Filhas de Dalila

Arte de Esra Røise | Ovelha

Todos os dias, eu me olho no espelho e me pergunto o que farei naquele dia para ser uma mulher mais livre do que fui na véspera. Pode ser que eu esteja com muito sono, de ressaca, eufórica, apressada, feliz – e pode ser que as promessas de um dia passem para o outro. Afinal, essa coisa de se querer assim, pelo menos às vezes, parece muito difícil, quase impossível. Acho que sou bem sucedida (com todas as ressalvas possíveis a esta expressão, vale dizer) em vários aspectos dessa busca por ser mais livre. Mas se tem uma coisa na imagem refletida no espelho que representa um fracasso, ah!, essa coisa é o meu cabelo. É uma espécie de prisão.

Diante de tantas questões complexas que permeiam a rotina de uma mulher que luta pra ser feminista e viver num mundo menos desigual, é na aparente frivolidade dos cabelos que me sinto mais fraca.

Meus cabelos são compridos, lisos, de cor castanho clara. Sempre foram assim. Algumas vezes estiveram um pouco abaixo do ombro; outras, quase na cintura. Arrisco dizer que o ápice da minha ousadia-capilar foi coisa recente, algumas mechas californianas (pontas mais claras). Esses cabelos longos, compridos; desde criança foi assim.

Quando anuncio ao mundo que vou ao salão, já vem um coro do “não corta, não!”.

Quando me olho no espelho, não é que não goste do que vejo. Ao contrário disso. Reconheço a beleza dos meus cabelos, esses fiéis companheiros por detrás dos quais muitas vezes eu me escondo, que muitas vezes me deixaram mais segura sobre a minha aparência e até sobre a minha feminilidade. Com os cabelos compridos posso fazer uma jogada para o lado e me transformar num ser sensual, talvez.
Desde pequena recebi elogios pelos longos fios dourados com cachinhos nas pontas, resquícios da bebê que fui, que tanto minha mãe demorou pra tirar. Hoje, pós-25 anos, quando anuncio ao mundo que vou ao salão, já vem um coro do “não corta, não!”.

Mas essa menina (atrás) do espelho queria se aventurar pelas ruas do Rio, Brasília, São Paulo, São Luís, Nairóbi ou Paris com o pescoço de fora. Se muito, com os ombros mais aparentes. Parece aquela história da criança malcriada cujo castigo é olhar as outras tomando sorvete: quando vejo uma moça de cabelo curtinho no metrô, ou no ônibus, na sala de espera do dentista, lanço profundos olhares de admiração. No calor, é capaz até de admiração virar inveja, confesso.

É verdade, adoro as possibilidades do cabelo comprido: coque, trança, faixa, rabo de cavalo e tantas outras artimanhas. Eu só queria entender de onde é que vem o medo de cortar. Porque estou presa aos meus cabelos? Haveria tal coisa como um “complexo de Sansão*”? Logo eu, que me quero tão feminista, tão livre e dona da minha vida. Deveria ser simples – passa a tesoura, pá, pum!

Será que vou ficar feia? Vou parar de ser atraente? Como será que os outros vão receber essa nova versão de mim?

Nessa investigação vulgar de cunho pseudo sociológico-freudiano, consultei duas amigas sobre o ato transformador que é mexer nos cabelos. Uma delas, a Fabi, não só aboliu o cabelão ao qual era tão apegada, como aceitou seus cachos naturais, aposentando a chapinha e gastando em viagens a grana que destinava às sessões de progressiva. Ela me disse que não foi um processo fácil, mas que hoje se sente plena e linda. O medo de cortar o cabelo, ela me disse, tinha muito a ver com a ideia que ela tinha de ser feminina e até mesmo com a família, que sempre valorizou o cabelón.

Acho que muitas mulheres já se viram diante deste mesmo (se é que posso chamar assim) dilema. Em alguns grupos de discussão feminista que participo no Facebook, vez por outra leio relatos de irmãs que ousaram cortar e foram criticadas por amigos e parentes, às vezes até pelo companheiro (nunca li nada nesse contexto sobre uma menina cuja namorada não tenha gostado do cabelo curto). Algumas de nós, assim como eu, se enchem de dúvidas: será que vou ficar feia? Vou parar de ser atraente? Como será que os outros vão receber essa nova versão de mim?

Racionalmente, sei que se tem uma coisa verdadeira nessa vida, é que cabelo cresce. Rápido ou devagar, mas cresce. Sentar na cadeira do cabeleireiro pedir para “picar tudo Renê!“** não deveria dar medo. O que me prende esse emaranhado de nós que preciso desfazer no banho todos os duas?

A imagem do espelho não consegue responder, nem agir. Enrola os cabelos num coque e sai pro dia que a espera, tentando ser livre como dá.

 

*Sansão: reza a lenda, ou a bíblia, que era um rei que tinha as forças no cabelo. Um dia, Dalila cortou as madeixas do cara e ele ficou fraquinho, fraquinho.

** cena maravilhosa do filme Divã, em que personagem da Lília Cabral pede pro cabeleireiro Renê (Paulo Gustavo) “repicar tudo”. A cena tá no Youtube

(ilustração de Esra Røise)

 

Mas hey,

Não posso deixar de registrar, num esforço de reconhecimento de privilégios que é tão importante para quem se quer feminista, que este texto é apenas um desabafo. De forma alguma é reclamação: antes de tudo, existe a consciência do privilégio que é ter um cabelo dentro dos (ditos) padrões -- que torço pra que sejam deixados de lado o quanto antes.
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