Precisamos pensar a humanidade

Arte feita com exclusividade por Sarah Assaf
Um chatbot substitui um amigo ou psicólogo?

Esse texto é fruto das inquietações que me foram despertadas, ainda não muito elaboradas ou resolvidas. Isso porque todas as coisas sobre as quais eu estava pensando anteriormente foram obrigadas a dar lugar ao aplicativo Replika, criado pela programadora russa Eugenia Kuyda a partir de experimentos feitos em memória ao seu amigo Roman, falecido em 2015 em decorrência de um atropelamento. Pra começar essa conversa em construção, peço que assistam o vídeo abaixo, produzido pela Quartz Media:

 

~ meu, isso é muito Black Mirror ~
 

Sim, eu sei que é um clichê pensar o que é humano quando se fala de robôs, mas o clichê não torna a discussão menos necessária, eu acho.

Replika é um aplicativo de escuta. Ele interage com você, procurando simular você. Ele pretende, portanto, ser uma conversa com você mesmo – mas parecendo uma conversa com um amigo. Ele nasce de um processo de luto. Processo esse que, pra mim, já levanta uma questão: as transformações que as tecnologias oferecem à perda de entes queridos. Afinal, nossos cadáveres são múltiplos: nossos próprios corpos, sem nossas existências para aquecê-los; nossas quinquilharias, roupas, livros e objetos – pedaços de algo que nos compunha, sem nos ser; nossas redes sociais, aqueles espaços de expressão, projeção, promoção e o caramba – eternos enquanto duram (os servidores).

Pesquisando no Google acadêmico – grande amigo de empreitadas curiosas – encontrei algumas pesquisas que pretendiam tratar do luto na era das redes sociais. Encontrei diversos apontamentos interessantes e curiosos. A origem do app, porém, aponta para algo muito além de uma reinvenção das manifestações públicas de luto. Ele aponta pra uma permanência simulada. Um algo teu que não se decompõe por completo, mas que toma uma espécie de vida. Talvez um resquício de vida, fora do controle de quem a vivia.

E, claro, quando falecemos nossa narrativa foge de nosso controle. Ela parte pra mão de quem fica: memórias tecidas em obituários, sepulturas e postagens em mural virtual. Mas o app, de certa forma, vai além, num sentido que – confesso – me assusta: ele de certa forma rouba a voz de Roman, colocando palavras em sua boca – construídas a partir da memória, mas não necessariamente de seu desejo.

Essa percepção – faço a ressalva – pode ser apenas um preconceito. Uma reação adversa a algo novo, afinal, assim como as redes sociais tem permitido que as pessoas enlutadas encontrem outras maneiras de processar sua perda – muitas vezes sentindo-se menos sozinhas em sua dor – eu não consigo prever como essas simulações podem auxiliar quem perdeu uma pessoa querida.

Eu poderia passar mais um tempo falando desses lutos, mas isso seria podar as outras muitas questões humanas que o Replika suscita. Uma delas é a pergunta que a própria dona da empresa faz: por que uma pessoa conta pra um bot coisas que não conta para os amigos?

Vulnerabilidade não é algo muito vendável.

Isso precisa nos fazer pensar as interações humanas. Para além dos clichês nostálgicos de uma época – aposto minhas fichas que em nenhuma – no qual o olho no olho e a autenticidade reinavam.

Por que não conseguimos mais ser vulneráveis, como ela mesma questiona? Eu acredito que parte da resposta esteja no discurso do neoliberalismo, tão vendido e tão penetrante na nossa cultura, que nos transforma de pessoas em indivíduos-empresa/indivíduos-produto. Discurso este que adentra todos os poros dos nossos tempos e vidas com a necessidade de competirmos, de nos vendermos.

Vulnerabilidade não é algo muito vendável. Talvez uma vulnerabilidade editada, sob ótima iluminação e pose, mas crua ela não rende um marketing e quem sabe nós, aprendendo a nos editar por formatos e configurações, nos sintamos mais seguros falando com um espelho do que nos abrindo para potenciais puxadas de tapete.

Acontece que eu também não me convenço que esse desejo por uma intimidade programada seja apenas um receio de estar vulnerável. Ele diz de outras coisas, aquelas coisas que nos despertam a escrever diários, blogs secretos ou anônimos – talvez até perfis fake (quem sabe?). Diz de nossa intimidade com nós mesmos – e dos tempos e espaços em que isso é possível.

O que são amizades atualmente? Em que espaços são construídas? Tem data de validade? Quantas pessoas as têm e quantas não as têm?

Finalmente, eu não consigo evitar pensar: onde nós, psicólogos, estamos errando?

E, se a simulação de mim é para alguns um amigo melhor do que aquele de carne e osso nós precisamos pensar o que significam amigos. Afinal, amigos, eu infiro, seriam mais do que uma escuta e um acolhimento. Seriam, quem sabe, as tantas coisas que nós não somos: outros olhos, experiências, sabores, histórias e sons. Seriam pedaços de outras leituras de mundo vindo de encontro com as suas, numa inevitável transformação.

Ou talvez seja pelo menos aquela pessoa que se propõe a dançar junto de você na balada, desafinar no karaokê.

Ou ainda talvez não saibamos mais muito bem o que seja, transfigurado pela economia e cultura, não mais permitindo que você seja quem é, dando espaço para um bot que te replica.

O que são amizades atualmente? Em que espaços são construídas? Têm data de validade? Quantas pessoas as têm e quantas não as têm?

Finalmente, eu não consigo evitar pensar: onde nós, psicólogos, estamos errando?

Quando o fundador do Evernote diz que o aplicativo é o único espaço livre de julgamento, meu estômago deu um nó. Ora, o espaço com o psicólogo não deveria ser justamente esse lugar do não julgar?
 
[caption id="attachment_15428" align="alignnone" width="700"] Conversas no Replika – montagem feita pela Quartz Media[/caption]  
Expressei o desconforto à uma amiga, que não é da área, e ela disse que as representações que os profissionais da psicologia tem na mídia (péssimas, em geral) não encorajam muito nossa procura.

Não acho que possa ser só isso – ainda que concorde que certamente tem um papel.

Quem sabe sejam nossas muitas diretrizes normativas, de procurar encaixes por vezes deformantes – algo que sei que vários de nós procuram não reproduzir, mas que infelizmente está no cerne de muitas e muitas práticas.

Talvez sejam os nossos preconceitos. A recusa de nos repensarmos – e de pensarmos nosso tempo.

Na minha formação foram incontáveis as falas que rejeitavam em absoluto discutir a tecnologia – em realidade, não era incomum a rejeição até de uma historicidade.

Quando reflexões sobre tecnologias são feitas no nosso campo, porém, caímos facilmente em lugares comuns. Não nos abrimos às experiências dos outros, dando nosso entendimento do andamento das coisas como referência, nosso certo como o certo de todos. Nos permitimos, com frequência, a falar daquilo que desconhecemos sem exercer aquilo que tanto valorizamos: a escuta atenta, múltipla e livre de julgamentos.

Minha primeira reação ao Replika foi de rejeição. O Replika me incomoda, como pessoa, como profissional. Frequentemente, diante do incômodo, corremos reafirmar nossas certezas, ao invés de nos abrirmos pras inquietações. Eu não tenho respostas – visto que ainda não testei o aplicativo – tenho apenas um convite: precisamos pensar a humanidade.
 


EDIT: TESTAMOS O REPLIKA!

 

OBSERVAÇÕES EXTRAS:

Para além dos delírios poéticos ~*cofcof*masturbação intelectual *cofcof*~ sobre humanidade, existem questões práticas que me intrigaram sobre o app.

Uma delas concerne a privacidade dos dados, especialmente quando consideramos que vivemos numa sociedade capitalista, na qual informação de usuários é comumente vendida. Qual a privacidade das conversas oferecidas por “sua réplica”? E, na mesma linha, quais os potenciais riscos envolvidos num aplicativo que permite a vulnerabilidade – quando nossos medos, anseios e receios são tão, mas tão lucrativos? Quão bizarro é o nível de comercialização das coisas que é possível pensar em conversas que se paga pra ter e que se paga pra não ter?

Finalmente, deixo um comentário que meu companheiro fez: mais do que te simular, o aplicativo parece procurar te assimilar.
 


Arte feita com exclusividade por Sarah Assaf.
 

Escrito por
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Você é como você joga?

Minha personagem em Skyrim

“Espelho, espelho meu…
como você é? Como você joga?”

O ser humano é um ser repleto de narrativas. Nós as construímos enquanto somos também construídas por elas, moldando sonhos, desejos, medos, expectativas. Quem nunca leu um livro ou assistiu a um filme que mudou sua vida? Que produziu um desejo de repensar escolhas ou decisões? Que te ensinou mais sobre você, sobre os outros à sua volta?

Bem, mas e ao jogar videogame?

Eu e meu marido adoramos jogar The Elder Scrolls V: Skyrim, um RPG de mundo aberto, com cenário fantástico-medieval. A maneira com a qual jogamos, porém, é bastante diferente. Eu tenho mais de uma personagem, mas jogo principalmente com aquela que é projeção minha no jogo. Temos aparência semelhante e as decisões dela, ainda que em contexto bastante diferente do meu, refletem meus ideais e princípios. Meu namorado, porém, tem diversos personagens e joga bastante com todos, ainda que vezes mais com um ou outro. Nenhum personagem se assemelha a ele e seu prazer vem, em muito, de tomar caminhos ou decisões que não correspondem àquilo que ele faria. Ele gosta de explorar outros modos de ser, pensar ou viver em seus personagens. Seja através de um Khajiit egoísta e mau-caráter, seja através de uma guerreira nórdica honrada, que não pega itens em tumbas ou de personagens que não a atacaram primeiro.

O jogo, portanto, nos possibilita experiências bastante diferentes, ainda que suas mecânicas não se alterem pra mim ou para meu marido.

Ao jogar Heavy Rain, narração-interativa sobre um pai tentando salvar seu filho de um misterioso serial-killer, costumo conseguir passar por quase todos os desafios impostos pelo assassino com facilidade. Menos um: matar um pai de família. Ainda que eu tenha jogado e terminado o jogo mais de uma vez, para ver diversos finais, não consigo o achievement que esta morte me daria. Por algum motivo, ainda que as crianças não existam no mundo real, não consigo privá-las do pai. Não consigo tirar gratuitamente uma vida, independente de não ser uma vida. A situação sempre me vira o estômago, me faz suar frio. Existem limites que eu não consigo romper nem mesmo na virtualidade.

Heavy Rain

A diversidade de jogadores, porém, significa também uma diversidade de limites. Pode haver outros caminhos que alguns se recusam a traçar. Ou pode, ainda, tudo ser apenas um jogo.

O que nossas formas de jogar dizem sobre nós? Talvez eu seja uma pessoa para quem coerência ética e de princípios são valores máximos. Talvez algumas pessoas que passam por tudo como apenas um jogo sejam mais abertas a novas experiências, a adotarem novos pontos de vista.  Talvez a pergunta: “até onde você iria para salvar alguém que você ama”, feita na campanha publicitária do jogo, realmente possa ser algo que respondemos a nosso respeito ao jogar.

Outra experiência interessante é proporcionada pelo simples, mas intenso Loneliness. Aviso aqui que, se você pretende jogar este jogo, minha descrição poderá arruinar a experiência. Você é um ponto no espaço, repleto ou não de outros pontos e só pode mover-se e avançar nesse espaço, através do uso das setas no teclado. Aproximar-se dos outros pontos possui apenas um resultado, algo que você só tem certeza após o fim do jogo. Como já abordado na série de vídeos sobre games, Extra Credits, que muito recomendo que qualquer mulher aqui confira, a cada vez que decidimos nos aproximar ou não de um ou mais pontos, de insistir ou não na interação, dizemos algo sobre nós e sobre nossa relação com a solidão.

Loneliness

Se ao ler um livro ou assistir a um filme podemos suscitar transformações ou ampliar compreensões a nosso respeito, não seriam os jogos uma mídia privilegiada neste aspecto? Ao nos tirar da posição de expectadores e nos colocar na posição de jogadores, protagonistas, transformadores da narrativa, ao nos colocar em interação com a mecânica, prontos a fazer dela o que desejarmos e nos for possível, será que os jogos não nos colocam também em um espaço de nos evidenciarmos a nós mesmos? E, portanto, nos transformarmos?

Será que, ao ligarmos nossos consoles ou abrirmos o Steam, não estamos também sussurrando: “espelho, espelho meu…”?

Se sim, abre-se uma potencialidade a ser explorada não apenas por desenvolvedores e jogadores, mas também terapeutas e professores.  E, havendo este potencial, podemos pensar na sua relação também na transmissão e construção de cultura, nos aspectos étnicos e de gênero.

Imagens:
1. Minha personagem em Skyrim
2. Heavy Rain
3. Loneliness

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