Estante das minas: Matilde Campilho

Conheci a Matilde Campilho quando, em uma quinta-feira qualquer, fui trabalhar na casa de uma das minhas grandes amigas da vida, a Bianca. Sim, nós duas nos reunimos algumas vezes para compartilhar o dia de homeoffice e curtir a companhia. Nessa quinta-feira fatídica, falávamos sobre poemas, sobre minha trava em escrever, sobre músicas e, em um dado momento, a Bianca disse: você precisa conhecer a Matilde. Sim, eu precisava mesmo. Precisava muito. Foi um daqueles conselhos que só uma grande amiga pode dar. E te amo mais por isso, Bianca.

Ela me emprestou sua edição autografada de Jóquei (a Bianca é amiga da Matilde ~choro e ranger de dentes~), uma lindíssima edição portuguesa da Tinta da China, editora que mora no meu coração. A única coisa que Bianca havia dito sobre Matilde Campilho era que ela é portuguesa e que é uma mulher incrível. E ela é, gente, ela é. Matilde é uma poeta capaz de fazer um livro inteiro de poemas para o amor, para a vida e para todo mundo se entregar. São VII partes, 132 páginas de pura poesia portuguesa.

E lá fui eu, mergulhei naquele livro, como em tantos outros. Confesso que esperava que esse mergulho fosse tranquilo, mas não foi. São selvagens e doces as águas em que Matilde navega, mas com tamanha fluidez e tamanha intensidade que chega a impressionar. Ela consegue ir de um ponto a outro, do quente ao frio, com tanta desenvoltura que é impossível não se apaixonar. Cada novo poema, um novo arrepio, sequencialmente. As palavras que Matilde escolhe são simples, mas combinadas em uma potência enorme. Ela se utiliza de cenários comuns, situações normais, para fazer brotar ali a poesia do dia a dia.

 

O último poema do último príncipe
Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta para te ver dançar.

E isso
diz muito sobre minha caixa torácica.

– Matilde Campilho

 

Dentro do dia a dia contado por Matilde Campilho, se espalha o amor. Não aquele amor limpo e belo, sem rachaduras, mas sim aquele amor que se expande a cada novo contato, a cada nova visão, um amor que se abre em feridas e ondas, que se trata de passado vivido intensamente nas memórias da poeta. A verdade é que a cada poema que lia, me emocionava mais, a ponto de, por vezes, sacudir a cabeça em sinal negativo, aquela dificuldade de acreditar que foi possível existir uma combinação de palavras tão perfeitas.

M

Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sabíamos isso, porque a paixão não é de todo a coisa mais importante mas é sim o canudinho através do qual dá pra ver que o mundo é muito feito de construções de papel-celulose que vem da árvore e que depois se transforma em lista telefónica de onde alguém arranca a página e logo transforma em veleiros e montanhas.

Talvez porque na porta do restaurante habitual alguém toca clarinete ao sol, porque até as ruínas podemos amar nesta cidade, porque eu tenho um olho em você e você tem um dedo em mim, porque para chegar no telhado do aqueduto é preciso percorrer a estreita escadaria de pedra e é impossível não esfregar as costas nas paredes húmidas. Porque atingir o ponto de rebuçado significa simplesmente abandonar todas as coisas e dedicar-se só à concentração, mesmo que todasascoisas sejam um olho preto e um olho castanho e sua dissociação seja a possível causa para a avalanche.

Porque a palavra Bushboy não existia até aqui mas agora sim, porque fazer equilibrismo sobre a corda amarela dentro do apartamento é tudo o que já imaginávamos que ia ser, mesmo antes de acontecer. Porque no interior do pulmão do cervo tem carne que brilha, brilha tanto como o sol que se espelha na ponta da seta. Porque acreditamos, você e eu, que a razão final é que a erva cresça muito acima de nossas cabeças.

– Matilde Campilho

Além de uma escrita super maravilhosa (já deu pra perceber meu amor, né?), Matilde também leva alcunha de poeta nômade. Lisboeta de nascimento e carioca de coração, ela se divide entre Portugal e Brasil, o que acabou causando uma mistura de sotaques que deixa tudo ainda mais encantador. Aliás, não satisfeita em escrever bem, Matilde Campilho também é uma ótima leitora de poesia e faz vários vídeos onde lê seus próprios poemas. Meu favorito tem trilha sonora da Bianca, sim, a minha grande amiga que foi a causa desse amor.

O livro da Matilde, lançado em 2014 em Portugal, já saiu aqui no Brasil pela Editora 34, numa edição básica que me faz sentir falta da edição portuguesa tão linda. Mas, como o que importa mesmo é o texto, tá valendo! Se quiserem seguir a Matilde, além do seu canal do YouTube com vídeos lindos, ela também divide um programa chamado Pingue Pongue, na rádio Antena 3, com Tomás Cunha Ferreira, que dá pra ouvir aqui.

Vou deixar mais um pedacinho de poema da Matilde aqui. Porque sim. Porque ela me emocionou e me emociona tanto que me fez escrever mais poemas. Obrigada, Matilde, por essa sorte que é dividir um mundo com você.

Ainda estou sem saber como é que se faz um poema mas pelo menos já sei dobrar a roupa.

– Matilde Campilho.

 

Mais de Estela Rosa

A vida não é um miojo

Outro dia conversava com uma amiga sobre sua tentativa de parar de fumar e começar a fazer exercícios físicos. Ela falava sobre estar um tanto quanto frustrada com suas tentativas, que queria acordar um dia e simplesmente ter outro comportamento, outra forma de encarar os vícios e passividades que a cercavam. Algo como abrir os olhos e ser uma triatleta super saudável.

Claro que me identifiquei, afinal de contas, a ansiedade é uma das grandes marcas do nosso tempo, queremos tudo logo e pra ontem, as manchetes nos mostram que é possível, as dietas alcançam sucesso em sete dias e os ricos enriquecem com poucas horas de aplicação na bolsa.

Ficamos um tempo conversando sobre isso, sobre o quanto é difícil alcançar um objetivo que já aparece em nossa cabeça como algo pronto. Comentamos como o ato de parar de fumar vem sempre acompanhado de exemplos de sucesso e listas com dez itens essenciais para largar o vício. Mas na prática, a teoria é outra, a gente sabe disso. Ainda que lá no fundo, haja uma voz que repete aquele mantra que diz que não é tão fácil, mas também não é tão difícil, é comum não darmos ouvido a ela. Essa voz lógica, que nos pede coerência, acaba abafada e, assim, nos jogamos na ansiedade. Surge aquela imensa vontade de alcançar tudo pra ontem, rápido, pronto, resolvido, indolor, uma forma meio miojo de ver a vida. Mas a verdade é que a vida não é um miojo, macarrão instantâneo, que fica pronto em três minutos e conta com um pacotinho mágico de tempero. Não, as coisas não acontecem assim, de uma hora pra outra.

jujuba

Na mesma época em que conversávamos sobre o vício e a urgência de resolver tudo em três minutos, eu estava lendo A Redoma de Vidro, da Sylvia Plath. Uma passagem chamou muito a minha atenção, acima de qualquer outro relato sobre depressão ou tristeza. O trecho falava sobre a pausa que a personagem se dá ao entrar em um banho quente.

Fiquei refletindo sobre esse trecho e me lembrei das inúmeras vezes em que acabei apressando as coisas por não ter tido força para respirar fundo e ter calma comigo mesma. A falta de paciência que sentia não era em relação aos outros, mas sim em relação a mim mesma. Não era ansiedade por não ter uma resposta vinda de outra pessoa, mas sim ansiedade por não saber lidar com o tempo das coisas. Como se fosse uma falta de conexão com a natureza e suas fases, querendo acelerar tudo ao máximo.

“Sempre que fico triste pensando que um dia vou morrer, ou perco o sono de tão nervosa, ou estou apaixonada por alguém que não verei por uma semana, me deixo sofrer até certo ponto e então digo: ‘vou tomar um banho quente’.”

– Sylvia Plath, A Redoma de Vidro

Foi quando me caiu a ficha de que nos falta paciência conosco mesmas. Estamos constantemente tentando avançar, seguir adiante, não nos dar por vencidas, não podemos parar. Não nos damos tempo para nos abraçar lentamente e dizer a nós mesmas que vai funcionar, que vai dar certo, mas que é preciso paciência, tempo e descanso para que tudo funcione. Lembrei minha crise de estafa, meu corpo estressado, eu me doendo inteira não por estar doente, mas pela vontade de que a doença passasse logo e eu pudesse avançar. A Sapucaí é grande, o tempo urge, eu sei, mas às vezes afrouxar o passo, aproveitar a caminhada pode ajudar a domar um pouco essa enorme ansiedade.

Somos constantemente expostas às exigências de mostrar resultados, conquistas, mudanças, crescimento, evoluções, mas ninguém nos fala sobre o tempo e as falhas e fracassos que acontecem no processo. Nossa geração, tão pronta para focar o sucesso dos outros, não consegue lidar com os próprios sucessos e fracassos. Com o tempo correndo e nós correndo contra ele, quem vai se dar alguns minutos para exercer a paciência?

Sempre pensei que a ansiedade de chegar aos resultados atrapalharia a graça do processo, mas dificilmente me lembro disso quando olho pra frente, pros objetivos que tenho. A falta de paciência com meus próprios processos me fazia desistir de muitas coisas por pensar que tudo seria muito difícil, assim como parar de fumar. É preciso paciência, tento me lembrar sempre de me dizer, é preciso atenção e calma comigo mesma, é preciso ouvir meu próprio tempo e passar a entender o tempo do outro.

Porque em épocas tão difíceis como os dias de hoje, é preciso, urgentemente, olhar para o outro com paciência e compaixão, mas como fazer isso se nós mesmas não temos autocompaixão? Quando comecei a escrever, não estava pensando exatamente no termo compaixão e sim paciência, mas me caiu no colo esse texto do Brainpickings e esse vídeo super delicioso do pessoal do The School of Life que, aliás, se encaixa muito bem também naquele papo que tivemos aqui sobre estar só consigo mesma.

Enquanto minha grande amiga se desmontava em ansiedade, fui tentando mostrar a ela o quanto precisamos ter paciência conosco mesmas. Precisamos, pra ontem, nos acolher em um mundo de paciência, respirações lentas, abraços e banhos quentes. Seja sozinha, seja em conjunto com amigas, irmãs, companheiras. Precisamos pensar com mais carinho em cada pequena falha e pequena conquista que nos atravessa, entender que são essas atitudes que nos constituem enquanto seres complexos e únicos que somos. Acredito, de verdade, que ser paciente consigo mesma é também uma forma de exercer empatia, de respeitar o tempo das coisas e o tempo dos outros.

Leia mais: As tristezas do trabalho e o fracasso profissional

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Bianca. Sim, nós duas nos reunimos algumas vezes para compartilhar o dia de homeoffice e curtir a companhia. Nessa quinta-feira fatídica, falávamos sobre poemas, sobre minha trava em escrever, sobre músicas e, em um dado momento, a Bianca disse: você precisa conhecer a Matilde. Sim, eu precisava mesmo. Precisava muito. Foi um daqueles conselhos que só uma grande amiga pode dar. E te amo mais por isso, Bianca.

Ela me emprestou sua edição autografada de Jóquei (a Bianca é amiga da Matilde ~choro e ranger de dentes~), uma lindíssima edição portuguesa da Tinta da China, editora que mora no meu coração. A única coisa que Bianca havia dito sobre Matilde Campilho era que ela é portuguesa e que é uma mulher incrível. E ela é, gente, ela é. Matilde é uma poeta capaz de fazer um livro inteiro de poemas para o amor, para a vida e para todo mundo se entregar. São VII partes, 132 páginas de pura poesia portuguesa.

E lá fui eu, mergulhei naquele livro, como em tantos outros. Confesso que esperava que esse mergulho fosse tranquilo, mas não foi. São selvagens e doces as águas em que Matilde navega, mas com tamanha fluidez e tamanha intensidade que chega a impressionar. Ela consegue ir de um ponto a outro, do quente ao frio, com tanta desenvoltura que é impossível não se apaixonar. Cada novo poema, um novo arrepio, sequencialmente. As palavras que Matilde escolhe são simples, mas combinadas em uma potência enorme. Ela se utiliza de cenários comuns, situações normais, para fazer brotar ali a poesia do dia a dia.

 

O último poema do último príncipe
Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta para te ver dançar.

E isso
diz muito sobre minha caixa torácica.

– Matilde Campilho

 

Dentro do dia a dia contado por Matilde Campilho, se espalha o amor. Não aquele amor limpo e belo, sem rachaduras, mas sim aquele amor que se expande a cada novo contato, a cada nova visão, um amor que se abre em feridas e ondas, que se trata de passado vivido intensamente nas memórias da poeta. A verdade é que a cada poema que lia, me emocionava mais, a ponto de, por vezes, sacudir a cabeça em sinal negativo, aquela dificuldade de acreditar que foi possível existir uma combinação de palavras tão perfeitas.

M

Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sabíamos isso, porque a paixão não é de todo a coisa mais importante mas é sim o canudinho através do qual dá pra ver que o mundo é muito feito de construções de papel-celulose que vem da árvore e que depois se transforma em lista telefónica de onde alguém arranca a página e logo transforma em veleiros e montanhas.

Talvez porque na porta do restaurante habitual alguém toca clarinete ao sol, porque até as ruínas podemos amar nesta cidade, porque eu tenho um olho em você e você tem um dedo em mim, porque para chegar no telhado do aqueduto é preciso percorrer a estreita escadaria de pedra e é impossível não esfregar as costas nas paredes húmidas. Porque atingir o ponto de rebuçado significa simplesmente abandonar todas as coisas e dedicar-se só à concentração, mesmo que todasascoisas sejam um olho preto e um olho castanho e sua dissociação seja a possível causa para a avalanche.

Porque a palavra Bushboy não existia até aqui mas agora sim, porque fazer equilibrismo sobre a corda amarela dentro do apartamento é tudo o que já imaginávamos que ia ser, mesmo antes de acontecer. Porque no interior do pulmão do cervo tem carne que brilha, brilha tanto como o sol que se espelha na ponta da seta. Porque acreditamos, você e eu, que a razão final é que a erva cresça muito acima de nossas cabeças.

– Matilde Campilho

Além de uma escrita super maravilhosa (já deu pra perceber meu amor, né?), Matilde também leva alcunha de poeta nômade. Lisboeta de nascimento e carioca de coração, ela se divide entre Portugal e Brasil, o que acabou causando uma mistura de sotaques que deixa tudo ainda mais encantador. Aliás, não satisfeita em escrever bem, Matilde Campilho também é uma ótima leitora de poesia e faz vários vídeos onde lê seus próprios poemas. Meu favorito tem trilha sonora da Bianca, sim, a minha grande amiga que foi a causa desse amor.

O livro da Matilde, lançado em 2014 em Portugal, já saiu aqui no Brasil pela Editora 34, numa edição básica que me faz sentir falta da edição portuguesa tão linda. Mas, como o que importa mesmo é o texto, tá valendo! Se quiserem seguir a Matilde, além do seu canal do YouTube com vídeos lindos, ela também divide um programa chamado Pingue Pongue, na rádio Antena 3, com Tomás Cunha Ferreira, que dá pra ouvir aqui.

Vou deixar mais um pedacinho de poema da Matilde aqui. Porque sim. Porque ela me emocionou e me emociona tanto que me fez escrever mais poemas. Obrigada, Matilde, por essa sorte que é dividir um mundo com você.

Ainda estou sem saber como é que se faz um poema mas pelo menos já sei dobrar a roupa.

– Matilde Campilho.

 

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