Nessa manhã, apanhei meu celular ao lado da cama assim que acordei, para ver os últimos tweets e snaps publicados nessa madrugada de sexta para sábado, afinal de contas, é assim que vejo notícias. Eis que uma coisa me soou muito estranha e me fez até sentar na cama e sacudir a cabeça. “Eu tô lendo isso direito?”.
A manchete que o Daily Mail escolheu para noticiar o novo clipe do rapper Kanye West no Snapchat foi: “Taylor Swift aparece nua na cama com Kim e Kanye”.
O título dá a entender que houve consentimento. Dá a entender que Taylor topou e participou da cena. O que seria pouco provável, considerando a treta que ela tem com Kanye por causa de uma citação imprópria e não autorizada na música “Famous”, que é justamente a trilha sonora desse tal clipe novo do rapper. Na letra, ele diz: “Sinto que eu e Taylor ainda podemos fazer sexo. Por quê? Eu fiz aquela vadia famosa”.
Com um pouco mais de pesquisa, entendi que, no videoclipe, Kanye ficou pelado com bonecos feitos de cera idênticos à celebridades. Aparecem na ordem: o ex-presidente americano George W Bush; a editora da Vogue americana Anna Wintour; o atual candidato à presidência dos Estados Unidos (e xenefóbico, e racista, e machista, e LGBTfóbico, e muslimfóbico) Donald Trump; a cantora Rihanna; o cantor Chris Brown; Taylor Swift; o próprio Kanye, a socialite, empresária e esposa do rapper, Kim Kardashian; depois o rapper Ray J; a modelo (e ex de Kanye) Amber Rose; a ex-atleta e padastro de Kim Kardashian, Caitlyn Jenner e o comediante Bill Cosby.
Diante dessa lista, nem sei por onde começar a problematizar… Mas vamos lá.
Além do uso obviamente sem aprovação (e consequentemente abusivo) da imagem de Taylor Swift, também é no mínimo incômodo ver deitados na mesma cama, o transfóbico Donald Trump e Caitlyn Jenner, uma mulher transexual, mesmo que com uma certa distância entre os dois.
Mas provavelmente o maior gatilho nessa cena, é o fato de que Rihanna, que já foi parceira de Kanye, estar representada ao lado de seu agressor, Chris Brown. Para Brown, o clipe não passou de mais uma talentosa maluquice do colega de profissão. Ele comentou no Instagram: “Por que minha bunda tem que aparecer e parecer uma figura de cera? Esse Kanye é maluco! Talentoso, mas louco (risos)!”.
Nunca dói em quem agride, não é mesmo? Mas como será para Rihanna, quem foi agredida, ver essa imagem?
E, mais uma vez, atos abusivos são protegidos pela arte
A mídia classificou o clipe como polêmico e desafiador… “A cara do Kanye”, que já provou ser egocêntrico o suficiente para se colocar como objeto central de uma suposta suruba entre celebridades.
Já os entendedores de artes, logo perceberam que a cena do videoclipe é inspirada na famosa pintura “Sleep”, de Vicent Desiderio, que retrata uma família dormindo junta. E, por causa disso, estão chamando Kanye de “gênio”.
Kanye took Vincent Desiderio's "Sleep" & brought it to life with a modern twist.. if that isn't genius idk what is. pic.twitter.com/bSDddfQFNo
Em sua defesa, Kanye utiliza os dois créditos (de polêmico e gênio). “Não é uma manifestação de apoio ou contra nenhum deles. É um comentário sobre fama”, disse o rapper para a Vanity Fair.
Até parece que Rihanna e Chris Brown ou Kim Kardashian e Ray J estão lado a lado à toa, né? Até parece que um cara ~supostamente~ tão criativo como Kanye não poderia ter pensado em outra maneira de falar sobre fama em seu clipe. Até parece que foi inevitável ser machista e despir a mulher de quem ele cobra sexo na letra da música. Mas, aparentemente, é tudo pelo bem da arte, pelo bem da crítica.
Talvez Kanye seja tudo isso que ele é creditado por. Talvez ele apenas seja overrated. Mas a verdade é que, se proteger de atitudes abusivas ou mesmo crimes de estupro e violência contra mulheres, é uma prática cada vez mais comum para os homens famosos.
Enquanto para as vítimas, sofrer agressão significa a perder credibilidade, respeito, carreira e até a vontade de continuar vivendo e dar a volta por cima, caras como Chris Brown e Bill Cosby, os que cometem os crimes, são protegidos e continuam vivendo livres para trabalhar.
Em 2014, a cantora Marina and the Diamonds se manifestou sobre o assunto no Twitter, explicando o problema de defender homens abusadores e agressores somente por serem famosos e, infelizmente, as palavras dela ainda são muito atuais.
Em uma sequência de tweets, ela disse: “Woodly Allen é um escroto. Terry Richardson é um escroto. R. Kelly é um escroto. Mas ainda assim as indústrias da moda, música e do filme celebram e apoiam estas pessoas, justificando suas ações com ‘mas eles são talentosos…’. Em outras indústrias, esses comportamentos seriam vistos de outra forma. Mas, no fim do dia, quem resiste à uma boa música pop, vídeo ou filme? E quem se importa se a pessoa que criou essa arte, estuprou jovens garotas ou bateu em suas namoradas, quando se está disponível no iTunes AGORA?”.
Sim, você pode achar o trabalho do Woody Allen maravilhoso. Eu também acho. Mas o que preocupa é que ainda há novos filmes dele para serem consumidos todo ano. Ele ainda está livre para ganhar dinheiro e se beneficiar de seu talento de outras formas, uma delas, é saindo ileso de acusações de estupro e abuso de menores, quando ele deveria estar preso e impedido de trabalhar na sua arte. Mais preocupante ainda é o quanto se esquece de tudo o que o diretor fez na hora de comprar um ingresso para um filme dele.
O talento de Woody não justifica o abuso que ele comete. Assim como o fato do som do Kanye ser bom ou não, não justifica que ele use da forma de uma mulher ou se refira a ela como ele fez com Taylor Swift em “Famous” e também não justifica as outras problematizações feitas. Mais uma vez citando Marina: seres humanos são mais importantes que arte.
A verdade é que Kanye e outros famosos sabem que seus trabalhos sempre serão mais valorizados do que o das mulheres, ou mesmo do que a integridade dessas mulheres. Por isso não é de se surpreender que ele tenha passado de todos os limites para “se expressar” em “Famous”. Acontece que ele se expressa de forma machista e a arte nunca vai justificar estes atos.
Nessa manhã, apanhei meu celular ao lado da cama assim que acordei, para ver os últimos tweets e snaps publicados nessa madrugada de sexta para sábado, afinal de contas, é assim que vejo notícias. Eis que uma coisa me soou muito estranha e me fez até sentar na cama e sacudir a cabeça. “Eu tô lendo isso direito?”.
A manchete que o Daily Mail escolheu para noticiar o novo clipe do rapper Kanye West no Snapchat foi: “Taylor Swift aparece nua na cama com Kim e Kanye”.
O título dá a entender que houve consentimento. Dá a entender que Taylor topou e participou da cena. O que seria pouco provável, considerando a treta que ela tem com Kanye por causa de uma citação imprópria e não autorizada na música “Famous”, que é justamente a trilha sonora desse tal clipe novo do rapper. Na letra, ele diz: “Sinto que eu e Taylor ainda podemos fazer sexo. Por quê? Eu fiz aquela vadia famosa”.
Com um pouco mais de pesquisa, entendi que, no videoclipe, Kanye ficou pelado com bonecos feitos de cera idênticos à celebridades. Aparecem na ordem: o ex-presidente americano George W Bush; a editora da Vogue americana Anna Wintour; o atual candidato à presidência dos Estados Unidos (e xenefóbico, e racista, e machista, e LGBTfóbico, e muslimfóbico) Donald Trump; a cantora Rihanna; o cantor Chris Brown; Taylor Swift; o próprio Kanye, a socialite, empresária e esposa do rapper, Kim Kardashian; depois o rapper Ray J; a modelo (e ex de Kanye) Amber Rose; a ex-atleta e padastro de Kim Kardashian, Caitlyn Jenner e o comediante Bill Cosby.
Diante dessa lista, nem sei por onde começar a problematizar… Mas vamos lá.
Além do uso obviamente sem aprovação (e consequentemente abusivo) da imagem de Taylor Swift, também é no mínimo incômodo ver deitados na mesma cama, o transfóbico Donald Trump e Caitlyn Jenner, uma mulher transexual, mesmo que com uma certa distância entre os dois.
Mas provavelmente o maior gatilho nessa cena, é o fato de que Rihanna, que já foi parceira de Kanye, estar representada ao lado de seu agressor, Chris Brown. Para Brown, o clipe não passou de mais uma talentosa maluquice do colega de profissão. Ele comentou no Instagram: “Por que minha bunda tem que aparecer e parecer uma figura de cera? Esse Kanye é maluco! Talentoso, mas louco (risos)!”.
Nunca dói em quem agride, não é mesmo? Mas como será para Rihanna, quem foi agredida, ver essa imagem?
E, mais uma vez, atos abusivos são protegidos pela arte
A mídia classificou o clipe como polêmico e desafiador… “A cara do Kanye”, que já provou ser egocêntrico o suficiente para se colocar como objeto central de uma suposta suruba entre celebridades.
Já os entendedores de artes, logo perceberam que a cena do videoclipe é inspirada na famosa pintura “Sleep”, de Vicent Desiderio, que retrata uma família dormindo junta. E, por causa disso, estão chamando Kanye de “gênio”.
Kanye took Vincent Desiderio's "Sleep" & brought it to life with a modern twist.. if that isn't genius idk what is. pic.twitter.com/bSDddfQFNo
Em sua defesa, Kanye utiliza os dois créditos (de polêmico e gênio). “Não é uma manifestação de apoio ou contra nenhum deles. É um comentário sobre fama”, disse o rapper para a Vanity Fair.
Até parece que Rihanna e Chris Brown ou Kim Kardashian e Ray J estão lado a lado à toa, né? Até parece que um cara ~supostamente~ tão criativo como Kanye não poderia ter pensado em outra maneira de falar sobre fama em seu clipe. Até parece que foi inevitável ser machista e despir a mulher de quem ele cobra sexo na letra da música. Mas, aparentemente, é tudo pelo bem da arte, pelo bem da crítica.
Talvez Kanye seja tudo isso que ele é creditado por. Talvez ele apenas seja overrated. Mas a verdade é que, se proteger de atitudes abusivas ou mesmo crimes de estupro e violência contra mulheres, é uma prática cada vez mais comum para os homens famosos.
Enquanto para as vítimas, sofrer agressão significa a perder credibilidade, respeito, carreira e até a vontade de continuar vivendo e dar a volta por cima, caras como Chris Brown e Bill Cosby, os que cometem os crimes, são protegidos e continuam vivendo livres para trabalhar.
Em 2014, a cantora Marina and the Diamonds se manifestou sobre o assunto no Twitter, explicando o problema de defender homens abusadores e agressores somente por serem famosos e, infelizmente, as palavras dela ainda são muito atuais.
Em uma sequência de tweets, ela disse: “Woodly Allen é um escroto. Terry Richardson é um escroto. R. Kelly é um escroto. Mas ainda assim as indústrias da moda, música e do filme celebram e apoiam estas pessoas, justificando suas ações com ‘mas eles são talentosos…’. Em outras indústrias, esses comportamentos seriam vistos de outra forma. Mas, no fim do dia, quem resiste à uma boa música pop, vídeo ou filme? E quem se importa se a pessoa que criou essa arte, estuprou jovens garotas ou bateu em suas namoradas, quando se está disponível no iTunes AGORA?”.
Sim, você pode achar o trabalho do Woody Allen maravilhoso. Eu também acho. Mas o que preocupa é que ainda há novos filmes dele para serem consumidos todo ano. Ele ainda está livre para ganhar dinheiro e se beneficiar de seu talento de outras formas, uma delas, é saindo ileso de acusações de estupro e abuso de menores, quando ele deveria estar preso e impedido de trabalhar na sua arte. Mais preocupante ainda é o quanto se esquece de tudo o que o diretor fez na hora de comprar um ingresso para um filme dele.
O talento de Woody não justifica o abuso que ele comete. Assim como o fato do som do Kanye ser bom ou não, não justifica que ele use da forma de uma mulher ou se refira a ela como ele fez com Taylor Swift em “Famous” e também não justifica as outras problematizações feitas. Mais uma vez citando Marina: seres humanos são mais importantes que arte.
A verdade é que Kanye e outros famosos sabem que seus trabalhos sempre serão mais valorizados do que o das mulheres, ou mesmo do que a integridade dessas mulheres. Por isso não é de se surpreender que ele tenha passado de todos os limites para “se expressar” em “Famous”. Acontece que ele se expressa de forma machista e a arte nunca vai justificar estes atos.
Nessa manhã, apanhei meu celular ao lado da cama assim que acordei, para ver os últimos tweets e snaps publicados nessa madrugada de sexta para sábado, afinal de contas, é assim que vejo notícias. Eis que uma coisa me soou muito estranha e me fez até sentar na cama e sacudir a cabeça. “Eu tô lendo isso direito?”.
A manchete que o Daily Mail escolheu para noticiar o novo clipe do rapper Kanye West no Snapchat foi: “Taylor Swift aparece nua na cama com Kim e Kanye”.
O título dá a entender que houve consentimento. Dá a entender que Taylor topou e participou da cena. O que seria pouco provável, considerando a treta que ela tem com Kanye por causa de uma citação imprópria e não autorizada na música “Famous”, que é justamente a trilha sonora desse tal clipe novo do rapper. Na letra, ele diz: “Sinto que eu e Taylor ainda podemos fazer sexo. Por quê? Eu fiz aquela vadia famosa”.
Com um pouco mais de pesquisa, entendi que, no videoclipe, Kanye ficou pelado com bonecos feitos de cera idênticos à celebridades. Aparecem na ordem: o ex-presidente americano George W Bush; a editora da Vogue americana Anna Wintour; o atual candidato à presidência dos Estados Unidos (e xenefóbico, e racista, e machista, e LGBTfóbico, e muslimfóbico) Donald Trump; a cantora Rihanna; o cantor Chris Brown; Taylor Swift; o próprio Kanye, a socialite, empresária e esposa do rapper, Kim Kardashian; depois o rapper Ray J; a modelo (e ex de Kanye) Amber Rose; a ex-atleta e padastro de Kim Kardashian, Caitlyn Jenner e o comediante Bill Cosby.
Diante dessa lista, nem sei por onde começar a problematizar… Mas vamos lá.
Além do uso obviamente sem aprovação (e consequentemente abusivo) da imagem de Taylor Swift, também é no mínimo incômodo ver deitados na mesma cama, o transfóbico Donald Trump e Caitlyn Jenner, uma mulher transexual, mesmo que com uma certa distância entre os dois.
Mas provavelmente o maior gatilho nessa cena, é o fato de que Rihanna, que já foi parceira de Kanye, estar representada ao lado de seu agressor, Chris Brown. Para Brown, o clipe não passou de mais uma talentosa maluquice do colega de profissão. Ele comentou no Instagram: “Por que minha bunda tem que aparecer e parecer uma figura de cera? Esse Kanye é maluco! Talentoso, mas louco (risos)!”.
Nunca dói em quem agride, não é mesmo? Mas como será para Rihanna, quem foi agredida, ver essa imagem?
E, mais uma vez, atos abusivos são protegidos pela arte
A mídia classificou o clipe como polêmico e desafiador… “A cara do Kanye”, que já provou ser egocêntrico o suficiente para se colocar como objeto central de uma suposta suruba entre celebridades.
Já os entendedores de artes, logo perceberam que a cena do videoclipe é inspirada na famosa pintura “Sleep”, de Vicent Desiderio, que retrata uma família dormindo junta. E, por causa disso, estão chamando Kanye de “gênio”.
Kanye took Vincent Desiderio's "Sleep" & brought it to life with a modern twist.. if that isn't genius idk what is. pic.twitter.com/bSDddfQFNo
Em sua defesa, Kanye utiliza os dois créditos (de polêmico e gênio). “Não é uma manifestação de apoio ou contra nenhum deles. É um comentário sobre fama”, disse o rapper para a Vanity Fair.
Até parece que Rihanna e Chris Brown ou Kim Kardashian e Ray J estão lado a lado à toa, né? Até parece que um cara ~supostamente~ tão criativo como Kanye não poderia ter pensado em outra maneira de falar sobre fama em seu clipe. Até parece que foi inevitável ser machista e despir a mulher de quem ele cobra sexo na letra da música. Mas, aparentemente, é tudo pelo bem da arte, pelo bem da crítica.
Talvez Kanye seja tudo isso que ele é creditado por. Talvez ele apenas seja overrated. Mas a verdade é que, se proteger de atitudes abusivas ou mesmo crimes de estupro e violência contra mulheres, é uma prática cada vez mais comum para os homens famosos.
Enquanto para as vítimas, sofrer agressão significa a perder credibilidade, respeito, carreira e até a vontade de continuar vivendo e dar a volta por cima, caras como Chris Brown e Bill Cosby, os que cometem os crimes, são protegidos e continuam vivendo livres para trabalhar.
Em 2014, a cantora Marina and the Diamonds se manifestou sobre o assunto no Twitter, explicando o problema de defender homens abusadores e agressores somente por serem famosos e, infelizmente, as palavras dela ainda são muito atuais.
Em uma sequência de tweets, ela disse: “Woodly Allen é um escroto. Terry Richardson é um escroto. R. Kelly é um escroto. Mas ainda assim as indústrias da moda, música e do filme celebram e apoiam estas pessoas, justificando suas ações com ‘mas eles são talentosos…’. Em outras indústrias, esses comportamentos seriam vistos de outra forma. Mas, no fim do dia, quem resiste à uma boa música pop, vídeo ou filme? E quem se importa se a pessoa que criou essa arte, estuprou jovens garotas ou bateu em suas namoradas, quando se está disponível no iTunes AGORA?”.
Sim, você pode achar o trabalho do Woody Allen maravilhoso. Eu também acho. Mas o que preocupa é que ainda há novos filmes dele para serem consumidos todo ano. Ele ainda está livre para ganhar dinheiro e se beneficiar de seu talento de outras formas, uma delas, é saindo ileso de acusações de estupro e abuso de menores, quando ele deveria estar preso e impedido de trabalhar na sua arte. Mais preocupante ainda é o quanto se esquece de tudo o que o diretor fez na hora de comprar um ingresso para um filme dele.
O talento de Woody não justifica o abuso que ele comete. Assim como o fato do som do Kanye ser bom ou não, não justifica que ele use da forma de uma mulher ou se refira a ela como ele fez com Taylor Swift em “Famous” e também não justifica as outras problematizações feitas. Mais uma vez citando Marina: seres humanos são mais importantes que arte.
A verdade é que Kanye e outros famosos sabem que seus trabalhos sempre serão mais valorizados do que o das mulheres, ou mesmo do que a integridade dessas mulheres. Por isso não é de se surpreender que ele tenha passado de todos os limites para “se expressar” em “Famous”. Acontece que ele se expressa de forma machista e a arte nunca vai justificar estes atos.
Todos os dias mulheres negras passam por situações humilhantes e constrangedoras que partem de atitudes que não são nada mais do que racistas e ignorantes, de pessoas que não nos aceitam do jeito que nos aceitamos. Mas no caso de Gabriela Monteiro, ela teve a coragem que poucas de nós temos – e eu sei que é difícil ter – ela denunciou.
Gabi não só denunciou os atos racistas que sofreu de professoras no curso de Design de Moda da Universidade da Puc – Rio de Janeiro, prestando queixas de racismo na 12ª DP em Copacabana, como também expôs o caso no seu Facebook – o que exige muita coragem – e deixou claro para todo mundo que não importa o quanto falassem, ela vai continuar sempre botando seu cabelo para cima.
Gabi por si só, já é um modelo de empoderamento. No oitavo ano do curso, é a única negra da sala dela, o que demonstra a falta de oportunidade para jovens negros nas universidades do Brasil, mesmo com programas sociais que tentam facilitar o aumento de participação. Ao denunciar o racismo que sofreu na instituição, ela também fez um ato empoderador e emocionante.
“O nó e a angustia que me referi no início do texto é por conta da decisão de tomar uma atitude, não apenas ficar reclamando pro vento, mas buscar meus direitos juridicamente! Primeiro refleti sobre as possíveis retalhações que posso sofrer na própria universidade, já que não existem outras opões de professores para essa matéria, depois veio a dificuldade de encontrar um advogado que estivesse disposto a me orientar, e por último o constrangimento de registrar o caso na delegacia, que definitivamente não está preparada para receber pessoas que sofrem preconceito, eu e minha mãe fomos tratadas de forma grosseira, com descaso por parte do policial que me recebeu.”
Foi possível ver minha história em cada linha dos textos de Gabi no Facebook, e tenho certeza de que muitas outras mulheres também se viram ali, mesmo que nossas histórias não sejam exatamente iguais. Foi possível se identificar quando ela fala da dificuldade de se reconhecer negra em função de tantas imposições e padrões vindos da sociedade e a nossa necessidade de se adequar a eles para sobreviver. É possível se identificar quando ela fala da importância do nosso cabelo nesse processo de reconhecimento.
E mais importante: Gabi é um exemplo público de que as premissas de que o crespo ou cacheado são tipos de “cabelo ruim”, e que de por algum motivo é feio diante dos olhos das pessoas, são racistas sim. E parte da ideia de que temos que nos esconder atrás de alisamentos que embranquecem nossa aparência para agradar as outras pessoas. Mostra o quanto isso incomoda quando não deveria, quando estamos sendo apenas nós mesmas em nosso estado natural. E como as pessoas se acham no direito de interferir em nossa aparência só por causa desse incomodo.
Durante meus quatro anos de faculdade, eu ainda usei chapinha, e imaginar que poderia ter passado pelo mesmo que Gabi passou se eu já tivesse meu cabelo assumido foi fácil, mais ainda foi perceber que eu e outras passamos por isso todos os dias em outras situações na vida: Na rua, no trabalho, ou mesmo em casa.
O que foi dito a Gabi foi relatado em seu post no Facebook, e não vale a pena repetir neste texto, pois as falas ofensivas já foram suficientemente repetidas em outras mídias e quem é negra e crespa ou cacheada acaba ouvindo estas repetições por demais também.
Além disso, a intenção aqui – além de pensar no futuro ao apoiar Gabi nessa luta que ainda não terminou, sabendo que ela ainda enfrentará a negação das pessoas que a atingiram e a ignorância de quem não entende a importância de uma denúncia como esta – é também mostrar a força dessa mulher e tê-la como exemplo.
Toda vez que você se sentir para baixo com comentários negativos, não se deixe abater, não obedeça as imposições de esconder o volume e as formas do seu cabelo. Quanto mais comentários racistas e opressores de pessoas que estiverem incomodadas com seu cabelo, mais significa que precisamos continuar mostrando o poder de nossas coroas. Sempre que isso te afetar, responda como a Gabi. Bote seu cabelo pra cima.
Bota seu cabelo pra cima para mostrar que ele é assim e que você o ama. Bota seu cabelo pra cima para ir a delegacia denunciar e saber exigir um bom tratamento. Bota o cabelo pra cima pra lutar contra o racismo.
Nessa manhã, apanhei meu celular ao lado da cama assim que acordei, para ver os últimos tweets e snaps publicados nessa madrugada de sexta para sábado, afinal de contas, é assim que vejo notícias. Eis que uma coisa me soou muito estranha e me fez até sentar na cama e sacudir a cabeça. “Eu tô lendo isso direito?”.
A manchete que o Daily Mail escolheu para noticiar o novo clipe do rapper Kanye West no Snapchat foi: “Taylor Swift aparece nua na cama com Kim e Kanye”.
O título dá a entender que houve consentimento. Dá a entender que Taylor topou e participou da cena. O que seria pouco provável, considerando a treta que ela tem com Kanye por causa de uma citação imprópria e não autorizada na música “Famous”, que é justamente a trilha sonora desse tal clipe novo do rapper. Na letra, ele diz: “Sinto que eu e Taylor ainda podemos fazer sexo. Por quê? Eu fiz aquela vadia famosa”.
Com um pouco mais de pesquisa, entendi que, no videoclipe, Kanye ficou pelado com bonecos feitos de cera idênticos à celebridades. Aparecem na ordem: o ex-presidente americano George W Bush; a editora da Vogue americana Anna Wintour; o atual candidato à presidência dos Estados Unidos (e xenefóbico, e racista, e machista, e LGBTfóbico, e muslimfóbico) Donald Trump; a cantora Rihanna; o cantor Chris Brown; Taylor Swift; o próprio Kanye, a socialite, empresária e esposa do rapper, Kim Kardashian; depois o rapper Ray J; a modelo (e ex de Kanye) Amber Rose; a ex-atleta e padastro de Kim Kardashian, Caitlyn Jenner e o comediante Bill Cosby.
Diante dessa lista, nem sei por onde começar a problematizar… Mas vamos lá.
Além do uso obviamente sem aprovação (e consequentemente abusivo) da imagem de Taylor Swift, também é no mínimo incômodo ver deitados na mesma cama, o transfóbico Donald Trump e Caitlyn Jenner, uma mulher transexual, mesmo que com uma certa distância entre os dois.
Mas provavelmente o maior gatilho nessa cena, é o fato de que Rihanna, que já foi parceira de Kanye, estar representada ao lado de seu agressor, Chris Brown. Para Brown, o clipe não passou de mais uma talentosa maluquice do colega de profissão. Ele comentou no Instagram: “Por que minha bunda tem que aparecer e parecer uma figura de cera? Esse Kanye é maluco! Talentoso, mas louco (risos)!”.
Nunca dói em quem agride, não é mesmo? Mas como será para Rihanna, quem foi agredida, ver essa imagem?
E, mais uma vez, atos abusivos são protegidos pela arte
A mídia classificou o clipe como polêmico e desafiador… “A cara do Kanye”, que já provou ser egocêntrico o suficiente para se colocar como objeto central de uma suposta suruba entre celebridades.
Já os entendedores de artes, logo perceberam que a cena do videoclipe é inspirada na famosa pintura “Sleep”, de Vicent Desiderio, que retrata uma família dormindo junta. E, por causa disso, estão chamando Kanye de “gênio”.
Kanye took Vincent Desiderio's "Sleep" & brought it to life with a modern twist.. if that isn't genius idk what is. pic.twitter.com/bSDddfQFNo
Em sua defesa, Kanye utiliza os dois créditos (de polêmico e gênio). “Não é uma manifestação de apoio ou contra nenhum deles. É um comentário sobre fama”, disse o rapper para a Vanity Fair.
Até parece que Rihanna e Chris Brown ou Kim Kardashian e Ray J estão lado a lado à toa, né? Até parece que um cara ~supostamente~ tão criativo como Kanye não poderia ter pensado em outra maneira de falar sobre fama em seu clipe. Até parece que foi inevitável ser machista e despir a mulher de quem ele cobra sexo na letra da música. Mas, aparentemente, é tudo pelo bem da arte, pelo bem da crítica.
Talvez Kanye seja tudo isso que ele é creditado por. Talvez ele apenas seja overrated. Mas a verdade é que, se proteger de atitudes abusivas ou mesmo crimes de estupro e violência contra mulheres, é uma prática cada vez mais comum para os homens famosos.
Enquanto para as vítimas, sofrer agressão significa a perder credibilidade, respeito, carreira e até a vontade de continuar vivendo e dar a volta por cima, caras como Chris Brown e Bill Cosby, os que cometem os crimes, são protegidos e continuam vivendo livres para trabalhar.
Em 2014, a cantora Marina and the Diamonds se manifestou sobre o assunto no Twitter, explicando o problema de defender homens abusadores e agressores somente por serem famosos e, infelizmente, as palavras dela ainda são muito atuais.
Em uma sequência de tweets, ela disse: “Woodly Allen é um escroto. Terry Richardson é um escroto. R. Kelly é um escroto. Mas ainda assim as indústrias da moda, música e do filme celebram e apoiam estas pessoas, justificando suas ações com ‘mas eles são talentosos…’. Em outras indústrias, esses comportamentos seriam vistos de outra forma. Mas, no fim do dia, quem resiste à uma boa música pop, vídeo ou filme? E quem se importa se a pessoa que criou essa arte, estuprou jovens garotas ou bateu em suas namoradas, quando se está disponível no iTunes AGORA?”.
Sim, você pode achar o trabalho do Woody Allen maravilhoso. Eu também acho. Mas o que preocupa é que ainda há novos filmes dele para serem consumidos todo ano. Ele ainda está livre para ganhar dinheiro e se beneficiar de seu talento de outras formas, uma delas, é saindo ileso de acusações de estupro e abuso de menores, quando ele deveria estar preso e impedido de trabalhar na sua arte. Mais preocupante ainda é o quanto se esquece de tudo o que o diretor fez na hora de comprar um ingresso para um filme dele.
O talento de Woody não justifica o abuso que ele comete. Assim como o fato do som do Kanye ser bom ou não, não justifica que ele use da forma de uma mulher ou se refira a ela como ele fez com Taylor Swift em “Famous” e também não justifica as outras problematizações feitas. Mais uma vez citando Marina: seres humanos são mais importantes que arte.
A verdade é que Kanye e outros famosos sabem que seus trabalhos sempre serão mais valorizados do que o das mulheres, ou mesmo do que a integridade dessas mulheres. Por isso não é de se surpreender que ele tenha passado de todos os limites para “se expressar” em “Famous”. Acontece que ele se expressa de forma machista e a arte nunca vai justificar estes atos.