Mas… você joga?

Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)
Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)

Durante três anos, trabalhei como curadora de jogos digitais em um festival internacional de arte e tecnologia bastante conhecido. Durante três anos, ouvi a mesma pergunta: mas o que você faz? A resposta para essa pergunta é ao mesmo tempo simples e complicada. Eu poderia dizer apenas que seleciono os jogos que serão exibidos no festival, mas, na maior parte das vezes, quem pergunta não se satisfaz com esta resposta e diversas questões aparecem em seguida.

As mais frequentes costumam ser: quantas pessoas trabalham com você? quem escolhe os jogos para você selecionar? mas quem é decide quais jogos entram? mas você tem algum contato com os desenvolvedores? quem instala e testa? você é estagiária? eu fiz um jogo, posso te mandar? você conhece o jogo [insira aqui o nome]? porque o jogo tal não está na exposição deste ano? e, claro, a pergunta que não quer calar: VOCÊ JOGA?

Todas essas perguntas parecem ao mesmo tempo bastante inocentes e um tanto óbvias, mas, se você for pensar a respeito, elas estão carregadas de “probleminhas”. Esse probleminhas tem algumas origens: eu sou uma mulher num ambiente predominantemente masculino, eu pareço jovem demais para assumir um cargo de suposta importância, eu me apresento de maneira pouco séria em ambientes vistos como formais.

O festival no qual eu trabalhava reúne diversas linguagens eletrônicas em um mesmo espaço expositivo, promovendo o diálogo entre arte e meios digitais. Dentro deste ambiente, existem curadorias um pouco mais autônomas, como é o caso de animação, games e cinema digital, por exemplo. Para cada uma delas, há um curador responsável por toda a categoria, que trabalha juntamente com os curadores gerais organizadores do evento e as outras equipes responsáveis pela montagem, equipamentos, manutenção, educativo e conteúdo do festival.

Então, em resposta às primeira perguntas: eu trabalhava sozinha na parte de games, era responsável por pesquisar muito e selecionar os jogos. Sim, era eu mesma quem decidia quais entravam quais não entravam, passando pelo aval apenas do curador geral da exposição. Eu testava, instalava e testava novamente. Eu entrava em contato com os desenvolvedores brasileiros e internacionais, convidava-os para participar do festival e me responsabilizava completamente pelo conteúdo que eu estava selecionando para ser exibido.

 
[caption id="attachment_5651" align="aligncenter" width="1280"]Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy) Ilustração exclusiva por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)[/caption]  
Não, eu não sou estagiária, sou formada, faço mestrado em jogos digitais e tenho sim experiência e repertório mais do que suficiente para um cargo deste tipo. Sim, você pode me mandar seu jogo, contanto que ele seja um jogo independente, experimental e que trabalhe com questões poéticas e estéticas condizentes com a exposição na qual estou trabalhando. Eu não tenho obrigação de aceitar seu jogo, e nem mesmo de responder aos seus questionamentos sobre o motivo pelo qual seu jogo não foi aceito.

É possível que eu conheça ou não o jogo do qual você está falando. Eu tenho a mesma chance de conhecer um jogo que qualquer outra pessoa ocupando a mesma função que eu, tendo acesso aos mesmos conteúdos que eu tenho e tendo interesses semelhantes. Pode ser que este jogo que voce presume que eu não conheça, não esteja na exposição por diversos motivos: ele não conversa com a temática proposta, os desenvolvedores não responderam ao convite, ele não funciona em uma exposição com fluxo intenso de visitantes, ou, pode ser que eu não o conheça mesmo.

Vamos fazer uma exerciciozinho de imaginação. Vamos imaginar que seu seja um homem de 28 anos que aparente ser um pouco mais jovem e tenha cabelos coloridos, piercings, tatuagens e use roupas casuais. Este homem é curador de jogos digitais em um festival de arte. Quantas pessoas perguntariam para ele abismadas: VOCÊ JOGA? Eu diria, pela minha experiência, que muito poucas. Atrevo-me a dizer ainda que o fato de ele parecer jovem e casual só contribuiria para a imagem dele como curador de jogos digitais. Diria ainda que as as outras perguntas “problema”  – que agora a gente já pode parar com o eufemismo e chamar de machistas – seriam reduzidas pela metade (ou nem mesmo existiriam).

Ter que me justificar todos os dias para poder exercer um trabalho é extremamente desgastante. Ter que me apresentar muitas vezes como “assistente de curadoria” em vez de “curadora” só para não ter que ficar me explicando é simplesmente horrível e degradante. Ser questionada diariamente por pessoas que simplesmente presumem que você não tem a mínima ideia do que você está fazendo/dizendo apenas porque você – obviamente, sendo mulher – não poderia conhecer aqueles jogos ou pior, jogá-los!

EU JOGO SIM! Jogo como uma garota, tenho minhas preferências, minhas manias e hoje começo a contar para vocês, de uma maneira bastante pessoal, aqui na Ovelha, minhas experiências na área e principalmente o que eu venho jogando, já joguei e quero jogar! Sem questionamentos, sem justificativas, só eu, os joguinhos e vocês. Bora?
 
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Ilustrações feitas com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)

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Mais de mamutemutante

Crazyhead: sobre amigas e demônios

Para aqueles que não sabem, eu tenho uma leve obsessão por séries com temas sobrenaturais. Quando digo leve, bom, estou sendo bastante moderada, e quando digo séries, quero dizer quase qualquer mídia conhecida pela humanidade. Minha preferência costuma englobar conteúdo violento, com humor bem idiota e, de preferência não-misógino. Sei que parece estranho para quem vê de fora, mas dentro do universo do sobrenatural, é até bastante comum vermos essa combinação em séries como Buffy ou livros como The Southern Vampire Mysteries (Charlaine Harris), Women of the Otherworld (Kelley Armstrong), entre outros.

A maior parte das coisas que eu consumo tem uma qualidade duvidosa em vários aspectos e eu tenho plena consciência disso. A Netflix, por sua vez, também tem essa “consciência” e vive me bombardeando com opções de lixos televisivos sobrenaturais que eu, complacentemente, acato e me entretenho por horas a fio. Recentemente me deparei com Crazyhead, nova série na Netflix, achei uma premissa bastante interessante e… bom, nem precisa dizer que foram perdidas algumas madrugadas em claro.

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Mas que diabos é Crazyhead?

Crazyhead é uma comédia de humor mórbido, com elenco bastante diverso etnicamente, sobre duas garotas inglesas de vinte e poucos anos com poderes paranormais e que caçam demônios. A série cumpre basicamente todos os meus requisitos para entretenimento idiota. Raquel (Susan Wokoma) e Amy (Cara Theobold), as personagens principais, apesar de completamente diferentes, possuem algumas características em comum, sendo a principal serem ambas “videntes”, ou seja, ambas são capazes de ver demônios que possuíram seres humanos.

A história gira entorno da relação entre as duas, sendo todo o mistério sobrenatural nada mais que um pretexto para a amizade aflorar enquanto lidam com questões bastante comuns a jovens mulheres adultas: relacionamentos amorosos, questões familiares, trabalho, adoecimento. Uma coisa bem, assim, hm, Buffy, sabe? Só que mais atual, mais sangrento, sem “monstro da semana”, com humor mais escrachado e com um guarda-roupa muito melhor, muuuito melhor.

Nos 3 minutos iniciais de Crazyhead, parecia que eu estava sendo transportada lááá pra 2011 quando vi Misfits pela primeira vez. Misfits é uma outra dessas várias séries sobrenaturais que eu consumo uma atrás da outra que nem batata frita. É uma série inglesa de 2009 de humor mórbido sobre cinco jovens etnicamente diversos de seus vinte e poucos anos que ganham superpoderes em seu primeiro dia de prestação de serviços comunitários como pena alternativa. O primeiro episódio me remeteu tanto à outra série que eu fui obrigada procurar se era do mesmo criador e, claro, óbvio que era. E, assim como Misfits, esperei que a série fosse de fato muito absurda, violenta, cheia de vergonha alheia (e é!) e que, infelizmente, pecasse um tanto na parte do “não-misógina”. Para minha feliz surpresa, não foi assim!

 

 
 

O que foi bem daora?

Eu me apaixonei perdidamente pela personagem da Raquel, uma mulher extremamente estilosa, desejável, fofa, atlética (ela faz pilates e desce o cacetete nos demônios como ninguém) gorda e negra, e que, a meu ver, foge de qualquer esteriótipo que eu já tenha visto retratado na tevê. É muito refrescante e muito fácil de se relacionar com um personagem que parece de fato uma pessoa de verdade! Ela tem dificuldade de fazer amizades, principalmente por não conseguir explicar a existência de demônios para as outras pessoas, mas ao encontrar Amy, que também os vê, tudo muda e ela ganha a confiança que faltava para ser ainda mais incrível – como se precisasse, não é mesmo?

 

 

Amy é um pouco menos interessante, mas ela tem um bom crescimento durante a série e tenho vontade de saber para onde vai o personagem na próxima temporada. A atriz Cara Theobold (que é dubladora da Tracer, de Overwatch, aliás) é mais padrão da tevê: branca, magra, loira, e seu personagem é uma moça tímida, insegura, desajeitada – já vimos tantas dessas que já perdi a conta – e também não tem muito trato social, mas ao contrário de Raquel, ela já começa a série tendo dois amigos: Suzanne, sua melhor amiga, e Jake, seu colega de trabalho.

Suzanne é retratada (otimamente por Riann Steele) como a amiga bonita, sexy e descolada de Amy que sempre esteve ao seu lado desde a infância, cuidando e dando suporte nas horas de necessidade. A partir do primeiro episódio, essa dinâmica muda completamente e Amy precisa entender como lidar com o fato de que agora ela é quem tem que cuidar dos outros e dela mesma. Já Jake (Lewis Reeves) é um personagem sem muita profundidade (bom, acho que apenas Raquel tem um pouco mais de profundidade), ele é bobo, apaixonado por Amy, mas mesmo rejeitado amorosamente pela amiga, nunca desiste e está sempre ao seu lado, ajudando nas situações mais absurdas possíveis (aka Xander).

 

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Outras coisas superlegais!

Tanto Amy quando Raquel possuem traumas familiares que, aparentemente, não envolvem questões como abusos sexuais ou relacionamentos românticos conturbados, que são clichês usados para personagens femininas em diversas séries e filmes. Temos personagens centrais negros (perceba o plural): Raquel, seu irmão Tyler (Arinzé Kene) e Suzanne. Temos várias mulheres relevantes no elenco – além das já mencionadas, temos a demônia que possuiu Mercy (Lu Corfield), uma mãe solteira que tem todos os problemas de uma mãe solteira, como, por exemplo, ter que contratar uma babá para poder executar os planos malignos de seu superior, ou tirar os bolinhos do forno durante um confronto. Os demônios da série são vilões relativamente complexos, com propósitos e estratégias para conseguir o que eles querem, com personalidades diferentes e alguns parecem até nem ser tão vilões assim.

 

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E, claro, não poderia faltar uma trilha sonora maravilhosa e quase toda encabeçada por mulheres!

Podemos começar por Gin Wigmore com “Kill of the night”, música de abertura simplesmente viciante e super adequada para a trama do filme, e “Devil in me”, que dá o tom frenético que a série pede. Weaves com “Drag me down” e Elle King com “Ex’s & oh’s” acompanham a batida acelerada e o vocal arranhado de Wigmore, dando uma atmosfera arrepiante para a trilha. “Where did you sleep last night”, de Wanda Davis, e “Name in a matchbook”, de Springtime Carnivore, já começam a desacelerar pouco a pouco, mas sem perder sua personalidade marcante. Chegarmos então em Bat for Lashes com “Laura” e na versão mais triste de “Where is my mind” que já ouvi em filmes, que é minha única crítica à trilha. Não existe música mais preguiçosa para falar sobre adoecimento psicológico na história do cinema (a partir dos anos 90). Mas, no meio de tantas pérolas mencionadas acima e outras tão fortes quanto, ela pode passar desapercebida, sem prejudicar o clima.

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Maaaaas…

Claro, nada disso que mencionei anteriormente quer dizer que seja uma série impecável, bem longe disso, aliás. Assim como Misfits, ela parecem ter um problema muito sério com piadinhas homofóbicas. Misfits começou com algumas insinuações sobre a orientação sexual de algum personagem ou utilizando a palavra “gay” como ofensa (insistentemente) e escalou rapidamente para demonstrações explícitas de misoginia, homofobia e transfobia e esse foi obviamente o motivo pelo qual parei de assistir. Tenho muito medo que Crazyhead escale da mesma forma e se transforme num show de horrores, como sua predecessora. Porém, estou torcendo fortemente para uma segunda temporada melhor e mais inclusiva (e que nem absolutamente todo mundo seja hétero, por favor, nessa parte Buffy ainda está ganhando)!

 

 
 

Saca só:

 

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