A vida não é um miojo

Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez a.k.a. Emily

Outro dia conversava com uma amiga sobre sua tentativa de parar de fumar e começar a fazer exercícios físicos. Ela falava sobre estar um tanto quanto frustrada com suas tentativas, que queria acordar um dia e simplesmente ter outro comportamento, outra forma de encarar os vícios e passividades que a cercavam. Algo como abrir os olhos e ser uma triatleta super saudável.

Claro que me identifiquei, afinal de contas, a ansiedade é uma das grandes marcas do nosso tempo, queremos tudo logo e pra ontem, as manchetes nos mostram que é possível, as dietas alcançam sucesso em sete dias e os ricos enriquecem com poucas horas de aplicação na bolsa.

Ficamos um tempo conversando sobre isso, sobre o quanto é difícil alcançar um objetivo que já aparece em nossa cabeça como algo pronto. Comentamos como o ato de parar de fumar vem sempre acompanhado de exemplos de sucesso e listas com dez itens essenciais para largar o vício. Mas na prática, a teoria é outra, a gente sabe disso. Ainda que lá no fundo, haja uma voz que repete aquele mantra que diz que não é tão fácil, mas também não é tão difícil, é comum não darmos ouvido a ela. Essa voz lógica, que nos pede coerência, acaba abafada e, assim, nos jogamos na ansiedade. Surge aquela imensa vontade de alcançar tudo pra ontem, rápido, pronto, resolvido, indolor, uma forma meio miojo de ver a vida. Mas a verdade é que a vida não é um miojo, macarrão instantâneo, que fica pronto em três minutos e conta com um pacotinho mágico de tempero. Não, as coisas não acontecem assim, de uma hora pra outra.

jujuba

Na mesma época em que conversávamos sobre o vício e a urgência de resolver tudo em três minutos, eu estava lendo A Redoma de Vidro, da Sylvia Plath. Uma passagem chamou muito a minha atenção, acima de qualquer outro relato sobre depressão ou tristeza. O trecho falava sobre a pausa que a personagem se dá ao entrar em um banho quente.

Fiquei refletindo sobre esse trecho e me lembrei das inúmeras vezes em que acabei apressando as coisas por não ter tido força para respirar fundo e ter calma comigo mesma. A falta de paciência que sentia não era em relação aos outros, mas sim em relação a mim mesma. Não era ansiedade por não ter uma resposta vinda de outra pessoa, mas sim ansiedade por não saber lidar com o tempo das coisas. Como se fosse uma falta de conexão com a natureza e suas fases, querendo acelerar tudo ao máximo.

“Sempre que fico triste pensando que um dia vou morrer, ou perco o sono de tão nervosa, ou estou apaixonada por alguém que não verei por uma semana, me deixo sofrer até certo ponto e então digo: ‘vou tomar um banho quente’.”

– Sylvia Plath, A Redoma de Vidro

Foi quando me caiu a ficha de que nos falta paciência conosco mesmas. Estamos constantemente tentando avançar, seguir adiante, não nos dar por vencidas, não podemos parar. Não nos damos tempo para nos abraçar lentamente e dizer a nós mesmas que vai funcionar, que vai dar certo, mas que é preciso paciência, tempo e descanso para que tudo funcione. Lembrei minha crise de estafa, meu corpo estressado, eu me doendo inteira não por estar doente, mas pela vontade de que a doença passasse logo e eu pudesse avançar. A Sapucaí é grande, o tempo urge, eu sei, mas às vezes afrouxar o passo, aproveitar a caminhada pode ajudar a domar um pouco essa enorme ansiedade.

Somos constantemente expostas às exigências de mostrar resultados, conquistas, mudanças, crescimento, evoluções, mas ninguém nos fala sobre o tempo e as falhas e fracassos que acontecem no processo. Nossa geração, tão pronta para focar o sucesso dos outros, não consegue lidar com os próprios sucessos e fracassos. Com o tempo correndo e nós correndo contra ele, quem vai se dar alguns minutos para exercer a paciência?

Sempre pensei que a ansiedade de chegar aos resultados atrapalharia a graça do processo, mas dificilmente me lembro disso quando olho pra frente, pros objetivos que tenho. A falta de paciência com meus próprios processos me fazia desistir de muitas coisas por pensar que tudo seria muito difícil, assim como parar de fumar. É preciso paciência, tento me lembrar sempre de me dizer, é preciso atenção e calma comigo mesma, é preciso ouvir meu próprio tempo e passar a entender o tempo do outro.

Porque em épocas tão difíceis como os dias de hoje, é preciso, urgentemente, olhar para o outro com paciência e compaixão, mas como fazer isso se nós mesmas não temos autocompaixão? Quando comecei a escrever, não estava pensando exatamente no termo compaixão e sim paciência, mas me caiu no colo esse texto do Brainpickings e esse vídeo super delicioso do pessoal do The School of Life que, aliás, se encaixa muito bem também naquele papo que tivemos aqui sobre estar só consigo mesma.

Enquanto minha grande amiga se desmontava em ansiedade, fui tentando mostrar a ela o quanto precisamos ter paciência conosco mesmas. Precisamos, pra ontem, nos acolher em um mundo de paciência, respirações lentas, abraços e banhos quentes. Seja sozinha, seja em conjunto com amigas, irmãs, companheiras. Precisamos pensar com mais carinho em cada pequena falha e pequena conquista que nos atravessa, entender que são essas atitudes que nos constituem enquanto seres complexos e únicos que somos. Acredito, de verdade, que ser paciente consigo mesma é também uma forma de exercer empatia, de respeitar o tempo das coisas e o tempo dos outros.

Leia mais: As tristezas do trabalho e o fracasso profissional

Mais de Estela Rosa

Estante das Minas: Adília Lopes

Como eu disse aqui na Ovelha, na minha primeira participação, faz mais ou menos um ano que me dedico à leitura de escritoras mulheres. Já fui da autoajuda à poesia, do romance à teoria, e continuo nessa empreitada para fortalecer nosso mercado literário e para me fortalecer também, né, por que não?

Faz uns dois meses, uma grande amiga me perguntou se, ao só ler mulheres, eu não sentia falta dos autores homens, se um Mia Couto não me causava saudades. Nem titubeei ao dizer que não. Depois de conversarmos mais sobre isso, ela acabou mudando de ideia… E gosto de pensar que foi porque viu minha estante de livros e abriu o primeiro livro de poesia que entreguei a ela: a Antologia de poemas da Adília Lopes.

Foi essa mesma amiga, depois de perceber o quanto estava atravessada pela dúvida em relação às escritoras mulheres, que me sugeriu que eu divulgasse o que eu andava lendo. Muitas vezes eu acabava falando do livro que estava lendo no meu próprio Facebook e via como outras mulheres se empolgavam na discussão, então por que não expandir isso? Foi assim que entrei em contato, de novo, com as Ovelhas maravilhosas e me propus a escrever sobre mulheres na literatura. Sei que muito do que vai sair aqui estará imerso nessa paixão louca que tenho pelos livros, mas acho que isso também faz parte da admiração e da sororidade, então tá tudo certo.

E nada mais justo do que começar falando dessa poeta fabulosa que é a Adília Lopes, que foi justamente quem me ajudou a dar o pontapé inicial nessa troca deliciosa entre mulheres. Conheci a Adília ainda na época da faculdade, através de um professor de Literatura Portuguesa. Ele, acompanhando meus gostos, me disse que a Adília se tornaria minha paixão. E assim foi. Logo no primeiro poema fiquei tonta, zonza, imersa nesse universo português tão simples e tão envolvente.

No more tears foi o primeiro poema que li da Adília e foi daquelas leituras que te deixam parada alguns minutos, absorvendo toda as camadas que a poeta lança ao falar de algo tão simples e corriqueiro como a infância:

No more tears
Quantas vezes me fechei para chorar

na casa de banho da casa de minha avó

lavava os olhos com shampoo

e chorava

chorava por causa do shampoo

depois acabaram os shampoos

que faziam arder os olhos

no more tears disse Johnson & Johnson

as mães são filhas das filhas

e as filhas são mães das mães

uma mãe lava a cabeça da outra

e todas têm cabelos de crianças loiras

para chorar não podemos usar mais shampoo

e eu gostava de chorar a fio

e chorava

sem um desgosto sem uma dor sem um lenço

sem uma lágrima

fechada à chave na casa de banho

da casa da minha avó

onde além de mim só estava eu

também me fechava no guarda-vestidos

mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro

nunca ninguém viu um vestido a chorar

 

In: O decote da dama de espadas, 1988

Em seu poema, ela coloca não só o lugar da criança, como o lugar da criança mulher, atravessada pela mãe, pelos cabelos, pelas lágrimas e pelos vestidos, aqueles que não choram.

Adília Lopes é o codinome de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira que nasceu em Lisboa, no dia 20 de abril de 1960. Ela publica seus primeiros poemas em 1984, mas se consagra como escritora a partir de 1985, quando começa uma série de publicações que a levaram a ser conhecida por toda parte em Portugal. Por conta de uma história curiosa de psicose esquizoafetiva, muito citada em seus poemas, Adília larga a primeira faculdade que cursa, Física, por uma indicação médica. Após um tempo afastada dos estudos, passa a se dedicar à Literatura e Linguística (graças à Deusa).

Fedra está apaixonada

por Hipólito

Hipólito não está apaixonado

por Fedra

Fedra enforca-se

Hipólito morre

num acidente

 

Dido está apaixonada

por Eneias

Eneias não está apaixonado

por Dido

Dido oferece uma espada

a Eneias

Eneias esquece-se da espada

quando se vai embora

Dido suicida-se

com a espada esquecida

por Eneias

 

Um desgosto de amor

atirou-me para um

curso de dactilografia

consolo-me

a escrever automaticamente

o pior são os tempos livres

 

In: Sete rios entre campos, 1999

 

Obviamente, Adília se tornou uma das minhas poetas favoritas. Afinal de contas, não dá para não se apaixonar por alguém que se autodenomina uma “freira poetisa barroca” e faz poesia sobre o cotidiano de uma maneira delicada e marcante.

É possível achar muitos outros poemas da Adília Lopes espalhados pela internet, mas, se você é daquelas que ama livros e vai querer ler tudo de cabo a rabo, corre pra comprar logo, porque essa Antologia que citei foi publicada no Brasil pela Cosac Naify em parceria com a 7Letras, na coleção Ás de Colete. Por conta do encerramento das atividades da Cosac, é provável que o livro esgote em breve. E não se sabe quando haverá uma reedição, infelizmente. :(

Com o fogo não se brinca

porque o fogo queima

com o fogo que arde sem se ver

ainda se deve brincar menos

do que com o fogo com fumo

porque o fogo que arde sem se ver

é um fogo que queima muito

e como queima

muito

custa mais

a apagar

do que o fogo com fumo

 

In: Um jogo bastante perigoso, 1985.

 

Leiam Adília Lopes, meninas! Vamos celebrar essas mulheres incríveis que produzem intensamente e falam também intensamente sobre ser mulher. <3

Leia mais
a ansiedade é uma das grandes marcas do nosso tempo, queremos tudo logo e pra ontem, as manchetes nos mostram que é possível, as dietas alcançam sucesso em sete dias e os ricos enriquecem com poucas horas de aplicação na bolsa.

Ficamos um tempo conversando sobre isso, sobre o quanto é difícil alcançar um objetivo que já aparece em nossa cabeça como algo pronto. Comentamos como o ato de parar de fumar vem sempre acompanhado de exemplos de sucesso e listas com dez itens essenciais para largar o vício. Mas na prática, a teoria é outra, a gente sabe disso. Ainda que lá no fundo, haja uma voz que repete aquele mantra que diz que não é tão fácil, mas também não é tão difícil, é comum não darmos ouvido a ela. Essa voz lógica, que nos pede coerência, acaba abafada e, assim, nos jogamos na ansiedade. Surge aquela imensa vontade de alcançar tudo pra ontem, rápido, pronto, resolvido, indolor, uma forma meio miojo de ver a vida. Mas a verdade é que a vida não é um miojo, macarrão instantâneo, que fica pronto em três minutos e conta com um pacotinho mágico de tempero. Não, as coisas não acontecem assim, de uma hora pra outra.

jujuba

Na mesma época em que conversávamos sobre o vício e a urgência de resolver tudo em três minutos, eu estava lendo A Redoma de Vidro, da Sylvia Plath. Uma passagem chamou muito a minha atenção, acima de qualquer outro relato sobre depressão ou tristeza. O trecho falava sobre a pausa que a personagem se dá ao entrar em um banho quente.

Fiquei refletindo sobre esse trecho e me lembrei das inúmeras vezes em que acabei apressando as coisas por não ter tido força para respirar fundo e ter calma comigo mesma. A falta de paciência que sentia não era em relação aos outros, mas sim em relação a mim mesma. Não era ansiedade por não ter uma resposta vinda de outra pessoa, mas sim ansiedade por não saber lidar com o tempo das coisas. Como se fosse uma falta de conexão com a natureza e suas fases, querendo acelerar tudo ao máximo.

“Sempre que fico triste pensando que um dia vou morrer, ou perco o sono de tão nervosa, ou estou apaixonada por alguém que não verei por uma semana, me deixo sofrer até certo ponto e então digo: ‘vou tomar um banho quente’.”

– Sylvia Plath, A Redoma de Vidro

Foi quando me caiu a ficha de que nos falta paciência conosco mesmas. Estamos constantemente tentando avançar, seguir adiante, não nos dar por vencidas, não podemos parar. Não nos damos tempo para nos abraçar lentamente e dizer a nós mesmas que vai funcionar, que vai dar certo, mas que é preciso paciência, tempo e descanso para que tudo funcione. Lembrei minha crise de estafa, meu corpo estressado, eu me doendo inteira não por estar doente, mas pela vontade de que a doença passasse logo e eu pudesse avançar. A Sapucaí é grande, o tempo urge, eu sei, mas às vezes afrouxar o passo, aproveitar a caminhada pode ajudar a domar um pouco essa enorme ansiedade.

Somos constantemente expostas às exigências de mostrar resultados, conquistas, mudanças, crescimento, evoluções, mas ninguém nos fala sobre o tempo e as falhas e fracassos que acontecem no processo. Nossa geração, tão pronta para focar o sucesso dos outros, não consegue lidar com os próprios sucessos e fracassos. Com o tempo correndo e nós correndo contra ele, quem vai se dar alguns minutos para exercer a paciência?

Sempre pensei que a ansiedade de chegar aos resultados atrapalharia a graça do processo, mas dificilmente me lembro disso quando olho pra frente, pros objetivos que tenho. A falta de paciência com meus próprios processos me fazia desistir de muitas coisas por pensar que tudo seria muito difícil, assim como parar de fumar. É preciso paciência, tento me lembrar sempre de me dizer, é preciso atenção e calma comigo mesma, é preciso ouvir meu próprio tempo e passar a entender o tempo do outro.

Porque em épocas tão difíceis como os dias de hoje, é preciso, urgentemente, olhar para o outro com paciência e compaixão, mas como fazer isso se nós mesmas não temos autocompaixão? Quando comecei a escrever, não estava pensando exatamente no termo compaixão e sim paciência, mas me caiu no colo esse texto do Brainpickings e esse vídeo super delicioso do pessoal do The School of Life que, aliás, se encaixa muito bem também naquele papo que tivemos aqui sobre estar só consigo mesma.

Enquanto minha grande amiga se desmontava em ansiedade, fui tentando mostrar a ela o quanto precisamos ter paciência conosco mesmas. Precisamos, pra ontem, nos acolher em um mundo de paciência, respirações lentas, abraços e banhos quentes. Seja sozinha, seja em conjunto com amigas, irmãs, companheiras. Precisamos pensar com mais carinho em cada pequena falha e pequena conquista que nos atravessa, entender que são essas atitudes que nos constituem enquanto seres complexos e únicos que somos. Acredito, de verdade, que ser paciente consigo mesma é também uma forma de exercer empatia, de respeitar o tempo das coisas e o tempo dos outros.

Leia mais: As tristezas do trabalho e o fracasso profissional

" />