O dia que levei meu black pra escola

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Ilustração feita com exclusividade por Tais Cortez (a.k.a. Emily)

Todos os dias, antes de ir pra escola, minha mãe colocava os vilões da minha infância sobre o sofá, onde sentava para pentear meu cabelo. Creme para pentear, uma escova de pentear com cabo bem forte para lutar contra os fios embaraçados, borrachinhas de cabelo para prender tanto volume, e muitas, mas muitas presilhas, para não deixar um fio crespo fora do lugar.

Eu implorava para minha mãe parar de puxar tanto o meu cabelo, me deixar usa-lo solto, pois todas as outras meninas da minha turma usavam. Todas as outras meninas da minha turma eram brancas e de cabelo liso, eu era a única menina negra numa classe de escola pública (do estado de São Paulo) localizada num terreno de área militar.

Me lembrando de tudo isso hoje, entendo a cara de preocupação da minha mãe quando eu reclamava. E o quanto doía nela não poder atender minha vontade.

Um dia ela precisou ir trabalhar em um horário diferente e não estava presente para amarrar meu cabelo antes da escola. Foi então que decidi que naquele dia levaria meu black para a aula – mesmo que ainda não o chamasse de black.

Assim que entrei no ônibus escolar, várias cabeças se viraram na minha direção. Todo mundo parou de conversar e cutucava o amigo do lado caso ele não tivesse percebido minha entrada. Mas quem não havia percebido? Ninguém estava acostumado a ver um volume de cabelo como aquele em nenhum colega da escola.

Quando prossegui o caminho até o assento vazio mais próximo, começaram as perguntas. “O que aconteceu com você?”, “Tomou um choque?”, “Que cabelo é esse?”, “Tá brincando de Rei Leão?”. E foi assim até o fim do dia. O dia que me ensinaram que, para usar o cabelo solto como o das minhas amigas, ele teria que ser liso.

A partir dali, depois de muito choro para meus pais, todos os vilões da minha infância foram substituídos por uma força ainda maior, que prometia resolver todos os “problemas”: a chapinha.

Nas apresentações da escola, meu cabelo estava sempre alisado e eu corria para casa assim que acabava, para que as pessoas não vissem que o suor da brincadeira de uma criança estava mostrando a minha raiz original. Então não demorou muito para o alisamento com química aparecer. Eu tinha 10 anos quando alisei pela primeira vez.

Isso aconteceu mais ou menos na mesma época que meu irmão mais velho, que estudava na mesma escola que eu, descobriu que precisava raspar o cabelo dele só para poder entrar na instituição. Com a desculpa de que aquele era um território militar, a direção da escola cobrava dos garotos que sempre usassem cabelo baixo como o dos soldados e, não bastando ter que lidar com meus pedidos para o alisamento, minha mãe foi chamada para conversar com a direção da escola pois meu irmão estava arrumando confusão por causa do cabelo dele.

Lembro dele argumentando que, se o garoto argentino que havia acabado se matricular podia entrar na escola com o cabelo cumprido, ele também não precisaria cortar o cabelo. Então o silenciaram com um simples argumento: “é que o menino acaba de chegar no Brasil, não podemos impedir que ele perca um costume do país dele”.

Foi a única vez na vida que vi meu irmão tendo vontade de deixar o black dele crescer, depois daquele dia, ele raspa o cabelo bem baixo, assim como hoje faz com o cabelo do filho.

Eu demorei muito tempo para entender que o que aconteceu comigo e com meu irmão naquela escola foi racismo, pois o tempo todo pareceu que a culpa foi nossa. Eu quem inventei de aparecer com cabelo solto e incomodei as pessoas com o meu volume. E “não é nada contra você, nem sua pele. É que esse cabelo é feio, precisa cuidar para ficar bonito”. E eu acreditava.

 

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A geração que luta

Logo que eu fiz meu big chop vi uma cena da infância se repetir de forma assustadora. Quando entrei em um ônibus a caminho do trabalho, lá estavam: os olhares assustados e curiosos com meu cabelo antes mesmo que eu terminasse de girar a roleta.  Muitos jovens negros enfrentam o racismo pela primeira vez na escola, antes mesmo que possam entender o que está acontecendo, e os temores provocados pelas primeiras experiências sempre voltam na vida adulta.

Mesmo com todo o empoderamento que o ato de assumir meu cabelo me deu, reviver uma cena da infância foi quase tão humilhante e doloroso quanto. Eu não quis alisar meu cabelo como quis da primeira vez, mas fiquei pensando em como seria digno se as pessoas não me olhassem com nojo ou desprezo por causa do meu cabelo. É só cabelo!

Por isso, contar essas histórias está sendo tão difícil quanto lembrar delas. É que por mais fortalecimento que consigamos, nem sempre é fácil resistir e lutar. Imagina para aquela parcela da população negra que ainda não encontrou esse empoderamento…

A notícia recente de que o jovem Vinícius Santos Dias foi impedido de se rematricular no Colégio Adventista de Santos (que, alias, é a cidade em que nasci) por ter cabelo afro. Depois o pedido de um outro colégio de São Paulo para que as mães alisem o cabelo das filhas para uma apresentação…

 
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Estes casos me trouxeram essas memórias de volta e elas me bateram com força, de um jeito que eu não consegui reagir por dias. Acompanhei no meu feed do Facebook as pessoas compartilhando tudo com revolta e indignação, enquanto eu me sentia distante, impotente, triste.

Principalmente pois tudo isso só reafirma que esse racismo que aconteceu comigo e meu irmão há mais de 10 anos se repete. E se repete todos os dias em casos que não ficam públicos também.

Mas o que me reergueu para falar e continuar na luta diária foi a representatividade que esta geração tem mostrado. Não queria parecer dessas que falam “na minha época…”, mas acho que agora já é tarde demais.

E é bom mostrar como o único apoio que eu tive foi a empatia da minha mãe ao me deixar alisar o cabelo pois ela também achava que essa era a única solução. É bom salientar que já fui tão silenciada a ponto de achar que a culpa da minha solidão e do racismo que eu sofria era minha. Por mais que doa, eu gosto de lembrar como tudo era antes, pois essa geração é exatamente o oposto.

Enquanto os brancos continuam com sua falsa ideia de igualdade e diminuindo a importância da nossa luta, o negro tá na porta da escola resistindo e não está sozinho.

 

 
Se as outras gerações tiveram uma infância e adolescência de silêncio para que um dia novas gerações ensinassem que não devemos nos calar, então eu encontrei um motivo para espantar a lamentação e erguer minha voz junto com todos. Esse pessoal briga para poder levar o black pra escola e assim eu sinto que posso levar o meu para qualquer lugar.
 
[separator type="thin"] Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez (a.k.a. Emily)

Mais de Karoline Gomes

A incrível sensação de ser protagonista

Quando você era criança, quem você queria ser quando crescer? Para você entender o porquê da minha pergunta, vou tentar contar quem eu queria ser quando crescesse.

As primeiras princesas da Disney que fizeram minha mente foram a Branca de Neve e a Cinderella, mas fiquei tão feliz com o lançamento de Mulan. Lembro de ter ido ao cinema ao menos umas oito vezes para assistir. Ela era uma guerreira, uma heroína.

Então eu decidi que queria ser uma guerreira também, e foi natural que na mesma época eu tenha começado a assistir Sailor Moon. Dãr, elas lutam pelo amor e pela justiça… E pela igualdade de gênero!

Eu arrancava as bases das vassouras da minha mãe e fingia ser a Sailor Plutão, minha favorita. Mas só a chave do portal do tempo numa versão vassoura não era suficiente para a imaginação de uma criança, então lá ia eu, vasculhar os armários da casa em busca do lençol mais escuro, e amarra-lo na cabeça para fingir ter um cabelo escuro, longo e… liso.

Mas eis que surge o primeiro filme da franquia Harry Potter no cinema, e lá estava a Hermione e seu cabelo volumoso na telona. Devorei todos os livros pois, além do encantamento com a saga, queria saber o que acontecia com aquela heroína. Dispensei o lençol para mudar meu cabelo, e encontrei um galho qualquer para fingir ser minha varinha mágica, agora eu queria ser uma heroína e uma bruxa quando crescesse.

Com um tempo o faz de conta passou, entendi que não podia ser bruxa (apesar de estar esperando minha carta de Hogwarts até hoje), mas continuei admirando estas personagens e outras que apareceram nessa vasta cultura pop que tanto nos influencia. Por isso, quando Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban foi lançado, decidi que era época de dar um jeito no meu cabelo como todo mundo sugeria… Hermione havia dado um jeito no dela.

Ela agora era adolescente e vaidosa, havia crescido, e sua aparência melhorou. Não era só a Hermione… As cantoras que apareciam na MTV, as personagens e atrizes de outros filmes, todas cresciam e conseguiam o que queriam quando melhoravam a aparência, e isso incluía ter cabelos lisos e longos como os da Sailor Plutão.

Não basta mostrar o cabelo liso como o ideal, tem que mostrar ainda que só aderindo a ele é que ficamos bonitas. Sempre foi assim, e ainda costuma ser. Thanks, Disney!

Contei tudo isso para dizer que mesmo com tantas influências girl power, que levo como inspiração até hoje, e que me fortaleceram de algum modo me fazendo continuar buscando por mais inspirações, no fim das contas, eu nunca quis ser eu mesma. Eu nunca tive a ideia de que eu poderia ser uma guerreira, uma heroína ou uma bruxa, sem ter que mudar minha aparência.

Logo esse pensamento é traduzido para a vida real, e me ensinaram que eu não poderia arrumar um namorado (porque isso também parece ser muito importante) ou um emprego com minha aparência natural.

As meninas parecidas comigo mal apareciam na TV, nos livros, nos filmes ou nas revistas. A pouca representatividade que eu conseguia ver na cultura pop já vinha com as alterações nos cabelos ou uma maquiagem que embranquecida, Destiny’s Child que o diga.

Mas essa garotinha da foto abaixo, não. Essa garotinha quer ser ela mesma, e ela sabe que ela pode ser uma heroína sem precisar mudar. E o melhor de tudo, é que ela provavelmente não levou tantos anos para perceber isso como eu precisei. Graças ao filme desse cartaz que ela posa ao lado.

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Home, a animação que colore a pele

Desculpe demorar tantos parágrafos para chegar ao assunto desse texto; a animação Cada um na sua casa (Nome original, e mais curto para referência: Home) da DreamWorks. Mas me senti na obrigação de dar um exemplo de como é difícil encontrar mulheres negras como protagonistas, heroínas e livres de estereótipos. E eu vivi 22 anos para ver isso no cinema.

Tip foi criada com inspiração na cantora Rihanna, que dá voz a personagem e trilha sonora ao filme. Me senti uma criança ao ver o trailer e depois deixando a sala de cinema, quase virei para minhas primas de 9 e 11 anos de idade que me acompanhavam e engajei aquela velha brincadeira de dizer: “Eu sou a principal”, porque eu realmente sou a principal.

Depois que o Planeta Terra é invadido e os seres humanos abduzidos para darem espaço ao domínio da raça alienígena Boov, Tip, uma sobrevivente da abdução, se empenha em reencontrar sua mãe Lucy, dublada originalmente por Jennifer Lopez.

Tip é uma adolescente que se sente excluída na escola por ser imigrante, (ela e a mãe são de Barbados assim como Rihanna). Ela se junta com um dos invasores da Terra, com o estranho nome Oh, e que também sofre rejeição na sua comunidade e busca por consertar seus erros para conseguir conquistar amizades. No maior estilo Lilo & Stich e E.T – Extraterrestre, os dois constroem um laço importante, enfrentam dificuldades e aventuras juntos, ajudando um ao outro a conquistarem seus sonhos.

A rejeição é uma característica que pode ser facilmente adaptada a uma menina negra por ser a realidade de muitas, o que a torna ainda mais verdadeira. Porém Tip não se apega a estereótipos de cor ou gênero.

Ela se orgulha de ser muito inteligente e da relação que tem com a mãe. Não possui aqueles trejeitos exagerados que vemos em personagens negras, além de ter um corpo natural, com curvas e roupas comuns e nada sexualizadas. Ela é uma garota comum.

Tip é tão real, que eu não conseguia parar de olhar para seu cabelo, de tão parecido com a forma do meu. Mesmo um cacheado tão bonito, tem suas falhas e bagunça, e não tem nada de errado nisso. O cabelo liso foi mostrado por anos como o principal ideal de beleza, e a protagonista de Home foi posta diversas vezes em cenas onde passa a mão e ajeita com orgulho o seu black power.

Não há “evolução” da personagem por mudança de aparência. Não há alteração em sua aparência para a conquista de seus objetivos. Nada além da imagem de Tip amando seu próprio cabelo cada vez mais.

A animação tem um ritmo bom, e piadas suficientemente agradáveis, e a personagem principal tem como impulsão para seu heroísmo o amor por outra mulher, que é a forma mais linda de amor e que tem rendido boas tramas, como Malévola e Frozen, ambas da Disney, que melhorou no quesito sororidade, porém ainda não no quesito beleza real.

Ainda vemos personagens quase perfeitas nos filmes da produtora, com traços exageradamente finos e cabelos exageradamente perfeitos, além de corpos muito sexualizados.  Aliás, o que foi essa Cinderella super retocada com uma cintura surreal, Disney?

A aposta nos traços que ressaltam a beleza real ou a criação de personagens incríveis mesmo com formas super diferentes, faz a DreamWorks ganhar um espaço muito maior no meu coração quando se trata de animações.

DreamWork

Mas o que torna Home ainda mais valioso é o debate sobre imigração, e respeito as diferenças. As cores dos Boov mudam de acordo com suas emoções, e as dos seres humanos mudam de acordo com a realidade da vida real. Nos momentos em que o filme mostra os habitantes nativos do nosso Planeta, é possível ver uma diversidade de cores, corpos e traços, que não deveria nos impressionar tanto em pleno 2015, mas impressiona.

Só apontaria um problema na dublagem brasileira da animação, que substituiu “brown skin” por “pele morena” numa frase que era para ser tão forte na trama (que eu não vou citar aqui pra não estragar a emoção com spoiler!), porque ainda se acredita que dizer “pele negra” ou “marrom” pode ser ofensivo. Claro que os termos ainda são usados com tom de racismo e desprezo, mas enquanto continuarmos mascarando e os evitando por causa disso, esses paradigmas nunca serão quebrados.

Assista então Home legendado para ouvir as vozes de Rihanna e Jeniffer Lopez na dublagem original. Infelizmente falhei na missão de encontrar um vídeo com o trailer legendado, mas vamos ter o gostinho das vozes dessas mulheres maravilhosas na animação?

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Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez (a.k.a. Emily)

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