A breve história de um aborto

Ilustração feita com exclusividade por lovelove6.

A ONU fez um pronunciamento pedindo que o aborto fosse legalizado diante da catástrofe da Zika e os casos de microcefalia. Muitas mulheres estão escolhendo abortar com medo do feto contrair a doença durante a gestação. Com isso, achei legal fazer mais um texto sobre o assunto, segura o textão cheio de paixão aí!

Era uma vez uma menina-mulher de 19 anos, branca, classe média, que transou com um amigo e engravidou. Contou pro seu pai, pediu que pagasse um aborto e ele pagou. Ela e uma amiga também branca e classe média, foram numa clínica de aborto em um bairro classe média da cidade de São Paulo. A consulta demorou 20 minutos, marcaram o procedimento para o mesmo dia dali umas horas com um médico ginecologista de um famoso hospital de São Paulo. Elas foram dar uma volta pelo agradável bairro, voltaram e o procedimento durou 15 minutos. Acabou. Ela foi para casa com uma cólica pequena e em uma semana estava nova em folha.

Essa é a breve história do meu aborto. Provavelmente dá pra reduzir para 140 caracteres. Apesar de todo o estresse e sentimentos diversos envolvidos, politicamente esse primeiro parágrafo é o único que importa de uma história de um aborto bem sucedido. Por quê? Porque mulheres morrem todos os dias por fazerem abortos em lugares não seguros, sem higiene, etc. O maior problema é que são mulheres pobres e negras que estão morrendo diariamente por causa de um procedimento médico simples que demanda 15 minutos apenas. Nós sabemos que é praticamente crime ser pobre e negro no Brasil, ninguém liga pra essas mortes. Pelo contrário, as culpam e estigmatizam.

 

HÁ UMA CHUVA DE HATERS SOB MEUS OLHOS, DIZENDO PRA MIM “VOCÊ É PECADORA!” E NÃO DEMORA PRO MEU SANTO CAGAAAA-AAAA-AAAAR!

 

[caption id="attachment_9292" align="alignnone" width="500"]cd-fafa-de-belem-coraco-brasileiro-14359-MLB62472347_4174-O Fafá linda, maravilhosa! Aliás cadê Fafá? Tá sumida! Um beijo Fafá![/caption]

Mentira, eu não cago, tanto é que eu tô aqui pra poder expor meus pontos acerca dos principais ‘contras’ de se fazer um aborto e ser pró aborto. Se você tiver algum ponto novo, eu vou adorar saber, por favor, ou comente nesse post, ou me mande pelo meu twitter @cruishcredo. Então bora lá, começar pelo básico:

 

    • Deus é contra (e tudo o que vem com o argumento religioso)

      R: Eu tenho tanto pra lhe falar, ainda bem que com palavras eu sei dizer, sim. A primeira coisa é, respeite o livre arbítrio alheio e ponto. Tá escrito no livro que eu sei. A única que pode me julgar é Deus, então deixa com Ela, tá bom? “Por que reparas tu o cisco no olho de teu irmão, mas não percebes a viga que está no teu próprio olho?”, isso aqui meu amigo, é a bíblia mandando você cuidar dos seus problemas. Mateus 7:5, fiz meu dever de casa!Tem outro ponto aqui, o Brasil é um estado laico, ou deveria ser (#foracunha). De forma que religião não deveria ser uma questão nesse debate em hipótese alguma, se você já estudou história alguma vez na sua vida, acho que você sabe a merda que deu quando a igreja era parte do Estado, certo?

      Fora que né? Amai-vos uns aos outros, então me ama. Haha. <3

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    • É uma vida que não pode se defender sozinha!

      R: Eu acho muito engraçado quem usa esse argumento e não é vegetariano, mas vamos lá. Acho que o problema maior é a linha tênue no que pode ser considerado vida ou não, e eu respeito se você acha que a vida é criada na fecundação, mas você precisa respeitar quem acha que não, quem acha que a vida humana e animal é criada a partir de um sistema nervoso central (a partir dos dois meses e meio de gestação, creio). É uma questão moral. Caso você ache que é sim uma vida e não quer respeitar quem acha que não é, eu te pergunto, e a vida da mulher que está em risco? Querendo ou não, o aborto não vai parar de acontecer porque alguém é contra. É por isso que é preciso ser descriminalizado, porque enquanto mulheres brancas e ricas – como eu – podem ser muito bem tratadas em clínicas particulares, mulheres pobres morrem em cima de macas sujas e são jogadas em frente a hospitais públicos. É essa vida com a qual eu me preocupo, essa vida, de uma pessoa que é minoria, uma mulher, que não teve dinheiro e acabou morrendo nas mãos erradas. Canalize sua energia para essa parte da questão. Quantas mulheres famosas já saíram em capas de revista dizendo que abortaram? Nunca nenhuma foi presa, nenhuma foi indiciada, a sociedade aceita esses milhares de casos isolados de pessoas brancas e ricas, somos todos hipócritas.

       

      [caption id="attachment_9294" align="alignnone" width="445"]Capa da veja de 1997 é amigue, essa capa da Veja você não esperava, né? Hahahaha![/caption]

 

    • É um ato egoísta.

      R: É egoísta pensar que não vai ter como financeiramente criar uma criança? Pensar em como não conseguir lidar com as frustrações de um ser que o pai abandonou antes de nascer? Pensar que essa criança vai lembrar eternamente um estupro que aconteceu, se tornando um fardo? Esses são alguns porquês algumas mulheres fazem abortos. Mas existem outros porquês considerados egoístas que me fazem refletir, como por exemplo… Não querer ter um filho agora porque quer acabar os estudos, ou porque simplesmente não quer, ou porque quer focar na carreira… Em uma sociedade que nega direitos às mulheres, que não garante direitos iguais perante a lei, não há representatividade legal, pensar em si em primeiro lugar é resistir, pensar em si mesma e no seu futuro, é garantir o que a lei não nos garante. Sermos donas de nossos próprios corpos é nossa obrigação.

 

    • É ilegal!

      R: Eu sei que esse é um argumento ultra inocente, mas ainda tem gente que usa, e tudo bem. Sabe o que era legal há 25 anos atrás? Racismo! Sabe o que era legal há 130 anos? Escravismo! Sabe o que é ilegal em vários estados dos Estados Unidos? Sexo oral (anal então, highway to hell, haha). Sabe o que era ilegal há 65 anos atrás? Mulheres trabalharem sem pedir permissão pro marido (mulheres brancas né, porque as negras sempre trabalharam). Sabe o que era ilegal há 84 anos atrás? Mulheres votarem. Sabe há quanto tempo, ilegalmente, realiza-se aborto? Desde que o mundo é mundo. Sempre há um chá, uma erva, um remédio e dá-se um jeito. Homens (no nosso caso gênero também, mas quis dizer no sentido de humanidade) fazem as leis, homens são corruptos e fazem as leis de acordo com o seu grau moral, seu grau de instrução ética, sempre beneficiando a si mesmos e sua bolha. Então, as vezes o que é legalizado e o que não é são questões de debate e, como o corpo de políticos brasileiro não é plural, não temos nenhuma representatividade. É por isso que minoria é chamada de minoria, não é porque somos poucos em número, mas é porque temos pouca representatividade legal.

 

  • Se não quer engravidar, use métodos contraceptivos (ou o velho, na hora de fazer não pensou, né?), ou então lide com as consequências.

    R: A consequência esperada da maioria da população em fazer sexo é gozar e ter prazer. A consequência ficar grávida recai sobre a mulher porque muitas vezes com quem ela transou não está nem aí pra saber disso. Se essa consequência recai na mulher, ela é quem deve decidir levar à frente ou não, o corpo é dela e a decisão é e deve ser dela. Fim de papo. E muitas vezes a gente não pensa mesmo, ou porque bebeu, ou porque está bão demais, ou porque o cara falhou na hora de tirar, existem mil possibilidades, sem contar os estupros, que não são poucos. De qualquer forma, métodos contraceptivos falham. Pílulas do dia seguinte falham (me falharam). Nenhuma mulher não vai se proteger pensando em “ah, tudo bem, depois eu faço um aborto”. Não, não vai. Shhh. Nope. Ñ. Sem chance.

     

    [caption id="attachment_8942" align="aligncenter" width="690"]sorry but not sorry sorry but not sorry[/caption]

Por favor, você que é a favor da descriminalização do aborto, jamais use o argumento de que menos crianças indesejadas, menor é a população pobre e diminui o crime. Esse argumento é preconceituoso, e quando usado para ser a favor do aborto é eugenista. Apenas pare. O aborto deve ser apoiado por ser um direito da mulher escolher para si o que é melhor, e não usado para apoiar ~ limpeza social ~ (que expressão escrota).

 

[caption id="attachment_9351" align="aligncenter" width="690"] pra finalizar, esse post do Facebook falou tudo.[/caption]

Ainda para as pessoas que são a favor, não faço e acho que também não deveriam fazer a comparação de um aborto de uma mulher com um abandono de uma criança pelo pai pelo simples fato de achar que o abandono é extremamente pior. Cresce-se uma criança sozinha, abandonada, tendo que lidar com inúmeros fatores a mais por causa da sua história e é frustrante e recorrente.

Países como o Uruguai que descriminalizaram o aborto tiveram uma queda significativa em relação ao procedimento. Sabe o por quê? Porque quando um assunto deixa de ser um tabu e se torna uma questão de saúde pública, mulheres têm mais opções para lidar com o assunto, mais conhecimento sobre o procedimento, mais clareza, ajuda psicológica providenciada, etc. Você não precisa ser a favor do aborto para ser a favor da legalização dele, já pensou nisso? :) Olha só essa matemática feita especialmente para pessoas de humanas, como eu:

x fetos morrem por ano. Se o aborto é ilegal e inseguro: X fetos morrerão + um número Y de pessoas também morrerão pelas consequências de terem tentado fazer um aborto ilegal e inseguro. Tendo um aborto legal e seguro, salvamos Y. Eu fico com a opção que salva mais vidas, e você?

 

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Ilustração feita com exclusividade por lovelove6.

Mais de Bárbara Gondar

Girl in a Band: mágoas e roquenrou

Antes de saber o que era feminismo, muito antes, a maioria dos meus ídolos, especialmente os musicais, eram mulheres. Desde nova, 14/15 anos, eu já gostava muito de Portishead, Sleater Kinney, Bulimia, Janis Joplin, Nico, Patti Smith (entre muitas outras), baixava uma música por vez no KasaA e demorava para cacete (vou fazer trintão esse ano). Os cd’s gravados iam de mão em mão, numa festa, numa viagem, e assim é como eu conhecia música nova.

Assumidamente, só comecei a gostar de Sonic Youth depois dos meus 24 anos, que perda de tempo! Hahaha! Apesar de ser muito fã de Nirvana e dos cd’s mais barulhentos com guitarras sujas e distorcidas, Sonic Youth era barulhento e dissonante demais para mim. Mas me apresentaram dois cd’s que faziam menos distorção e aí com um pouco mais de paciência eu pude ouvir as letras e fiquei fascinada. Os cd’s eram Rather Ripped e Sonic Nurse, eu acho que ouvia o Rather Ripped umas 20 vezes por dia, sem brincadeira, quando eu piro numa parada, esse é o meu jeitinho, risos. De qualquer forma, foi o cd que abriu as portas do Sonic Youth na minha vida.

 

 

Eu tive a oportunidade de ir no último show do Sonic Youth pois estava morando em São Paulo. Amigos meus iriam pro SWU de qualquer forma, carona eu tinha, mas um namoro meu tinha acabado exatamente naquele dia. Antes do término, o plano era ir ao show, esse meu namorado que havia me apresentado a banda e imaginem, exatamente quando você vira fãzáça, ela vem tocar no seu estado! Mas no final acabei não indo, estava chateada, sem forças para produzir a ida para um show naquele estado, e no final, meu ex-namorado foi ao show e eu não. Nunca vou me perdoar por isso, hahaha!

Quando eu soube que Kim Gordon iria escrever um livro, pensei, caralho preciso comprar assim que sair. Quero ler em inglês, pensei, como tenho o privilégio de saber falar e ler em inglês, não queria passar novamente pela saia justa da tradução mal feita como foi no livro da Patti Smith. Em que o nome do livro ‘Just Kids’ virou “Só Garotos”. Com essas paradas de tradução, sempre me vem à cabeça ‘O Poderoso Chefão’, hahaha, se você parar para pensar, é bem engraçado tipo, chefão de video-game, sei lá. Tradução é uma parada muito difícil mermo.

 

 

Depois de um tempo (em que o livro não estava em minhas mãos porque não achava em inglês), amigas do Rio organizaram amigo secreto de livros agora no final de 2015. Na real não era um amigo secreto, levamos vários livros e colocamos na mesa e quem se interessasse que pegasse o livro. Eu levei uma caixa de livros e voltei com uma caixa (coração quentinho). Um dos livros em cima da mesa era o da Kim Gordon em inglês, minha amiga Elisa queria e sabia que eu também queria o livro, mas como eu estava me mudando do Rio, ela deixou eu levar o livro, hahaha. Obrigada Elisa, te amo miga!

 

 

Finalmente me mudei e abri a primeira página. Eu sabia que aquelas 273 páginas precisariam ser bem administradas porque eu poderia ficar mal caso eu terminasse o livro muito rápido e/ou tivesse uma má relação com ele. O que não foi o caso, o tempo foi perfeito, foi rápido mas estava bom e me forcei a fazer pausas dramáticas para aproveitar a nova cidade e manter a dosagem perfeita, hahaha.

 

 

No livro, Kim conta sua história desde criança, um pouco sobre a história dos pais dela, do irmão que sofre de esquizofrenia e o conturbado convívio em que a doença proporcionou a todos. A descrição do clima político entre as épocas que vão perpassando o livro, é maravilhosa. O clima estranho de quando Manson andava solto por Los Angeles, e como isso influenciou ela ao longo da sua vida, ela chega a citar Manson e seu bando (Revolution 9) umas 4 ou 5 vezes durante o livro. Eu gosto muito como ela descreve a Califórnia, acho que é como qualquer californiano prodígio descreveria, me lembrei muito da banda Best Coast, de pessoas que tem cabelo loiro por causa do sol e daqueles vídeos de skate em piscinas vazias em casas abandonadas.

 

Best Coast falando sobre a Califórnia e até o nome da banda é sobre isso, haha

 

O momento da adolescência e transição para fase adulta de Kim foi muito ligado às artes no geral e à busca infinita de qualquer artista pro seu porto, muita miçanga, minha gente de humanas! Kim vai passando por diferentes escolas de arte, uma que inclusive ficava em Toronto, no Canadá. Além das diferentes escolas, ela passa por diferentes sub-empregos para conseguir se sustentar, quem nunca. Não sei o porquê empregos como garçonete são categorizados como sub-empregos, te dizer que foi o melhor emprego que eu tive na minha vida apesar de pagar pouco, deve ser por isso, hahaha.

Quando depois que a Kim foi embora do Canadá e voltou pra Califórnia, ela resolveu ir de carro com um amigo até Nova Iorque, eu fiz essa viagem, me identifiquei demais. É excitante a forma que ela descreve Nova Iorque, a forma que o Sonic Youth foi sendo criado, como ela conheceu o Thurston Moore, como as músicas eram compostas, é tão realista que você nem sequer se lembra que pode ter um segundo ou terceiro ponto de vista dessa história. Parece que você está lá, vendo tudo acontecer. Me lembrei muito do livro da Patti Smith, a visão de duas meninas de outros lugares (se bem que a Patti Smith era da roça, foi muito mais impactante pra ela) chegando numa cidade em que seus ídolos estavam todos ali, e você sentia em que ali era o momento de se estar, as coisas estavam acontecendo.

 

 

Claro né, fazendo um recorte de momento/país aqui, revolução hippie, Panteras Negras, primeira (segunda?) onda do feminismo, revolução musical, nascimento do punk (há [muitas] controvérsias), no wave, ‘faça amor não faça guerra’, CBDB, LSD, tudo junto e misturado e você ainda podia se esbarrar com o Basquiat e Andy Wahrol andando na rua. Entrar num bar underground pra cacete e ver a Nico cantar com o Velvet Underground, apenas excitante.

Durante todas as partes do livro, desde criança, adolescente, início da fase adulta, Kim descreve como é ser uma mulher em diversas atividades. Como e quais são as complicações de ser a menina/mulher da banda acaba sendo metafórico para ser mulher em diversos ambientes. Um exemplo é que desde cedo ela já se interessava por moda/figurino porque sua mãe era costureira e fazia suas roupas. Ela levou esse interesse com ela, mais tarde até chegou a abrir uma marca com uma amiga. Mas na real onde eu quero chegar é que ser uma mulher numa banda e se vestir de x forma ou y, poderia afetar vendas e/ou como a banda e ela seriam vistos.

 

 

O feminismo é presente na vida de Kim e ela faz meio desse livro para expor diversas situações no grande estilo #meuamigosecreto e #minhaamigasecreta. Dá pra sentir quando o sentimento está sendo dosado por causa da filha enquanto ela fala de Thurston e quando o sentimento voa sem freios porque ela precisa tirar aquilo do peito. Da mesma forma como quando ela se pronuncia diretamente à Courtney Love, sem freios, sem medo, a chamando de interesseira e mal caráter, ‘a train wreck’. Apesar de não curtir expor mulheres e ver/ler sobre isso, senti que Kim já havia pensado se o faria ou não e resolveu fazer, pelo passado das duas, pelo passado de seu amigo Kurt Cobain e para respaldar Kathleen Hanna (que foi agredida por Courtney, sem motivos aparentes).

 

 

Não cabe a mim julgar essa situação e essa exposição, é uma autobiografia e ela escolheu incluir conscientemente esses trechos e eu compreendi, mas o que me encucou foi outra coisa. Se você não sabe até agora que o motivo da separação de Kim e Thurston foi uma traição (e tudo o que vem com isso, não somente o fato isolado), TEJE AVISADE. O lance é que apesar dela colocar o Thurston como maior ‘culpado’ na situação, ela azucrinou a mulher com quem ele a traiu, até por demais, na minha opinião. Como se a mulher tivesse poderes especiais e transformasse os ~ coitadinhos dos homens ~ em peões de seu tabuleiro de xadrez (sei lá, inventei agora, comecei a jogar xadrez [de novo], haha).

Agora voltando, o feminismo é presente no livro e na vida dela e no trabalho dela, contando a própria experiência dela, entendendo como o mundo funciona para uma mulher, para uma mulher numa banda ~ de sucesso, mas há uma situação de opressão entre a Kim e a mulher com quem o ex-marido dela a traiu. Há uma exposição desnecessária de uma mulher anônima e a Kim utiliza a fama dela para fazer isso. Isso não gostei, bem diferente de trocar farpas com a Courtney Love que não há situação hierárquica de opressão, a meu ver pelo menos, posso estar errada, claro! De qualquer forma, ser consciente de reprodução de machismo é um trabalho diário, em algum nível, a maioria de nós faz.

 

 

Na verdade eu também não curti uma carta aberta que ela escreveu para a Karen, cantora do The Carpenters. A carta foi publicada numa revista e tem um tom psicanalítico nada legal, como se ela quisesse ajudar alguém que não pediu ajuda. Não entendi o porquê ela quis incluir isso no livro, mas quem sou eu? Hahaha. Essas foram as partes de que não gostei no livro, mas agora vamos falar de coisa boa, vamos falar de cogumelo do sol.

 

Clipe do Sonic Youth em que a Kathleen Hanna participa

 

Não quero acabar essa resenha com essa torta de climão, o livro é muito bom, além de Sonic Youth e muitíssimo além de traições. Ela fala sobre a traição e o fim do casamento enfaticamente apenas nas últimas 30 páginas do livro, pra você ter uma ideia. Então, não quero deixar passar a impressão de que é um livro inteiro sobre descarrego. É e não é, é de uma forma natural, como se uma amiga estivesse te contando sua história, você se sente próxima dela, por isso é difícil julgar, porque dá pra sentir que o grau de sinceridade e entrega é de alguém que passou por um problema que fez a vida mudar completamente e por mais que o tempo tenha passado, é como se ainda estivesse em processo de digestão. Afinal, foram 27 anos de casamento, de banda, uma filha que é muito amada pelos dois, o que são 5 anos passados diante de tantas coisas significativas?

 

 

Kim escreve como ela tocou baixo, de forma crua, sincera, alto nível de entrega pessoal. Descreveu os movimentos ao longo das décadas, como Riot Grrrl e grunge no início da década de 90 de forma excitante. Falou sobre o seu envolvimento pessoal e profissional com pessoas que são meus ídolos como a banda Pixies e ter aberto para Neil Young numa turnê. Consegui me imaginar naquela festinha dos sonhos, sabe? Aquele backstage de festival em que todos estão reunidos, comendo porcarias e dividindo o banheiro porco. Você se sente ali, fazendo parte de tudo aquilo junto com ela. Sendo a mulher da banda, ou a miga dela, ao menos, haha.

 

No final, só tenho a agradecer, porque mulheres não têm tantas ídolas assim, nós não ocupamos ainda suficientemente espaços que são esperados ser ocupados por homens. Nossas resistências ainda são ocupações políticas e a vida da Kim e toda a sua arte foram e são uma grande ocupação. Fazer música dissonante, fazer arte, escrever, ser mãe, expor, etc. Ainda há de se esperar grandes coisas dela, sem a menor dúvida.

 

Leia mais
R: Eu tenho tanto pra lhe falar, ainda bem que com palavras eu sei dizer, sim. A primeira coisa é, respeite o livre arbítrio alheio e ponto. Tá escrito no livro que eu sei. A única que pode me julgar é Deus, então deixa com Ela, tá bom? “Por que reparas tu o cisco no olho de teu irmão, mas não percebes a viga que está no teu próprio olho?”, isso aqui meu amigo, é a bíblia mandando você cuidar dos seus problemas. Mateus 7:5, fiz meu dever de casa!Tem outro ponto aqui, o Brasil é um estado laico, ou deveria ser (#foracunha). De forma que religião não deveria ser uma questão nesse debate em hipótese alguma, se você já estudou história alguma vez na sua vida, acho que você sabe a merda que deu quando a igreja era parte do Estado, certo?

Fora que né? Amai-vos uns aos outros, então me ama. Haha. <3

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  • É uma vida que não pode se defender sozinha!

    R: Eu acho muito engraçado quem usa esse argumento e não é vegetariano, mas vamos lá. Acho que o problema maior é a linha tênue no que pode ser considerado vida ou não, e eu respeito se você acha que a vida é criada na fecundação, mas você precisa respeitar quem acha que não, quem acha que a vida humana e animal é criada a partir de um sistema nervoso central (a partir dos dois meses e meio de gestação, creio). É uma questão moral. Caso você ache que é sim uma vida e não quer respeitar quem acha que não é, eu te pergunto, e a vida da mulher que está em risco? Querendo ou não, o aborto não vai parar de acontecer porque alguém é contra. É por isso que é preciso ser descriminalizado, porque enquanto mulheres brancas e ricas – como eu – podem ser muito bem tratadas em clínicas particulares, mulheres pobres morrem em cima de macas sujas e são jogadas em frente a hospitais públicos. É essa vida com a qual eu me preocupo, essa vida, de uma pessoa que é minoria, uma mulher, que não teve dinheiro e acabou morrendo nas mãos erradas. Canalize sua energia para essa parte da questão. Quantas mulheres famosas já saíram em capas de revista dizendo que abortaram? Nunca nenhuma foi presa, nenhuma foi indiciada, a sociedade aceita esses milhares de casos isolados de pessoas brancas e ricas, somos todos hipócritas.

     

  •  

      • É um ato egoísta.

        R: É egoísta pensar que não vai ter como financeiramente criar uma criança? Pensar em como não conseguir lidar com as frustrações de um ser que o pai abandonou antes de nascer? Pensar que essa criança vai lembrar eternamente um estupro que aconteceu, se tornando um fardo? Esses são alguns porquês algumas mulheres fazem abortos. Mas existem outros porquês considerados egoístas que me fazem refletir, como por exemplo… Não querer ter um filho agora porque quer acabar os estudos, ou porque simplesmente não quer, ou porque quer focar na carreira… Em uma sociedade que nega direitos às mulheres, que não garante direitos iguais perante a lei, não há representatividade legal, pensar em si em primeiro lugar é resistir, pensar em si mesma e no seu futuro, é garantir o que a lei não nos garante. Sermos donas de nossos próprios corpos é nossa obrigação.

     

      • É ilegal!

        R: Eu sei que esse é um argumento ultra inocente, mas ainda tem gente que usa, e tudo bem. Sabe o que era legal há 25 anos atrás? Racismo! Sabe o que era legal há 130 anos? Escravismo! Sabe o que é ilegal em vários estados dos Estados Unidos? Sexo oral (anal então, highway to hell, haha). Sabe o que era ilegal há 65 anos atrás? Mulheres trabalharem sem pedir permissão pro marido (mulheres brancas né, porque as negras sempre trabalharam). Sabe o que era ilegal há 84 anos atrás? Mulheres votarem. Sabe há quanto tempo, ilegalmente, realiza-se aborto? Desde que o mundo é mundo. Sempre há um chá, uma erva, um remédio e dá-se um jeito. Homens (no nosso caso gênero também, mas quis dizer no sentido de humanidade) fazem as leis, homens são corruptos e fazem as leis de acordo com o seu grau moral, seu grau de instrução ética, sempre beneficiando a si mesmos e sua bolha. Então, as vezes o que é legalizado e o que não é são questões de debate e, como o corpo de políticos brasileiro não é plural, não temos nenhuma representatividade. É por isso que minoria é chamada de minoria, não é porque somos poucos em número, mas é porque temos pouca representatividade legal.

     

    • Se não quer engravidar, use métodos contraceptivos (ou o velho, na hora de fazer não pensou, né?), ou então lide com as consequências.

      R: A consequência esperada da maioria da população em fazer sexo é gozar e ter prazer. A consequência ficar grávida recai sobre a mulher porque muitas vezes com quem ela transou não está nem aí pra saber disso. Se essa consequência recai na mulher, ela é quem deve decidir levar à frente ou não, o corpo é dela e a decisão é e deve ser dela. Fim de papo. E muitas vezes a gente não pensa mesmo, ou porque bebeu, ou porque está bão demais, ou porque o cara falhou na hora de tirar, existem mil possibilidades, sem contar os estupros, que não são poucos. De qualquer forma, métodos contraceptivos falham. Pílulas do dia seguinte falham (me falharam). Nenhuma mulher não vai se proteger pensando em “ah, tudo bem, depois eu faço um aborto”. Não, não vai. Shhh. Nope. Ñ. Sem chance.

       

    Por favor, você que é a favor da descriminalização do aborto, jamais use o argumento de que menos crianças indesejadas, menor é a população pobre e diminui o crime. Esse argumento é preconceituoso, e quando usado para ser a favor do aborto é eugenista. Apenas pare. O aborto deve ser apoiado por ser um direito da mulher escolher para si o que é melhor, e não usado para apoiar ~ limpeza social ~ (que expressão escrota).

     

    Ainda para as pessoas que são a favor, não faço e acho que também não deveriam fazer a comparação de um aborto de uma mulher com um abandono de uma criança pelo pai pelo simples fato de achar que o abandono é extremamente pior. Cresce-se uma criança sozinha, abandonada, tendo que lidar com inúmeros fatores a mais por causa da sua história e é frustrante e recorrente.

    Países como o Uruguai que descriminalizaram o aborto tiveram uma queda significativa em relação ao procedimento. Sabe o por quê? Porque quando um assunto deixa de ser um tabu e se torna uma questão de saúde pública, mulheres têm mais opções para lidar com o assunto, mais conhecimento sobre o procedimento, mais clareza, ajuda psicológica providenciada, etc. Você não precisa ser a favor do aborto para ser a favor da legalização dele, já pensou nisso? :) Olha só essa matemática feita especialmente para pessoas de humanas, como eu:

    x fetos morrem por ano. Se o aborto é ilegal e inseguro: X fetos morrerão + um número Y de pessoas também morrerão pelas consequências de terem tentado fazer um aborto ilegal e inseguro. Tendo um aborto legal e seguro, salvamos Y. Eu fico com a opção que salva mais vidas, e você?

     

    Ilustração feita com exclusividade por lovelove6.

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