Gosto bastante de textos antropológicos e por isso não tive dificuldades de gostar logo de cara das obras de Mirian Goldenberg. Mas até pra quem não gosta mesmo desse tipo de leitura vai se envolver facilmente com os textos da antropóloga do Rio de Janeiro. E isso exatamente porque ela usa uma escrita acadêmica que é a menos acadêmica possível, por não ser tão objetiva e imparcial. Em“Infiel”, livro de 2006 que ganhou uma tradução para o alemão em 2014, Mirian conta a história de um de seus estudos de caso como uma narrativa romântica. Só isso já me fez devorar o livro, de tanta ansiedade para saber o que ia acontecer com a bendita personagem. Esse é um daqueles livros que te deixa de ressaca depois de ler, mas no bom sentindo – eu, por exemplo, fiquei dias pensando e refletindo sobre o livro. Só sosseguei depois de boas discussões sobre ele com amigas e, por muita sorte, com a própria Mirian. Em uma conversa pra uma matéria da revista alemã Wir Frauen, eu aproveitei a meia horinha de telefonema para sanar todos meus anseios e dúvidas sobre o “Infiel”.
Nas primeiras páginas, a antropóloga faz uma pequena análise da vida amorosa de Simone de Beauvoir com Jean-Paul Sartre e Nelson Algren. Mirian diz ter ficado impressionada ao notar, pelas leituras e releituras de Beauvoir que, mesmo uma mulher tão feminista e defensora da liberdade, poderia se tornar dependente de seus amores, de seus homens. E foi na busca por respostas sobre essas contradições entre comportamentos e discursos, quanto ao tema relacionamentos, que Mirian conheceu Mônica.
Mônica é uma jornalista que mora no Rio de Janeiro e tem a vida de um roteiro de filme. Com tragédia, amores, sexo e traições. Uma vida com a qual, acredito, muitas mulheres se identificariam. Não por sua história em si, mas por seus sentimentos e desejos ambíguos. Mônica é uma mulher independente, autoconfiante, segura de si. Mas também é uma mulher que deseja a segurança de um relacionamento mais estável e duradouro.
“Eu achei que ela sintetiza muitas histórias que eu ouvi sobre a dificuldade da mulher de viver seus próprios desejos, de assumi-los. Muitas brasileiras ainda têm medo de assumir sua sexualidade pelo que os homens vão pensar”. Mirian chega a compará-la com Leila Diniz por ser uma mulher que fala abertamente de sua vida e seus relacionamentos, sem medo de assumir verbalmente que teve muitos parceiros sexuais, que traiu ou fez sexo sem amor. “Ela me pareceu muito segura, autoconfiante. Uma mulher que eu raramente encontro no Brasil”, descreveu Mirian.
Mas ao mesmo tempo, Mônica é como muitas mulheres brasileiras e se afoga em uma crise de culpa quando trai seu parceiro com um homem, que nem faz seu tipo, mas que desperta nela um desejo sexual enorme. Com seu amante, Mônica descobre um lado sexual que ainda era desconhecido, mesmo depois de ter transado com vários homens. Daí é que a história complica e a jornalista se vê em um conflito entre o desejo por liberdade mas também pela segurança do relacionamento com seu parceiro. Um conflito que Mirian diz ter observado em muitas mulheres em seus estudos nas camadas médias urbanas do Rio de Janeiro.
A incrível história de vida de Mônica me deixou ansiosa por cada página. Exatamente por ser uma história que poderia acontecer com qualquer uma de nós. Mas não serei aqui spoiler chata e não contarei o desfecho disso tudo. O que mais posso revelar do livro são alguns fatos que me deixaram pensando e pensando e pensando no “Infiel”.
Sabe aquele estereótipo sobre amantes que elas seriam mulheres atrás de homens casados, ricos, que as pudessem enche-las de presentes e sustenta-las? Sabe aquela ideia de que toda amante é uma mulher na fila do casamento, só no aguardo para que o tal homem casado se separe? Pois é, a pesquisa de Mirian revelou uma imagem muito diferente que quebra esse tipo de preconceito. A Outra é, em muitos casos, uma mulher super independente – ela mora sozinha, trabalha, se sustenta e, algumas vezes, tem outros parceiros além do amante. Mirian a descreve como alguém que, muitas vezes, tem uma relação mais igualitária com o homem do que a própria esposa. “Ser a Outra pode ser, para algumas mulheres, uma forma de combinar companheirismo com liberdade”, escreve Mirian ao contar o caso de mulheres que desejam manter sua independência e não acham que isso seja completamente possível em um casamento.
Mas além desse desejo de liberdade e companheirismo, os números apresentados no livro revelam que para, algumas mulheres, ter um relacionamento com um homem casado é a forma mais fácil de não ficar só. Ela escreve que existem três mulheres para cada homem não-casado depois dos 45 anos, e cinco para um depois dos 65 anos. Ou seja, a opção seria dividir para não ficar só.
Depois disso fiquei me perguntando: “seria a mulher brasileira tão dependente que não consegue ficar sozinha e precisa de um marido/namorado/peguete?” Em nossa conversa, Mirian me deu uma interessante resposta. “Ela (a mulher brasileira) consegue ficar sozinha, ela até gosta de ficar sozinha, ela até prefere ficar sozinha! Mas morre de medo porque ficar sozinha aqui dá uma ideia de abandono e de fracasso. Há mulheres bem sucedidas que quando chegam sozinhas em algum evento são encaradas como coitadas. Elas querem curtir sua vida e sua liberdade. Mas hoje é preciso enfrentar tanta coisa pra ficar sozinha, tem que enfrentar tantos olhares de pena e de acusação, que muitas têm medo e acabam ficando com alguém por isso”. Mirian diz que o novo capital mais valioso da mulher no Brasil, além do corpão e da juventude, é o maridão. Ela observa que, além da pressão por um casamento, a mulher ainda sofre com uma criação que a tornou uma “romântica incurável”: “As novelas, os romances, os filmes, tudo conspira. Nunca as meninas brasileiras foram tão cor de rosa. Desde que você nasce, você é criada pra ser assim, ganhando bonecas e vestido de princesa pra brincar de casinha”.
Enfim, depois da leitura e da conversa com Mirian notei que talvez ainda sejam precisos muitos passos para que toda mulher brasileira se torne “meio Leila Diniz”. Mas estamos no caminho. Segundo Mirian, já é maior o número de mulheres que decidem ficar só, sem marido, filhos ou amantes fixos. Mulheres que decidiram enfrentar os olhares de pena e de julgamento. Que não tem medo de assumir e falar abertamente de sua sexualidade e que estão mais próximas do ideal “Leila Diniz” que Mirian tanto cita em sua obra.
Os livros da Mirian foram lançados pela Editoraecord e podem ser encontrados facilmente em grandes livrarias ou até em sebos (onde eu achei o meu). Além do “Infiel”, outros títulos interessantes são “A Outra”, “Toda Mulher é meio Leila Diniz”, “Coroas” e o mais recente “Sexo”.
Gosto bastante de textos antropológicos e por isso não tive dificuldades de gostar logo de cara das obras de Mirian Goldenberg. Mas até pra quem não gosta mesmo desse tipo de leitura vai se envolver facilmente com os textos da antropóloga do Rio de Janeiro. E isso exatamente porque ela usa uma escrita acadêmica que é a menos acadêmica possível, por não ser tão objetiva e imparcial. Em“Infiel”, livro de 2006 que ganhou uma tradução para o alemão em 2014, Mirian conta a história de um de seus estudos de caso como uma narrativa romântica. Só isso já me fez devorar o livro, de tanta ansiedade para saber o que ia acontecer com a bendita personagem. Esse é um daqueles livros que te deixa de ressaca depois de ler, mas no bom sentindo – eu, por exemplo, fiquei dias pensando e refletindo sobre o livro. Só sosseguei depois de boas discussões sobre ele com amigas e, por muita sorte, com a própria Mirian. Em uma conversa pra uma matéria da revista alemã Wir Frauen, eu aproveitei a meia horinha de telefonema para sanar todos meus anseios e dúvidas sobre o “Infiel”.
Nas primeiras páginas, a antropóloga faz uma pequena análise da vida amorosa de Simone de Beauvoir com Jean-Paul Sartre e Nelson Algren. Mirian diz ter ficado impressionada ao notar, pelas leituras e releituras de Beauvoir que, mesmo uma mulher tão feminista e defensora da liberdade, poderia se tornar dependente de seus amores, de seus homens. E foi na busca por respostas sobre essas contradições entre comportamentos e discursos, quanto ao tema relacionamentos, que Mirian conheceu Mônica.
Mônica é uma jornalista que mora no Rio de Janeiro e tem a vida de um roteiro de filme. Com tragédia, amores, sexo e traições. Uma vida com a qual, acredito, muitas mulheres se identificariam. Não por sua história em si, mas por seus sentimentos e desejos ambíguos. Mônica é uma mulher independente, autoconfiante, segura de si. Mas também é uma mulher que deseja a segurança de um relacionamento mais estável e duradouro.
“Eu achei que ela sintetiza muitas histórias que eu ouvi sobre a dificuldade da mulher de viver seus próprios desejos, de assumi-los. Muitas brasileiras ainda têm medo de assumir sua sexualidade pelo que os homens vão pensar”. Mirian chega a compará-la com Leila Diniz por ser uma mulher que fala abertamente de sua vida e seus relacionamentos, sem medo de assumir verbalmente que teve muitos parceiros sexuais, que traiu ou fez sexo sem amor. “Ela me pareceu muito segura, autoconfiante. Uma mulher que eu raramente encontro no Brasil”, descreveu Mirian.
Mas ao mesmo tempo, Mônica é como muitas mulheres brasileiras e se afoga em uma crise de culpa quando trai seu parceiro com um homem, que nem faz seu tipo, mas que desperta nela um desejo sexual enorme. Com seu amante, Mônica descobre um lado sexual que ainda era desconhecido, mesmo depois de ter transado com vários homens. Daí é que a história complica e a jornalista se vê em um conflito entre o desejo por liberdade mas também pela segurança do relacionamento com seu parceiro. Um conflito que Mirian diz ter observado em muitas mulheres em seus estudos nas camadas médias urbanas do Rio de Janeiro.
A incrível história de vida de Mônica me deixou ansiosa por cada página. Exatamente por ser uma história que poderia acontecer com qualquer uma de nós. Mas não serei aqui spoiler chata e não contarei o desfecho disso tudo. O que mais posso revelar do livro são alguns fatos que me deixaram pensando e pensando e pensando no “Infiel”.
Sabe aquele estereótipo sobre amantes que elas seriam mulheres atrás de homens casados, ricos, que as pudessem enche-las de presentes e sustenta-las? Sabe aquela ideia de que toda amante é uma mulher na fila do casamento, só no aguardo para que o tal homem casado se separe? Pois é, a pesquisa de Mirian revelou uma imagem muito diferente que quebra esse tipo de preconceito. A Outra é, em muitos casos, uma mulher super independente – ela mora sozinha, trabalha, se sustenta e, algumas vezes, tem outros parceiros além do amante. Mirian a descreve como alguém que, muitas vezes, tem uma relação mais igualitária com o homem do que a própria esposa. “Ser a Outra pode ser, para algumas mulheres, uma forma de combinar companheirismo com liberdade”, escreve Mirian ao contar o caso de mulheres que desejam manter sua independência e não acham que isso seja completamente possível em um casamento.
Mas além desse desejo de liberdade e companheirismo, os números apresentados no livro revelam que para, algumas mulheres, ter um relacionamento com um homem casado é a forma mais fácil de não ficar só. Ela escreve que existem três mulheres para cada homem não-casado depois dos 45 anos, e cinco para um depois dos 65 anos. Ou seja, a opção seria dividir para não ficar só.
Depois disso fiquei me perguntando: “seria a mulher brasileira tão dependente que não consegue ficar sozinha e precisa de um marido/namorado/peguete?” Em nossa conversa, Mirian me deu uma interessante resposta. “Ela (a mulher brasileira) consegue ficar sozinha, ela até gosta de ficar sozinha, ela até prefere ficar sozinha! Mas morre de medo porque ficar sozinha aqui dá uma ideia de abandono e de fracasso. Há mulheres bem sucedidas que quando chegam sozinhas em algum evento são encaradas como coitadas. Elas querem curtir sua vida e sua liberdade. Mas hoje é preciso enfrentar tanta coisa pra ficar sozinha, tem que enfrentar tantos olhares de pena e de acusação, que muitas têm medo e acabam ficando com alguém por isso”. Mirian diz que o novo capital mais valioso da mulher no Brasil, além do corpão e da juventude, é o maridão. Ela observa que, além da pressão por um casamento, a mulher ainda sofre com uma criação que a tornou uma “romântica incurável”: “As novelas, os romances, os filmes, tudo conspira. Nunca as meninas brasileiras foram tão cor de rosa. Desde que você nasce, você é criada pra ser assim, ganhando bonecas e vestido de princesa pra brincar de casinha”.
Enfim, depois da leitura e da conversa com Mirian notei que talvez ainda sejam precisos muitos passos para que toda mulher brasileira se torne “meio Leila Diniz”. Mas estamos no caminho. Segundo Mirian, já é maior o número de mulheres que decidem ficar só, sem marido, filhos ou amantes fixos. Mulheres que decidiram enfrentar os olhares de pena e de julgamento. Que não tem medo de assumir e falar abertamente de sua sexualidade e que estão mais próximas do ideal “Leila Diniz” que Mirian tanto cita em sua obra.
Os livros da Mirian foram lançados pela Editoraecord e podem ser encontrados facilmente em grandes livrarias ou até em sebos (onde eu achei o meu). Além do “Infiel”, outros títulos interessantes são “A Outra”, “Toda Mulher é meio Leila Diniz”, “Coroas” e o mais recente “Sexo”.
Gosto bastante de textos antropológicos e por isso não tive dificuldades de gostar logo de cara das obras de Mirian Goldenberg. Mas até pra quem não gosta mesmo desse tipo de leitura vai se envolver facilmente com os textos da antropóloga do Rio de Janeiro. E isso exatamente porque ela usa uma escrita acadêmica que é a menos acadêmica possível, por não ser tão objetiva e imparcial. Em“Infiel”, livro de 2006 que ganhou uma tradução para o alemão em 2014, Mirian conta a história de um de seus estudos de caso como uma narrativa romântica. Só isso já me fez devorar o livro, de tanta ansiedade para saber o que ia acontecer com a bendita personagem. Esse é um daqueles livros que te deixa de ressaca depois de ler, mas no bom sentindo – eu, por exemplo, fiquei dias pensando e refletindo sobre o livro. Só sosseguei depois de boas discussões sobre ele com amigas e, por muita sorte, com a própria Mirian. Em uma conversa pra uma matéria da revista alemã Wir Frauen, eu aproveitei a meia horinha de telefonema para sanar todos meus anseios e dúvidas sobre o “Infiel”.
[caption id="attachment_3667" align="aligncenter" width="678"] A antropóloga Mirian Goldenberg[/caption]
Nas primeiras páginas, a antropóloga faz uma pequena análise da vida amorosa de Simone de Beauvoir com Jean-Paul Sartre e Nelson Algren. Mirian diz ter ficado impressionada ao notar, pelas leituras e releituras de Beauvoir que, mesmo uma mulher tão feminista e defensora da liberdade, poderia se tornar dependente de seus amores, de seus homens. E foi na busca por respostas sobre essas contradições entre comportamentos e discursos, quanto ao tema relacionamentos, que Mirian conheceu Mônica.
Mônica é uma jornalista que mora no Rio de Janeiro e tem a vida de um roteiro de filme. Com tragédia, amores, sexo e traições. Uma vida com a qual, acredito, muitas mulheres se identificariam. Não por sua história em si, mas por seus sentimentos e desejos ambíguos. Mônica é uma mulher independente, autoconfiante, segura de si. Mas também é uma mulher que deseja a segurança de um relacionamento mais estável e duradouro.
“Eu achei que ela sintetiza muitas histórias que eu ouvi sobre a dificuldade da mulher de viver seus próprios desejos, de assumi-los. Muitas brasileiras ainda têm medo de assumir sua sexualidade pelo que os homens vão pensar”. Mirian chega a compará-la com Leila Diniz por ser uma mulher que fala abertamente de sua vida e seus relacionamentos, sem medo de assumir verbalmente que teve muitos parceiros sexuais, que traiu ou fez sexo sem amor. “Ela me pareceu muito segura, autoconfiante. Uma mulher que eu raramente encontro no Brasil”, descreveu Mirian.
Mas ao mesmo tempo, Mônica é como muitas mulheres brasileiras e se afoga em uma crise de culpa quando trai seu parceiro com um homem, que nem faz seu tipo, mas que desperta nela um desejo sexual enorme. Com seu amante, Mônica descobre um lado sexual que ainda era desconhecido, mesmo depois de ter transado com vários homens. Daí é que a história complica e a jornalista se vê em um conflito entre o desejo por liberdade mas também pela segurança do relacionamento com seu parceiro. Um conflito que Mirian diz ter observado em muitas mulheres em seus estudos nas camadas médias urbanas do Rio de Janeiro.
A incrível história de vida de Mônica me deixou ansiosa por cada página. Exatamente por ser uma história que poderia acontecer com qualquer uma de nós. Mas não serei aqui spoiler chata e não contarei o desfecho disso tudo. O que mais posso revelar do livro são alguns fatos que me deixaram pensando e pensando e pensando no “Infiel”.
Sabe aquele estereótipo sobre amantes que elas seriam mulheres atrás de homens casados, ricos, que as pudessem enche-las de presentes e sustenta-las? Sabe aquela ideia de que toda amante é uma mulher na fila do casamento, só no aguardo para que o tal homem casado se separe? Pois é, a pesquisa de Mirian revelou uma imagem muito diferente que quebra esse tipo de preconceito. A Outra é, em muitos casos, uma mulher super independente – ela mora sozinha, trabalha, se sustenta e, algumas vezes, tem outros parceiros além do amante. Mirian a descreve como alguém que, muitas vezes, tem uma relação mais igualitária com o homem do que a própria esposa. “Ser a Outra pode ser, para algumas mulheres, uma forma de combinar companheirismo com liberdade”, escreve Mirian ao contar o caso de mulheres que desejam manter sua independência e não acham que isso seja completamente possível em um casamento.
Mas além desse desejo de liberdade e companheirismo, os números apresentados no livro revelam que para, algumas mulheres, ter um relacionamento com um homem casado é a forma mais fácil de não ficar só. Ela escreve que existem três mulheres para cada homem não-casado depois dos 45 anos, e cinco para um depois dos 65 anos. Ou seja, a opção seria dividir para não ficar só.
Depois disso fiquei me perguntando: “seria a mulher brasileira tão dependente que não consegue ficar sozinha e precisa de um marido/namorado/peguete?” Em nossa conversa, Mirian me deu uma interessante resposta. “Ela (a mulher brasileira) consegue ficar sozinha, ela até gosta de ficar sozinha, ela até prefere ficar sozinha! Mas morre de medo porque ficar sozinha aqui dá uma ideia de abandono e de fracasso. Há mulheres bem sucedidas que quando chegam sozinhas em algum evento são encaradas como coitadas. Elas querem curtir sua vida e sua liberdade. Mas hoje é preciso enfrentar tanta coisa pra ficar sozinha, tem que enfrentar tantos olhares de pena e de acusação, que muitas têm medo e acabam ficando com alguém por isso”. Mirian diz que o novo capital mais valioso da mulher no Brasil, além do corpão e da juventude, é o maridão. Ela observa que, além da pressão por um casamento, a mulher ainda sofre com uma criação que a tornou uma “romântica incurável”: “As novelas, os romances, os filmes, tudo conspira. Nunca as meninas brasileiras foram tão cor de rosa. Desde que você nasce, você é criada pra ser assim, ganhando bonecas e vestido de princesa pra brincar de casinha”.
[caption id="attachment_3625" align="aligncenter" width="1024"] Os livros de Mirian Goldenberg[/caption]
Enfim, depois da leitura e da conversa com Mirian notei que talvez ainda sejam precisos muitos passos para que toda mulher brasileira se torne “meio Leila Diniz”. Mas estamos no caminho. Segundo Mirian, já é maior o número de mulheres que decidem ficar só, sem marido, filhos ou amantes fixos. Mulheres que decidiram enfrentar os olhares de pena e de julgamento. Que não tem medo de assumir e falar abertamente de sua sexualidade e que estão mais próximas do ideal “Leila Diniz” que Mirian tanto cita em sua obra.
Os livros da Mirian foram lançados pela Editoraecord e podem ser encontrados facilmente em grandes livrarias ou até em sebos (onde eu achei o meu). Além do “Infiel”, outros títulos interessantes são “A Outra”, “Toda Mulher é meio Leila Diniz”, “Coroas” e o mais recente “Sexo”.
Depressão pós-parto ainda é um tema pouco discutido ou até conhecido. Ainda exista talvez o pensamento de que mães devem ser indestrutíveis e não podem deixar se abalar por “qualquer coisinha”. A série de curtas de animação Animated Minds: Stories of Postnatal Depressionvem pra mostrar que ter problemas emocionais durante a gravidez ou após o parto não deve ser encarado como qualquer coisinha. É algo sério que pode vir, algumas vezes, pela pressão colocada no idealizado “ser mãe”.
A produtora do Reino Unido, Mosaic Films, em parceria com o projeto Animated Minds achou uma forma sensível e educativa para falar sobre isso. O projeto tem por objetivo informar sobre doenças mentais através de animações e com o relato de pessoas reais que passaram por isso. Nessa nova série, histórias de diferentes mulheres são contadas com animações que misturam leveza e um lado bastante sombrio.
Essa mistura do sensível com o obscuro combinou muito bem com as mudanças caóticas nas mentes das mães que contam suas experiências. Cada filme leva o nome das protagonistas que narram seus sofrimentos e anseios ao passar pela depressão pós-parto. Todas histórias têm um final feliz para mostrar que é possível, sim, sair dessa!
As falas para as narrativas foram tiradas de entrevistas conduzidas em parte pelo coordenador da série, o diretor George Sander-Jackson. Ele teve a experiência de conviver com a doença em sua família. “Em termos de experiência coordenando o projeto, os meus dois grandes desafios foram: tentar me manter objetivo e profissional em um projeto tão pessoal, e tentar combinar o papel de produtor com a direção. Acho que porque o assunto é tão emotivo, meu envolvimento pessoal e emocional ajudou em alguns aspectos”, George em trecho reproduzido no site Skwigly.
Abby’s Story:
George dirigiu o curta “Abby’s Story”, em que a mãe se confronta com a depressão nos sete meses da gravidez, quando começa a ter ataques de pânico, pensando que talvez não quisesse mais ter aquele bebê. Depois do nascimento, mesmo com a alegria de ter sua filha nos braços, ela continua depressiva até receber ajuda psiquiátrica.
Tiff’s Story:
A seguinte história foi animada pela diretora Sally Arthur. A diretora viu em Tiff um exemplo do que acontece comumente nos subúrbios de classe média no Reino Unido, mas que segue sendo pouco comentado. “Sua experiência é mais comum do que nós imaginamos”, diz Sally, “A sua experiência de se sentir presa é algo que eu realmente reconheço. Eu tive sorte de ter amigos maravilhosos e uma família que me apoiou no processo de ser mãe, mas eu consigo ver que a depressão pós-parto está muito próxima de qualquer mulher, indiferente de classe, habilidade, sexualidade, etnia ou história de vida”.
Katie’s Story:
Dirigido por Lucy Izzard, Katie’s Story é o relato de uma mãe jovem, que se viu grávida aos 17 anos, o que já é choque enorme por si só. Lucy usa certas combinações de cores e desenhos gráficos com o objetivo de atrair os olhares de mãe jovens, entre 16 e 22 anos. Durante o trabalho, a diretora ficou sabendo que alguém conhecido estava passando por depressão pós-parto, o que a motivou mais ainda no projeto: “Eu senti ainda mais o desejo de aprender sobre essa condição e de fazer algo que poderia ajudar outros que estão passando por isso”.
Mike’s Story:
Não só histórias das mulheres que passaram por isso estão na série. Mike observou sua esposa mudar drasticamente seu humor e personalidade após o parto. A animação de pouco mais de três minutos retrata a agonia de um companheiro não sabe como ajudar sua amada mulher. O diretor Dan Binns considerou o trabalho mais fácil de certa forma, por poder se identificar mais com Mike. “Algumas das entrevistas descrevendo a experiência de PND (Postnatal Depression) foram realmente assustadoras e é difícil de entender completamente como é estar se sentindo dessa forma, mas ver da perspectiva de alguém que está preocupado com quem ama, tentando entender sua situação, todo o estresse e dor no coração, fez com que fosse mais fácil de me relacionar com o tema e, espero, para quem está assistindo também seja assim”, observa o Dan.
Andrea’s Story:
Esse talvez seja um dos filmes da série com recursos mais abstratos. A animação dirigida por Magdalena Osinska, em parceria com o coordenador do projeto George Sander-Jackson, buscou características bem peculiares de Andrea em se expressar para contar sua história. “A entrevista original com Andrea durou mais de uma hora, em que ela comparou seus sentimentos e estado mental várias vezes com o clima, por exemplo, ‘Sinto que tenho nuvens negras dentro de mim’. Isso fez com que usássemos silhuetas preenchidas com imagens naturais e do clima para retratar suas emoções e sua narrativa”, explica Magdalena.