Como eu disse aqui na Ovelha, na minha primeira participação, faz mais ou menos um ano que me dedico à leitura de escritoras mulheres. Já fui da autoajuda à poesia, do romance à teoria, e continuo nessa empreitada para fortalecer nosso mercado literário e para me fortalecer também, né, por que não?
Faz uns dois meses, uma grande amiga me perguntou se, ao só ler mulheres, eu não sentia falta dos autores homens, se um Mia Couto não me causava saudades. Nem titubeei ao dizer que não. Depois de conversarmos mais sobre isso, ela acabou mudando de ideia… E gosto de pensar que foi porque viu minha estante de livros e abriu o primeiro livro de poesia que entreguei a ela: a Antologia de poemas da Adília Lopes.
Foi essa mesma amiga, depois de perceber o quanto estava atravessada pela dúvida em relação às escritoras mulheres, que me sugeriu que eu divulgasse o que eu andava lendo. Muitas vezes eu acabava falando do livro que estava lendo no meu próprio Facebook e via como outras mulheres se empolgavam na discussão, então por que não expandir isso? Foi assim que entrei em contato, de novo, com as Ovelhas maravilhosas e me propus a escrever sobre mulheres na literatura. Sei que muito do que vai sair aqui estará imerso nessa paixão louca que tenho pelos livros, mas acho que isso também faz parte da admiração e da sororidade, então tá tudo certo.
E nada mais justo do que começar falando dessa poeta fabulosa que é a Adília Lopes, que foi justamente quem me ajudou a dar o pontapé inicial nessa troca deliciosa entre mulheres. Conheci a Adília ainda na época da faculdade, através de um professor de Literatura Portuguesa. Ele, acompanhando meus gostos, me disse que a Adília se tornaria minha paixão. E assim foi. Logo no primeiro poema fiquei tonta, zonza, imersa nesse universo português tão simples e tão envolvente.
No more tears foi o primeiro poema que li da Adília e foi daquelas leituras que te deixam parada alguns minutos, absorvendo toda as camadas que a poeta lança ao falar de algo tão simples e corriqueiro como a infância:
No more tears Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa de minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar
In: O decote da dama de espadas, 1988
Em seu poema, ela coloca não só o lugar da criança, como o lugar da criança mulher, atravessada pela mãe, pelos cabelos, pelas lágrimas e pelos vestidos, aqueles que não choram.
Adília Lopes é o codinome de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira que nasceu em Lisboa, no dia 20 de abril de 1960. Ela publica seus primeiros poemas em 1984, mas se consagra como escritora a partir de 1985, quando começa uma série de publicações que a levaram a ser conhecida por toda parte em Portugal. Por conta de uma história curiosa de psicose esquizoafetiva, muito citada em seus poemas, Adília larga a primeira faculdade que cursa, Física, por uma indicação médica. Após um tempo afastada dos estudos, passa a se dedicar à Literatura e Linguística (graças à Deusa).
Fedra está apaixonada
por Hipólito
Hipólito não está apaixonado
por Fedra
Fedra enforca-se
Hipólito morre
num acidente
Dido está apaixonada
por Eneias
Eneias não está apaixonado
por Dido
Dido oferece uma espada
a Eneias
Eneias esquece-se da espada
quando se vai embora
Dido suicida-se
com a espada esquecida
por Eneias
Um desgosto de amor
atirou-me para um
curso de dactilografia
consolo-me
a escrever automaticamente
o pior são os tempos livres
In: Sete rios entre campos, 1999
Obviamente, Adília se tornou uma das minhas poetas favoritas. Afinal de contas, não dá para não se apaixonar por alguém que se autodenomina uma “freira poetisa barroca” e faz poesia sobre o cotidiano de uma maneira delicada e marcante.
É possível achar muitos outros poemas da Adília Lopes espalhados pela internet, mas, se você é daquelas que ama livros e vai querer ler tudo de cabo a rabo, corre pra comprar logo, porque essa Antologia que citei foi publicada no Brasil pela Cosac Naify em parceria com a 7Letras, na coleção Ás de Colete. Por conta do encerramento das atividades da Cosac, é provável que o livro esgote em breve. E não se sabe quando haverá uma reedição, infelizmente. :(
Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima muito
e como queima
muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo
In: Um jogo bastante perigoso, 1985.
Leiam Adília Lopes, meninas! Vamos celebrar essas mulheres incríveis que produzem intensamente e falam também intensamente sobre ser mulher. <3
Como eu disse aqui na Ovelha, na minha primeira participação, faz mais ou menos um ano que me dedico à leitura de escritoras mulheres. Já fui da autoajuda à poesia, do romance à teoria, e continuo nessa empreitada para fortalecer nosso mercado literário e para me fortalecer também, né, por que não?
Faz uns dois meses, uma grande amiga me perguntou se, ao só ler mulheres, eu não sentia falta dos autores homens, se um Mia Couto não me causava saudades. Nem titubeei ao dizer que não. Depois de conversarmos mais sobre isso, ela acabou mudando de ideia… E gosto de pensar que foi porque viu minha estante de livros e abriu o primeiro livro de poesia que entreguei a ela: a Antologia de poemas da Adília Lopes.
Foi essa mesma amiga, depois de perceber o quanto estava atravessada pela dúvida em relação às escritoras mulheres, que me sugeriu que eu divulgasse o que eu andava lendo. Muitas vezes eu acabava falando do livro que estava lendo no meu próprio Facebook e via como outras mulheres se empolgavam na discussão, então por que não expandir isso? Foi assim que entrei em contato, de novo, com as Ovelhas maravilhosas e me propus a escrever sobre mulheres na literatura. Sei que muito do que vai sair aqui estará imerso nessa paixão louca que tenho pelos livros, mas acho que isso também faz parte da admiração e da sororidade, então tá tudo certo.
E nada mais justo do que começar falando dessa poeta fabulosa que é a Adília Lopes, que foi justamente quem me ajudou a dar o pontapé inicial nessa troca deliciosa entre mulheres. Conheci a Adília ainda na época da faculdade, através de um professor de Literatura Portuguesa. Ele, acompanhando meus gostos, me disse que a Adília se tornaria minha paixão. E assim foi. Logo no primeiro poema fiquei tonta, zonza, imersa nesse universo português tão simples e tão envolvente.
No more tears foi o primeiro poema que li da Adília e foi daquelas leituras que te deixam parada alguns minutos, absorvendo toda as camadas que a poeta lança ao falar de algo tão simples e corriqueiro como a infância:
No more tears Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa de minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar
In: O decote da dama de espadas, 1988
Em seu poema, ela coloca não só o lugar da criança, como o lugar da criança mulher, atravessada pela mãe, pelos cabelos, pelas lágrimas e pelos vestidos, aqueles que não choram.
Adília Lopes é o codinome de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira que nasceu em Lisboa, no dia 20 de abril de 1960. Ela publica seus primeiros poemas em 1984, mas se consagra como escritora a partir de 1985, quando começa uma série de publicações que a levaram a ser conhecida por toda parte em Portugal. Por conta de uma história curiosa de psicose esquizoafetiva, muito citada em seus poemas, Adília larga a primeira faculdade que cursa, Física, por uma indicação médica. Após um tempo afastada dos estudos, passa a se dedicar à Literatura e Linguística (graças à Deusa).
Fedra está apaixonada
por Hipólito
Hipólito não está apaixonado
por Fedra
Fedra enforca-se
Hipólito morre
num acidente
Dido está apaixonada
por Eneias
Eneias não está apaixonado
por Dido
Dido oferece uma espada
a Eneias
Eneias esquece-se da espada
quando se vai embora
Dido suicida-se
com a espada esquecida
por Eneias
Um desgosto de amor
atirou-me para um
curso de dactilografia
consolo-me
a escrever automaticamente
o pior são os tempos livres
In: Sete rios entre campos, 1999
Obviamente, Adília se tornou uma das minhas poetas favoritas. Afinal de contas, não dá para não se apaixonar por alguém que se autodenomina uma “freira poetisa barroca” e faz poesia sobre o cotidiano de uma maneira delicada e marcante.
É possível achar muitos outros poemas da Adília Lopes espalhados pela internet, mas, se você é daquelas que ama livros e vai querer ler tudo de cabo a rabo, corre pra comprar logo, porque essa Antologia que citei foi publicada no Brasil pela Cosac Naify em parceria com a 7Letras, na coleção Ás de Colete. Por conta do encerramento das atividades da Cosac, é provável que o livro esgote em breve. E não se sabe quando haverá uma reedição, infelizmente. :(
Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima muito
e como queima
muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo
In: Um jogo bastante perigoso, 1985.
Leiam Adília Lopes, meninas! Vamos celebrar essas mulheres incríveis que produzem intensamente e falam também intensamente sobre ser mulher. <3
Como eu disse aqui na Ovelha, na minha primeira participação, faz mais ou menos um ano que me dedico à leitura de escritoras mulheres. Já fui da autoajuda à poesia, do romance à teoria, e continuo nessa empreitada para fortalecer nosso mercado literário e para me fortalecer também, né, por que não?
Faz uns dois meses, uma grande amiga me perguntou se, ao só ler mulheres, eu não sentia falta dos autores homens, se um Mia Couto não me causava saudades. Nem titubeei ao dizer que não. Depois de conversarmos mais sobre isso, ela acabou mudando de ideia… E gosto de pensar que foi porque viu minha estante de livros e abriu o primeiro livro de poesia que entreguei a ela: a Antologia de poemas da Adília Lopes.
[caption id="attachment_10385" align="aligncenter" width="408"] Adília e gato, como não amar?[/caption]
Foi essa mesma amiga, depois de perceber o quanto estava atravessada pela dúvida em relação às escritoras mulheres, que me sugeriu que eu divulgasse o que eu andava lendo. Muitas vezes eu acabava falando do livro que estava lendo no meu próprio Facebook e via como outras mulheres se empolgavam na discussão, então por que não expandir isso? Foi assim que entrei em contato, de novo, com as Ovelhas maravilhosas e me propus a escrever sobre mulheres na literatura. Sei que muito do que vai sair aqui estará imerso nessa paixão louca que tenho pelos livros, mas acho que isso também faz parte da admiração e da sororidade, então tá tudo certo.
E nada mais justo do que começar falando dessa poeta fabulosa que é a Adília Lopes, que foi justamente quem me ajudou a dar o pontapé inicial nessa troca deliciosa entre mulheres. Conheci a Adília ainda na época da faculdade, através de um professor de Literatura Portuguesa. Ele, acompanhando meus gostos, me disse que a Adília se tornaria minha paixão. E assim foi. Logo no primeiro poema fiquei tonta, zonza, imersa nesse universo português tão simples e tão envolvente.
No more tears foi o primeiro poema que li da Adília e foi daquelas leituras que te deixam parada alguns minutos, absorvendo toda as camadas que a poeta lança ao falar de algo tão simples e corriqueiro como a infância:
No more tears Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa de minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar
In: O decote da dama de espadas, 1988
Em seu poema, ela coloca não só o lugar da criança, como o lugar da criança mulher, atravessada pela mãe, pelos cabelos, pelas lágrimas e pelos vestidos, aqueles que não choram.
Adília Lopes é o codinome de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira que nasceu em Lisboa, no dia 20 de abril de 1960. Ela publica seus primeiros poemas em 1984, mas se consagra como escritora a partir de 1985, quando começa uma série de publicações que a levaram a ser conhecida por toda parte em Portugal. Por conta de uma história curiosa de psicose esquizoafetiva, muito citada em seus poemas, Adília larga a primeira faculdade que cursa, Física, por uma indicação médica. Após um tempo afastada dos estudos, passa a se dedicar à Literatura e Linguística (graças à Deusa).
Fedra está apaixonada
por Hipólito
Hipólito não está apaixonado
por Fedra
Fedra enforca-se
Hipólito morre
num acidente
Dido está apaixonada
por Eneias
Eneias não está apaixonado
por Dido
Dido oferece uma espada
a Eneias
Eneias esquece-se da espada
quando se vai embora
Dido suicida-se
com a espada esquecida
por Eneias
Um desgosto de amor
atirou-me para um
curso de dactilografia
consolo-me
a escrever automaticamente
o pior são os tempos livres
In: Sete rios entre campos, 1999
Obviamente, Adília se tornou uma das minhas poetas favoritas. Afinal de contas, não dá para não se apaixonar por alguém que se autodenomina uma “freira poetisa barroca” e faz poesia sobre o cotidiano de uma maneira delicada e marcante.
É possível achar muitos outros poemas da Adília Lopes espalhados pela internet, mas, se você é daquelas que ama livros e vai querer ler tudo de cabo a rabo, corre pra comprar logo, porque essa Antologia que citei foi publicada no Brasil pela Cosac Naify em parceria com a 7Letras, na coleção Ás de Colete. Por conta do encerramento das atividades da Cosac, é provável que o livro esgote em breve. E não se sabe quando haverá uma reedição, infelizmente. :(
Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima muito
e como queima
muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo
In: Um jogo bastante perigoso, 1985.
Leiam Adília Lopes, meninas! Vamos celebrar essas mulheres incríveis que produzem intensamente e falam também intensamente sobre ser mulher. <3
Como eu disse aqui na Ovelha, na minha primeira participação, faz mais ou menos um ano que me dedico à leitura de escritoras mulheres. Já fui da autoajuda à poesia, do romance à teoria, e continuo nessa empreitada para fortalecer nosso mercado literário e para me fortalecer também, né, por que não?
Faz uns dois meses, uma grande amiga me perguntou se, ao só ler mulheres, eu não sentia falta dos autores homens, se um Mia Couto não me causava saudades. Nem titubeei ao dizer que não. Depois de conversarmos mais sobre isso, ela acabou mudando de ideia… E gosto de pensar que foi porque viu minha estante de livros e abriu o primeiro livro de poesia que entreguei a ela: a Antologia de poemas da Adília Lopes.
Foi essa mesma amiga, depois de perceber o quanto estava atravessada pela dúvida em relação às escritoras mulheres, que me sugeriu que eu divulgasse o que eu andava lendo. Muitas vezes eu acabava falando do livro que estava lendo no meu próprio Facebook e via como outras mulheres se empolgavam na discussão, então por que não expandir isso? Foi assim que entrei em contato, de novo, com as Ovelhas maravilhosas e me propus a escrever sobre mulheres na literatura. Sei que muito do que vai sair aqui estará imerso nessa paixão louca que tenho pelos livros, mas acho que isso também faz parte da admiração e da sororidade, então tá tudo certo.
E nada mais justo do que começar falando dessa poeta fabulosa que é a Adília Lopes, que foi justamente quem me ajudou a dar o pontapé inicial nessa troca deliciosa entre mulheres. Conheci a Adília ainda na época da faculdade, através de um professor de Literatura Portuguesa. Ele, acompanhando meus gostos, me disse que a Adília se tornaria minha paixão. E assim foi. Logo no primeiro poema fiquei tonta, zonza, imersa nesse universo português tão simples e tão envolvente.
No more tears foi o primeiro poema que li da Adília e foi daquelas leituras que te deixam parada alguns minutos, absorvendo toda as camadas que a poeta lança ao falar de algo tão simples e corriqueiro como a infância:
No more tears Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa de minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar
In: O decote da dama de espadas, 1988
Em seu poema, ela coloca não só o lugar da criança, como o lugar da criança mulher, atravessada pela mãe, pelos cabelos, pelas lágrimas e pelos vestidos, aqueles que não choram.
Adília Lopes é o codinome de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira que nasceu em Lisboa, no dia 20 de abril de 1960. Ela publica seus primeiros poemas em 1984, mas se consagra como escritora a partir de 1985, quando começa uma série de publicações que a levaram a ser conhecida por toda parte em Portugal. Por conta de uma história curiosa de psicose esquizoafetiva, muito citada em seus poemas, Adília larga a primeira faculdade que cursa, Física, por uma indicação médica. Após um tempo afastada dos estudos, passa a se dedicar à Literatura e Linguística (graças à Deusa).
Fedra está apaixonada
por Hipólito
Hipólito não está apaixonado
por Fedra
Fedra enforca-se
Hipólito morre
num acidente
Dido está apaixonada
por Eneias
Eneias não está apaixonado
por Dido
Dido oferece uma espada
a Eneias
Eneias esquece-se da espada
quando se vai embora
Dido suicida-se
com a espada esquecida
por Eneias
Um desgosto de amor
atirou-me para um
curso de dactilografia
consolo-me
a escrever automaticamente
o pior são os tempos livres
In: Sete rios entre campos, 1999
Obviamente, Adília se tornou uma das minhas poetas favoritas. Afinal de contas, não dá para não se apaixonar por alguém que se autodenomina uma “freira poetisa barroca” e faz poesia sobre o cotidiano de uma maneira delicada e marcante.
É possível achar muitos outros poemas da Adília Lopes espalhados pela internet, mas, se você é daquelas que ama livros e vai querer ler tudo de cabo a rabo, corre pra comprar logo, porque essa Antologia que citei foi publicada no Brasil pela Cosac Naify em parceria com a 7Letras, na coleção Ás de Colete. Por conta do encerramento das atividades da Cosac, é provável que o livro esgote em breve. E não se sabe quando haverá uma reedição, infelizmente. :(
Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima muito
e como queima
muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo
In: Um jogo bastante perigoso, 1985.
Leiam Adília Lopes, meninas! Vamos celebrar essas mulheres incríveis que produzem intensamente e falam também intensamente sobre ser mulher. <3
na minha primeira participação, faz mais ou menos um ano que me dedico à leitura de escritoras mulheres. Já fui da autoajuda à poesia, do romance à teoria, e continuo nessa empreitada para fortalecer nosso mercado literário e para me fortalecer também, né, por que não?
Faz uns dois meses, uma grande amiga me perguntou se, ao só ler mulheres, eu não sentia falta dos autores homens, se um Mia Couto não me causava saudades. Nem titubeei ao dizer que não. Depois de conversarmos mais sobre isso, ela acabou mudando de ideia… E gosto de pensar que foi porque viu minha estante de livros e abriu o primeiro livro de poesia que entreguei a ela: a Antologia de poemas da Adília Lopes.
Foi essa mesma amiga, depois de perceber o quanto estava atravessada pela dúvida em relação às escritoras mulheres, que me sugeriu que eu divulgasse o que eu andava lendo. Muitas vezes eu acabava falando do livro que estava lendo no meu próprio Facebook e via como outras mulheres se empolgavam na discussão, então por que não expandir isso? Foi assim que entrei em contato, de novo, com as Ovelhas maravilhosas e me propus a escrever sobre mulheres na literatura. Sei que muito do que vai sair aqui estará imerso nessa paixão louca que tenho pelos livros, mas acho que isso também faz parte da admiração e da sororidade, então tá tudo certo.
E nada mais justo do que começar falando dessa poeta fabulosa que é a Adília Lopes, que foi justamente quem me ajudou a dar o pontapé inicial nessa troca deliciosa entre mulheres. Conheci a Adília ainda na época da faculdade, através de um professor de Literatura Portuguesa. Ele, acompanhando meus gostos, me disse que a Adília se tornaria minha paixão. E assim foi. Logo no primeiro poema fiquei tonta, zonza, imersa nesse universo português tão simples e tão envolvente.
No more tears foi o primeiro poema que li da Adília e foi daquelas leituras que te deixam parada alguns minutos, absorvendo toda as camadas que a poeta lança ao falar de algo tão simples e corriqueiro como a infância:
No more tears Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa de minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar
In: O decote da dama de espadas, 1988
Em seu poema, ela coloca não só o lugar da criança, como o lugar da criança mulher, atravessada pela mãe, pelos cabelos, pelas lágrimas e pelos vestidos, aqueles que não choram.
Adília Lopes é o codinome de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira que nasceu em Lisboa, no dia 20 de abril de 1960. Ela publica seus primeiros poemas em 1984, mas se consagra como escritora a partir de 1985, quando começa uma série de publicações que a levaram a ser conhecida por toda parte em Portugal. Por conta de uma história curiosa de psicose esquizoafetiva, muito citada em seus poemas, Adília larga a primeira faculdade que cursa, Física, por uma indicação médica. Após um tempo afastada dos estudos, passa a se dedicar à Literatura e Linguística (graças à Deusa).
Fedra está apaixonada
por Hipólito
Hipólito não está apaixonado
por Fedra
Fedra enforca-se
Hipólito morre
num acidente
Dido está apaixonada
por Eneias
Eneias não está apaixonado
por Dido
Dido oferece uma espada
a Eneias
Eneias esquece-se da espada
quando se vai embora
Dido suicida-se
com a espada esquecida
por Eneias
Um desgosto de amor
atirou-me para um
curso de dactilografia
consolo-me
a escrever automaticamente
o pior são os tempos livres
In: Sete rios entre campos, 1999
Obviamente, Adília se tornou uma das minhas poetas favoritas. Afinal de contas, não dá para não se apaixonar por alguém que se autodenomina uma “freira poetisa barroca” e faz poesia sobre o cotidiano de uma maneira delicada e marcante.
É possível achar muitos outros poemas da Adília Lopes espalhados pela internet, mas, se você é daquelas que ama livros e vai querer ler tudo de cabo a rabo, corre pra comprar logo, porque essa Antologia que citei foi publicada no Brasil pela Cosac Naify em parceria com a 7Letras, na coleção Ás de Colete. Por conta do encerramento das atividades da Cosac, é provável que o livro esgote em breve. E não se sabe quando haverá uma reedição, infelizmente. :(
Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima muito
e como queima
muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo
In: Um jogo bastante perigoso, 1985.
Leiam Adília Lopes, meninas! Vamos celebrar essas mulheres incríveis que produzem intensamente e falam também intensamente sobre ser mulher. <3