoas novas fora da minha zona de conforto mudou muito a minha cabeça. Como foi para você sair de Sanja City (São José dos Campos) para o Rio de Janeiro?

Tá, Querida: Meus primeiros 3 anos fora de casa foram bem difíceis. Nunca fui diagnosticada com depressão (porque nunca fui em psicólogo infelizmente), mas acredito que nessa época vivi uma depressão bem complicada. Não fiz muitos amigos, mas amadureci um monte também. Depois dessa época eu fui fazer intercâmbio e foi aí que deu restart na minha vida. O fato de você sair do país e poder ver as coisas de longe ajuda muito. Sou imensamente grata por ter tido esse privilégio. Durante o intercâmbio eu tinha muito tempo livre então comecei a ficar mais ativa em grupos do facebook. Nesses ambientes conheci pessoas, novas realidades e o feminismo. Melhorei e me desconstruí muito naquele ano. Voltei pro Brasil com outra cabeça e daí sim consegui aproveitar a distância de casa para abrir ainda mais minha cabeça pra um mundo bem diferentão do que era o meu em Sanja City!

Ovelha: Qual foi o seu primeiro contato com o feminismo e como ele se desenvolveu na sua luta/militância (eu considero que muito orgânica e maravilhosamente haha)?

Tá, Querida: Meu primeiro contato com feminismo foi em grupos do Facebook sobre o assunto. Eu consumo muito literatura de Facebook. Aprendi muito em grupos com depoimentos de várias minas. Aprendi sobre a importância dos recortes dentro do feminismo e principalmente me empoderei. Grupos como Zine XXX, Selfless Poirtrait das minas (que entrei por um acaso) e todas as outras vertentes de grupos das minas foram minha escola feminista. Nunca li Simone de Beauvoir! Nunca nem conseguiria pois não me dou muito bem com literatura tradicional. (medo de assumir isso aqui e perder minha carteirinha de feminista hahaha mas é a verdade). Mas foi o feminismo que me tirou do buraco que eu estava. O feminismo salva! Amém! Então acaba que tudo o que eu faço tem alguma mensagem feminista por trás. Mas não me considero militante justamente pelo meu afastamento em relação aos movimentos e tal. Acho que é isso mesmo que você falou. O feminismo se desenvolveu organicamente nos meus discursos porque eu absorvi muito dele na internet! Mas militante mesmo eu não sou. Nem de facebook hahaha (sou daquelas lê tudo e não dá um piu).

Ovelha: É difícil perguntar alguma coisa específica sobre o seu canal porque já vi todos os seus vídeos, mas qual a chamada que você gostaria de fazer para as leitoras da Ovelha conhecerem seu canal? Qual é o vídeo que você mais gostou de fazer?

Tá Querida: Oi, Querida! Eu tenho um canal no YouTube que é uma das coisas que mais amo na vida! O Tá, Querida aborda empoderamento feminino, auto estima, receitinhas mara, cabelo colorido, cultura pop diferentona e mais um monte de coisas que não necessariamente tem relação uma com a outra. É o meu canal e eu faço o que eu quero (no ritmo de It’s My Party). Meu vídeo preferido é o que eu ensino limpar a bunda com rolinho de papel em casos emergenciais.

Ovelha: Sabemos que você estudou cinema. Qual é a sua rotina de trabalho e pesquisa para o Tá, Querida? Para alguém que quer fazer um canal, o que você indica/sugere (material e coragi)?

Tá, Querida: Minha rotina é bem orgânica (adorei essa palavra, miga hahaha). As ideias dos vídeos vão surgindo a partir das sugestões dxs queridxs. Eu vou anotando tudo, meio desorganizada, mas anoto tudo. Como eu trabalho durante a semana, uso o final de semana para gravar os vídeos e aproveitar a luz do dia. Mas as vezes me enrolo e tenho que gravar dia de semana de noite. Deixo para editar durante a semana, depois que chego do trabalho. É BEM cansativo e às vezes eu penso em diminuir isso. Mas ao mesmo tempo é tão divertido e gratificante que eu acho que estou viciada! Por enquanto sigo firme!

Pra quem fez cinema dá sempre medinho de colocar qualquer produto audiovisual na internet e chover críticas. Mas a real é que raramente isso vai acontecer, e se acontecer, foda-se! Claro que eu prezo pela qualidade audiovisual do meu canal pois eu sou formada nisso e ele meio que funciona como meu portfolio. Mas no fundo eu sei que ninguém precisa ser bonzão em audiovisual pra fazer um ótimo canal no YouTube. Eu acho que acima de tudo, o canal tem que ser feito pra própria pessoa. Faça vídeos porque você gosta de fazer vídeos, porque você gosta de assistir seus vídeos! Assim, mesmo que ninguém mais goste, será divertido e gratificante!

Ovelha: Miga, se você pudesse indicar 5 canais no YouTube, quais seriam eles? Ah, obrigada por ter indicado o Dario, eu sou apaixonada por ele! Hahaha.

Tá, Querida: Conheço muito mais de 5 canais maravilhoooosos que eu indicaria, mas de supetão indico:

Mariri (vídeos lindos de um ponto de vista hiper sensível que é da mariri! É maravilhoso)

FaM (Isabella e Felipe postam vídeos TODO DIA do cotidiano deles. Os vídeos são absurdos com edição maravilhosa, imagens incríveis e o que há de mais topper shower em SP.)

Vinni Zone (acho que é um dos meus favoritos. Tenho muito orgulho de ser amiga desse menino. Os vídeos são MUITO engraçados. A edição é impecável e ele tem um jeito com a câmera maravilhoso. Fala sobre cultura pop e coisas diversas e sempre me faz rir muito)

Jana Viscardi (uma deusa maravilhosa que fala sobre comunicação e linguagem. É muita desconstrução e amor. Sem contar que as vezes rolam umas diquinhas de mercado de trabalho BAPHO)

Dario (Meu preferido sem dúvidas. Ele posta de dois a três vídeos POR DIA! Ele faz vídeos virais e essas coisas de internet (DIY, 100 camadas de alguma coisa…) mas com o jeitinho mais cativante do universo. Ele é muito engraçado, honesto e singelo. Não tem como não amar o Dário. Sou fã tiéte mesmo.

Captura de Tela 2016-09-15 às 02.51.37

Só temos a agradecer essa pessoa maravilhosa que a Luiza é. Ela tem uma percepção de que o trabalho dela não é um tipo de militância, mas miga, aqui sem tréplicas, é sim, haha! Falar sobre empoderamento feminino, mostrar que podemos ter escolhas dentro desse universo capitalista cheios de padrões inalcançáveis, quebrar isso é sem dúvida um tipo muito impactante de militância. Principalmente com o o trabalho de áudio, onde você mostra seu rosto e abre para pessoas que você nunca viu, quem você é. Apenas muito orgulho do seu trabalho, desejo que você tenha cada vez mais inscritos e seja felizona nessa vida de minha Deusa! Digo mais, você poderia pegar aqueles todos depoimentos e montar um livro, tenho certeza que ficaria incrível.

E se você curtiu a Luiza e alguns dos vídeos que postamos dela aqui, vai lá se inscrever no canal dela, mostra para as miga e sejamos todas felizes juntas! #migas Ai, vou deixar mais um vídeo dela aqui porque amo. Hahaha.

Mais de Bárbara Gondar

Girl in a Band: mágoas e roquenrou

Antes de saber o que era feminismo, muito antes, a maioria dos meus ídolos, especialmente os musicais, eram mulheres. Desde nova, 14/15 anos, eu já gostava muito de Portishead, Sleater Kinney, Bulimia, Janis Joplin, Nico, Patti Smith (entre muitas outras), baixava uma música por vez no KasaA e demorava para cacete (vou fazer trintão esse ano). Os cd’s gravados iam de mão em mão, numa festa, numa viagem, e assim é como eu conhecia música nova.

Assumidamente, só comecei a gostar de Sonic Youth depois dos meus 24 anos, que perda de tempo! Hahaha! Apesar de ser muito fã de Nirvana e dos cd’s mais barulhentos com guitarras sujas e distorcidas, Sonic Youth era barulhento e dissonante demais para mim. Mas me apresentaram dois cd’s que faziam menos distorção e aí com um pouco mais de paciência eu pude ouvir as letras e fiquei fascinada. Os cd’s eram Rather Ripped e Sonic Nurse, eu acho que ouvia o Rather Ripped umas 20 vezes por dia, sem brincadeira, quando eu piro numa parada, esse é o meu jeitinho, risos. De qualquer forma, foi o cd que abriu as portas do Sonic Youth na minha vida.

 

 

Eu tive a oportunidade de ir no último show do Sonic Youth pois estava morando em São Paulo. Amigos meus iriam pro SWU de qualquer forma, carona eu tinha, mas um namoro meu tinha acabado exatamente naquele dia. Antes do término, o plano era ir ao show, esse meu namorado que havia me apresentado a banda e imaginem, exatamente quando você vira fãzáça, ela vem tocar no seu estado! Mas no final acabei não indo, estava chateada, sem forças para produzir a ida para um show naquele estado, e no final, meu ex-namorado foi ao show e eu não. Nunca vou me perdoar por isso, hahaha!

Quando eu soube que Kim Gordon iria escrever um livro, pensei, caralho preciso comprar assim que sair. Quero ler em inglês, pensei, como tenho o privilégio de saber falar e ler em inglês, não queria passar novamente pela saia justa da tradução mal feita como foi no livro da Patti Smith. Em que o nome do livro ‘Just Kids’ virou “Só Garotos”. Com essas paradas de tradução, sempre me vem à cabeça ‘O Poderoso Chefão’, hahaha, se você parar para pensar, é bem engraçado tipo, chefão de video-game, sei lá. Tradução é uma parada muito difícil mermo.

 

 

Depois de um tempo (em que o livro não estava em minhas mãos porque não achava em inglês), amigas do Rio organizaram amigo secreto de livros agora no final de 2015. Na real não era um amigo secreto, levamos vários livros e colocamos na mesa e quem se interessasse que pegasse o livro. Eu levei uma caixa de livros e voltei com uma caixa (coração quentinho). Um dos livros em cima da mesa era o da Kim Gordon em inglês, minha amiga Elisa queria e sabia que eu também queria o livro, mas como eu estava me mudando do Rio, ela deixou eu levar o livro, hahaha. Obrigada Elisa, te amo miga!

 

 

Finalmente me mudei e abri a primeira página. Eu sabia que aquelas 273 páginas precisariam ser bem administradas porque eu poderia ficar mal caso eu terminasse o livro muito rápido e/ou tivesse uma má relação com ele. O que não foi o caso, o tempo foi perfeito, foi rápido mas estava bom e me forcei a fazer pausas dramáticas para aproveitar a nova cidade e manter a dosagem perfeita, hahaha.

 

 

No livro, Kim conta sua história desde criança, um pouco sobre a história dos pais dela, do irmão que sofre de esquizofrenia e o conturbado convívio em que a doença proporcionou a todos. A descrição do clima político entre as épocas que vão perpassando o livro, é maravilhosa. O clima estranho de quando Manson andava solto por Los Angeles, e como isso influenciou ela ao longo da sua vida, ela chega a citar Manson e seu bando (Revolution 9) umas 4 ou 5 vezes durante o livro. Eu gosto muito como ela descreve a Califórnia, acho que é como qualquer californiano prodígio descreveria, me lembrei muito da banda Best Coast, de pessoas que tem cabelo loiro por causa do sol e daqueles vídeos de skate em piscinas vazias em casas abandonadas.

 

Best Coast falando sobre a Califórnia e até o nome da banda é sobre isso, haha

 

O momento da adolescência e transição para fase adulta de Kim foi muito ligado às artes no geral e à busca infinita de qualquer artista pro seu porto, muita miçanga, minha gente de humanas! Kim vai passando por diferentes escolas de arte, uma que inclusive ficava em Toronto, no Canadá. Além das diferentes escolas, ela passa por diferentes sub-empregos para conseguir se sustentar, quem nunca. Não sei o porquê empregos como garçonete são categorizados como sub-empregos, te dizer que foi o melhor emprego que eu tive na minha vida apesar de pagar pouco, deve ser por isso, hahaha.

Quando depois que a Kim foi embora do Canadá e voltou pra Califórnia, ela resolveu ir de carro com um amigo até Nova Iorque, eu fiz essa viagem, me identifiquei demais. É excitante a forma que ela descreve Nova Iorque, a forma que o Sonic Youth foi sendo criado, como ela conheceu o Thurston Moore, como as músicas eram compostas, é tão realista que você nem sequer se lembra que pode ter um segundo ou terceiro ponto de vista dessa história. Parece que você está lá, vendo tudo acontecer. Me lembrei muito do livro da Patti Smith, a visão de duas meninas de outros lugares (se bem que a Patti Smith era da roça, foi muito mais impactante pra ela) chegando numa cidade em que seus ídolos estavam todos ali, e você sentia em que ali era o momento de se estar, as coisas estavam acontecendo.

 

 

Claro né, fazendo um recorte de momento/país aqui, revolução hippie, Panteras Negras, primeira (segunda?) onda do feminismo, revolução musical, nascimento do punk (há [muitas] controvérsias), no wave, ‘faça amor não faça guerra’, CBDB, LSD, tudo junto e misturado e você ainda podia se esbarrar com o Basquiat e Andy Wahrol andando na rua. Entrar num bar underground pra cacete e ver a Nico cantar com o Velvet Underground, apenas excitante.

Durante todas as partes do livro, desde criança, adolescente, início da fase adulta, Kim descreve como é ser uma mulher em diversas atividades. Como e quais são as complicações de ser a menina/mulher da banda acaba sendo metafórico para ser mulher em diversos ambientes. Um exemplo é que desde cedo ela já se interessava por moda/figurino porque sua mãe era costureira e fazia suas roupas. Ela levou esse interesse com ela, mais tarde até chegou a abrir uma marca com uma amiga. Mas na real onde eu quero chegar é que ser uma mulher numa banda e se vestir de x forma ou y, poderia afetar vendas e/ou como a banda e ela seriam vistos.

 

 

O feminismo é presente na vida de Kim e ela faz meio desse livro para expor diversas situações no grande estilo #meuamigosecreto e #minhaamigasecreta. Dá pra sentir quando o sentimento está sendo dosado por causa da filha enquanto ela fala de Thurston e quando o sentimento voa sem freios porque ela precisa tirar aquilo do peito. Da mesma forma como quando ela se pronuncia diretamente à Courtney Love, sem freios, sem medo, a chamando de interesseira e mal caráter, ‘a train wreck’. Apesar de não curtir expor mulheres e ver/ler sobre isso, senti que Kim já havia pensado se o faria ou não e resolveu fazer, pelo passado das duas, pelo passado de seu amigo Kurt Cobain e para respaldar Kathleen Hanna (que foi agredida por Courtney, sem motivos aparentes).

 

 

Não cabe a mim julgar essa situação e essa exposição, é uma autobiografia e ela escolheu incluir conscientemente esses trechos e eu compreendi, mas o que me encucou foi outra coisa. Se você não sabe até agora que o motivo da separação de Kim e Thurston foi uma traição (e tudo o que vem com isso, não somente o fato isolado), TEJE AVISADE. O lance é que apesar dela colocar o Thurston como maior ‘culpado’ na situação, ela azucrinou a mulher com quem ele a traiu, até por demais, na minha opinião. Como se a mulher tivesse poderes especiais e transformasse os ~ coitadinhos dos homens ~ em peões de seu tabuleiro de xadrez (sei lá, inventei agora, comecei a jogar xadrez [de novo], haha).

Agora voltando, o feminismo é presente no livro e na vida dela e no trabalho dela, contando a própria experiência dela, entendendo como o mundo funciona para uma mulher, para uma mulher numa banda ~ de sucesso, mas há uma situação de opressão entre a Kim e a mulher com quem o ex-marido dela a traiu. Há uma exposição desnecessária de uma mulher anônima e a Kim utiliza a fama dela para fazer isso. Isso não gostei, bem diferente de trocar farpas com a Courtney Love que não há situação hierárquica de opressão, a meu ver pelo menos, posso estar errada, claro! De qualquer forma, ser consciente de reprodução de machismo é um trabalho diário, em algum nível, a maioria de nós faz.

 

 

Na verdade eu também não curti uma carta aberta que ela escreveu para a Karen, cantora do The Carpenters. A carta foi publicada numa revista e tem um tom psicanalítico nada legal, como se ela quisesse ajudar alguém que não pediu ajuda. Não entendi o porquê ela quis incluir isso no livro, mas quem sou eu? Hahaha. Essas foram as partes de que não gostei no livro, mas agora vamos falar de coisa boa, vamos falar de cogumelo do sol.

 

Clipe do Sonic Youth em que a Kathleen Hanna participa

 

Não quero acabar essa resenha com essa torta de climão, o livro é muito bom, além de Sonic Youth e muitíssimo além de traições. Ela fala sobre a traição e o fim do casamento enfaticamente apenas nas últimas 30 páginas do livro, pra você ter uma ideia. Então, não quero deixar passar a impressão de que é um livro inteiro sobre descarrego. É e não é, é de uma forma natural, como se uma amiga estivesse te contando sua história, você se sente próxima dela, por isso é difícil julgar, porque dá pra sentir que o grau de sinceridade e entrega é de alguém que passou por um problema que fez a vida mudar completamente e por mais que o tempo tenha passado, é como se ainda estivesse em processo de digestão. Afinal, foram 27 anos de casamento, de banda, uma filha que é muito amada pelos dois, o que são 5 anos passados diante de tantas coisas significativas?

 

 

Kim escreve como ela tocou baixo, de forma crua, sincera, alto nível de entrega pessoal. Descreveu os movimentos ao longo das décadas, como Riot Grrrl e grunge no início da década de 90 de forma excitante. Falou sobre o seu envolvimento pessoal e profissional com pessoas que são meus ídolos como a banda Pixies e ter aberto para Neil Young numa turnê. Consegui me imaginar naquela festinha dos sonhos, sabe? Aquele backstage de festival em que todos estão reunidos, comendo porcarias e dividindo o banheiro porco. Você se sente ali, fazendo parte de tudo aquilo junto com ela. Sendo a mulher da banda, ou a miga dela, ao menos, haha.

 

No final, só tenho a agradecer, porque mulheres não têm tantas ídolas assim, nós não ocupamos ainda suficientemente espaços que são esperados ser ocupados por homens. Nossas resistências ainda são ocupações políticas e a vida da Kim e toda a sua arte foram e são uma grande ocupação. Fazer música dissonante, fazer arte, escrever, ser mãe, expor, etc. Ainda há de se esperar grandes coisas dela, sem a menor dúvida.

 

Leia mais
um canal no YouTube. Sem mais delongas, postarei nossa conversa maravilhosa em forma de uma entrevista desconstruída (palavra do ano, amo).

DICULGAÇAOCANAL (1)

Tá, Querida, #RumoAos15k

(Quem está lendo a entrevista em 2020 está rindo com o #RumoAos15k, certeza)

Ovelha: Oi miga, tudo bem? Desculpa a demora para te mandar a entrevista, é que é muito difícil entrevistar alguém que, apesar de você já conhecer pessoalmente e ter compartilhado ambientes de luta, admira tanto pode acabar sendo um empecilho, hahaha. Então na verdade eu não estava atribulada não, só chupando o dedo tentando não parecer uma idiota, fazendo perguntas mais do mesmo.
O que me leva à primeira pergunta. Como mulheres, sabemos que temos inseguranças mil e você trabalha muito bem a segurança de nossos corpos. Se você puder contar um pouco como foi realizar o seu trabalho de conclusão de curso, tenho certeza que muitas de nós vamos amar saber sobre!

Tá, Querida: quando eu fui num rolê que você tava fiquei muito besta de ver que a gente era tipo migas hahahahahaha. Enfim…fiquei muito feliz de saber que é um amor louco mútuo!!! <3 haha. Agora vamos as perguntas que eu tbm amei!!!! <3333

A história é meio longa. Vou tentar resumir. Em 2013 eu fiz um intercâmbio de 1 ano para a Inglaterra. Como era uma bolsa do Ciências Sem Fronteiras eu precisaria executar um projeto durante o intercâmbio para apresentar ao CNPQ. O projeto que fiz foi o #curtadocumentárioexperimental Espelho Torcido. O curta se trata de imagens de partes do meu corpo pelado, mostrando todas aos pedaços que mais odiava em mim. A ideia era tentar de alguma forma me forçar a encarar meu próprio corpo. Eu coloquei o vídeo na internet e tive uma ótima repercussão! Saiu em blogs, páginas, tumblrs etc. A partir daí várias pessoas me procuraram com depoimentos maravilhosos de como o filme havia ajudado em seus processos de empoderamento. E dessa forma eu acabei me empoderando também. E foi maravilhoso! Esse projeto serviu de partida inicial para eu depois vir a desenvolver meu TCC, um curta documentário chamado GORDA.

A ideia era tentar proporcionar a outras mulheres o mesmo processo que aconteceu comigo. Ao se deixarem ser filmadas, elas poderiam de alguma forma conseguir enxergar beleza em seus corpos. Sendo assim, o documentário trata da relação de 3 mulheres gordas com seus próprios corpos.

Quando fechei a ideia do projeto, coloquei na internet um formulário para a seleção das personagens! Em duas semanas, obtive 554 inscrições! Eu fechei imediatamente com medo de não dar conta do volume de depoimentos que teria para ler. (Os depoimentos desse formulário são maravilhosos, inclusive. Valeria fazer uma página só disso! haha) Fiquei uns bons meses debruçada nesses depoimentos para selecionar as personagens! Foi um processo bem difícil e demorado. As gravações também foram complicadas.

Produzi tudo praticamente sozinha entre arranjar locação, comprar figurino, conseguir equipamento, alimentação… Tudo saindo do meu bolso. Mas em compensação, tive uma rede de apoio imensa na internet. Toda a equipe do filme foi formada por mulheres que conheci na internet! Isso sem contar todas as outras que ajudaram compartilhando, apoiando e dando amor e força pra continuar! Foi um processo super difícil e desgastante, mas hiper recompensador e maravilhoso. Nunca havia experimentado tanto amor em uma relação de trabalho assim! Só pra falar que as minas são ABSOLUTAS! Enfim… O filme ainda não está pronto, mas vai sair! Se tudo certo até o final do ano eu lanço ele bem lindão no YouTube! A ideia é que todas as gordas (e as não gordas tbm) assistam! Como eu sei que não tô só, tenho fé que esse filme vai fazer muito barulho na interweb e vai ajudar muitas minas!

Espelhocapa2

Captura de Tela 2016-09-15 às 03.12.42

Ovelha: Como eu sempre queimo a largada, me conta, qual o seu nome, o que você faz, quantos anos você tem, onde você mora, de onde você é, qual o seu signo (brinks, sei que você não acredita) etc? Resumidamente, WHO ARE YOU IN THE LINE OF THE BREAD, Risos.

Tá, Querida: Meu nome é Luiza Santos Junqueira Ribeiro, eu trabalho como editora de vídeo (e trocentas outras coisinhas) no Canal Curta! que é um canal muito massa e um dos únicos independentes da TV brasileira. Tenho 24 anos. Moro no Rio de Janeiro. Sou de São José dos Campos – SP. Não acredito muito em signo (mas acredito um pouco haha), sou aquariana com os outros dois coisos em libra e um monte de outros coisos em capricórnio também. Eu curto muito comida! Acho que é isso!

Ovelha: Eu, como você, também migrei e isso mudou muita coisa em mim. Conhecer uma nova realidade, fazer parte dessa nova realidade e conhecer pessoas novas fora da minha zona de conforto mudou muito a minha cabeça. Como foi para você sair de Sanja City (São José dos Campos) para o Rio de Janeiro?

Tá, Querida: Meus primeiros 3 anos fora de casa foram bem difíceis. Nunca fui diagnosticada com depressão (porque nunca fui em psicólogo infelizmente), mas acredito que nessa época vivi uma depressão bem complicada. Não fiz muitos amigos, mas amadureci um monte também. Depois dessa época eu fui fazer intercâmbio e foi aí que deu restart na minha vida. O fato de você sair do país e poder ver as coisas de longe ajuda muito. Sou imensamente grata por ter tido esse privilégio. Durante o intercâmbio eu tinha muito tempo livre então comecei a ficar mais ativa em grupos do facebook. Nesses ambientes conheci pessoas, novas realidades e o feminismo. Melhorei e me desconstruí muito naquele ano. Voltei pro Brasil com outra cabeça e daí sim consegui aproveitar a distância de casa para abrir ainda mais minha cabeça pra um mundo bem diferentão do que era o meu em Sanja City!

Ovelha: Qual foi o seu primeiro contato com o feminismo e como ele se desenvolveu na sua luta/militância (eu considero que muito orgânica e maravilhosamente haha)?

Tá, Querida: Meu primeiro contato com feminismo foi em grupos do Facebook sobre o assunto. Eu consumo muito literatura de Facebook. Aprendi muito em grupos com depoimentos de várias minas. Aprendi sobre a importância dos recortes dentro do feminismo e principalmente me empoderei. Grupos como Zine XXX, Selfless Poirtrait das minas (que entrei por um acaso) e todas as outras vertentes de grupos das minas foram minha escola feminista. Nunca li Simone de Beauvoir! Nunca nem conseguiria pois não me dou muito bem com literatura tradicional. (medo de assumir isso aqui e perder minha carteirinha de feminista hahaha mas é a verdade). Mas foi o feminismo que me tirou do buraco que eu estava. O feminismo salva! Amém! Então acaba que tudo o que eu faço tem alguma mensagem feminista por trás. Mas não me considero militante justamente pelo meu afastamento em relação aos movimentos e tal. Acho que é isso mesmo que você falou. O feminismo se desenvolveu organicamente nos meus discursos porque eu absorvi muito dele na internet! Mas militante mesmo eu não sou. Nem de facebook hahaha (sou daquelas lê tudo e não dá um piu).

Ovelha: É difícil perguntar alguma coisa específica sobre o seu canal porque já vi todos os seus vídeos, mas qual a chamada que você gostaria de fazer para as leitoras da Ovelha conhecerem seu canal? Qual é o vídeo que você mais gostou de fazer?

Tá Querida: Oi, Querida! Eu tenho um canal no YouTube que é uma das coisas que mais amo na vida! O Tá, Querida aborda empoderamento feminino, auto estima, receitinhas mara, cabelo colorido, cultura pop diferentona e mais um monte de coisas que não necessariamente tem relação uma com a outra. É o meu canal e eu faço o que eu quero (no ritmo de It’s My Party). Meu vídeo preferido é o que eu ensino limpar a bunda com rolinho de papel em casos emergenciais.

Ovelha: Sabemos que você estudou cinema. Qual é a sua rotina de trabalho e pesquisa para o Tá, Querida? Para alguém que quer fazer um canal, o que você indica/sugere (material e coragi)?

Tá, Querida: Minha rotina é bem orgânica (adorei essa palavra, miga hahaha). As ideias dos vídeos vão surgindo a partir das sugestões dxs queridxs. Eu vou anotando tudo, meio desorganizada, mas anoto tudo. Como eu trabalho durante a semana, uso o final de semana para gravar os vídeos e aproveitar a luz do dia. Mas as vezes me enrolo e tenho que gravar dia de semana de noite. Deixo para editar durante a semana, depois que chego do trabalho. É BEM cansativo e às vezes eu penso em diminuir isso. Mas ao mesmo tempo é tão divertido e gratificante que eu acho que estou viciada! Por enquanto sigo firme!

Pra quem fez cinema dá sempre medinho de colocar qualquer produto audiovisual na internet e chover críticas. Mas a real é que raramente isso vai acontecer, e se acontecer, foda-se! Claro que eu prezo pela qualidade audiovisual do meu canal pois eu sou formada nisso e ele meio que funciona como meu portfolio. Mas no fundo eu sei que ninguém precisa ser bonzão em audiovisual pra fazer um ótimo canal no YouTube. Eu acho que acima de tudo, o canal tem que ser feito pra própria pessoa. Faça vídeos porque você gosta de fazer vídeos, porque você gosta de assistir seus vídeos! Assim, mesmo que ninguém mais goste, será divertido e gratificante!

Ovelha: Miga, se você pudesse indicar 5 canais no YouTube, quais seriam eles? Ah, obrigada por ter indicado o Dario, eu sou apaixonada por ele! Hahaha.

Tá, Querida: Conheço muito mais de 5 canais maravilhoooosos que eu indicaria, mas de supetão indico:

Mariri (vídeos lindos de um ponto de vista hiper sensível que é da mariri! É maravilhoso)

FaM (Isabella e Felipe postam vídeos TODO DIA do cotidiano deles. Os vídeos são absurdos com edição maravilhosa, imagens incríveis e o que há de mais topper shower em SP.)

Vinni Zone (acho que é um dos meus favoritos. Tenho muito orgulho de ser amiga desse menino. Os vídeos são MUITO engraçados. A edição é impecável e ele tem um jeito com a câmera maravilhoso. Fala sobre cultura pop e coisas diversas e sempre me faz rir muito)

Jana Viscardi (uma deusa maravilhosa que fala sobre comunicação e linguagem. É muita desconstrução e amor. Sem contar que as vezes rolam umas diquinhas de mercado de trabalho BAPHO)

Dario (Meu preferido sem dúvidas. Ele posta de dois a três vídeos POR DIA! Ele faz vídeos virais e essas coisas de internet (DIY, 100 camadas de alguma coisa…) mas com o jeitinho mais cativante do universo. Ele é muito engraçado, honesto e singelo. Não tem como não amar o Dário. Sou fã tiéte mesmo.

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Só temos a agradecer essa pessoa maravilhosa que a Luiza é. Ela tem uma percepção de que o trabalho dela não é um tipo de militância, mas miga, aqui sem tréplicas, é sim, haha! Falar sobre empoderamento feminino, mostrar que podemos ter escolhas dentro desse universo capitalista cheios de padrões inalcançáveis, quebrar isso é sem dúvida um tipo muito impactante de militância. Principalmente com o o trabalho de áudio, onde você mostra seu rosto e abre para pessoas que você nunca viu, quem você é. Apenas muito orgulho do seu trabalho, desejo que você tenha cada vez mais inscritos e seja felizona nessa vida de minha Deusa! Digo mais, você poderia pegar aqueles todos depoimentos e montar um livro, tenho certeza que ficaria incrível.

E se você curtiu a Luiza e alguns dos vídeos que postamos dela aqui, vai lá se inscrever no canal dela, mostra para as miga e sejamos todas felizes juntas! #migas Ai, vou deixar mais um vídeo dela aqui porque amo. Hahaha.

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