Não seja bonita

Uma das questões presentes por muito tempo na minha vida era que eu nunca soube dizer se eu sou bonita. Talvez isso não seja uma questão para todos, mas me incomodava. Eu sou ou não sou bonita?

Eu sofri bullying na adolescência e um de seus principais enfoques era este: que eu não era, nem nunca seria, bonita. Tomei pedrada, fui perseguida com garrafas cheias de areia, tudo por isso – ah, e por homofobia! Suspeitavam que eu fosse lésbica, claro. Não erraram muito, hoje sei que sou bissexual, mas naqueles tempos eu só era uma menina esquisita. E nada mais esquisito, para os tradicionais, do que romper com a heteronormatividade, o que logo nomeou a minha esquisitice.

Meu cabelo era um liso no processo de tornar-se cacheado, sempre armado e cheio de frizz. Da minha pele destacavam-se fundas olheiras e um punhado de veias esverdeadas. Eu era quieta, cabisbaixa e infantil – apesar de madura para algumas coisas. Mantinha o nojo dos meninos e uma intensa misoginia internalizada, considerando qualquer feminilidade fútil.

Quando os cachos terminaram de se formar eu tive de usar aparelho, para compensar na aparência, mas também passei a usar a câmera para descobrir meu rosto. Fotos e mais fotos, repetidas, buscando aceitar aquela cara que era minha. Essa busca acabou por tornar-se uma busca por mim e fui aos poucos me encontrando, sendo um dos primeiros passos a entrada subcultura Gótica.

Mudei-me. Hoje meus cabelos são lisos, por vontade das águas de São Paulo, vermelhos e com ambas laterais raspadas – máquina zero, quando a preguiça não é grande. Passei a usar maquiagem, antiga inimiga, para transformar meu rosto em um hibridismo de Morticia e Elvira. A pergunta, porém, permanecia: sou ou não sou bonita? Eu gostava do meu reflexo no espelho, mas isso, por algum motivo, não respondia. E aí vem a questão: o que raios responde?

Somos seres complexos e existimos expostos e em companhia de outros. Somos também, portanto, aos olhos dos outros. Muito de nós, porém, não é acessível a grande parte desses outros que tem, no máximo, nossa aparência como mensagem sobre nós. Talvez a certeza de que esta é bonita, agradável, apazigue um pouco a ansiedade de não ser capaz de transmitir aquelas coisas que nos agradam sobre nós mesmos. De não podermos controlar nossa primeira impressão.

E a minha impressão é que ser bonita fica, justamente, muito a cargo dos outros. Na verdade, é bastante difícil adjetivar-se num geral, mas enquanto podemos “ouvir” ou “ver” nossos pensamentos e ideias, sentir nossos sentimentos, só temos acesso à nossa imagem através de reflexos ou registros fotográficos. Nossa aparência é, principalmente, diante de olhos outros.

Mas esses outros não são unanimidade. A beleza é uma construção cultural, mas também pessoal – o que resulta em avaliações bastante subjetivas e inconstantes. Ninguém pode dar a resposta definitiva de que uma pessoa é ou não bonita, portanto. Apenas que pessoas acham ela bonita, que pessoas acham ela feia e talvez motivos para essas impressões.

No máximo poderíamos nos comparar às imagens propostas-impostas como ideais pela mídia, porém como se comparar a outro ser humano? Isso é realmente possível? Afinal, se a Angelina Jolie é bonita, ser bonita como ela significaria, de certa forma, ser ela. Afinal, não pode ser apenas uma característica da pessoa que a define como tal. O que a torna bonita não é, por exemplo, a boca. Eu imagino que eu, com a boca dela, resultaria numa imagem completamente diferente. É a totalidade da aparência dela – e, ainda assim, para muitos ela não será considerada bonita. Como já disse: o troço é bastante subjetivo.

Se ser bonita é, portanto, ser como os modelos impostos, isto é impossível, porque só podemos ser quem somos e, mesmo através de cirurgias plásticas, dificilmente podemos transformarmo-nos no outro. E, mesmo que teçamos “regras gerais” destas imposições, como ser magra, branca, loira e de nariz-da-Disney, nada garante que estas possam ser aplicadas à miríade de aparências e corpos existentes – em outras palavras – que esse visual te caia bem! Além disso, é loucura limitar beleza a um espectro tão restrito, diante da infinitude de aparências humanas possíveis.

Mesmo no aspecto da aparência – e muito além dele – poucas coisas são mais importantes do que gostar de si. Isto cabe apenas a nós. E deve ser feito, na medida do possível, sem o comparar-se com o outro – que sempre será outro e, alem disso, único.

Isso me levou a conclusão básica de que ser bonita é impossível. Pelo menos como veredicto definitivo. Você sempre será bonita pra uns, feia pra outros. Não há resposta para a pergunta: “eu sou bonita?” – não é à toa que ela me encafifava tanto! E não é à toa que eu sofria com a ideia que tanto perseguimos de “sentir-se bonita” – independente dos padrões, porque é algo que parece residir muito fora da gente.

Uma pergunta que me parece um tanto mais respondível, porém, é se você gosta de você. E, na verdade, é uma pergunta muito mais importante do que a primeira. Porque outra coisa que, bem, não dá tempo de abordar é que ninguém precisa ser bonito. Há mais a que se oferecer, ainda que nem sempre acessível a uma primeira impressão, e há mais a que se esperar das pessoas. Mas, mesmo no aspecto da aparência – e muito além dele – poucas coisas são mais importantes do que gostar de si. Isto cabe apenas a nós. E deve ser feito, na medida do possível, sem o comparar-se com o outro – que sempre será outro e, alem disso, único.

E hoje, bem, eu não quero ser bonita – isso me parece um objetivo pouco alcançável – eu quero é ser alguém que eu gosto. Alguém que eu me orgulhe. Alguém, por mais estranho que isso vá soar, que me represente.

(imagem: F. Earl Christy)

Escrito por
Mais de Cacau Birdmad

Você é como você joga?

Minha personagem em Skyrim

“Espelho, espelho meu…
como você é? Como você joga?”

O ser humano é um ser repleto de narrativas. Nós as construímos enquanto somos também construídas por elas, moldando sonhos, desejos, medos, expectativas. Quem nunca leu um livro ou assistiu a um filme que mudou sua vida? Que produziu um desejo de repensar escolhas ou decisões? Que te ensinou mais sobre você, sobre os outros à sua volta?

Bem, mas e ao jogar videogame?

Eu e meu marido adoramos jogar The Elder Scrolls V: Skyrim, um RPG de mundo aberto, com cenário fantástico-medieval. A maneira com a qual jogamos, porém, é bastante diferente. Eu tenho mais de uma personagem, mas jogo principalmente com aquela que é projeção minha no jogo. Temos aparência semelhante e as decisões dela, ainda que em contexto bastante diferente do meu, refletem meus ideais e princípios. Meu namorado, porém, tem diversos personagens e joga bastante com todos, ainda que vezes mais com um ou outro. Nenhum personagem se assemelha a ele e seu prazer vem, em muito, de tomar caminhos ou decisões que não correspondem àquilo que ele faria. Ele gosta de explorar outros modos de ser, pensar ou viver em seus personagens. Seja através de um Khajiit egoísta e mau-caráter, seja através de uma guerreira nórdica honrada, que não pega itens em tumbas ou de personagens que não a atacaram primeiro.

O jogo, portanto, nos possibilita experiências bastante diferentes, ainda que suas mecânicas não se alterem pra mim ou para meu marido.

Ao jogar Heavy Rain, narração-interativa sobre um pai tentando salvar seu filho de um misterioso serial-killer, costumo conseguir passar por quase todos os desafios impostos pelo assassino com facilidade. Menos um: matar um pai de família. Ainda que eu tenha jogado e terminado o jogo mais de uma vez, para ver diversos finais, não consigo o achievement que esta morte me daria. Por algum motivo, ainda que as crianças não existam no mundo real, não consigo privá-las do pai. Não consigo tirar gratuitamente uma vida, independente de não ser uma vida. A situação sempre me vira o estômago, me faz suar frio. Existem limites que eu não consigo romper nem mesmo na virtualidade.

Heavy Rain

A diversidade de jogadores, porém, significa também uma diversidade de limites. Pode haver outros caminhos que alguns se recusam a traçar. Ou pode, ainda, tudo ser apenas um jogo.

O que nossas formas de jogar dizem sobre nós? Talvez eu seja uma pessoa para quem coerência ética e de princípios são valores máximos. Talvez algumas pessoas que passam por tudo como apenas um jogo sejam mais abertas a novas experiências, a adotarem novos pontos de vista.  Talvez a pergunta: “até onde você iria para salvar alguém que você ama”, feita na campanha publicitária do jogo, realmente possa ser algo que respondemos a nosso respeito ao jogar.

Outra experiência interessante é proporcionada pelo simples, mas intenso Loneliness. Aviso aqui que, se você pretende jogar este jogo, minha descrição poderá arruinar a experiência. Você é um ponto no espaço, repleto ou não de outros pontos e só pode mover-se e avançar nesse espaço, através do uso das setas no teclado. Aproximar-se dos outros pontos possui apenas um resultado, algo que você só tem certeza após o fim do jogo. Como já abordado na série de vídeos sobre games, Extra Credits, que muito recomendo que qualquer mulher aqui confira, a cada vez que decidimos nos aproximar ou não de um ou mais pontos, de insistir ou não na interação, dizemos algo sobre nós e sobre nossa relação com a solidão.

Loneliness

Se ao ler um livro ou assistir a um filme podemos suscitar transformações ou ampliar compreensões a nosso respeito, não seriam os jogos uma mídia privilegiada neste aspecto? Ao nos tirar da posição de expectadores e nos colocar na posição de jogadores, protagonistas, transformadores da narrativa, ao nos colocar em interação com a mecânica, prontos a fazer dela o que desejarmos e nos for possível, será que os jogos não nos colocam também em um espaço de nos evidenciarmos a nós mesmos? E, portanto, nos transformarmos?

Será que, ao ligarmos nossos consoles ou abrirmos o Steam, não estamos também sussurrando: “espelho, espelho meu…”?

Se sim, abre-se uma potencialidade a ser explorada não apenas por desenvolvedores e jogadores, mas também terapeutas e professores.  E, havendo este potencial, podemos pensar na sua relação também na transmissão e construção de cultura, nos aspectos étnicos e de gênero.

Imagens:
1. Minha personagem em Skyrim
2. Heavy Rain
3. Loneliness

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F. Earl Christy)

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