Mulheres jornalistas contra o assédio

Mais uma vez as mulheres mostraram que não irão se calar diante de assédios justificados como “brincadeirinhas”. Muito menos no exercício de sua profissão. Ontem à noite, um grupo de mulheres jornalistas lançou um vídeo com relatos de assédios sofridos durante o trabalho. O vídeo de quase dois minutos faz parte da campanha Jornalistas Contra O Assédio, uma ação em solidariedade à repórter do portal iG assediada pelo cantor Biel.

Depois de ouvir frases machistas como “se te pego, te quebro no meio” e ser chamada de “gostosinha” durante entrevista com o MC sobre seu novo álbum, a repórter foi demitida da redação. Sim, isso mesmo. Como se já não bastasse o abalo emocional, a jornalista perdeu seu emprego pelo simples fato de tomar coragem e denunciar machinho misógino que se considera super star na Delegacia da Mulher de São Paulo.

Para provar que a repórter do iG não está sozinha e revelar o machismo presente nas redações, jornalistas criaram a fanpage no Facebook “Jornalistas Contra o Assédio”. No vídeo divulgado ontem à noite na página, são muitas as declarações bizarras de entrevistados e colegas de trabalho que as profissionais relatam ter escutado. Não são só declarações de cunho sexual ou referentes à aparência física, mas também frases que subestimavam sua competência profissional. “Ali eu escutei que as mulheres faziam as matérias mais lights, de comportamento, previsão do tempo, de bichinhos. E os homens faziam as matérias mais aprofundadas, de política e economia”, relata uma das jornalistas no vídeo.

Até o término desse texto, o vídeo já havia sido compartilhado 965 vezes. Muitos dos compartilhamentos contém relatos de outras profissionais escutaram coisas absurdas. Para quem pensava que o jornalismo é um lugar de gente cool, de mente aberta e sem preconceitos, essas histórias são um tapa na cara. Mas é um tapa na cara pra acordar essa gente e mostrar que se mexeu com uma, mexeu com todas!

Escrito por
Mais de Débora Backes

Gênero fala de todo mundo

Em meio a discussões sobre programa Escola Sem Partido, cresce também a tentativa de colocar o debate sobre gênero no fundo de uma gaveta e trancá-lo a sete chaves. Exatamente para tirar ele dessas profundezas e mostrar que gênero não é algo associado apenas à comunidade LBGT, mas a todos nós, foi que a Anis – Instituto Bioética lançou a semana especial “Gênero fala de todo mundo”. Na ação, a organização postou em suas redes sociais, entre os dias 18 e 22 de julho, textos e infográficos para esclarecer o que significa, afinal, debater gênero.

Vivemos em um contexto cheio de equívocos e tabus, em que se classifica educação sobre gênero como propaganda. Muito se acredita que uma criança possa se tornar gay, lésbica, bi ou trans só pelo fato de ter conhecimento sobre isso, já que a falta de consciência para diferenciar “o certo do errado” a deixa mais vulnerável a escolher o caminho tido como errado, ou seja, o da não tradição de família. “Percebemos que a população confunde muito o conceito de gênero com questões específicas da comunidade LGBT, quando não muito com perversões sexuais das mais bizarras. Decidimos, portanto, produzir um material bem didático para mostrar que gênero é importante, sim, de se discutir nas escolas porque fala de um regime político de poder, que inclui todos”, explicou a jornalista da Anis, Raisa Pina.

Tendo isso em mente, foram publicados seis infográficos coloridos e didáticos e cinco textos assinados pelas pesquisadoras da Anis, Sinara Gumieri, Raisa Pina, Luciana Brito, Debora Diniz e Gabriela Rondon. Cada dia um texto em um veículo diferente para fazer a mensagem chegar mais longe. O material traz desde questões bastante básicas como o que é, afinal, gênero, até desconstruções da tal “apologia gayzista” ou da ideia de “ideologia de gênero”.

 
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A advogada Sinara Gumiere abriu a série explicando que gênero tem muito mais a ver com política e poder do que com anatomia. “Para nós, o gênero, assim com artigo definido e no singular, é um regime político, isto é, uma forma de organizar a vida, com regras e estruturas de poder. Diferentes formas de entender gênero têm em comum a compreensão de que a forma como habitamos os corpos não gera destinos: não há experiências que sejam obrigatórias ou necessárias por causa de nossas anatomias”, escreve.

Ou seja, ninguém é obrigado a seguir ideias fixas de gênero só por causa do corpo com o qual nasceu. “Não há isso de natureza masculina, a qual condiciona homens com pênis a serem provedores, fortões ou gostar de mulher; ou, então, natureza feminina, que condiciona mulheres com vagina a serem mães, delicadas e boas esposas de homens”, argumenta a psicóloga Luciana Brito.

 
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Ela segue essa linha de raciocínio para dizer que, se há argumentos que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher, então pode-se dizer que ninguém nasce homofóbico, transfóbico ou agressor de mulheres, mas são feitos assim por uma sociedade que não aceita diferenças e ignora diversidades. Que melhor lugar para mudar essa base social intolerante do que pelas mentes jovens nas escolas?13738241_1142638305809100_2000562794690069599_o

Não se trata de ensinar ideologias nas escolas, mas conversar sobre experiências e vivências diferentes daquelas que cada um conhece, como explica a antropóloga Debora Diniz. “Não há livro sagrado que diga como devem viver os homens e as mulheres na intimidade de suas escolhas, e por isso gênero fala de todo mundo. Não é ideologia de gênero, mas vidas vividas no gênero”. Tampouco de fazer uma “apologia gayzista”, como mostra a série com o texto de Raisa Pina. Falar de gênero nada tem a ver com propaganda. Até porque ninguém vai virar gay por achar legal dois caras se beijando na novela ou porque ouviu falar de homossexualismo. “Acreditem: esses são todos comentários reais, “argumentos” em defesa da não discussão sobre gênero nas escolas. Muito me espanta o quanto as pessoas pensam que suas posições são frágeis: falar sobre algo significaria se tornar esse algo”, escreve Pina.

 
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É simples. Discutir gênero é conversar sobre diferenças que existem no mundo. É ensinar respeito. Foi graças a esse tipo de discussão que mulheres conseguiram avançar no processo de igualdade, com direito ao voto, a frequentar universidades, a trabalhar fora de casa, assim como homens ganharam direito à licença-paternidade.

São grandes avanços, mas ainda não são suficientes. A advogada Gabriela Rondon lembra há quem argumente contra a educação sobre gênero nas escolas porque isso já seria desnecessário. Aparentemente para essas pessoas já vivemos em um paraíso, onde todos vivem em harmonia de mãos dadas (mas só entre homem e mulher, obviamente).  Claro que as coisas mudaram nos últimos 50 anos, mas a igualdade de direitos é um processo lento. “Não acontece do dia para a noite nem é um processo acabado. Ainda precisamos falar sobre gênero”.

 
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Sim, precisamos! E muito. Casos de violência contra mulher e homossexuais são realidade ainda no Brasil e querer igualdade de direitos para esses grupos não significa estar atrás de privilégios. Significa querer liberdade e respeito, valores que não vão fazer o mundo ficar pior – muito pelo contrário – se ensinados desde cedo, em sala de aula.

 

As ilustrações foram feitas por Valentina Fraiz e foram feitas exclusivamente para a ação da Anis.
 

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“Jornalistas Contra o Assédio”. No vídeo divulgado ontem à noite na página, são muitas as declarações bizarras de entrevistados e colegas de trabalho que as profissionais relatam ter escutado. Não são só declarações de cunho sexual ou referentes à aparência física, mas também frases que subestimavam sua competência profissional. “Ali eu escutei que as mulheres faziam as matérias mais lights, de comportamento, previsão do tempo, de bichinhos. E os homens faziam as matérias mais aprofundadas, de política e economia”, relata uma das jornalistas no vídeo.

Até o término desse texto, o vídeo já havia sido compartilhado 965 vezes. Muitos dos compartilhamentos contém relatos de outras profissionais escutaram coisas absurdas. Para quem pensava que o jornalismo é um lugar de gente cool, de mente aberta e sem preconceitos, essas histórias são um tapa na cara. Mas é um tapa na cara pra acordar essa gente e mostrar que se mexeu com uma, mexeu com todas!

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“Jornalistas Contra o Assédio”. No vídeo divulgado ontem à noite na página, são muitas as declarações bizarras de entrevistados e colegas de trabalho que as profissionais relatam ter escutado. Não são só declarações de cunho sexual ou referentes à aparência física, mas também frases que subestimavam sua competência profissional. “Ali eu escutei que as mulheres faziam as matérias mais lights, de comportamento, previsão do tempo, de bichinhos. E os homens faziam as matérias mais aprofundadas, de política e economia”, relata uma das jornalistas no vídeo.

Até o término desse texto, o vídeo já havia sido compartilhado 965 vezes. Muitos dos compartilhamentos contém relatos de outras profissionais escutaram coisas absurdas. Para quem pensava que o jornalismo é um lugar de gente cool, de mente aberta e sem preconceitos, essas histórias são um tapa na cara. Mas é um tapa na cara pra acordar essa gente e mostrar que se mexeu com uma, mexeu com todas!

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