33 motivos para lutar

Ilustração por Mika Takahashi.

Quando eu tinha uns 5 anos, estava passeando com a moça que cuidava de mim quando um homem me trombou na rua e continuou andando. Continuamos andando também até que atrás de mim, um rapaz que tinha visto a cena, deu com o pé nas costas do cara que me trombou e enquanto dava porrada nele e gritava “seu filho da puta, é só uma criança”. Aquilo me marcou muito, mesmo eu sendo muito pequena. Anos mais tarde, soube que existe essa prática de trombar crianças para passar a mão nelas e fingir que foi sem querer. Acho que essa foi a primeira de muitas vezes que eu fui abusada sexualmente ao longo da minha vida.

A cultura do estupro é uma coisa seríssima. Nascemos sob seus cuidados, crescemos com sua prática e vivemos, nós, mulheres, com medo por suas consequências a cada esquina que viramos. No Brasil, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada. Na televisão, casos de estupro são relevados em nome da cultura popular do grande irmão. Na imprensa, casos mais do que confessos são tratados como supostos. Na política, candidatos com denúncia de espancamento à mulheres, não são apenas cogitados, mas apoiados em suas campanhas e muitos eleitos. No cotidiano, nossas lamentações e reações são tratadas como histerias, agressividades, patologias. Na lei, não temos pertencimento sobre nossos próprios corpos, nem se formos violadas.

Pudemos acompanhar toda a campanha anti Dilma que veio agregada a muita misoginia e cultura do estupro. Na votação na câmara dos deputados, seu estuprador e torturador foi relembrado com orgulho. Na mídia, apenas a reação do oprimido foi reprimida, um cuspe bem dado. Obrigada Jean. Agora sem Dilma, estamos sem mulheres nos ministérios, sem negrxs, sem a menor representatividade.

Faz dois anos que estou na militância feminista e conheço muitas mulheres que foram violadas. Acompanho com aperto no coração, empatia e amor, seus “aniversários de estupro”, uma data que remete a um aniversário de morte, que, anualmente, bate na porta dessas mulheres. A depressão que segue, a força intermitente, mas que ainda há resquícios para seguir falando sobre esse assunto e muitas vezes ajudar às próximas. Penso na dor que elas estão sentindo e penso na dor, no abalo psicológico da irmã que passou pelo pior no último final de semana. Espero nunca saber o seu nome e ainda assim quero te aninhar. Espero que você consiga se reerguer psicologicamente. Agora é hora de autocuidado. Nós vamos e estamos lutando por você.

Existe uma hipocrisia sobre os homens que se revoltam com a generalização masculina. Somos estigmatizadas todas como loucas, frescas, fracas, inferiores, histéricas. Quando damos cara um opressor, é o que ele representa. O opressor da mulher, é o homem, da mulher negra, o homem e a mulher branca, e assim segue. Basta ter empatia para entender que sabemos que não são todos os homens que estupram, mas nós temos medo de todos os homens se estamos andando sozinhas na rua. Sim, de todos.

Li muitos relatos que poderia assinar embaixo, li mulheres que ideologicamente são pacifistas, bradando morte aos estupradores. O ódio coletivo nos atingiu com racionalidade. Precisamos gritar mais alto, não nos ouvem. Precisamos fazer mais barulho. Precisamos aprender a nos defender, o que aconteceu não é uma barbaridade, se chama patriarcado. Esse sim é o monstro. Contra ele, muita luta, treino de autodefesa, rodas de autocuidado e empatia. Muita empatia.

Hoje eu andava na rua, ainda estarrecida com a notícia de ontem, vi uma camiseta andante que nela estava escrito contra a violência machista, sorri antes de ver quem vestia, subi o olhar e era uma mulher com seus 60 anos que já sorria pra mim por eu estar feliz com a camiseta. Nós não nos falamos, nunca mais nos veremos, mas temos uma cumplicidade única em sermos mulheres e sabermos que eu já herdei a luta dela e vou e preciso passar pra frente a nossa luta. Não estamos sozinhas, temos uma a outra. Respeitando todos os recortes e suas hierarquias de urgências, precisamos nos unir e nos mobilizar.

Não estamos sozinhas.

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Ilustração por Mika Takahashi.

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D.I.U., uma experiência Intra Uterina ♡

Depois do texto sobre o coletor menstrual, fui abordada algumas vezes por migas, comentários e mensagens via foicebook, me questionando sobre o D.I.U.. Acho que é porque nós não ouvimos falar muito sobre esse método anticoncepcional e ele é bom porque é de longo prazo, podendo ser interrompido a qualquer momento. Mas antes de começar a falar sobre o D.I.U., quero deixar clara uma coisita muito importante:

Vou falar sobre a minha experiência com o D.I.U. e migas, nenhuma experiência é universal. Isso você pode levar a todos os campos da vida (dica de miga)! Então não vamos generalizar minha experiência, esse é daqueles casos em que é diferente pra cada pessoa.
 

Contexto Histórico Pessoal

Há quatro anos resolvi conhecer meu corpo sem estar sob o efeito de hormônios, no meu caso eu fazia uso do anticoncepcional oral, vulgo pílula, haha. Pra quem não sabe, a pílula anticoncepcional pode trazer muitos malefícios para o corpo, muitas vezes os médicos nem pedem exames para saber se é seguro que você possa pílula e já prescrevem porque é um dos métodos mais populares. MAS É PERIGOSO e pode baixar significantemente a sua libido, que é nada mais é do que sua vontade de trepar, desculpe meu francês. Além do que, existem alguns medicamentos que se tomados juntos com a pílula, podem enfraquecer seu efeito.

Então, eu pesquisei as minhas opções e resolvi colocar o o D.I.U., vou explicar passo a passo, sigam-me os bons.
 

 

O que é o D.I.U.?

O D.I.U. (dispositivo intra uterino) é um método anticoncepcional que consiste em colocar dentro do seu útero um pedacinho de 2cm de cobre. Vou colocar uma foto senão vão achar que é uma parada medieval, mas na real parece mais com um bug do matrix. Brincadeirinha! Hahahaha. É em formato de ‘T’, parece mais um pula pula da década de 90. Sim sou velha, próximo tópico.

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Existe mais de um tipo?

Migas, é o seguinte, existem dois tipo de D.I.U., o que libera hormônio (mais conhecido pela marca Mirena) e o que é só um pedaço de cobre mesmo. O que libera hormônio funciona como um anticoncepcional subcutâneo, ele vai liberando periodicamente pequenas quantidades de hormônio. Muitas mulheres até param de menstruar, mas como esse não era o meu propósito, coloquei o de cobre que não faz nada além de ser um objeto não identificado dentro do seu útero, tornando o ambiente inóspito para o espermatozóide, o fazendo morrer na praia. Muahahaha. Não é abortivo, tá? Só pra esclarecer, o D.I.U. mata os espermatozóides antes de chegaram ao óvulo, apenas. Ah, dado importantíssimo, dura de 5 a 10 anos, podendo tirar no momento em que você quiser.

 

É caro pra colocar?

Olha, quatro anos atrás eu tinha seguro saúde, meu pai pagava e eu fiz num ginecologista gourmet que cobrou bem caro, em torno de 600 reais. Me arrependo de ter colocado nesse cara porque é de graça pelo SUS. Ouvi dizer que alguns planos de saúde cobrem, só é preciso fazer a solicitação, cheque isso no seu plano, se você se interessar.

 

Dói pra colocar?

Dói. Não vou eufemizar aqui não, dói pra caralho, mas é rápido. Sabe quando você bate o dedinho numa quina daí você tem umas mandingas suas pra dor passar? Tipo, pular, passar a mão, gritar de algum jeito bizarro (HUHUHU)? Pois é, não dá pra ~ controlar ~ essa dor. Você fica lá, naquela posição super agradável (só que não), toda arregaçada enquanto colocam algo dentro do seu útero. Mas é rápido, em 5 minutos já está feito. Ouvi dizer que em alguns consultórios que tenham laboratórios, estrutura e são autorizados, podem aplicar anestesia local.

O procedimento é bem simples, primeiro você tem que estar no final da sua menstruação para que o colo do seu útero esteja mais aberto do que o normal. Facilita a colocação. Depois x médicx insere um aplicador e aperta como uma seringa. Como um aplicador de O.B., sabem? E aí ele fica lá dentro do útero com uma cordinha pra dentro do canal vaginal, pra quando você quiser tirar, você ir ao médico mais e ele tira pela cordinha, como um O.B. mesmo. Não, a cordinha não me incomoda, nem sinto ela de nenhuma forma (não, nem transando).

 

Como é o período de adaptação?

Depois que você sai do consultório, fica uma cólica por alguns dias, mais forte que a normal. Seu corpo está se acostumando com um objeto estranho e é mais que natural que esse processo demore um pouco. Há perigo de inflamar, há possibilidade do corpo rejeitar, pode ser que seja mal colado e precise refazer o procedimento, e por isso é extremamente importante que você converse com x médicx, pra que você tenha confiança e siga as instruções do pós procedimento, que são básicas, mas necessárias. Se eu bem me lembro não pode trepar até tanto tempo (relaxa, última coisa que você vai querer é isso por causa da cólica), não fazer esforço, levantar peso, por uma semana mais ou menos. Você vai sentir o seu corpo recuperar e gradualmente pode voltar sem medo ao seu dia a dia.

Me perguntaram se eu tive crise de abstinência do hormônio. Se eu tive, não reparei, sempre oscilei muito na balança, nunca levei uma vida muito regrada pra perceber algum desequilíbrio nesse sentido.
 

Posso usar O.B. ou coletor menstrual?

Pode e pode. O D.I.U. fica dentro do seu útero, o absorvente interno tanto quanto o coletor ficam no seu canal vaginal, não há (pelo menos não deveria hahaha) muita proximidade entre os dois, ficam em lugares diferentes.
 

Previne DST?

Não, não previne D.S.T. alguma, só inibe a gravidez. O melhor método de prevenção contra as doenças sexualmente transmissíveis continua sendo a camisinha.
 

Posso engravidar depois, se eu quiser?

Pode, sem dúvidas, tanto com o D.I.U. com ou sem hormônio. Não há nenhum impedimento na sua fertilidade, assim que retirou, já é possível engravidar.
 

Quais são os contras?

Olha, meu fluxo aumentou e minha cólica também. Imagina que pra expelir o sangue, o útero se contrai, e com um pedacinho de cobre dentro dele, pode aumentar sim a cólica. Dizem que só no primeiro trimestre, eu digo: não. Aumentou de vez, hahaha. Aumentou meu fluxo também, mas menstruo somente por 4 dias, e dois desses dias é tsunami mesmo, mas meu coletor segura numa bowie.
 

E os prós?

Bom, não engravidei nos últimos 4 anos, não tive que me preocupar nem uma vezinha com isso, não fico a mercê de hormônios, economizei até agora por volta de 2 mil reais e provavelmente vou economizar muito mais até eu decidir tirar.

 

 

 
Bom gente, é isso. Se quiserem me fazer mais alguma pergunta, podem deixar aí nos comentários que eu respondo se eu souber. Me desculpem pelas imagens toscas, o google images é muito ingrato com esse assunto, hahaha.

O que eu realmente espero é que a indústria farmacêutica libere logo os anticoncepcionais masculinos. Fico triste por terem liberado os femininos ainda com inúmeros efeitos colaterais. Mas como o post é só sobre minha experiência, fico aqui sem mais delongas, beixotas ~ ♡
 

Imagem de capa: Oh Joy Sex Toy, de Erika Moen.

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campanha anti Dilma que veio agregada a muita misoginia e cultura do estupro. Na votação na câmara dos deputados, seu estuprador e torturador foi relembrado com orgulho. Na mídia, apenas a reação do oprimido foi reprimida, um cuspe bem dado. Obrigada Jean. Agora sem Dilma, estamos sem mulheres nos ministérios, sem negrxs, sem a menor representatividade.

Faz dois anos que estou na militância feminista e conheço muitas mulheres que foram violadas. Acompanho com aperto no coração, empatia e amor, seus “aniversários de estupro”, uma data que remete a um aniversário de morte, que, anualmente, bate na porta dessas mulheres. A depressão que segue, a força intermitente, mas que ainda há resquícios para seguir falando sobre esse assunto e muitas vezes ajudar às próximas. Penso na dor que elas estão sentindo e penso na dor, no abalo psicológico da irmã que passou pelo pior no último final de semana. Espero nunca saber o seu nome e ainda assim quero te aninhar. Espero que você consiga se reerguer psicologicamente. Agora é hora de autocuidado. Nós vamos e estamos lutando por você.

Existe uma hipocrisia sobre os homens que se revoltam com a generalização masculina. Somos estigmatizadas todas como loucas, frescas, fracas, inferiores, histéricas. Quando damos cara um opressor, é o que ele representa. O opressor da mulher, é o homem, da mulher negra, o homem e a mulher branca, e assim segue. Basta ter empatia para entender que sabemos que não são todos os homens que estupram, mas nós temos medo de todos os homens se estamos andando sozinhas na rua. Sim, de todos.

Li muitos relatos que poderia assinar embaixo, li mulheres que ideologicamente são pacifistas, bradando morte aos estupradores. O ódio coletivo nos atingiu com racionalidade. Precisamos gritar mais alto, não nos ouvem. Precisamos fazer mais barulho. Precisamos aprender a nos defender, o que aconteceu não é uma barbaridade, se chama patriarcado. Esse sim é o monstro. Contra ele, muita luta, treino de autodefesa, rodas de autocuidado e empatia. Muita empatia.

Hoje eu andava na rua, ainda estarrecida com a notícia de ontem, vi uma camiseta andante que nela estava escrito contra a violência machista, sorri antes de ver quem vestia, subi o olhar e era uma mulher com seus 60 anos que já sorria pra mim por eu estar feliz com a camiseta. Nós não nos falamos, nunca mais nos veremos, mas temos uma cumplicidade única em sermos mulheres e sabermos que eu já herdei a luta dela e vou e preciso passar pra frente a nossa luta. Não estamos sozinhas, temos uma a outra. Respeitando todos os recortes e suas hierarquias de urgências, precisamos nos unir e nos mobilizar.

Não estamos sozinhas.

Ilustração por Mika Takahashi.

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