Pornô feminista: orgasmos fora do padrão

Cena de um dos filmes da diretora Jiz Lee, "Threat".

Mulheres não assistem pornô. Mulheres não se excitam com pornografia. Errado! Muito errado! Talvez mulheres assistam menos pornô – supostamente – porque não existam pornôs suficientes que as representem. Que saibam atingir e representar o prazer feminino em sua beleza e complexidade. Mas isso está mudando, amigas! Graças às criativas mentes femininas, queer, trans, etc da indústria erótica.  Algumas dessas mentes brilhantes e revolucionárias estiveram na Premiação de Pornô Feminista, PorYes, que ocorreu lindamente no sábado, dia 17 de outubro, em Berlim.

 
[caption id="attachment_7241" align="alignnone" width="1024"]Jennifer Lyon Bell e Buck Angel conversam antes do início da premiação Jennifer Lyon Bell e Buck Angel conversam antes do início da premiação[/caption]  
Que mulheres são representadas de forma machista em filmes pornôs não é novidade e disso todo mundo que tem o mínimo de senso e que já assistiu pornografia uma vez na vida já se ligou. Mulheres são retratadas como passivas, objetos que estão lá para proporcionar prazer ao homem. Os corpos seguem um padrão de peitos grandes ou gigantes, bundas grandes e vaginas depiladas. Enquanto isso os homens são retratados muitas vezes como agressivos, insensíveis, com corpos mega malhados e pênis gigantescos. São imagens que pouco correspondem à realidade dos espectadores. Isso sem falar nas situações por vezes ridículas que resultam em sexo.

Foi numa tentativa de mudar isso e oferecer uma alternativa fora da pornografia mainstream é que os pornôs feministas surgiram. Neles, as mulheres são o público alvo e são representadas como seres ativos que exploram sua sexualidade de diferentes formas – como é de fato na vida real! E o mais importante: os cenários são montados para contar histórias em que tudo acontece de forma consensual e prazerosa pra todos os lados (enquanto muitos pornôs mainstream exploram a violência contra a mulher como um fetiche).

 
[caption id="attachment_7253" align="aligncenter" width="621"]Cena do filme "Touch", uma co-produção de Gala Vanting Cena do filme “Touch”, uma co-produção de Gala Vanting[/caption]  
A premiação PorYes foi criada em 2009 pela comunicadora e especialista em sexo e anatomia feminina Dr. Laura Meritt, com objetivo de apoiar essa revolução feminista contra a pornografia sexista e mainstream.  O evento acontece de dois em dois anos em Berlim e premia diretores, atores, produtores que consigam, com seus trabalhos, representar e alcançar o prazer feminino. São pessoas que influenciam a indústria de filmes eróticos de forma positiva. Os esforços para trazer o pornô mais próximo das mulheres foram surgindo dentro do Sex-Positive Movement e Sex-Positive Feminism que, entre outras coisas, abrange o sexo como algo saudável, consensual e que deve ser explorado de forma positiva e prazerosa a todos. Nessa experimentação de coisas novas, incluem-se também novas tendências criativas de pornografia, que explorem o imaginativo erótico – e por que não? – o prazer feminino.

 
[caption id="attachment_7252" align="alignnone" width="1024"]Cena do filme "Shutter", dirigido por Goodyn Green Cena do filme “Shutter”, dirigido por Goodyn Green[/caption]  
Achei lindo o que Laura Meritt falou ao apresentar o PorYes 2015, que teve como tema principal esse ano a transexualidade: “Trans é ultrapassar fronteiras, não só de personalidade, mas das normas de gênero e de corpo. É sair de categorias limitadas, colocadas por muitas produções pornográficas, como do que é um corpo bonito ou sexy e do que é ‘sexo bonito’”. Esqueça padrões de beleza esperados e gêneros engavetados em xx e xy ou whatever. Esqueça também aquele “good looking sex”. Nos pornôs feministas da mostra, padrões de beleza e gênero são quebrados com muita criatividade.

Logo depois da abertura feita por Laura e Ula Stöckl, cineasta pioneira na produção de filmes por mulheres para mulheres, foram passadas algumas cenas de um filme com uma mulher gordinha em uma cadeira de rodas que é masturbada por outra mulher; na próxima cena, outra mulher se senta em um pênis de borracha amarrado na perna da mulher na cadeira de rodas. A cena acontece em um cenário simples – a sala de estar de uma casa que parece até meio velha – e as atrizes não correspondem a nenhum padrão de beleza da indústria pornô – são gordinhas e tem marcas no corpo, como cicatrizes. Essas cenas são mostradas para exemplificar o que está sendo produzido fora da pornografia mainstream.

 
[caption id="attachment_7248" align="alignnone" width="997"]Cena do filme "Silver Shoes", de Jennifer Lyon Bell Cena do filme “Silver Shoes”, de Jennifer Lyon Bell[/caption]  
Outro exemplo de produção alternativa são os filmes da primeira premiada da noite, Jennifer Lyon Bell. A diretora holandesa fundou a produtora de filmes eróticos Blue Artichoke Films, em que trabalha com o que é chamado de realismo emocional (emotional realism). O negócio é fazer a cena parecer o mais real possível, com emoções reais. “Sexo pode acontecer em diferentes contextos emocionais, não só de amor romântico, ou girly love, mas de nervosismo, alegria, excitação, etc”, diz Jennifer. Por isso, em seus filmes, as cenas de sexo acontecem em meio a uma relação entre os indivíduos – não necessariamente amorosa, de amizade, ou etc, mas algo que os liga por uma emoção – sejam eles completos desconhecidos ou não. Com técnicas como shot-reverse shot, que vai em volta focando no rosto e expressões dos personagens, e facial reaction shots, os filmes de Jennifer Lyon Bell tentam fazer com que os espectadores se sintam parte do ato. Essas são coisas presentes em seu filme premiado “Silver Shoes”, que conta três histórias relacionadas a um par de sapatos prateados e intercala cenas de sexo hetero, lésbico e de masturbação feminina.

 
[caption id="attachment_7259" align="alignnone" width="1024"]Jennifer Lyon Bell recebe prêmio pelo filme "Silver Shoes" Jennifer Lyon Bell recebe prêmio pelo filme “Silver Shoes” [/caption]  
O filme “Want some Oranges”, da dinamarquesa Goodyn Green, também me chamou muito a atenção na premiação. Uma das mulheres da cena está grávida e exerce o papel dominante, usando um cinto com a prótese de um pênis, com outra mulher. “Isso é para mostrar a mulher grávida em outro papel, um papel não convencional, e isso também é um fetiche”, explica Goodyn Green. Sobre o processo de filmagem, ela diz que monta a cena e deixa a câmera rodar. “O mais importante é os atores terem química entre eles, daí tudo vai acontecendo meio que por acidente”, diz a diretora e fotógrafa.

 
[caption id="attachment_7244" align="alignnone" width="1024"]Goodyn Green ganha prêmio por tematizar androginia em seus projetos Goodyn Green ganha prêmio por tematizar androginia em seus projetos[/caption]  
Mais premiados da noite foram Gala Vanting, Buck Angel e Jiz Lee. A australiana Gala Vanting é entusiasta de BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) e produtora de filmes artísticos que exploram a imaginação erótica. Buck Angel, “the man with a pussy”, foi um dos pioneiros a fazer filmes pornôs como um homem trans. Ele explica que no início ninguém queria filmar com ele por o considerarem uma aberração, mas ele não se importou e criou sua própria produtora com filmes pornôs estrelando homens e mulheres trans. Buck Angel chorou ao fazer o discurso de agradecimento pelo prêmio PorYes 2015, quando falou de seu ativismo para passar conhecimento sobre transexualismo transexualidade e obter mais respeito aos transexuais.

 
[caption id="attachment_7243" align="alignnone" width="1024"]Gala Vanting fala sobre seus projetos como cineasta e entusiasta de BDSM Gala Vanting fala sobre seus projetos como cineasta e entusiasta de BDSM[/caption]  
[caption id="attachment_7245" align="alignnone" width="1024"]Buck Angel recebe prêmio por sua contribuição na causa LGBT Buck Angel recebe prêmio por sua contribuição na causa LGBT[/caption]  
[caption id="attachment_7249" align="alignnone" width="683"]Buck Angel foi pioneiro como homem trans na indústria pornô Buck Angel foi pioneiro como homem trans na indústria pornô[/caption]  
Jiz Lee, que concedeu uma entrevista inteirinha para o Ovelha, recebeu o prêmio por último. Jiz Lee se considera pessoa genderqueer ou não-binária, ou seja, não se identifica como homem nem mulher ou como os dois. Os filmes em que atua representam isso muito bem, ao ultrapassar limitações de conceitos de mulher, homem, hetero ou homossexualidade. Recentemente, Jiz Lee lançou o livro “Coming Out as a Porn Star”, em que são contadas histórias de pessoas que trabalham na indústria pornô: como elas chegaram até ali, o porquê, o que elas fazem e como assumiram isso, ou não, para o mundo.

 
[caption id="attachment_7247" align="alignnone" width="1024"]Cena de um dos filmes de Jiz Lee que foi mostrada na premiação Cena de um dos filmes de Jiz Lee que foi mostrada na premiação[/caption]  
Ir na premiação foi uma experiência além das minhas expectativas. Em algumas poucas horas, conheci um mundo inteiro de coisas novas que exploram a sexualidade feminina de forma muito positiva e de mil e uma formas diferentes! O negócio é esquecer barreiras, categorias, padrões, e pensar no prazer. Sai de lá com esperança numa sociedade que discrimine menos a sexualidade feminina e grite mais: Viva la Vulva!*

 
[caption id="attachment_7246" align="alignnone" width="1024"]Premiados reunidos ao final da noite Premiados reunidos ao final da noite[/caption]  
* As garotas do Sex-Positive-Movement usam essa expressão para exaltar a sexualidade feminina e empoderar nossas vaginas. Laura Meritt saudou o público na abertura do PorYes 2015 com essa frase.

 
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Créditos das fotos: Débora Backes e Polly Fannlaf © poryes

Escrito por
Mais de Débora Backes

“Private Revolutions”: um filme sobre mulheres jovens, egípcias e revolucionárias

Dentro de um carro pelas ruas de Cairo, capital do Egito, uma mulher de aparência estrangeira (por seus cabelos loiros claros e olhos verdes) olha pela janela, enquanto sua voz ao fundo começa a narrativa em alemão. Alexandra Schneider chegou ao Egito em junho 2011, após os protestos de fevereiro do mesmo ano que tiraram o presidente Hosni Mubarak do poder e deram fim a uma ditadura de 30 anos. Com incertezas e esperanças, os egípcios se preparavam, então, para as primeiras eleições presidenciais depois de anos. Nesse turbilhão de opiniões, demonstrações e debates políticos, a diretora austríaca tinha apenas um objetivo: entender o papel das mulheres na onda de revoluções que tomava o país.

Para isso, ela precisou ouvir diferentes mulheres e entrar em contato com diferentes personagens para construir uma visão sobre a participação das jovens, mulheres egípcias na revolução. E foi aí que ela chegou às quatro protagonistas de seu documentário “Private Revolutions: Youg, Female, Egyptian”, lançado em 2014. Cada uma das quatro mulheres tem histórias diferentes que se assemelham de alguma forma. Pelos preconceitos, pela tradição conservadora ou dificuldades que enfrentam. Como achei todas elas muito fortes e suas histórias incríveis, tentarei fazer uma descrição de cada uma.

Sharbat Abdullah: uma mulher forte e convicta de seus posicionamentos políticos. Ela sempre esteve presente nas demonstrações na Praça Tahrir, mas não sossegou após a queda de Mubarak. Continuou indo às ruas, pedindo o boicote das eleições e mudanças na política egípcia. Sofreu com violência policial, foi presa e viu jovens inocentes morrerem nas ruas pelas mãos dos militares, enquanto protestavam. Mesmo assim, ela não perde a coragem e, apesar da falta de apoio de seu marido, segue militando. Mãe de três meninos, ela faz questão de levar seus filhos para as ruas! Em várias cenas do filme, eles aparecem a ajudando. Seja a distribuindo folhetos ou a defendendo de policiais agressivos – como fez seu filho mais velho antes de apanhar e ser preso pelos mesmos policiais.

 

 
Em uma cena muito marcante, ela discute com vários homens na Praça Tahrir, onde divulgava o boicote às eleições de 2012, e explica com muita eloquência seus ideais políticos. Em outro momento, ela conta que seu filho mais novo apanhou da professora na escola por repetir o discurso político da mãe contra Mubarak. Além disso, ela e a família são hostilizados pelos vizinhos do bairro por seu engajamento político – em uma das cenas do filme, a própria equipe de filmagem é quase expulsa do bairro por estar filmando ali. Isso com certeza a abala emocionalmente, mas mesmo assim ela não desiste da luta. Sua esperança de um país melhor para seus filhos e outros jovens egípcios é o que a move. Para mim, ela é um exemplo de que não precisa fazer parte de uma elite intelectual para fazer revolução! Ela é uma mulher indignada com seu país, que se informa e tem coragem. E isso basta. Ela é um baita exemplo de militância!

Fatema Abouzeid: é uma Muslim Sister. Ela é integrante do partido da Irmandade Mulçumana de posição religiosa e política mais radicais. Fatema trabalhou na campanha de Mohamed Morsi durante as eleições de 2012. Entre o trabalho no partido e os afazeres domésticos, ela monta uma rotina: depois de fazer a primeira prece do dia, às 5h30, ela volta a dormir e levanta de novo por volta das 8h para levar os filhos à escola. Quando volta à casa, tem tempo para trabalhar até às 15h. Depois disso se dedica aos três meninos até eles irem dormir. E depois ao marido, quando ele chega em casa. Fatema é uma mulher tradicional que trabalha e estuda para apoiar seu partido – ela se forma mestre em Ciências Políticas e na cerimônia de entrega do diploma agradece ao seu pai e marido, por terem a autorizado a estudar e a apoiado, e à sua mãe, por rezar por ela. Quando as eleições se aproximam, ela começa a passar mais tempo na sede da campanha. As filmagens, que passam a acontecer lá, são interrompidas a pedido de seus chefes. Em uma cena dentro de seu escritório, Fatema pede cordialmente à diretora que a envie o contrato que assinou para autorizar as filmagens, para que mostre a seus supervisores. Alexandra tenta argumentar, sem sucesso, e é obrigada a desligar a câmera. Mesmo fazendo o que os chefes de Fatema pediram, Alaxandra não consegue mais entrar em contato com ela depois desse dia. A jovem desaparece da vida da diretora e do filme…

 

 
Amani Eltunsi: essa, foi pra mim, uma das mulheres mais inspiradoras do filme (a segunda foi a Sharbat). Tive a sorte de vê-la e ouvir seus comentários no fsk Kino, em Berlim, onde foi feita uma entrevista com ela e com a diretora após o filme. Amani é uma mulher que escolheu enfrentar certas tradições de sua cultura: ela decidiu não se casar, nem ter filhos; ela decidiu questionar a violência contra a mulher, tanto psicológica quanto física; ela decidiu colocar em questão a tradição que obriga jovens a se casarem, e se manterem casadas, mesmo contra sua vontade. A própria Amani sofreu com uma forma de violência imposta pela tradição: quando criança, passou por uma mutilação genital, processo que amputa o clitóris da mulher. O tema é introduzido no filme de forma sutil, em uma conversa da protagonista com outras duas jovens. Na conversa, ela pergunta se ambas foram “circuncidadas”. Ao que elas respondem que sim e contam suas histórias, Amani diz: “vocês sabem que vocês não são obrigadas a fazer isso com suas filhas… a escolha é de vocês”, ambas respondem que não pretendem deixar as filhas passarem por isso. Amani conta depois à diretora, já com certa naturalidade, como sua mãe a levou ao médico e ele fez o procedimento, enquanto outras mulheres a seguravam em uma maca. Ela não sabia do que se tratava até vê-lo com uma espécie de tesoura em mãos.

 

 
Sua história a fez forte e a fez querer mudar o destino de outras mulheres no Egito. A protagonista começou com um programa de rádio online chamado “Só para mulheres” (Banat wa Bas, em árabe), em que dá voz a mulheres para falarem sobre violência doméstica, assédio sexual, questões políticas, etc. Com sua editora, publicou um livro sobre esses temas, tendo histórias de mulheres egípcias como pano de fundo. Infelizmente, as cópias foram queimadas – em um incêndio na sede da editora – após a pose de Morsi, em 2012. Quando a Irmandade Mulçumana é eleita, Amani passa a ser perseguida e tem seu site e páginas no Facebook hackeados e tirados do ar. Sem escolha e com muita dor, resolve ir para Dubai para seguir sua vida e procurar emprego.

May Gah Allah: é talvez uma das mais jovens entre as protagonistas. May faz parte de uma minoria discriminada no Egito: o povo da região da Núbia situada no vale do Rio Nilo. Talvez o preconceito que sofreu durante a vida tenha lhe dado tanta coragem. May larga seu emprego em um banco, motivada em fazer alguma diferença para a sua população. “Eu me perguntei um dia antes de dormir: e se eu morrer amanhã e Deus me perguntar o que eu fiz pelas pessoas, devo dizer a ele que só ganhei dinheiro?”. Com essa questão pessoal, May começa seu projeto. Ela une todos os esforços para construir uma cooperativa para os moradores de sua cidade natal ao sul do Egito. Eu seu projeto de cooperativa, aulas de computação, esportes e atividades de lazer seriam oferecidas a todos – incluindo mulheres e meninas. Em uma das cenas do filme, May, usando uma camiseta com “I love being Black” joga futebol com algumas meninas de sua comunidade e explica como aquilo é novo e importante para elas. Apesar das dificuldades de enfrentar uma tradição muito conservadora com ideias novas, May não desiste e acaba se mudando de volta a sua cidade natal na Núbia para seguir seu sonho.

 

 
As histórias das quatro protagonistas vão se intercalando e a diretora também se faz presente, ao aparecer em algumas cenas ou com sua voz nas entrevistas. Achei o filme bom também por esse aspecto, já que diretora, uma austríaca, não tenta fazer o filme como se fosse uma egípcia. Ela reconhece seu papel como outsider e se apresenta como estrangeira tentando conhecer e entender uma realidade nova.

A gravação do filme durou dois anos e, claro, que nesse meio tempo muita coisa aconteceu na política do país e na vida das protagonistas. Sharbat, que reclamava da falta de apoio do marido, pede o divórcio para seguir sua militância sozinha com seus filhos. Amani que foi perseguida e obrigada a se mudar para Dubai consegue retornar ao Egito, em 2013, após a queda de Morsi e da Irmandade Mulçumana. Hoje ela tem uma editora e lançou uma revista chamada “Ladies 1st”. Orgulhosa, ela contou, em sua curta entrevista em Berlim, que terminou recentemente seu PhD,no qual analisou a violência contra a mulher em séries da televisão egípcia.

May se casou com um homem da sua região e que a apoia no seu projeto na comunidade. Alexandra Schneider conta que nunca mais teve notícias de Fatema desde sua última filmagem na sede do partido. Com a queda de Morsi, integrantes da Irmandade Mulçumana passaram a ser perseguidos. Alexandra acredita que depois disso Fatema tenha saído do país, provavelmente.

 
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O filme apresenta personalidades tão fortes com muita sensibilidade. Ele não aborda diretamente questões como violência doméstica, assédio sexual, discriminação ou casamento obrigatório. Mas muitos pontos relevantes para discussões de gênero são problematizados de forma sutil. Como o casamento, por exemplo. Amani e May questionam diversas vezes as visões de suas famílias de que elas precisam se casar o quanto antes. “As mulheres perguntam quem vai cuidar de mim e me sustentar, se eu não tiver um marido?”, relata May sobre o que viveu em sua comunidade. May se casa depois, mas por escolha própria e com alguém que ela também escolheu. Amani decide se focar exclusivamente em sua carreira, o que para algumas mulheres no Oriente Médio ainda é incomum.

Em pequenos detalhes do filme, percebe-se qual a relação da sociedade com a mulher. Quando May vai a um dos ministérios, terminar a papelada da cooperativa, ela é questionada de onde ela conseguiu as doações e o terreno para construção do prédio. Os responsáveis – todos homens – parecem achar um pouco inacreditável que ela tenha recebido tudo como doação, mas ao que ela diz “meu pai conhece muitas pessoas”, a reação muda: “Ah, então foi por causa do seu pai…” É como se uma mulher sozinha não pudesse ter essas conexões. Em outra cena, Amani discute calmamente em uma livraria, onde apresentava seu livro, com alguns homens que parecem contrariados por seu discurso feminista. Para eles, suas esposas têm que fazer o que eles mandam. Amani reage com muita calma – porque já deve ter se acostumado a ouvir coisas assim – e tenta argumentar com os espectadores, mostrando o lado das mulheres.

Ao final do filme, procurei Amani e a perguntei: a situação das mulheres no Egito melhorou de alguma forma? Ela me respondeu rapidamente que não, apenas havia piorado tendo em vista toda a situação política do país – Morsi foi retirado pelas Forças Armadas e condenado à morte, em maio desse ano. Recentemente o Primeiro-Ministro Ibrahim Mahlab pediu demissão e as próximas eleições legislativas estão marcadas para acontecer em outubro. O futuro do Egito parece incerto, e o das egípcias talvez mais ainda.

Por isso a luta continua. Das protagonistas do filme e de muitas outras mulheres no Egito. Até que as revoluções privadas se tornem uma revolução coletiva de todas as mulheres.

 
Créditos das fotos: © Daniela Praher Filmproduktion`

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PorYes, que ocorreu lindamente no sábado, dia 17 de outubro, em Berlim.

 

 
Que mulheres são representadas de forma machista em filmes pornôs não é novidade e disso todo mundo que tem o mínimo de senso e que já assistiu pornografia uma vez na vida já se ligou. Mulheres são retratadas como passivas, objetos que estão lá para proporcionar prazer ao homem. Os corpos seguem um padrão de peitos grandes ou gigantes, bundas grandes e vaginas depiladas. Enquanto isso os homens são retratados muitas vezes como agressivos, insensíveis, com corpos mega malhados e pênis gigantescos. São imagens que pouco correspondem à realidade dos espectadores. Isso sem falar nas situações por vezes ridículas que resultam em sexo.

Foi numa tentativa de mudar isso e oferecer uma alternativa fora da pornografia mainstream é que os pornôs feministas surgiram. Neles, as mulheres são o público alvo e são representadas como seres ativos que exploram sua sexualidade de diferentes formas – como é de fato na vida real! E o mais importante: os cenários são montados para contar histórias em que tudo acontece de forma consensual e prazerosa pra todos os lados (enquanto muitos pornôs mainstream exploram a violência contra a mulher como um fetiche).

 

 
A premiação PorYes foi criada em 2009 pela comunicadora e especialista em sexo e anatomia feminina Dr. Laura Meritt, com objetivo de apoiar essa revolução feminista contra a pornografia sexista e mainstream.  O evento acontece de dois em dois anos em Berlim e premia diretores, atores, produtores que consigam, com seus trabalhos, representar e alcançar o prazer feminino. São pessoas que influenciam a indústria de filmes eróticos de forma positiva. Os esforços para trazer o pornô mais próximo das mulheres foram surgindo dentro do Sex-Positive Movement e Sex-Positive Feminism que, entre outras coisas, abrange o sexo como algo saudável, consensual e que deve ser explorado de forma positiva e prazerosa a todos. Nessa experimentação de coisas novas, incluem-se também novas tendências criativas de pornografia, que explorem o imaginativo erótico – e por que não? – o prazer feminino.

 

 
Achei lindo o que Laura Meritt falou ao apresentar o PorYes 2015, que teve como tema principal esse ano a transexualidade: “Trans é ultrapassar fronteiras, não só de personalidade, mas das normas de gênero e de corpo. É sair de categorias limitadas, colocadas por muitas produções pornográficas, como do que é um corpo bonito ou sexy e do que é ‘sexo bonito’”. Esqueça padrões de beleza esperados e gêneros engavetados em xx e xy ou whatever. Esqueça também aquele “good looking sex”. Nos pornôs feministas da mostra, padrões de beleza e gênero são quebrados com muita criatividade.

Logo depois da abertura feita por Laura e Ula Stöckl, cineasta pioneira na produção de filmes por mulheres para mulheres, foram passadas algumas cenas de um filme com uma mulher gordinha em uma cadeira de rodas que é masturbada por outra mulher; na próxima cena, outra mulher se senta em um pênis de borracha amarrado na perna da mulher na cadeira de rodas. A cena acontece em um cenário simples – a sala de estar de uma casa que parece até meio velha – e as atrizes não correspondem a nenhum padrão de beleza da indústria pornô – são gordinhas e tem marcas no corpo, como cicatrizes. Essas cenas são mostradas para exemplificar o que está sendo produzido fora da pornografia mainstream.

 

 
Outro exemplo de produção alternativa são os filmes da primeira premiada da noite, Jennifer Lyon Bell. A diretora holandesa fundou a produtora de filmes eróticos Blue Artichoke Films, em que trabalha com o que é chamado de realismo emocional (emotional realism). O negócio é fazer a cena parecer o mais real possível, com emoções reais. “Sexo pode acontecer em diferentes contextos emocionais, não só de amor romântico, ou girly love, mas de nervosismo, alegria, excitação, etc”, diz Jennifer. Por isso, em seus filmes, as cenas de sexo acontecem em meio a uma relação entre os indivíduos – não necessariamente amorosa, de amizade, ou etc, mas algo que os liga por uma emoção – sejam eles completos desconhecidos ou não. Com técnicas como shot-reverse shot, que vai em volta focando no rosto e expressões dos personagens, e facial reaction shots, os filmes de Jennifer Lyon Bell tentam fazer com que os espectadores se sintam parte do ato. Essas são coisas presentes em seu filme premiado “Silver Shoes”, que conta três histórias relacionadas a um par de sapatos prateados e intercala cenas de sexo hetero, lésbico e de masturbação feminina.

 

 
O filme “Want some Oranges”, da dinamarquesa Goodyn Green, também me chamou muito a atenção na premiação. Uma das mulheres da cena está grávida e exerce o papel dominante, usando um cinto com a prótese de um pênis, com outra mulher. “Isso é para mostrar a mulher grávida em outro papel, um papel não convencional, e isso também é um fetiche”, explica Goodyn Green. Sobre o processo de filmagem, ela diz que monta a cena e deixa a câmera rodar. “O mais importante é os atores terem química entre eles, daí tudo vai acontecendo meio que por acidente”, diz a diretora e fotógrafa.

 

 
Mais premiados da noite foram Gala Vanting, Buck Angel e Jiz Lee. A australiana Gala Vanting é entusiasta de BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) e produtora de filmes artísticos que exploram a imaginação erótica. Buck Angel, “the man with a pussy”, foi um dos pioneiros a fazer filmes pornôs como um homem trans. Ele explica que no início ninguém queria filmar com ele por o considerarem uma aberração, mas ele não se importou e criou sua própria produtora com filmes pornôs estrelando homens e mulheres trans. Buck Angel chorou ao fazer o discurso de agradecimento pelo prêmio PorYes 2015, quando falou de seu ativismo para passar conhecimento sobre transexualismo transexualidade e obter mais respeito aos transexuais.

 

 

 

 
Jiz Lee, que concedeu uma entrevista inteirinha para o Ovelha, recebeu o prêmio por último. Jiz Lee se considera pessoa genderqueer ou não-binária, ou seja, não se identifica como homem nem mulher ou como os dois. Os filmes em que atua representam isso muito bem, ao ultrapassar limitações de conceitos de mulher, homem, hetero ou homossexualidade. Recentemente, Jiz Lee lançou o livro “Coming Out as a Porn Star”, em que são contadas histórias de pessoas que trabalham na indústria pornô: como elas chegaram até ali, o porquê, o que elas fazem e como assumiram isso, ou não, para o mundo.

 

 
Ir na premiação foi uma experiência além das minhas expectativas. Em algumas poucas horas, conheci um mundo inteiro de coisas novas que exploram a sexualidade feminina de forma muito positiva e de mil e uma formas diferentes! O negócio é esquecer barreiras, categorias, padrões, e pensar no prazer. Sai de lá com esperança numa sociedade que discrimine menos a sexualidade feminina e grite mais: Viva la Vulva!*

 

 
* As garotas do Sex-Positive-Movement usam essa expressão para exaltar a sexualidade feminina e empoderar nossas vaginas. Laura Meritt saudou o público na abertura do PorYes 2015 com essa frase.

 

Créditos das fotos: Débora Backes e Polly Fannlaf © poryes

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