O que nos ensinam os mestres

Ilustração feita com exclusividade por Malu Risi
[infobox maintitle="Atenção" subtitle="O texto contém spoilers da série Girls. Não leia se você não está acompanhando a última temporada e quer descobrir sozinha o que rola no episódio do qual eu estou falando aqui!" bg="red" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"]

Pela primeira vez eu comecei a assistir a uma temporada de Girls e não tive vontade de gritar. Parece que a Lena Dunham está aprendendo aos pouquinhos a ser menos feminista branca e focando mais no potencial dramático e na capacidade de gerar empatia da série.

No terceiro episódio dessa sexta temporada (American Bitch), Hannah visita um autor chamado Chuck Palmer, famoso tanto por seus livros quanto por sua capacidade de se envolver sexualmente com as fãs. Depois de um escândalo no qual ele foi acusado de estupro, Hannah escreveu um texto sobre isso em seu blog apoiando a vítima. Chuck teria, então, convidado Hannah para ir em sua casa confrontá-lo.

Mas o gancho que eu gostaria de aproveitar aqui nem tem tanto a ver com a trama principal (vou retomar o desfecho do episódio mais ao final do texto), mas com um relato de Hannah sobre um abuso sofrido em sua infância. A garota recorda, durante uma conversa com Palmer, de um professor que, quando ela tinha 11 anos, gostava de fazer massagens em seus ombros. Quando, anos mais tarde, ela acusa o professor de assédio para um de seus antigos colegas, ela é taxada de exagerada. E é isso que eu gostaria de discutir aqui: quais os limites da relação professor-aluna e por que é tão difícil denunciar o assédio sofrido de algum professor, instrutor, orientador ou qualquer outra figura que exerça alguma influência sobre nós num nível pedagógico.

Quando eu estava no colégio e quando trabalhava em cursinho, a tensão existente entre alunas e professores era tão presente que dava pra cortar ela com uma faca. De lembranças que me vêm à cabeça agora, me lembro de uma amiga que desistiu de cursar medicina na faculdade que ela queria porque um professor disse que “não respeitava” a instituição. A admiração dela por ele era tão grande que ela desistiu de fazer o curso que ela mais queria por causa dele. Na época era muito fácil falar que ela era trouxa e que estava se deixando levar pela opinião de um cara que ela nunca mais ia ver na vida. Hoje eu olho pra trás e percebo como a influência dos professores pode ser tão grande na gente por dois motivos: (1) eles seduzem sim as alunas, seja de maneira sutil ou não e (2) no ambiente competitivo de um colégio, principalmente às vésperas do vestibular, a aprovação de um professor faz parecer que você está no caminho exato do sucesso acadêmico, além de dar um conforto para alguém que tem que passar sozinha por um período super estressante.

O problema é o seguinte: se os professores não se preocupassem tanto em querer a nossa admiração e não recorressem ao abuso da autoridade que eles têm sobre a gente, nós aprenderíamos muito mais – e ficaríamos mais confiantes com o nosso desempenho acadêmico. Não é possível absorver informação se você tem que constantemente se proteger do abuso de um professor, seja em forma de humilhação ou de apelos sexuais. Trabalhar com ex-professor meu foi tão estressante que eu tive que largar o emprego – ele me xingava constantemente na frente dos alunos, o que ele também fazia na sala de aula quando ainda não era meu colega de profissão. Por outro lado, um professor meu também já me pediu pra tirar a roupa na frente da turma quando soube que eu estava vestindo só o blusão da escola (eu jamais soube como ele ficou sabendo disso, inclusive).

O que eu estou tentando pontuar é que não importa qual tipo de abuso soframos daqueles aos quais, em teoria, devemos respeito, o objetivo é sempre nos colocar pra baixo – mesmo ex-professores continuam agindo como seu professor, mesmo que ele só seja agora um cara xis que vai na mesma padaria que você. Ora, você já é uma mulher adolescente/jovem, que passa o dia inteiro ouvindo cantada na rua, é subestimada intelectualmente por “piadas” feitas na sala de aula e fora dela, não tem como você se sentir confiante nesse espaço. Quando você é educada a acreditar que qualquer forma de cortejo deva ser encarada como carinho, é lógico que se torna difícil identificar e denunciar o assédio, principalmente se você acreditar que fazer isso é desrespeitar a autoridade de alguém – afinal de contas, é a palavra dele, professor letrado, contra a sua, estudante do segundo grau. Pior ainda: de estudante estressada e preocupada com notas e vestibular, tirar você de louca será mais fácil do que tirar doce de criança.

Mas o que pra mim é ainda mais nocivo, e é aqui que eu retomo o final do episódio (que ficou lá em cima, eu sei, mas vai fazer sentido). Já pro final da trama, Chuck se defende com unhas e dentes, explicando como ele jamais poderia ter abusado sexualmente de sua fã e de como ele era a verdadeira vítima na situação – afinal de contas como seria se sua filha descobrisse que na verdade ele é um lixo humano? Pois bem, quando a narrativa está construída pra que você entre na dele (até porque a Hannah também entra) ele dá a sua cartada final: tira seu pinto pra fora e coloca no colo da Hannah pra ela o masturbar.

[caption id="attachment_14524" align="aligncenter" width="800"] Cena do episódio ‘American Bitch’, da série ‘Girls’[/caption]

Além de nojento, esse episódio lança luz sobre uma coisa muito verdadeira: homens brilhantes não podem ser estupradores e nem abusar sexualmente de mulheres. Ora, é muito fácil seduzir uma mulher quando tudo ao nosso redor destrói a nossa auto-estima (afinal de contas, tudo o que a Hannah quer é ser uma boa escritora, e ele pontua constantemente o quão inteligente e engraçada ela é, principalmente na escrita). Pois bem, isso acontece fora das telas também. Apesar de ser visto como um homem desconstruído e arrependido de seus pecados, um ex-professor meu acaba de se casar com uma ex-aluna quase quinze anos mais nova. Veja, o problema aqui não é o relacionamento deles por si só, eles podem se amar muito e serem feitos um para o outro, mas eu acho suspeito que um professor se aproxime dessa forma de sua aluna do cursinho (repito: aluna, não ex-aluna). O professor que me abusou de todas as formas possíveis e imagináveis foi absolvido de tudo por ter respeitado a próxima aluna da qual ele foi atrás.

Eu não acho que seja impossível manter relações saudáveis com professores, orientadores e mestres no geral. Amo meu ex-orientador e queria que ele fosse meu tio, sei lá. Também não estou falando que toda e qualquer menina seja seduzida por professores dessa forma. Estou querendo criticar a forma com a qual professores usam de sua autoridade para assediar e abusar de suas alunas. Criticar como o tom professoral e aquele jeito de só-quero-o-seu-bem-linda pode ser nocivo para o aprendizado das alunas – tanto ou mais do que ser xingada de imbecil em voz alta na frente dos colegas. O ideal seria uma relação de respeito mútuo, que a aluna seja capaz de aprender em um ambiente livre de objetificações e medo – senão sua cabeça, que já tem um milhão de coisas, terá mais uma: o desconforto ou a aparente obrigação de agradar o mestre a qualquer custo.

Esse episódio de Girls ensina como devemos olhar com cautela para os homens que admiramos, e que não devemos nos deixar levar pelo efeito que esses homens podem ter sobre nós. Não precisamos da massagem nos nossos ombros, nem do carinho na perna feito pelo instrutor da auto-escola, nem do professor que chega perto demais pra tirar suas dúvidas. Precisamos menos ainda sermos xingadas a plenos pulmões na sala de aula, ou silenciadas e intelectualmente desmerecidas por um orientador. Precisamos de respeito à nossa condição de estudante – mas principalmente à nossa condição de mulher.

Escrito por
Mais de Júlia Rocha

#nossoamigosecreto

A recente campanha #meuamigosecreto tem mobilizado uma série de meninas a denunciar o comportamento incoerente de outros com relação ao preconceito e à discriminação – principalmente o machismo. A hashtag, que você pode acompanhar aqui, me lembrou muito a campanha #PrimeiroAssedio: mais uma vez as mulheres não vão se calar frente aos abusos diários. Mais do que isso, vamos expor tudo o que aguentamos em nossas relações interpessoais. O mais interessante desse fenômeno é o que ele tem levantado sobre exposição nas redes sociais.

Há dois meses eu escrevi um texto expondo um ex-namorado que foi extremamente abusivo comigo. O texto, que quase foi publicado aqui na Ovelha, ganhou uma série de likes, sendo muitos desses vindo de amigos que tenho em comum com esse ex. Também recebi muitas mensagens de apoio e carinho de conhecidos que afirmavam não fazer ideia do que havido acontecido entre nós e o quanto eles sentiam muito por não terem me ajudado. O que isso tem a ver? Meu texto foi feito praticamente da forma que a campanha tem sido estruturada: sem identificação, sem citar nomes, apenas descrição de fatos – que, convenhamos, passam a não ser mais segredo quando eles acontecem em público. O que me entristeceu muito foi o fato de que diversas pessoas questionaram a minha decisão de expô-lo, mas não foram empáticas o suficiente para entender que aquilo não era inédito. Tudo o que eu fiz foi reiterar e retomar fatos que aconteceram na frente de todos, e que todos resolveram ignorar.

Pois bem, o meu ponto principal aqui é o seguinte: nós não devemos temer ao expor um homem que foi abusivo, seja conosco, seja com alguma amiga/conhecida/desconhecida nossa (até porque se não há nomes não é possível dizer que houve de fato uma exposição, certo?). A nossa maior preocupação deve ser não expormos as meninas, que sim devem ser protegidas de retaliações e ainda mais abusos – e me enche de alegria ver CENTENAS de meninas na minha timeline que expuseram suas angústias de maneira concisa e muito, muito poderosa.

Portanto, meninas que se incomodam com a exposição de caras nas redes sociais, será que não vale mais a pena refletir sobre o porquê a moça em questão está fazendo isso, em vez de simplesmente tachá-la de injusta ou exagerada? Exagero já não é o que sofremos diariamente com caras desconhecidos e conhecidos? O abuso no âmbito interpessoal não é tão grave quanto o que não o é? Tenho certeza de que todas nós nos identificamos com cada um dos microrrelatos – tudo poderia ter acontecido com qualquer uma de nós, todas nós temos amigos que poderiam ter feito qualquer uma dessas coisas.

Paremos de ter medo e paremos de defender os homens – eles já têm aparatos demais para isso. Preocupemo-nos em expor as situações para que todos os homens se identifiquem e, de fato, desconstruam seus privilégios e opressões. Cada uma de nós quer se sentir confortável o suficiente com nossos amigos homens (e aqui me refiro ao gênero masculino de modo geral, independentemente da orientação sexual, da etnia e da condição social), o que só irá acontecer quando eles pararem de nos oprimir.

#nossoamigosecreto está precisando baixar a bola e nos respeitar um pouco mais.

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