O namorado perfeito dentro do seu celular

Já ouviu falar dos otome games?

Otome game é como são chamados os jogos de simulação de namoro, onde o objetivo é fazer com que a protagonista se apaixone por algum dos personagens masculinos disponíveis através de uma história com múltiplas escolhas.

[caption id="attachment_14216" align="aligncenter" width="500"] Qual é o seu favorito? ;)[/caption]  
Esses jogos apareceram pela primeira vez no Japão durante a década de 80. Conhecidos como “bishoujo”, eles costumam ter um protagonista masculino que persuade um romance entre várias belas personagens com características comuns aos mangás e animes.

Em 1994, um grupo de programadoras da empresa japonesa de games Koei saíram do padrão, lançando o primeiro jogo de simulação de namoro para mulheres, “Angelique”. A saga de uma jovem, candidata a próxima “Rainha do Universo”, para escolher o pretendente perfeito foi um sucesso.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Yano, de Tóquio, hoje o mercado de jogos voltados para o público feminino surfa na explosão dos aplicativos para smarthphones e movimentam um mercado no valor de 15 bilhões de ienes por ano no Japão.

Recentemente eles foram tema de uma reportagem no Japan Times e na CNN, onde entrevistaram jogadoras, que variam de jovens até mulheres casadas, e criadoras desses jogos. Além de terem mulheres como público alvo, os games são escritos por um time predominantemente feminino, como no caso da produtora Cybrid. Os jogos já foram baixados mais de 15 milhões de vezes desde que foram lançados no mercado há cinco anos atrás. E muitos jogos são traduzidos e também se tornaram febre fora do Japão. 

[caption id="attachment_14224" align="aligncenter" width="500"] Otome games são uma febre internacional.[/caption]

Porém, apesar de apontarem o quanto esse nicho é lucrativo, o tom usado por esses textos costuma me irritar um pouco. Como esses jogos são vendidos como “namorados virtuais” e “ a fuga para um mundo onde podem criar sua própria história de amor”, ambas os jornais parecem fazer um julgamento sobre as jogadoras, como se elas trocassem relacionamentos de carne e osso por uma ilusão. De que elas seriam “estranhas” por gostarem de flertar com um personagem fictício num jogo e não se preocuparem com o futuro.

Também não deixam de citar estatísticas, como o dado de que 44,2% das mulheres japonesas – quase a metade das jovens solteiras entre 18 e 34 anos – são virgens. Provando que indústria parece estar se aproveitando de um profundo desejo por intimidade no Japão.

Só que nunca comentam como é caro manter um relacionamento ou ter filhos segundo os modelos patriarcais da sociedade japonesa. Ou os problemas do mercado de trabalho japonês, que expulsa as mulheres casadas e as impedem de progredir na carreira, jornadas de trabalho excessivas, sem auxílio de creches, etc. De como cada vez mulheres tem se afastado do casamento por condições financeiras ou de que os homens japoneses parecem que procuram mais uma nova mãe do que uma parceira… Chega a ser ridículo apontar esses games como um dos culpados pelo desinteresse das japonesas em relacionamentos reais.

Convenientemente esquecem de como toda uma cultura machista tem convencido jovens, tanto mulheres quanto homens, a abandonarem o desejo de um relacionamento amoroso ou mesmo sexo, seja porque é muito caro ou por acreditarem que não vale o esforço.

Nas próprias palavras da empresária Nanako Higashi, dona da empresa de jogos de namoro Voltage, “quase todas as mulheres estão sob estresse, nós queríamos criar algo para elas”.


 
Embora acredite que os otomes games atendem sim em parte a um público solteiro insatisfeito e que procura um consolo nesses jogos, também esquecem de comentar que os jogos de simulação de namoro para homens são bem mais abundantes e variados. 

O que não significa que os otomes games estejam livres de defeitos. Muitos deles são praticamente evoluções dos romances tradicionais, trazendo os clichês problemáticos que existem no gênero.  A protagonista pode viajar para um mundo mágico e namorar cavaleiros, vampiros, samurais, ninjas, detetives, empresários, príncipes, anjos, demônios, ou até mesmo deuses, mas isso não impede que muitos dos mocinhos tenham comportamentos possessivos ou manipuladores. (Sim, estou olhando pra você, Diabolik Lovers)

Ainda mais preocupante é o fato de que um dos tipos de personagens mais populares são os “egoístas”, segundo Higashi.

Sem contar que eles seguem padrões eurocêntricos de beleza, então personagens de pele escura são coisa rara. E relacionamentos não heterossexuais também fazem falta nos otome games para celulares (nos jogos para PC a situação é um pouco melhor).

No entanto, resolvi descobrir alguma das razões para o sucesso de jogos. Tanto que baixei diversos otome games para testar e achar algum com uma boa história ou que não me irritasse (risos).

[caption id="attachment_14212" align="aligncenter" width="600"] Quase acabei com a memória do meu celular….[/caption]  
No fim, Otome games são passatempos divertidos. Oferecendo diversas opções de “namorados” incrivelmente bonitos que te amam incondicionalmente em histórias que chegam a ser empolgantes. Muitos funcionam através do sistema de tickets, oferecendo trechos da história aos poucos (ou tudo se você estiver disposta a gastar $$$) ou mini-games. É fácil ser vencida pela curiosidade de saber se a protagonista conseguirá um final feliz ou não.

E após quase torrar a memória do meu celular testando vários jogos de romance, trouxe algumas sugestões caso você queira dar uma chance e esteja procurando algo novo para jogar.
 
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Shall We Date: Guard me, Sherlock!

Idioma: Inglês
Disponível para: iOS, Android, Facebook

Já pensou em namorar Sherlock Holmes, John Watson ou até mesmo James Moriarty? Nesse game você pode. Guard me Sherlock! foi o game que me fisgou e é meu vício atual. Nesse jogo você é uma atriz que recebe ameaças misteriosas e recorre a ajuda de ninguém menos que Sherlock Holmes para te ajudar a resolver esse mistério.

A arte do jogo é linda e o app não é difícil de mexer, o texto em inglês não soa estranho. Se você gosta da série Sherlock da BBC, esse jogo pode te conquistar. O que me ganhou, até agora, foi que nenhum dos mocinhos trata a protagonista como idiota ou age de maneira possessiva. Além disso, a história te oferece questões de lógica, eventos e mini-games que desbloqueiam historinhas extras para conferir depois. 
 


 

Mystic Messenger

Idioma: Inglês
Disponível para: iOS, Android

Esse game coreano é a febre do momento entre as fãs de otome games. O destaque de Mystic Messenger é que você acompanha a história através de conversas de chat entre os personagens, mensagens e até ligações. Sim, os mocinhos ligam para o seu telefone e “falam” com você.

A história começa simples: um app misterioso é instalado no seu celular e você acaba se envolvendo com um grupo de pessoas ligadas a uma associação beneficente. O mistério se desenvolve a partir daí e existem quatro opções de romance disponíveis.
 


 

Alice ao contrário

Idioma: Português
Disponível para: Android

Poucos otomes games ganham versão em português e os que existem não tem a melhor das traduções. Joguei um pouco além do prólogo, Alice ao contrário é um pouco melhor do que a média, apesar do texto soar em certos momentos como se tivessem jogado direto no Google Tradutor. Existem quatro romances disponíveis, que incluem um alfaiate, as versões humanas de um coelho e do gato de cheshire, mais um duque.

Porém, de todos que achei em português, esse é o que tem a proposta mais interessante. A protagonista está passeando por Londres quando cai no rio e acaba indo parar no País das Maravilhas, só que todos acham que ela é a nova Rainha de Copas. Ela precisa saber como sair dessa situação antes que Alice chegue.
 


 

My Horse Prince

Idioma: Inglês
Disponível para: iOS, Android

Se você chegou até aqui e ainda acha otomes games algo estranho, então aqui vai a dica de um jogo bizarro de verdade. My Horse Prince é uma paródia bem humorada dos otomes games, onde a jovem protagonista acaba se apaixonando por um cavalo com rosto de galã (!!!!!!!).

O mais surpreendente de tudo é o que o jogo tem diálogos hilários e mini-games divertidos. Comecei a jogar e agora estou determinada a ir até o fim desse “romance” só para saber o que acontece.
 

E aí? Qual será o seu date?

 

Mais de Patrícia Machado

As diretoras que vão salvar os animes

Tem gente que gosta de dizer que os desenhos japoneses não são mais como antigamente, que não se faz mais nada de bom e etc. Na verdade, nunca existiu época melhor para ser fã de animação japonesa. Mais animes estão sendo lançados do que nunca antes, criando oportunidades para experimentar e inovar.

Nesse contexto, como ficam as mulheres? Já sabemos que elas são um público consumidor muito forte no território japonês, e são capazes de salvar franquias inteiras. Mas e as que trabalham com animes?

A indústria da animação japonesa, assim como maior parte do mercado de trabalho japonês, é dominado por homens. Mesmo que tenham existido mulheres trabalhando com animes desde os anos 50/60 como Reiko Okuyama — em obras como O Túmulo dos Vagalumes e Mazinger Z — Nakamura KazukoPrincesa e o Cavaleiro (Ribon no Kishi) e Hakujaden, o primeiro desenho animado colorido do Japão–, são poucas as que estiveram em cargos de chefia criativa, como direção e roteiro.

Chegamos ao absurdo de, durante uma entrevista ao The Guardian, o ex-produtor do estúdio Ghibli — conhecido por filmes como “Meu Amigo Totoro” (1988) e “A Viagem de Chihiro”(2001) –, Yoshiaki Nishimura, afirmar que mulheres não poderiam dirigir filmes dependendo do tipo de história. “Mulheres tendem a ser mais realistas e lidam melhor com o cotidiano. Homens, por outro lado, tendem a ser mais idealistas – e filmes de fantasia precisam de uma abordagem idealista. Eu não acho que é apenas coincidência que homens sejam escolhidos”. Após críticas, ele desculpou-se publicamente.

Sabe, eu também não acho que seja apenas coincidência que os escolhidos para cargos de chefia sejam quase sempre homens.

No entanto, com o surgimento uma nova geração de artistas, várias mulheres entraram na indústria e criaram alguns dos animes mais interessantes dos últimos tempos. Inclusive temos várias delas dirigindo séries que estão saindo agora no Japão. São diretoras que devem ficar no radar de qualquer fã de animação. Vamos falar de algumas delas ;)

 

Sayo Yamamoto

Apesar de ter dirigido poucos animes, ela já conseguiu deixar sua marca, produzindo séries para o público feminino adulto. A sua estreia como diretora foi Michiko to Hatchin (2008), uma história sobre uma dupla de mulheres – a fugitiva Michiko e a órfã Hatchin – em uma viagem por um Brasil fictício para encontrar um homem misterioso. Detalhe que quase todo o núcleo de personagens principais são negras, algo muito raro quando se trata de animes.

O seu segundo trabalho foi Lupin III – The Woman Called Fujiko Mine (2012), uma releitura feminista sobre a Femme Fatale de uma das franquias de animação mais consagradas do Japão. O papel da mulher na sociedade e seus dilemas são tema comum nas suas obras, combinado a um estilo de direção que transborda elementos pop, com um erotismo que não costuma se ver na televisão.

Yamamoto já trabalhou com storyboard, design, roteiro e dirigiu aberturas e episódios de animes de peso como Samurai Champloo, Psycho Pass e Space☆Dandy. Com um currículo de causar inveja, suas participações vão de Death Note, a Attack on Titan até o filme Evangelion: 2.0 You Can (Not) Advance.

Segundo a própria diretora, suas especialidades são erótica e comédia. Dois elementos que são a alma do seu trabalho atual: o belíssimo Yuri!!! On Ice. Um anime sobre patinação no gelo que já é considerado um dos melhores de 2016. Recomendadíssimo.

 

Rie Matsumoto

Uma mulher ser diretora de três animes antes dos trinta anos de idade já é um feito impressionante por si só. O primeiro trabalho de direção foi o filme de Heartcatch Precure!, de uma das maiores franquias de garotas mágicas do Japão, quando tinha apenas 25 anos. Em 2011, dirigiu e escreveu Kyousougiga, hoje um cult, onde ela apresentou pela primeira vez seu estilo de direção vibrante e altamente estilizado. Em 2015, Matsumoto foi responsável pela adaptação de Kekkai Sensen, que foi um sucesso de público.

Eu sou fã da maneira como ela conduz histórias que são, acima de tudo, incrivelmente divertidas. Se você não tem medo de ver algo diferente, os trabalhos dela são a indicação perfeita. Kekkai Sensen, inclusive, é um dos meus animes favoritos de todos os tempos.

 

Naoko Yamada

Uma das mais novas do estúdio Kyoto Animation, mas que já tem no currículo a direção de um dos animes mais influentes do século: K-ON!. Junto com Tamako Love Story, Yamada consagrou-se como uma diretora que consegue captar a beleza do cotidiano como poucos, além de uma atenção ao detalhe que impressiona.

 

Mitsue Yamazaki

Diretora recém chegada, seu primeiro trabalho foi Hakkenden, em 2013. Porém, começou a chamar atenção com a adaptação da comédia romântica Gekkan Shoujo Nozaki-kun, um dos animes mais engraçados de 2014. Além disso, trabalhou no aclamado Mawaru Penguindrum.

Atualmente é diretora do clichê, mas belíssimo, Magic-kyun! Renaissance.

 

Soubi Yamamoto

Destaque no campo da produção independente, Soubi Yamamoto produziu quase que sozinha todos os seus animes. Suas histórias têm grande influência do gênero Boys Love, os romances homossexuais masculinos, e usam uma mistura curiosa entre texto e imagem. Meu favorito dela é Kono Danshi, Ningyo Hiroimashita que é sobre um garoto que se apaixona por um ‘sereio’. Seu mais recente trabalho foi a minissérie de quatro episódios Kono Danshi, Mahou ga Oshigoto Desu, que conta um romance com um mágico workholic.

 

Atsuko Ishizuka

A história dela é um caso incomum, porque Atsuko não via animes quando era criança e hoje é uma das diretoras mais respeitadas da indústria. Ela planejava entrar no ramo da música, mas um curta metragem chamou a atenção do estúdio Madhouse. Desde então ela já trabalhou como diretora assistente em Nana, dirigiu Hanayamata, Chihayafuru, e No Game No Life. O seu trabalho mais recente como diretora foi a adaptação de Prince of Stride: Alternative (2016).

 

Noriko Takao

Mais uma que também começou a carreira na Kyoto Animation, fazendo cenas para Inuyasha, Clannad, Suzumiya Haruhi no Yuutsu, entre outros. Sua estreia como diretora foi o divertidíssimo Saint☆Oniisan, que conta o dia a dia de Jesus e Budda morando em um apartamento em Tóquio. O anime mais recente que dirigiu foi a segunda temporada de The iDOLM@STER Cinderella Girls.

 

Kotomi Deai

Gosto de falar que essa diretora ainda vai criar um anime que eu vou amar. Ela estreou como diretora com a segunda temporada de Gin no Saji, e antes disso animou episódios de Michiko to Hatchin, Kimi ni Todoke e Tonari no Kaibutsu-kun. O primeiro anime original do qual foi responsável foi Rolling☆Girls, que é lindamente animado com sequências de luta de tirar o fôlego, mas uma confusão em termos de roteiro. Mal posso esperar pelo dia que ela terá total liberdade criativa de novo.

Atualmente está dirigindo a quinta temporada de Natsume Yuujinchou Go.

 

Hiroko Utsumi

Uma das jovens talentosas formadas pelo estúdio Kyoto Animation (ou KyoAni, como é chamado). Seus únicos trabalhos como diretora foram Free!, e a continuação Free!: Eternal Summer, um anime de esporte sobre um grupo de nadadores no ensino médio. Essa diretora sem querer atraiu a raiva de muitos homens fãs de anime.

Um pouco de contexto: a KyoAni é conhecida por produzir animes com personagens femininas jovens e adoráveis que os otakus adoram. Free! foi a primeira tentativa do estúdio de fazer algo diretamente voltado para o público feminino. E, para o desgosto de muito marmanjo, a animação foi um sucesso de vendas e mal posso esperar por mais trabalhos dela.

 

Yoshimura Ai

Qualquer pessoa que tenha trabalhado em Gintama – um dos melhores animes de comédia de todos os tempos – ganha meu selo de confiança. Como diretora, já conseguiu adaptar hits como o romance escolar Ao Haru Ride e o interessante Yahari Ore no Seishun Love Comedy wa Machigatteiru (eita nome grande…). Seu primeiro trabalho original foi o (duvidoso) Dance with Devils.  Seu mais recente trabalho foi Cheer Danshi!, baseado na história real de um grupo masculino de líderes de torcida.

 

E aí, gostaram? Vários dos animes mencionados estão disponíveis no Crunchyroll ou Netflix. Confira a lista: Yuri!!! On Ice, Kyousougiga, Hakkenden – Touhou Hakken Ibun, Gekkan Shoujo Nozaki-kun, Magic-kyun! Renaissance, Kono Danshi, Mahou ga Oshigoto Desu, Hanayamata, Chihayafuru, No Game No Life, Gin no Saji, Tonari no Kaibutsu-kun, Natsume Yuujinchou, Free!, Gintama

Dá uma olhada e diga lá o que achou aqui nos comentários.

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