‘Mustang’ e mulheres oprimidas

“Mustang”, traduzido no Brasil como “Cinco graças” (título péssimo, aliás), é o primeiro longa-metragem da diretora turca Deniz Gamze Ergüven, de 37 anos, e concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro. É uma pena que ainda não tenha data de estreia no país, já que é um filme que merece muito ser visto.

Vamos lá. A história se passa em uma pequena cidade no interior da Turquia. No último dia de aula, as irmãs Sonay (Ilayda Akdogan), Ece (Elit Iscan), Selma (Tugba Sunguroglu), Nur (Doga Zeynep Doguslu) e Lale (Günes Sensoy) decidem aproveitar o dia bem ensolarado para voltarem para casa a pé. Brincam na praia, acompanhadas de alguns colegas meninos da escola, e entram no mar de uniforme mesmo.

Está tudo indo bem – oba, férias! – até que elas são recebidas em casa aos tapas pela avó e pelo tio, seus guardiões desde que elas perderem os pais. “O que houve de errado?”, elas se perguntam. Uma vizinha dedurou o “mau comportamento” e a “depravação” das meninas por terem andado por aí sozinhas com garotos.

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Aqui vale lembrar um pouco da realidade conservadora na Turquia, regida pela lei religiosa islâmica. O país é governado desde 2014 por Recep Tayyip Erdogan, um cara que já declarou que “mulheres e homens não podem ser tratados como iguais”, entre outras coisas absurdas contra os direitos das mulheres.

Ou seja, para as garotas não ficarem com má fama, a rotina delas muda drasticamente. As cinco são aprisionadas em casa, proibidas até de irem para a escola. Grades são colocadas ao redor de toda a casa. Elas são obrigadas a trocarem os shorts jeans curtinhos por túnicas largas, longas e com tons de marrom, e têm aulas apenas sobre como uma mocinha deve se comportar: aprendem a costurar, a arrumar a casa e a cozinhar para os futuros maridos.

Seus casamentos começam a serem arranjados e, como elas não podem opinar sobre mais nada, elas vão sendo oprimidas em muitos aspectos. Em uma das cenas, a irmã mais velha transa, mas não sangra no lençol para comprovar à família do marido que era virgem. Ela é levada às pressas ao hospital, usando o vestido de noiva ainda, onde um médico dirá que realmente o hímen dela ainda está lá.

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A cumplicidade entre elas só é abalada quando distanciadas pelos casamentos forçados. Ver meninas sendo vítimas de um tipo de humilhação que começa dentro da própria família, do tio machista e da avó que só conhece essa realidade opressora, é sufocante.

Porém, Deniz, a diretora, compensa as cenas mais angustiantes com a leveza e a beleza das pequenas alegrias que as meninas ainda conseguem conquistar. A cena em que elas fogem para assistirem a um jogo de futebol é de chorar de tão linda!

Há comparações sendo feitas entre “Mustang” e “As virgens suicidas” (1999), o primeiro longa dirigido por Sofia Coppola. Baseado na obra de Jeffrey Eugenides, o filme se passa numa cidade americana em 1974, onde cinco irmãs são alvo de pais extremamente repressores. No entanto, esses dois filmes são muito diferentes.

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Ao contrário do longa de Coppola, em que os meninos do bairro é que relatam como era “conviver” com as misteriosas e inatingíveis garotas loiras, a história de “Mustang” é contada pelo ponto de vista das próprias meninas, principalmente pelo da irmã mais nova, Lale (foto acima), que é a que mais se inconforma com cada injustiça cometida contra suas irmãs e a que planeja a fuga de casa.

Essa fuga almejada por Lale é também a fuga da abertura de precedentes. Se essa opressão das mulheres acontece hoje no interior da Turquia, e é vista como algo que deve ser aceitado, amanhã será em Istambul, e depois de amanhã em todos os lugares. Mas eu tenho certeza que Lale junto com outras Lales estarão lutando para que as mulheres sejam donas de si mesmas.

O filme não é só Lale, claro. Todas as cinco são protagonistas, cada uma com sua personalidade feminina, e muito – mas muito – fortes quando unidas. As atrizes estão incríveis, como se também fossem irmãs na vida real. Somos todas irmãs no fundo.

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Mais de Letícia Mendes

Links da semana

Bom dia, ovelhas!

Mais um links da semana com várias coisas inspiradoras e outras que merecem um tempinho para leitura. Se quiserem compartilhar mais assuntos interessantes, é só comentar lá embaixo <3


// WOMEN WHO DRAW

Essa é uma plataforma que reúne mulheres que trabalham com ilustração. Dá pra procurar por país, orientação sexual e até religião. Um site foda pra encontrar minas que mandam bem no mundo inteirinho.

www.womenwhodraw.com

wwd

 


// CLIMAXXX

Dica da Luiza Sahd é pra ser anotada. Para a TPM, ela entrevistou a Clarissa Leal (foto em destaque), uma das criadoras da Climaxxx, uma consultoria de artigos eróticos que atende em domicílio. Fica em Porto Alegre (RS), mas em janeiro chega em SP.

 


// CELINA TURCHI

A médica brasileira Celina Turchi foi escolhida como uma das dez cientistas mais importantes de 2016 pela revista britânica Nature devido à pesquisa que descobriu a relação entre a microcefalia e o vírus da zika.

A IstoÉ a entrevistou: “Tenho orgulho da ciência brasileira”

 


// FEMININE HI-FI

O primeiro selo brasileiro dedicado às mulheres do reggae.

logofemininee

 


// MULHERES DE 2016

O Buzzfeed e sua lista de 17 mulheres incríveis de quem provavelmente você não ouviu falar em 2016.

 


// IMPOSTO SOBRE ABSORVENTES

Muitos gráficos organizados pelo Nexo para termos uma noção do imposto sobre absorventes no Brasil e no mundo.

 


// LISTA

A revista Hollywood Reporter reuniu as 50 melhores personagens femininas de Holywood de todos os tempos.

É uma ótima lista para se refletir sobre a representação das mulheres no cinema e na TV.

 


// GILKA MACHADO

Matéria da revista Brasileiros sobre a pioneira do erotismo: a carioca Gilka Machado foi a primeira poeta brasileira a escrever sobre a libertação da mulher pelo sexo.

 


// NÚMEROS

Quem a transfobia matou no Brasil em 2016? – Matéria da Vice

 


// ANÁLISES

Dois balanços feitos pelo El País BR:

Por que o ativismo das mulheres negras incomoda tanto? – Seja no mercado de trabalho ou cultura, a luta da mulher negra para conquistar espaço e ser respeitada é ainda mais difícil que a da mulher branca

Um cordão de mulheres fura o bloqueio machista em 2016 – Líderes, coletivos e executivas travam batalha para mudar a história da condição feminina no país, denunciando ainda o irmão gêmeo do machismo: o racismo

 


Até o ano que vem, amigas! Força nessa virada \o/

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“Mustang”, traduzido no Brasil como “Cinco graças” (título péssimo, aliás), é o primeiro longa-metragem da diretora turca Deniz Gamze Ergüven, de 37 anos, e concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro. É uma pena que ainda não tenha data de estreia no país, já que é um filme que merece muito ser visto.

Vamos lá. A história se passa em uma pequena cidade no interior da Turquia. No último dia de aula, as irmãs Sonay (Ilayda Akdogan), Ece (Elit Iscan), Selma (Tugba Sunguroglu), Nur (Doga Zeynep Doguslu) e Lale (Günes Sensoy) decidem aproveitar o dia bem ensolarado para voltarem para casa a pé. Brincam na praia, acompanhadas de alguns colegas meninos da escola, e entram no mar de uniforme mesmo.

Está tudo indo bem – oba, férias! – até que elas são recebidas em casa aos tapas pela avó e pelo tio, seus guardiões desde que elas perderem os pais. “O que houve de errado?”, elas se perguntam. Uma vizinha dedurou o “mau comportamento” e a “depravação” das meninas por terem andado por aí sozinhas com garotos.

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Aqui vale lembrar um pouco da realidade conservadora na Turquia, regida pela lei religiosa islâmica. O país é governado desde 2014 por Recep Tayyip Erdogan, um cara que já declarou que “mulheres e homens não podem ser tratados como iguais”, entre outras coisas absurdas contra os direitos das mulheres.

Ou seja, para as garotas não ficarem com má fama, a rotina delas muda drasticamente. As cinco são aprisionadas em casa, proibidas até de irem para a escola. Grades são colocadas ao redor de toda a casa. Elas são obrigadas a trocarem os shorts jeans curtinhos por túnicas largas, longas e com tons de marrom, e têm aulas apenas sobre como uma mocinha deve se comportar: aprendem a costurar, a arrumar a casa e a cozinhar para os futuros maridos.

Seus casamentos começam a serem arranjados e, como elas não podem opinar sobre mais nada, elas vão sendo oprimidas em muitos aspectos. Em uma das cenas, a irmã mais velha transa, mas não sangra no lençol para comprovar à família do marido que era virgem. Ela é levada às pressas ao hospital, usando o vestido de noiva ainda, onde um médico dirá que realmente o hímen dela ainda está lá.

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A cumplicidade entre elas só é abalada quando distanciadas pelos casamentos forçados. Ver meninas sendo vítimas de um tipo de humilhação que começa dentro da própria família, do tio machista e da avó que só conhece essa realidade opressora, é sufocante.

Porém, Deniz, a diretora, compensa as cenas mais angustiantes com a leveza e a beleza das pequenas alegrias que as meninas ainda conseguem conquistar. A cena em que elas fogem para assistirem a um jogo de futebol é de chorar de tão linda!

Há comparações sendo feitas entre “Mustang” e “As virgens suicidas” (1999), o primeiro longa dirigido por Sofia Coppola. Baseado na obra de Jeffrey Eugenides, o filme se passa numa cidade americana em 1974, onde cinco irmãs são alvo de pais extremamente repressores. No entanto, esses dois filmes são muito diferentes.

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Ao contrário do longa de Coppola, em que os meninos do bairro é que relatam como era “conviver” com as misteriosas e inatingíveis garotas loiras, a história de “Mustang” é contada pelo ponto de vista das próprias meninas, principalmente pelo da irmã mais nova, Lale (foto acima), que é a que mais se inconforma com cada injustiça cometida contra suas irmãs e a que planeja a fuga de casa.

Essa fuga almejada por Lale é também a fuga da abertura de precedentes. Se essa opressão das mulheres acontece hoje no interior da Turquia, e é vista como algo que deve ser aceitado, amanhã será em Istambul, e depois de amanhã em todos os lugares. Mas eu tenho certeza que Lale junto com outras Lales estarão lutando para que as mulheres sejam donas de si mesmas.

O filme não é só Lale, claro. Todas as cinco são protagonistas, cada uma com sua personalidade feminina, e muito – mas muito – fortes quando unidas. As atrizes estão incríveis, como se também fossem irmãs na vida real. Somos todas irmãs no fundo.

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Vamos lá. A história se passa em uma pequena cidade no interior da Turquia. No último dia de aula, as irmãs Sonay (Ilayda Akdogan), Ece (Elit Iscan), Selma (Tugba Sunguroglu), Nur (Doga Zeynep Doguslu) e Lale (Günes Sensoy) decidem aproveitar o dia bem ensolarado para voltarem para casa a pé. Brincam na praia, acompanhadas de alguns colegas meninos da escola, e entram no mar de uniforme mesmo.

Está tudo indo bem – oba, férias! – até que elas são recebidas em casa aos tapas pela avó e pelo tio, seus guardiões desde que elas perderem os pais. “O que houve de errado?”, elas se perguntam. Uma vizinha dedurou o “mau comportamento” e a “depravação” das meninas por terem andado por aí sozinhas com garotos.

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Ou seja, para as garotas não ficarem com má fama, a rotina delas muda drasticamente. As cinco são aprisionadas em casa, proibidas até de irem para a escola. Grades são colocadas ao redor de toda a casa. Elas são obrigadas a trocarem os shorts jeans curtinhos por túnicas largas, longas e com tons de marrom, e têm aulas apenas sobre como uma mocinha deve se comportar: aprendem a costurar, a arrumar a casa e a cozinhar para os futuros maridos.

Seus casamentos começam a serem arranjados e, como elas não podem opinar sobre mais nada, elas vão sendo oprimidas em muitos aspectos. Em uma das cenas, a irmã mais velha transa, mas não sangra no lençol para comprovar à família do marido que era virgem. Ela é levada às pressas ao hospital, usando o vestido de noiva ainda, onde um médico dirá que realmente o hímen dela ainda está lá.

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A cumplicidade entre elas só é abalada quando distanciadas pelos casamentos forçados. Ver meninas sendo vítimas de um tipo de humilhação que começa dentro da própria família, do tio machista e da avó que só conhece essa realidade opressora, é sufocante.

Porém, Deniz, a diretora, compensa as cenas mais angustiantes com a leveza e a beleza das pequenas alegrias que as meninas ainda conseguem conquistar. A cena em que elas fogem para assistirem a um jogo de futebol é de chorar de tão linda!

Há comparações sendo feitas entre “Mustang” e “As virgens suicidas” (1999), o primeiro longa dirigido por Sofia Coppola. Baseado na obra de Jeffrey Eugenides, o filme se passa numa cidade americana em 1974, onde cinco irmãs são alvo de pais extremamente repressores. No entanto, esses dois filmes são muito diferentes.

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Ao contrário do longa de Coppola, em que os meninos do bairro é que relatam como era “conviver” com as misteriosas e inatingíveis garotas loiras, a história de “Mustang” é contada pelo ponto de vista das próprias meninas, principalmente pelo da irmã mais nova, Lale (foto acima), que é a que mais se inconforma com cada injustiça cometida contra suas irmãs e a que planeja a fuga de casa.

Essa fuga almejada por Lale é também a fuga da abertura de precedentes. Se essa opressão das mulheres acontece hoje no interior da Turquia, e é vista como algo que deve ser aceitado, amanhã será em Istambul, e depois de amanhã em todos os lugares. Mas eu tenho certeza que Lale junto com outras Lales estarão lutando para que as mulheres sejam donas de si mesmas.

O filme não é só Lale, claro. Todas as cinco são protagonistas, cada uma com sua personalidade feminina, e muito – mas muito – fortes quando unidas. As atrizes estão incríveis, como se também fossem irmãs na vida real. Somos todas irmãs no fundo.

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