Assista: Estrelas Além do Tempo

Muito se sabe sobre o tempo histórico em que o filme Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures) se passa: 1961, os Estados Unidos inicia uma corrida espacial contra União Soviética, que já está “adiantada” na disputa por mandar satélites ao espaço para estudar, como dizia o governo dos EUA na época, “God knows what” e avançam tanto que chegam a mandar seu primeiro astronauta para as estrelas. Tudo isso é reflexo da Guerra Fria que ambas as nações estão envolvidas, iniciada logo após o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Com o tempo, os americanos tomam a dianteira e finalmente começam a mandar seus homens ao espaço: Alan Shepard, John Glenn e, finalmente, Neil Armstrong, que pisou na lua.

Os astronautas viram heróis, o governo de John Kennedy é aclamado, a NASA pode prosseguir com suas pesquisas e avanços e assim a história começa a ser contada. Exceto que detalhes de bastidores muito importantes são ignorados e Estrelas Além do Tempo existe para contar histórias perdidas em meio a documentos e registros históricos dessa época.

Para começar, o filme considera outro fator histórico importante de 1961, um ano marcado pela segregação racial nos Estados Unidos, que também atingia a NASA e provocava protestos por todo o país. Apesar de narrar uma história que se passa no estado de Virgínia, o roteiro também dá uma noção de tempo com a luta de Martin Luther King Jr. no Alabama e outros movimentos raciais no país, simplesmente porque isso também conta a história das protagonistas da história.

Katherine Goble Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), trabalham como “computadores da NASA” para ajudar nos cálculos considerados básicos para os engenheiros que planejavam as missões especiais. Esta era a tarefa para mulheres na instituição, além de secretarias e faxineiras. Mas elas também eram negras e, por isso, ganhavam ainda menos para trabalhar dobrado em ambientes isolados como “computadores negros”, muitas vezes recebendo ordens dos “computadores brancos”. Ou seja: as barreiras de gênero e raciais são as principais vilãs nessa história.

Acontece que, não fosse a resiliência e, principalmente, insistência das três ao lutarem para ultrapassar estas barreiras, as missões espaciais da NASA não teriam sido bem sucedidas. E o roteiro de Estrelas Além do Tempo, que é baseado no livro “Hidden Figures: The Story of the African-American Women Who Helped Win The Space Race”, de Margot Lee Shetterly, mostra isso de maneira realista, deixando bem clara a existência de privilégio branco, sem espaço para nem ao menos uma sugestão de meritocrática.

Tudo isso explorando as capacidades de cada personagem da vida real e sem deixar de lado um drama hollywoodiano poucas vezes direcionado para histórias de pessoas negras, fazendo desse filme belo e emocionante. Katherine é uma gênio dos números e passa a trabalhar diretamente com cálculos de coordenadas para as viagens espaciais da NASA. Dorothy, que é uma mecânica excelente e autodidata, acaba tornando-se uma peça fundamental no funcionamento de uma das primeiras máquinas de cálculo utilizadas usadas na instituição, a IBM, mas ela é também uma grande líder e luta para avançar junto com suas companheiras de trabalho. Já Mary, tem a “ousadia” de trabalhar na engenharia das espaçonaves enviadas nas missões e, para isso, inicia uma luta pelo direito de estudar e conquistar seu diploma.

A mim, mulher negra, esta narrativa me aproximou das personagens, por me identificar com a luta de ocupar espaços que são frequentados majoritariamente por pessoas brancas e também me inspirou a continuar batalhando para que um dia este não seja mais uma opressão. Ao espectador branco (assim espero!), há uma aula sobre a importância de reconhecer seus privilégios e colaborar para esta batalha das formas que lhes cabem.
 

Reconhecimento merecido

Na vida real, Katherine Johnson, cuja história o filme centraliza, foi homenageada pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em 2015, com a honraria da medalha presidencial da liberdade e pela NASA em 2016, tendo uma instalação de estudos batizada com seu nome. Tudo isso mais de 50 anos depois de sua trajetória na NASA.

Agora, com Estrelas Além do Tempo, ela e as companheiras Dorothy e Mary também recebem ainda mais destaque, podendo levar suas histórias para inspirar ainda mais pessoas. Nos Estados Unidos, já rolou até vaquinha online para ajudar meninas de baixa renda a irem ao cinema assistir à esta história.

Merecidamente, o filme também está sendo reconhecido por críticos de cinema e especialistas da indústria. Depois das indicações ao Golde Globes, Estrelas Além do Tempo também aparece na lista de indicados ao Oscar, nas categorias “Melhor Filme” e “Melhor Roteiro Adaptado”, além da indicação de Octavia Spencer para “Melhor Atriz Coadjuvante”, ajudando a edição de 2017 ser “menos branca”.

E, vale sempre a pena destacar: a representatividade que traz esse filme, seja colocando em destaque as histórias reais de Katherine, Dorothy e Mary ou mesmo destacando e premiando os trabalhos de Taraji, Octavia e Janelle, importa e muito!

Trouxe essa review depois de me emocionar com o filme na pré-estreia promovida pela Fox em São Paulo. Para poder prestigiar Estrelas Além do Tempo, anote na agenda: o filme estará disponível em todo o Brasil no dia 2 de fevereiro. 

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