Assista (ou não): 13 Reasons Why

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Por que fazer uma série que trate de suicídio de uma maneira tão explícita e pouco empática com a vítima?

Quando você vai consumir qualquer produto cultural, há 3 momentos para esse consumo. O primeiro deles é a criação de expectativa em relação à obra. Nesse caso, eu achei que 13 Reasons Why era uma série xis de suspense, e o que me motivou realmente a assisti-la foi ver o nome da Selena Gomez na produção. O segundo momento tem a ver com o que você sente enquanto está assistindo. Quando eu estava no meio da temporada, a única coisa que eu queria é que a série tivesse um baita plot twist e que a Hannah não se matasse. O terceiro momento começa quando você termina de ler/ver/ouvir e passa a refletir sobre o que aconteceu. É, eu ainda estou nesse estágio, depois de escrever e reescrever esse texto tantas vezes.

Quando tentei expressar pela primeira vez o que tinha sentido com a série, tentei focar nos pontos positivos da história. O fato de que temas tão urgentes, como bullying, assédio sexual, estupro, consentimento e suicídio estavam num circuito comercial de grande importância me deixou cheia de energia – finalmente as pessoas iriam começar a falar sobre o assunto. Finalmente se acenderia um debate sobre a importância do consentimento, sobre como o estupro não constrói o caráter de alguém, como muitas obras querem que a gente pense, mas na verdade destrói a vida de uma pessoa. Mas ninguém começou a falar disso.

[infobox maintitle="Alerta de spoiler" subtitle="No texto há detalhes específicos sobre a trama que podem estragar a surpresa de quem for assistir pela primeira vez. Esteja avisada!" bg="red" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"]

Eu cheguei a ver uns três posts sobre como o seriado teria um impacto positivo a longo prazo e isso me deixou mais energizada ainda. Como uma mulher que passou por muitas coisas similares ao que a Hannah passa no seriado, os vários motivos para a minha ansiedade e a minha insegurança seriam compreendidos pelas pessoas. Às vezes eu ficava até arrepiada de ver como as reações dela eram iguais às minhas.

Mas não foi isso o que aconteceu. As pessoas ficaram tão presas à retratação ultra-fiel, ultra-real das violências e do suicídio que todo tipo de debate ficou ofuscado por isso. No começo eu resolvi ignorar isso, e tentar me manter fiel à ideia de que criar um tabu que cercasse essa temática seria extremamente prejudicial – seria finalmente a hora de que as Hannahs de todo o mundo tivesse o holofote virado para elas, para as dores delas.

O problema é que faz uns cinco dias que eu não consigo tirar da cabeça a cena do estupro na cama da Jess. Nem a cena do estupro na jacuzzi do Bryce. Nem a cena do suicídio. Até mesmo a cena da morte do Jeff não me dá trégua. Com o tempo, essas cenas se tornaram as cenas que eu vivi. Lembrar de tantas histórias sobre mim mesma me fez recordar de uma época na minha vida que eu mordia os nós dos meus dedos em momentos de estresse e para engolir o choro. Teve momentos que eu me vi na frente da TV com a respiração acelerada, chorando e tremendo, mas sem conseguir parar de olhar para a tela. Pensando em tudo isso agora eu me pergunto: valeu mesmo a pena ter assistido à série?

Eu: branca, classe média, com uma ansiedade normal, me sentia no direito de opinar sobre qual deveria ser o efeito da série sobre as outras pessoas. Eu estava errada. Eu não sou absolutamente ninguém para falar um “a” sobre suicídio e depressão, pois eu não tenho nenhum tipo de vivência sobre o assunto. Eu achei que, por ser uma pessoa empática, poderia falar da importância da série para que não existissem mais Hannahs, mas eu nunca poderei fazer isso – até porque isso seria mentira.

A minha teoria é a de que era isso o que os produtores da série tinham em mente: “vamos falar sobre violência contra a mulher na juventude e suicídio para que isso não ocorra nunca mais!”. Pena que não é isso o que acontece: os holofotes estão sobre os algozes de Hannah, como sempre estiveram. Muitas vezes a série força mais empatia com o pretensioso do Clay do que com a própria vítima e protagonista da história – e nos força a odiar tanto o resto das pessoas que sentimos vontade de que elas todas se tornem reais, para que possamos dar no mínimo uma rasteira em cada um (e, quem sabe, um tempo de cadeia).

Portanto, eu acredito que nesse momento pós-season finale, a única coisa que não sai da minha cabeça é: por que fazer uma série que trate de suicídio de uma maneira tão explícita e pouco empática com a vítima? Por que iluminar tanto os algozes de Hannah ao invés de tratar de luto de uma maneira humanizadora? E eu só consegui chegar a esses questionamentos ficando quieta e ouvindo o que pessoas neuroatípicas, deprimidas e que sofrem de ideação suicida falaram sobre a série.

Ninguém se mata por vingança. Ao mesmo tempo que a série está repleta de elementos bastante reais a trama principal não trata de uma fantasia cruel. Qualquer pessoa que sofra dos mesmos transtornos que a Hannah jamais se sentiria confortável ao se ver representada dessa forma. De ter que encarar tantos gatilhos em um espaço tão curto de tempo. É por esse motivo que eu acredito que a série, talvez, faça mais mal do que bem.

Qual a dificuldade em criar conteúdos que abordem temas tão urgentes sem explorar com tanta profundidade o sofrimento de alguém?

Esses dias eu cheguei a ler que a série foi feita para aqueles/as que seriam potenciais agressores de potenciais Hannahs nos mais diversos círculos. Para essas pessoas eu pergunto: é sério que a única forma de ganhar a empatia dessas pessoas é ameaçá-las com um suicídio? Essas pessoas estão querendo, de fato, mudar o próprio comportamento, repensar a forma com a qual elas se relacionam, ou só querem se assegurar de que elas só não serão responsáveis pela dor de ninguém? Porque, no final, me parece que a moral da história é a de que se você tiver um número suficiente de pessoas passando pano para a sua violência, consentimento e suicídio serão apenas palavras num dicionário.

LEIA MAIS: Recomendações da Sociedade Americana para Prevenção do Suicídio (publicadas em 2016)

Precisamos falar sobre a diferença entre bullying e racismo pelo bem dos jovens negros

Escrito por
Mais de Júlia Rocha

Assista: XX, terror feito por mulheres

Estou com fome.

Esse é o desfecho do curta A Caixa, parte da antologia de terror XX, recentemente lançada na Netflix. Com cenas dirigidas por Jovanka Vuckovic, Annie Clark (sim, nossa adorada St Vincent!), Roxanne Benjamin, e Karyn Kusama, o filme inova em trazer somente a perspectiva feminina para o mundo do terror – muitas vezes deixadas de lado. Embalado pelas animações de Sofia Carillo, o tom melancólico não abandona a tela, e cada transição sugere o quão visceral a antologia pode ser.

Apesar de trazer temáticas típicas do terror mainstream (terror familiar, assassinatos misteriosos, demônios e criaturas), a perspectiva feminina faz toda a diferença – principalmente estética. Ou seja, se você não é fã de terror, mas adora uma cena bem montada e uma trilha sonora envolvente, esse filme é também para você.

O primeiro curta, denominado A Caixa (Vuckovic), já traz o tom pesado dos demais que o seguirão. O enredo conta a história de Susan, uma mãe que vê seu filho mais novo deixar de se alimentar após espiar o conteúdo de uma caixa pertencente a um estranho no metrô. Sem entender muito bem o que acontece, Susan vai deixando a questão progredir – e assim se iniciam os atritos em casa, sobretudo com seu marido.

O curta chamado A Festa de Aniversário (Clark) traz a história de Mary, uma mãe preocupada em oferecer à sua filha Lucy uma festa de aniversário, mas que encontra o corpo de seu marido em um dos cômodos na manhã da comemoração. As tentativas de Mary em esconder o corpo e fazer de tudo para agradar sua pequena filha são o centro da história – e é extremamente angustiante acompanhar esse pequeno relato de maternidade.

Já o Seu Único Filho Vivo (Kusama) conta a história de Cora, uma mãe com um passado enigmático, e seu filho Andy, que acaba de completar 18 anos. Como se a dinâmica entre Cora e Andy não fosse suficientemente estranha, a forma com a qual o garoto é visto pelo resto dos habitantes da cidade mostra que algo está errado com ele – e a última interpretação que podemos fazer é de que pode se tratar de um spin-off de O Bebê de Rosemary.

A genialidade desses quatro pequenos filmes reside na capacidade das diretoras de falar sobre os medos e horrores da maternidade sem romantizá-los. Apesar de se tratar de uma ficção, os sentimentos das mães são tratados de maneira muito honesta: o cansaço de ser a única responsabilizada pelos eventuais problemas das crianças, com o peso de ser a mãe perfeita e proteger os filhos de todas as frustrações, e o medo de falhar enquanto mãe e ver o próprio filho tornar-se alguém irreconhecível.

O peso da maternidade é, de fato, aterrorizante. Mas outra obrigação tradicionalmente feminina é a do sacrifício e do afeto. O terceiro curta de XX, Não Caia (Benjamin), mostra como os relacionamentos interpessoais podem ser um fardo para nós. Seguindo a receita clássica do terror, o filme mostra como Gretchen, a mais sensível do grupo de quatro jovens aventureiros, acaba sendo vítima de um monstro – tornando-se ele próprio. As relações dela com outras pessoas mostram como Gretchen é mais sensível e preocupada com seus companheiros, principalmente seu irmão, sendo a única a tentar cuidar de tudo – um trabalho emocional sempre protagonizado por nós mulheres.

O filme, portanto, conta de modo geral como mulheres estão mais propensas a aceitarem sacrifícios para agradar aqueles que amam – principalmente enquanto mães. Através de situações extremas, cada personagem feminina se desdobra em sua forma – algumas literalmente dão o sangue e o corpo para satisfazer a própria família.

E é aqui que o filme deixa de ser ficção: não é, de fato, aterrorizante o quanto nos expomos e nos arriscamos para o contento de quem amamos – muitas vezes sem o reconhecimento devido? Quantas vezes não podemos demonstrar como realmente nos sentimos sem que passemos por negligentes?

A fome que Susan sente em A Caixa (na minha opinião, o melhor e mais aterrorizante dos filmes) é uma mescla de ansiedade e cansaço que aflige a maioria das mulheres, a maioria das mães. Não estamos todas sedentas por um mínimo reconhecimento pelos fardos emocionais que muitas vezes temos? Não estamos cansadas da imposição da maternidade sobre nós? Retratar esse sentimento usando uma das sensações mais básicas do ser humano, a que nos guia aos seios de nossas mães, a fome, coloca em perspectiva se isso que sentimos deve continuar sendo uma imposição naturalizada ou se devemos desconstruí-la antes que ela destrua mais mulheres (figurativa e literalmente).

Pois é. Eu também estou com fome – e não falo de apetite.

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