O útero de Angélica Freitas caiu no meu colo meio que por acaso. Explico: numa tarde de fevereiro (ou março, quem sabe) uma amiga-colega de trabalho me dá o recado de que havia uma poeta que eu pre-ci-sa-va conhecer. Sim, era tão óbvio. Ela então leu “A mulher de vermelho” e foi assim que o Um útero é do tamanho de um punho, da Angélica, fez renascer minha paixão pela poesia escrita por mulheres brasileiras.
Fisgada pela mulher de vermelho, corri atrás de um útero pra chamar de meu. E não larguei mais aquela reunião de palavras que falam da mulher em suas mais diferentes formas, mas nunca de um jeito óbvio. A poesia do livro em questão é ácida e bem-humorada, sem aqueles lirismos cheios de firulas – mas potente no sentimento que transmite.
“o que será que ela quer/ essa mulher de vermelho/
alguma coisa ela quer/pra ter posto esse vestido”
(mulher de vermelho, p. 31)
Angélica Freitas é gaúcha, de Pelotas, e nasceu em 1973. Antes das poesias de Um útero é do tamanho de um punho (Cosac Naify), de 2012, seus textos poéticos já tinham sido publicados pela mesma editora, lááá em 2007, em Rilke Shake (que ainda não li). O que me fez pensar: “como é que passei tanto tempo no escuro?”. Mas parece que poesia, assim como outras coisas na vida, aparecem na hora em que têm que aparecer, não quando a gente quer.
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Angélica Freitas. Foto: Renata Freitas[/caption]
Não sei ao certo se a autora se considera feminista, ou se constrói seus textos a partir desse paradigma. Mas existe um “universal feminino” trabalhado nos versos e palavras do útero, um universal que se liga muito mais à performance do ser mulher do que a ovários e úteros.
É muito legal ler passagens como:
“a mulher pensa com o coração/ a mulher pensa de outra maneira/ a mulher pensa em nada ou em algo muito semelhante/ a mulher pensa será em compras talvez/a mulher pensa por metáforas/ a mulher pensa sobre sexo/ a mulher pensa mais em sexo/ a mulher pensa: se fizer isso com ele, vai achar que faço com todos”
(a mulher pensa, p. 71)
Ou:
“pois agora eu virei mulher/
me operei e virei mulher não precisa me aceitar/
não precisa nem me olhar/ mas agora eu sou mulher”
(mulher depois, p. 35)
Além dos dois livros de poesia, Angélica também é autora de Guadalupe (Companhia das Letras, 2012) um road-movie em quadrinhos protagonizado por uma mulher mexicana de trinta anos que dirige um furgão, seu tio “muxe” (homem que se veste como mulher, em Oaxaca) Minerva e sua avó Elvira.
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Capa do quadrinho Guadalupe (Companhia das Letras)[/caption]
Ilustrada pelo quadrinhista (e grande amigo de Angélica) Odyr Bernardi, a história de Guadalupe é uma viagem psicodélica e libertadora, e talvez o que mais chame a atenção seja a banalidade – apesar da narrativa carregada de elementos fantásticos – das três diferentes mulheres que encontram forças onde nem sabiam que tinham.