Na semana passada, as turistas argentinas Marina Menegazzo, de 22 anos, e María José Coni, 21, foram encontradas mortas em Montañita, uma cidadezinha turística litorânea, conhecida como a Rota do Sol do Equador.
As garotas estavam fazendo um mochilão, coisa que todo jovem normal sonha em fazer, e pretendiam seguir para o Peru. O último contato que elas tiveram com as famílias foi no dia 22 de fevereiro, quando contaram que tinham sido roubadas em um hostel e estavam sem dinheiro.
Dois homens confessaram os assassinatos e foram presos. Eles disseram à polícia que as conheceram em um bar e ofereceram carona até a cidade de Guaiaquil, onde fica o aeroporto. Elas foram assassinadas na madrugada do dia 23 em Parroquia Manglaralto, província de Santa Elena. Ponce M., um dos assassinos, disse que ele e seu colega tinham bebido, e o resto prefiro não relatar por ser muito horrível. Se quiser saber, leia aqui.
Guadalupe Acosta, uma estudante do Paraguai, escreveu em seu Facebook um texto importantíssimo em memória das duas garotas, intitulado “Ontem me mataram”. Você pode ler o texto todo traduzido aqui, mas, resumindo, ele critica quatro perguntas que estão sendo feitas: Que roupa estava usando? Por que estava sozinha? Como uma mulher quer viajar sem companhia? Você se enfiou em um bairro perigoso. Esperava o quê?
Podemos respondê-las: elas usavam a roupa que queriam; elas estavam acompanhadas uma da outra – por favor, sociedade/imprensa, parem de falar que elas estavam sozinhas, 1 + 1 = 2!; elas “se enfiaram” em uma cidade muito turística; elas esperavam viajar.
Para nós mulheres, decidirmos se viajaremos sem companhia é quase como decidirmos se usaremos aquele vestido para andarmos sozinhas de metrô à noite, por exemplo.
Confesso que me sinto mais segura quando meu namorado, pai ou um amigo me acompanham até o ponto de ônibus, mas não quero mais depender disso. Quero poder ir a um bar com uma amiga sem ser incomodada. Quero viajar com a minha mãe, minha irmã ou minhas amigas e voltar inteira para casa. Queremos nos libertar desse patriarcado que impõe a uma mulher não sair sozinha de casa. “Na rua, só se estiver ao lado de um homem”. Socorro, estamos em 2016, plena Idade Média!
Em 2014, fiz minha primeira viagem sozinha. Solteira e sem amigos em férias, resolvi visitar muitos países da Europa em apenas 20 dias. Seria tipo um mochilão, mas como, para mim, decidir viajar sozinha já foi um grande passo, resolvi me enfiar em um grupo de agência de turismo.
Sim, nesse grupo só havia senhoras, muitas senhoras acima dos 70 anos, viúvas ou às vezes com os maridos, e… eu! Não era obrigatório passar o tempo inteiro com o grupo, então, na maioria das vezes, eu passeava pelos lugares sozinha mesmo, andava pelas ruas à noite, ia aos restaurantes, sentava numa praça desacompanhada.
Somente me juntava ao grupo para os deslocamentos do ônibus de turismo de uma cidade à outra. Nesse momento, as senhorinhas vinham até onde eu estava sentada e me abordavam com curiosidade: “Minha querida, você está viajando sozinha?”; “Mas quantos anos você têm? É brasileira?”; “Se quiser, pode vir passear com a gente”; “Você tem muita coragem em ir assim de um lado pro outro”; “Que corajosa!”…
Ouvi muitas vezes nessa viagem que eu sou corajosa. A minha vontade era a de dizer: “Não, minhas amigas senhorinhas, eu não sou nem um pouco, por isso estou nesse ônibus com vocês”. Obviamente não falaria assim com elas, afinal, algumas delas provavelmente só puderam viajar e sair de casa sozinhas depois que o marido morreu.
E é isso! Eu sabia que meus pais ficariam mais tranquilos se eu estivesse em outro continente ao lado de um monte de senhorinhas. Eu também estava super tranquila em viajar com um guia turístico, que não me deixaria entrar nos “lugares perigosos”, e em dormir em hotéis bem seguros.
Porém, no fundo, o meu desejo era estar viajando loucamente pelas estradas da Europa com as minhas amigas, assim como as argentinas Marina e María estavam fazendo pela América Latina quando criminosos acabaram com a vida delas.
Não podemos parar de seguir nossas vontades por causa do perigo que é o mundo, ó, esse mundo, cheio de malucos que estão nos esperando dar uma vacilada.
Chega de feminicídio! Parem com a violência contra as mulheres! Nos deixem existirmos sozinhas!
Na semana passada, as turistas argentinas Marina Menegazzo, de 22 anos, e María José Coni, 21, foram encontradas mortas em Montañita, uma cidadezinha turística litorânea, conhecida como a Rota do Sol do Equador.
As garotas estavam fazendo um mochilão, coisa que todo jovem normal sonha em fazer, e pretendiam seguir para o Peru. O último contato que elas tiveram com as famílias foi no dia 22 de fevereiro, quando contaram que tinham sido roubadas em um hostel e estavam sem dinheiro.
Dois homens confessaram os assassinatos e foram presos. Eles disseram à polícia que as conheceram em um bar e ofereceram carona até a cidade de Guaiaquil, onde fica o aeroporto. Elas foram assassinadas na madrugada do dia 23 em Parroquia Manglaralto, província de Santa Elena. Ponce M., um dos assassinos, disse que ele e seu colega tinham bebido, e o resto prefiro não relatar por ser muito horrível. Se quiser saber, leia aqui.
Guadalupe Acosta, uma estudante do Paraguai, escreveu em seu Facebook um texto importantíssimo em memória das duas garotas, intitulado “Ontem me mataram”. Você pode ler o texto todo traduzido aqui, mas, resumindo, ele critica quatro perguntas que estão sendo feitas: Que roupa estava usando? Por que estava sozinha? Como uma mulher quer viajar sem companhia? Você se enfiou em um bairro perigoso. Esperava o quê?
Podemos respondê-las: elas usavam a roupa que queriam; elas estavam acompanhadas uma da outra – por favor, sociedade/imprensa, parem de falar que elas estavam sozinhas, 1 + 1 = 2!; elas “se enfiaram” em uma cidade muito turística; elas esperavam viajar.
Para nós mulheres, decidirmos se viajaremos sem companhia é quase como decidirmos se usaremos aquele vestido para andarmos sozinhas de metrô à noite, por exemplo.
Confesso que me sinto mais segura quando meu namorado, pai ou um amigo me acompanham até o ponto de ônibus, mas não quero mais depender disso. Quero poder ir a um bar com uma amiga sem ser incomodada. Quero viajar com a minha mãe, minha irmã ou minhas amigas e voltar inteira para casa. Queremos nos libertar desse patriarcado que impõe a uma mulher não sair sozinha de casa. “Na rua, só se estiver ao lado de um homem”. Socorro, estamos em 2016, plena Idade Média!
Em 2014, fiz minha primeira viagem sozinha. Solteira e sem amigos em férias, resolvi visitar muitos países da Europa em apenas 20 dias. Seria tipo um mochilão, mas como, para mim, decidir viajar sozinha já foi um grande passo, resolvi me enfiar em um grupo de agência de turismo.
Sim, nesse grupo só havia senhoras, muitas senhoras acima dos 70 anos, viúvas ou às vezes com os maridos, e… eu! Não era obrigatório passar o tempo inteiro com o grupo, então, na maioria das vezes, eu passeava pelos lugares sozinha mesmo, andava pelas ruas à noite, ia aos restaurantes, sentava numa praça desacompanhada.
Somente me juntava ao grupo para os deslocamentos do ônibus de turismo de uma cidade à outra. Nesse momento, as senhorinhas vinham até onde eu estava sentada e me abordavam com curiosidade: “Minha querida, você está viajando sozinha?”; “Mas quantos anos você têm? É brasileira?”; “Se quiser, pode vir passear com a gente”; “Você tem muita coragem em ir assim de um lado pro outro”; “Que corajosa!”…
Ouvi muitas vezes nessa viagem que eu sou corajosa. A minha vontade era a de dizer: “Não, minhas amigas senhorinhas, eu não sou nem um pouco, por isso estou nesse ônibus com vocês”. Obviamente não falaria assim com elas, afinal, algumas delas provavelmente só puderam viajar e sair de casa sozinhas depois que o marido morreu.
E é isso! Eu sabia que meus pais ficariam mais tranquilos se eu estivesse em outro continente ao lado de um monte de senhorinhas. Eu também estava super tranquila em viajar com um guia turístico, que não me deixaria entrar nos “lugares perigosos”, e em dormir em hotéis bem seguros.
Porém, no fundo, o meu desejo era estar viajando loucamente pelas estradas da Europa com as minhas amigas, assim como as argentinas Marina e María estavam fazendo pela América Latina quando criminosos acabaram com a vida delas.
Não podemos parar de seguir nossas vontades por causa do perigo que é o mundo, ó, esse mundo, cheio de malucos que estão nos esperando dar uma vacilada.
Chega de feminicídio! Parem com a violência contra as mulheres! Nos deixem existirmos sozinhas!
As amigas Marina Menegazzo e María José Coni. R.I.P.
Na semana passada, as turistas argentinas Marina Menegazzo, de 22 anos, e María José Coni, 21, foram encontradas mortas em Montañita, uma cidadezinha turística litorânea, conhecida como a Rota do Sol do Equador.
As garotas estavam fazendo um mochilão, coisa que todo jovem normal sonha em fazer, e pretendiam seguir para o Peru. O último contato que elas tiveram com as famílias foi no dia 22 de fevereiro, quando contaram que tinham sido roubadas em um hostel e estavam sem dinheiro.
Dois homens confessaram os assassinatos e foram presos. Eles disseram à polícia que as conheceram em um bar e ofereceram carona até a cidade de Guaiaquil, onde fica o aeroporto. Elas foram assassinadas na madrugada do dia 23 em Parroquia Manglaralto, província de Santa Elena. Ponce M., um dos assassinos, disse que ele e seu colega tinham bebido, e o resto prefiro não relatar por ser muito horrível. Se quiser saber, leia aqui.
Guadalupe Acosta, uma estudante do Paraguai, escreveu em seu Facebook um texto importantíssimo em memória das duas garotas, intitulado “Ontem me mataram”. Você pode ler o texto todo traduzido aqui, mas, resumindo, ele critica quatro perguntas que estão sendo feitas: Que roupa estava usando? Por que estava sozinha? Como uma mulher quer viajar sem companhia? Você se enfiou em um bairro perigoso. Esperava o quê?
Podemos respondê-las: elas usavam a roupa que queriam; elas estavam acompanhadas uma da outra – por favor, sociedade/imprensa, parem de falar que elas estavam sozinhas, 1 + 1 = 2!; elas “se enfiaram” em uma cidade muito turística; elas esperavam viajar.
Para nós mulheres, decidirmos se viajaremos sem companhia é quase como decidirmos se usaremos aquele vestido para andarmos sozinhas de metrô à noite, por exemplo.
Confesso que me sinto mais segura quando meu namorado, pai ou um amigo me acompanham até o ponto de ônibus, mas não quero mais depender disso. Quero poder ir a um bar com uma amiga sem ser incomodada. Quero viajar com a minha mãe, minha irmã ou minhas amigas e voltar inteira para casa. Queremos nos libertar desse patriarcado que impõe a uma mulher não sair sozinha de casa. “Na rua, só se estiver ao lado de um homem”. Socorro, estamos em 2016, plena Idade Média!
Em 2014, fiz minha primeira viagem sozinha. Solteira e sem amigos em férias, resolvi visitar muitos países da Europa em apenas 20 dias. Seria tipo um mochilão, mas como, para mim, decidir viajar sozinha já foi um grande passo, resolvi me enfiar em um grupo de agência de turismo.
Sim, nesse grupo só havia senhoras, muitas senhoras acima dos 70 anos, viúvas ou às vezes com os maridos, e… eu! Não era obrigatório passar o tempo inteiro com o grupo, então, na maioria das vezes, eu passeava pelos lugares sozinha mesmo, andava pelas ruas à noite, ia aos restaurantes, sentava numa praça desacompanhada.
Somente me juntava ao grupo para os deslocamentos do ônibus de turismo de uma cidade à outra. Nesse momento, as senhorinhas vinham até onde eu estava sentada e me abordavam com curiosidade: “Minha querida, você está viajando sozinha?”; “Mas quantos anos você têm? É brasileira?”; “Se quiser, pode vir passear com a gente”; “Você tem muita coragem em ir assim de um lado pro outro”; “Que corajosa!”…
Ouvi muitas vezes nessa viagem que eu sou corajosa. A minha vontade era a de dizer: “Não, minhas amigas senhorinhas, eu não sou nem um pouco, por isso estou nesse ônibus com vocês”. Obviamente não falaria assim com elas, afinal, algumas delas provavelmente só puderam viajar e sair de casa sozinhas depois que o marido morreu.
[caption id="attachment_9679" align="aligncenter" width="513"] O povo de Roma me julga por ser uma mulher viajando sozinha[/caption]
E é isso! Eu sabia que meus pais ficariam mais tranquilos se eu estivesse em outro continente ao lado de um monte de senhorinhas. Eu também estava super tranquila em viajar com um guia turístico, que não me deixaria entrar nos “lugares perigosos”, e em dormir em hotéis bem seguros.
Porém, no fundo, o meu desejo era estar viajando loucamente pelas estradas da Europa com as minhas amigas, assim como as argentinas Marina e María estavam fazendo pela América Latina quando criminosos acabaram com a vida delas.
Não podemos parar de seguir nossas vontades por causa do perigo que é o mundo, ó, esse mundo, cheio de malucos que estão nos esperando dar uma vacilada.
Chega de feminicídio! Parem com a violência contra as mulheres! Nos deixem existirmos sozinhas!
Aqui veremos conteúdos produzidos principalmente por mulheres inspiradoras para nós mulheres. Se quiserem compartilhar mais assuntos interessantes, é só comentar lá no fim do post <3
// SOLANGE
Ainda sob o impacto de “Lemonade”, da rainha Beyoncé, agora temos mais um disco belíssimo para ouvir o dia todo. Solange Knowles, apenas irmã de Beyoncé, lançou na semana passada “A seat at the table” e divulgou os vídeos de “Cranes in the sky” e “Don’t touch my hair”. Por favor, veja essas obras de arte:
Leia duas entrevistas (em inglês) com a Solange. No Stereogum e na revista The Fader.
// 1ª MINISTRA TRANS
Uma ‘hacker’ para digitalizar Taiwan. Matéria do El País sobre Audrey Tang, programadora, ativista digital e a primeira ministra transsexual do mundo.
// POLÔNIA
“Vestidas de preto, milhares de mulheres tomaram as ruas de mais de 60 cidades polonesas no dia 3 de outubro. Elas protestaram contra uma mudança na legislação que restringiria ainda mais o direito ao aborto no país.
O movimento foi tão massivo que fez o governo polonês recuar na quarta-feira (5).”
A primeira negra a dirigir um longa-metragem no Brasil. Vídeo do Nexo:
// CASO ELENA FERRANTE
Também nesta semana o jornalista Claudio Gatti resolveu DAR UM FURO e revelou a “verdadeira identidade” da escritora Elena Ferrante em uma situação absurda de invasão de privacidade.
O El País entrevistou a Silvia Querini, diretora literária do grupo editorial Lumen e editora do trabalho de Ferrante na Espanha. E ela disse exatamente o que achamos:
“Sua ideia (de Elena Ferrante) é que o texto é o que importa, e o que o jornalista fez foi fuçar no anonimato, nos nomes. Em vez de investigar a evasão fiscal, tem se dedicado a pesquisar as contas de uma escritora. Para mim, o verdadeiro nome não importa, nem como editora nem como leitora.”
A photo posted by Samira Wiley (@whododatlikedat) on
// 100% FEMINISTA
A MC Carol e a Karol Conká lançaram o single “100% feminista”. Essa faixa e a também ótima “Delação premiada” estão no primeiro disco da MC Carol, “Bandida”. O funk, o rap e o feminismo ganham muito com essa parceria que pode ser considerada nosso novo hino.
“— Eu não sabia que era feminista. Eu já era desde criança, mas não sabia que tinha um nome para isso, para essa forma de pensar. Vim descobrir há pouco tempo, acho que no ano passado, através da minha empresária. Ela me explicou o significado e eu me identifiquei. Essa música explica por que eu sou feminista, por que eu tenho essa forma de pensar — conta a funkeira, que completa 23 anos nesta quinta-feira. — Hoje em dia, estou muito melhor, mas eu achava que, em um relacionamento, alguém tinha que bater e alguém tinha que apanhar. E, depois de tudo o que eu presenciei, eu vi que não queria ser esse tipo de mulher submissa. Eu quero bater.”
// BIENAL DE SP
A arte feita por mulheres é diferente? – Matéria do jornal português Público sobre o evento deste ano, que convidou 47 artistas mulheres, o maior número de todos os tempos.
“Ao usar apps como o Glow, Period Tracker e o Clue, por exemplo, as mulheres dão informações sobre seus ciclos menstruais, alterações de humor, período fértil e até mesmo se fizeram sexo (e em qual posição). E, na maior parte dos casos, não é só as empresas por trás dos aplicativos que têm acesso a eles.”
// MAIS SOLANGE
Para finalizar, um vídeo que mostra o processo de criação do novo álbum de Solange, “A seat at the table”, porque estamos obcecadas:
Guadalupe Acosta, uma estudante do Paraguai, escreveu em seu Facebook um texto importantíssimo em memória das duas garotas, intitulado “Ontem me mataram”. Você pode ler o texto todo traduzido aqui, mas, resumindo, ele critica quatro perguntas que estão sendo feitas: Que roupa estava usando? Por que estava sozinha? Como uma mulher quer viajar sem companhia? Você se enfiou em um bairro perigoso. Esperava o quê?
Podemos respondê-las: elas usavam a roupa que queriam; elas estavam acompanhadas uma da outra – por favor, sociedade/imprensa, parem de falar que elas estavam sozinhas, 1 + 1 = 2!; elas “se enfiaram” em uma cidade muito turística; elas esperavam viajar.
Para nós mulheres, decidirmos se viajaremos sem companhia é quase como decidirmos se usaremos aquele vestido para andarmos sozinhas de metrô à noite, por exemplo.
Confesso que me sinto mais segura quando meu namorado, pai ou um amigo me acompanham até o ponto de ônibus, mas não quero mais depender disso. Quero poder ir a um bar com uma amiga sem ser incomodada. Quero viajar com a minha mãe, minha irmã ou minhas amigas e voltar inteira para casa. Queremos nos libertar desse patriarcado que impõe a uma mulher não sair sozinha de casa. “Na rua, só se estiver ao lado de um homem”. Socorro, estamos em 2016, plena Idade Média!
Em 2014, fiz minha primeira viagem sozinha. Solteira e sem amigos em férias, resolvi visitar muitos países da Europa em apenas 20 dias. Seria tipo um mochilão, mas como, para mim, decidir viajar sozinha já foi um grande passo, resolvi me enfiar em um grupo de agência de turismo.
Sim, nesse grupo só havia senhoras, muitas senhoras acima dos 70 anos, viúvas ou às vezes com os maridos, e… eu! Não era obrigatório passar o tempo inteiro com o grupo, então, na maioria das vezes, eu passeava pelos lugares sozinha mesmo, andava pelas ruas à noite, ia aos restaurantes, sentava numa praça desacompanhada.
Somente me juntava ao grupo para os deslocamentos do ônibus de turismo de uma cidade à outra. Nesse momento, as senhorinhas vinham até onde eu estava sentada e me abordavam com curiosidade: “Minha querida, você está viajando sozinha?”; “Mas quantos anos você têm? É brasileira?”; “Se quiser, pode vir passear com a gente”; “Você tem muita coragem em ir assim de um lado pro outro”; “Que corajosa!”…
Ouvi muitas vezes nessa viagem que eu sou corajosa. A minha vontade era a de dizer: “Não, minhas amigas senhorinhas, eu não sou nem um pouco, por isso estou nesse ônibus com vocês”. Obviamente não falaria assim com elas, afinal, algumas delas provavelmente só puderam viajar e sair de casa sozinhas depois que o marido morreu.
E é isso! Eu sabia que meus pais ficariam mais tranquilos se eu estivesse em outro continente ao lado de um monte de senhorinhas. Eu também estava super tranquila em viajar com um guia turístico, que não me deixaria entrar nos “lugares perigosos”, e em dormir em hotéis bem seguros.
Porém, no fundo, o meu desejo era estar viajando loucamente pelas estradas da Europa com as minhas amigas, assim como as argentinas Marina e María estavam fazendo pela América Latina quando criminosos acabaram com a vida delas.
Não podemos parar de seguir nossas vontades por causa do perigo que é o mundo, ó, esse mundo, cheio de malucos que estão nos esperando dar uma vacilada.
Chega de feminicídio! Parem com a violência contra as mulheres! Nos deixem existirmos sozinhas!