Conheci a Matilde Campilho quando, em uma quinta-feira qualquer, fui trabalhar na casa de uma das minhas grandes amigas da vida, a Bianca. Sim, nós duas nos reunimos algumas vezes para compartilhar o dia de homeoffice e curtir a companhia. Nessa quinta-feira fatídica, falávamos sobre poemas, sobre minha trava em escrever, sobre músicas e, em um dado momento, a Bianca disse: você precisa conhecer a Matilde. Sim, eu precisava mesmo. Precisava muito. Foi um daqueles conselhos que só uma grande amiga pode dar. E te amo mais por isso, Bianca.
Ela me emprestou sua edição autografada de Jóquei (a Bianca é amiga da Matilde ~choro e ranger de dentes~), uma lindíssima edição portuguesa da Tinta da China, editora que mora no meu coração. A única coisa que Bianca havia dito sobre Matilde Campilho era que ela é portuguesa e que é uma mulher incrível. E ela é, gente, ela é. Matilde é uma poeta capaz de fazer um livro inteiro de poemas para o amor, para a vida e para todo mundo se entregar. São VII partes, 132 páginas de pura poesia portuguesa.
E lá fui eu, mergulhei naquele livro, como em tantos outros. Confesso que esperava que esse mergulho fosse tranquilo, mas não foi. São selvagens e doces as águas em que Matilde navega, mas com tamanha fluidez e tamanha intensidade que chega a impressionar. Ela consegue ir de um ponto a outro, do quente ao frio, com tanta desenvoltura que é impossível não se apaixonar. Cada novo poema, um novo arrepio, sequencialmente. As palavras que Matilde escolhe são simples, mas combinadas em uma potência enorme. Ela se utiliza de cenários comuns, situações normais, para fazer brotar ali a poesia do dia a dia.
O último poema do último príncipe
Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta para te ver dançar.
E isso
diz muito sobre minha caixa torácica.
– Matilde Campilho
Dentro do dia a dia contado por Matilde Campilho, se espalha o amor. Não aquele amor limpo e belo, sem rachaduras, mas sim aquele amor que se expande a cada novo contato, a cada nova visão, um amor que se abre em feridas e ondas, que se trata de passado vivido intensamente nas memórias da poeta. A verdade é que a cada poema que lia, me emocionava mais, a ponto de, por vezes, sacudir a cabeça em sinal negativo, aquela dificuldade de acreditar que foi possível existir uma combinação de palavras tão perfeitas.
M
Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sabíamos isso, porque a paixão não é de todo a coisa mais importante mas é sim o canudinho através do qual dá pra ver que o mundo é muito feito de construções de papel-celulose que vem da árvore e que depois se transforma em lista telefónica de onde alguém arranca a página e logo transforma em veleiros e montanhas.
Talvez porque na porta do restaurante habitual alguém toca clarinete ao sol, porque até as ruínas podemos amar nesta cidade, porque eu tenho um olho em você e você tem um dedo em mim, porque para chegar no telhado do aqueduto é preciso percorrer a estreita escadaria de pedra e é impossível não esfregar as costas nas paredes húmidas. Porque atingir o ponto de rebuçado significa simplesmente abandonar todas as coisas e dedicar-se só à concentração, mesmo que todasascoisas sejam um olho preto e um olho castanho e sua dissociação seja a possível causa para a avalanche.
Porque a palavra Bushboy não existia até aqui mas agora sim, porque fazer equilibrismo sobre a corda amarela dentro do apartamento é tudo o que já imaginávamos que ia ser, mesmo antes de acontecer. Porque no interior do pulmão do cervo tem carne que brilha, brilha tanto como o sol que se espelha na ponta da seta. Porque acreditamos, você e eu, que a razão final é que a erva cresça muito acima de nossas cabeças.
– Matilde Campilho
Além de uma escrita super maravilhosa (já deu pra perceber meu amor, né?), Matilde também leva alcunha de poeta nômade. Lisboeta de nascimento e carioca de coração, ela se divide entre Portugal e Brasil, o que acabou causando uma mistura de sotaques que deixa tudo ainda mais encantador. Aliás, não satisfeita em escrever bem, Matilde Campilho também é uma ótima leitora de poesia e faz vários vídeos onde lê seus próprios poemas. Meu favorito tem trilha sonora da Bianca, sim, a minha grande amiga que foi a causa desse amor.
O livro da Matilde, lançado em 2014 em Portugal, já saiu aqui no Brasil pela Editora 34, numa edição básica que me faz sentir falta da edição portuguesa tão linda. Mas, como o que importa mesmo é o texto, tá valendo! Se quiserem seguir a Matilde, além do seu canal do YouTube com vídeos lindos, ela também divide um programa chamado Pingue Pongue, na rádio Antena 3, com Tomás Cunha Ferreira, que dá pra ouvir aqui.
Vou deixar mais um pedacinho de poema da Matilde aqui. Porque sim. Porque ela me emocionou e me emociona tanto que me fez escrever mais poemas. Obrigada, Matilde, por essa sorte que é dividir um mundo com você.
Ainda estou sem saber como é que se faz um poema mas pelo menos já sei dobrar a roupa.
– Matilde Campilho.
Conheci a Matilde Campilho quando, em uma quinta-feira qualquer, fui trabalhar na casa de uma das minhas grandes amigas da vida, a Bianca. Sim, nós duas nos reunimos algumas vezes para compartilhar o dia de homeoffice e curtir a companhia. Nessa quinta-feira fatídica, falávamos sobre poemas, sobre minha trava em escrever, sobre músicas e, em um dado momento, a Bianca disse: você precisa conhecer a Matilde. Sim, eu precisava mesmo. Precisava muito. Foi um daqueles conselhos que só uma grande amiga pode dar. E te amo mais por isso, Bianca.
Ela me emprestou sua edição autografada de Jóquei (a Bianca é amiga da Matilde ~choro e ranger de dentes~), uma lindíssima edição portuguesa da Tinta da China, editora que mora no meu coração. A única coisa que Bianca havia dito sobre Matilde Campilho era que ela é portuguesa e que é uma mulher incrível. E ela é, gente, ela é. Matilde é uma poeta capaz de fazer um livro inteiro de poemas para o amor, para a vida e para todo mundo se entregar. São VII partes, 132 páginas de pura poesia portuguesa.
E lá fui eu, mergulhei naquele livro, como em tantos outros. Confesso que esperava que esse mergulho fosse tranquilo, mas não foi. São selvagens e doces as águas em que Matilde navega, mas com tamanha fluidez e tamanha intensidade que chega a impressionar. Ela consegue ir de um ponto a outro, do quente ao frio, com tanta desenvoltura que é impossível não se apaixonar. Cada novo poema, um novo arrepio, sequencialmente. As palavras que Matilde escolhe são simples, mas combinadas em uma potência enorme. Ela se utiliza de cenários comuns, situações normais, para fazer brotar ali a poesia do dia a dia.
O último poema do último príncipe
Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta para te ver dançar.
E isso
diz muito sobre minha caixa torácica.
– Matilde Campilho
Dentro do dia a dia contado por Matilde Campilho, se espalha o amor. Não aquele amor limpo e belo, sem rachaduras, mas sim aquele amor que se expande a cada novo contato, a cada nova visão, um amor que se abre em feridas e ondas, que se trata de passado vivido intensamente nas memórias da poeta. A verdade é que a cada poema que lia, me emocionava mais, a ponto de, por vezes, sacudir a cabeça em sinal negativo, aquela dificuldade de acreditar que foi possível existir uma combinação de palavras tão perfeitas.
M
Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sabíamos isso, porque a paixão não é de todo a coisa mais importante mas é sim o canudinho através do qual dá pra ver que o mundo é muito feito de construções de papel-celulose que vem da árvore e que depois se transforma em lista telefónica de onde alguém arranca a página e logo transforma em veleiros e montanhas.
Talvez porque na porta do restaurante habitual alguém toca clarinete ao sol, porque até as ruínas podemos amar nesta cidade, porque eu tenho um olho em você e você tem um dedo em mim, porque para chegar no telhado do aqueduto é preciso percorrer a estreita escadaria de pedra e é impossível não esfregar as costas nas paredes húmidas. Porque atingir o ponto de rebuçado significa simplesmente abandonar todas as coisas e dedicar-se só à concentração, mesmo que todasascoisas sejam um olho preto e um olho castanho e sua dissociação seja a possível causa para a avalanche.
Porque a palavra Bushboy não existia até aqui mas agora sim, porque fazer equilibrismo sobre a corda amarela dentro do apartamento é tudo o que já imaginávamos que ia ser, mesmo antes de acontecer. Porque no interior do pulmão do cervo tem carne que brilha, brilha tanto como o sol que se espelha na ponta da seta. Porque acreditamos, você e eu, que a razão final é que a erva cresça muito acima de nossas cabeças.
– Matilde Campilho
Além de uma escrita super maravilhosa (já deu pra perceber meu amor, né?), Matilde também leva alcunha de poeta nômade. Lisboeta de nascimento e carioca de coração, ela se divide entre Portugal e Brasil, o que acabou causando uma mistura de sotaques que deixa tudo ainda mais encantador. Aliás, não satisfeita em escrever bem, Matilde Campilho também é uma ótima leitora de poesia e faz vários vídeos onde lê seus próprios poemas. Meu favorito tem trilha sonora da Bianca, sim, a minha grande amiga que foi a causa desse amor.
O livro da Matilde, lançado em 2014 em Portugal, já saiu aqui no Brasil pela Editora 34, numa edição básica que me faz sentir falta da edição portuguesa tão linda. Mas, como o que importa mesmo é o texto, tá valendo! Se quiserem seguir a Matilde, além do seu canal do YouTube com vídeos lindos, ela também divide um programa chamado Pingue Pongue, na rádio Antena 3, com Tomás Cunha Ferreira, que dá pra ouvir aqui.
Vou deixar mais um pedacinho de poema da Matilde aqui. Porque sim. Porque ela me emocionou e me emociona tanto que me fez escrever mais poemas. Obrigada, Matilde, por essa sorte que é dividir um mundo com você.
Ainda estou sem saber como é que se faz um poema mas pelo menos já sei dobrar a roupa.
Conheci a Matilde Campilho quando, em uma quinta-feira qualquer, fui trabalhar na casa de uma das minhas grandes amigas da vida, a Bianca. Sim, nós duas nos reunimos algumas vezes para compartilhar o dia de homeoffice e curtir a companhia. Nessa quinta-feira fatídica, falávamos sobre poemas, sobre minha trava em escrever, sobre músicas e, em um dado momento, a Bianca disse: você precisa conhecer a Matilde. Sim, eu precisava mesmo. Precisava muito. Foi um daqueles conselhos que só uma grande amiga pode dar. E te amo mais por isso, Bianca.
Ela me emprestou sua edição autografada de Jóquei (a Bianca é amiga da Matilde ~choro e ranger de dentes~), uma lindíssima edição portuguesa da Tinta da China, editora que mora no meu coração. A única coisa que Bianca havia dito sobre Matilde Campilho era que ela é portuguesa e que é uma mulher incrível. E ela é, gente, ela é. Matilde é uma poeta capaz de fazer um livro inteiro de poemas para o amor, para a vida e para todo mundo se entregar. São VII partes, 132 páginas de pura poesia portuguesa.
E lá fui eu, mergulhei naquele livro, como em tantos outros. Confesso que esperava que esse mergulho fosse tranquilo, mas não foi. São selvagens e doces as águas em que Matilde navega, mas com tamanha fluidez e tamanha intensidade que chega a impressionar. Ela consegue ir de um ponto a outro, do quente ao frio, com tanta desenvoltura que é impossível não se apaixonar. Cada novo poema, um novo arrepio, sequencialmente. As palavras que Matilde escolhe são simples, mas combinadas em uma potência enorme. Ela se utiliza de cenários comuns, situações normais, para fazer brotar ali a poesia do dia a dia.
O último poema do último príncipe
Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta para te ver dançar.
E isso
diz muito sobre minha caixa torácica.
– Matilde Campilho
Dentro do dia a dia contado por Matilde Campilho, se espalha o amor. Não aquele amor limpo e belo, sem rachaduras, mas sim aquele amor que se expande a cada novo contato, a cada nova visão, um amor que se abre em feridas e ondas, que se trata de passado vivido intensamente nas memórias da poeta. A verdade é que a cada poema que lia, me emocionava mais, a ponto de, por vezes, sacudir a cabeça em sinal negativo, aquela dificuldade de acreditar que foi possível existir uma combinação de palavras tão perfeitas.
M
Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sabíamos isso, porque a paixão não é de todo a coisa mais importante mas é sim o canudinho através do qual dá pra ver que o mundo é muito feito de construções de papel-celulose que vem da árvore e que depois se transforma em lista telefónica de onde alguém arranca a página e logo transforma em veleiros e montanhas.
Talvez porque na porta do restaurante habitual alguém toca clarinete ao sol, porque até as ruínas podemos amar nesta cidade, porque eu tenho um olho em você e você tem um dedo em mim, porque para chegar no telhado do aqueduto é preciso percorrer a estreita escadaria de pedra e é impossível não esfregar as costas nas paredes húmidas. Porque atingir o ponto de rebuçado significa simplesmente abandonar todas as coisas e dedicar-se só à concentração, mesmo que todasascoisas sejam um olho preto e um olho castanho e sua dissociação seja a possível causa para a avalanche.
Porque a palavra Bushboy não existia até aqui mas agora sim, porque fazer equilibrismo sobre a corda amarela dentro do apartamento é tudo o que já imaginávamos que ia ser, mesmo antes de acontecer. Porque no interior do pulmão do cervo tem carne que brilha, brilha tanto como o sol que se espelha na ponta da seta. Porque acreditamos, você e eu, que a razão final é que a erva cresça muito acima de nossas cabeças.
– Matilde Campilho
Além de uma escrita super maravilhosa (já deu pra perceber meu amor, né?), Matilde também leva alcunha de poeta nômade. Lisboeta de nascimento e carioca de coração, ela se divide entre Portugal e Brasil, o que acabou causando uma mistura de sotaques que deixa tudo ainda mais encantador. Aliás, não satisfeita em escrever bem, Matilde Campilho também é uma ótima leitora de poesia e faz vários vídeos onde lê seus próprios poemas. Meu favorito tem trilha sonora da Bianca, sim, a minha grande amiga que foi a causa desse amor.
O livro da Matilde, lançado em 2014 em Portugal, já saiu aqui no Brasil pela Editora 34, numa edição básica que me faz sentir falta da edição portuguesa tão linda. Mas, como o que importa mesmo é o texto, tá valendo! Se quiserem seguir a Matilde, além do seu canal do YouTube com vídeos lindos, ela também divide um programa chamado Pingue Pongue, na rádio Antena 3, com Tomás Cunha Ferreira, que dá pra ouvir aqui.
Vou deixar mais um pedacinho de poema da Matilde aqui. Porque sim. Porque ela me emocionou e me emociona tanto que me fez escrever mais poemas. Obrigada, Matilde, por essa sorte que é dividir um mundo com você.
Ainda estou sem saber como é que se faz um poema mas pelo menos já sei dobrar a roupa.
Desde fevereiro de 2015 estou em uma empreitada de só ler livros escritos por mulheres. Nesse meio tempo, já respondi às mais variadas perguntas, indo desde “Você pode me indicar alguns livros?” até “Você não sente falta de ler autores homens?”. Mas a grande pergunta a ser respondida nesses quase dois anos deveria ser: “O quanto isso mudou a sua vida?” E posso responder essa pergunta falando de uma autora que conheci fazendo buscas de novas autoras para ler, a Claude Cahun “heroína desconhecida”, poeta, narcisa, ensaísta, andrógina, contista, feminista indefinida, jornalista, humanista eventual, panfletária, amiga dos gatos, epistoleira, dândi, memorialista, simbolista, atriz, naturista, criadora de objetos, individualista, fotógrafa, surrealista, ativista política, idealista, esteta, resistente, mítica, peça única, como consta em seu perfil.
A melhor coisa de ter entrado nesse esquema ~exclusivista feminazi~ (risos) foi a amplitude que passei a dar às minhas pesquisas e buscas por autores para ler. É muito fácil chegar até um autor homem novo, ele é indicado em todos os livros, posts de blog, outdoors de ônibus, buscas no Google e até mesmo na porta do CCBB vendendo poesia. Eles caem no nosso colo como sempre, arrojados invadindo o espaço e conquistando, como bandeirantes, os olhares de seus leitores. Talvez seja só comigo, mas sinto que com as mulheres é diferente, as indicações funcionam em esquema de receitas secretas de família: uma amiga que passa pra outra que passa pra outra que passa pra outra. Restringir meu objetivo de leitura, na verdade, me fez ampliar meus cliques e pesquisas, chegando até esta artista única que é a Claude Cahun.
Nascida em 1894, em Nantes, na França, Lucy Schwob, como foi registrada em seu nascimento, produziu em diversos meios artísticos entre as décadas de 1920 e 1940. Mais conhecida por seus autorretratos e fotomontagens, Claude Cahun também se dedicou à escrita e publicou textos em revistas literárias europeias, dando origem a esse conjunto de histórias nomeado “Heroínas”. Mas o que mais me chamou atenção nesta artista multifoco não foi sua produção, mas sim a falta de divulgação e de conhecimento sobre o seu trabalho.
Quando cheguei até o livro, lançado através de um crowdfunding pela A Bolha Editora, acreditei piamente se tratar de uma nova autora. Com um projeto gráfico lindão, o livro soa super atual, principalmente pela temática: são dezesseis contos que retratam uma nova perspectiva de diversas figuras femininas famosas de fabulas ou mitologias antigas. Claude Cahun faz uma leitura atravessada destas figuras impactantes, como Maria ou Cinderella, e ataca com sua ironia refinada e ácida.
Corrigindo a história e dando voz a essas personagens, a autora nos traz uma nova perspectiva sobre o papel da mulher nos contos de fada e nas mitologias. Ou seja: Claude Cahun, em 1920, já era uma figura feminista marcante, que desafiava os padrões de gênero não só em sua escrita, como também em sua vida. A edição do livro, bastante completa, traz um posfácio do filósofo François Leperlier, que descreve precisamente a aura dos textos de Claude:
A intenção é clara, ela é irônica e subversiva ao se atacar à imagem da mulher como apresentada nos contos e mitos; uma tentativa de corrigir e reescrever biografias fabulosas, fazendo oposição às versões admitidas, conformes e banalizadas com outras versões inesperadas, rebeldes, cáusticas e irreverentes.
– François Leperlier
A escolha do nome Claude, feita aos 22 anos, não foi à toa: a possibilidade de ter um nome que abarcasse os dois gêneros era essencial para sua obra. Com uma aparência andrógina, considerando-se gênero neutro, e uma escrita ácida, Claude fez da sua vida sua obra e conquistou um espaço revolucionário quando muitas mulheres sequer pensavam em escrever.
Mas por que não falamos mais sobre Claude Cahun? O livro “Heroínas”, editado pela A Bolha, conta com uma introdução essencial para entender a figura de Claude Cahun. A também escritora Nathanaël, na introdução do livro, faz uma análise muito acertada dessa figura múltipla e traz à tona o esquecimento de uma artista talentosérrima:
(…) foi por muito tempo presumida como derrotada em combate, apagando-se alegremente dos registros históricos a fim de se confundir no anonimato… não fosse esse salvamento intempestivo de uma obra que, caso contrário, ficaria dedicada ao esquecimento e cujos rastros nos chegam hoje para além até das línguas que lhe eram próprias.
Esquecidos, os textos de Claude Cahun, redigidos em diversas línguas, foram resgatados nos anos 80, caindo novamente no esquecimento e sendo trazidos à tona, em uma edição francesa, em 2006. Mas o que torna tudo ainda mais curioso é que Claude Cahun era uma presença importante e fundamental para autores que construíram o Surrealismo. Amiga de Henri Michaux, Andre Breton e George Bataille, Cahun participou de diversos movimentos e organizações surrealistas, integrando também movimentos políticos e lutando ativamente contra a o Nazismo que crescia na Europa. Acaba presa em 1944, junto a sua eterna companheira e amante, Marcel Moore, e são condenadas à morte. Conseguem fugir, mas atribui-se a morte de Claude Cahun a este período presa, por conta de sua saúde debilitada.
Uma mulher com uma trajetória tão intensa e à frente de seu tempo, presente em movimentos artísticos e políticos, foi apagada de nossa história sem dó. Fico me perguntando o quanto conhecer Claude Cahun e sua história pode mudar a nossa concepção do que é ser mulher, a concepção de gênero, e como podemos nos colocar frente ao mundo. “Heroínas” acaba sendo um testemunho de como suas ideias são fundamentais para a construção da nossa força enquanto mulheres. Em uma das histórias, Cahun dá voz a Margarida, personagem de Fausto, de Goethe, e questiona diversos estigmas atribuídos às mulheres:
Uma mulher que tem lá seus desejos é mesmo um monstro? Será minha culpa? Quando esse mal começou, eu era muito jovem, jovem demais para entender.
É preciso ler essas mulheres, tão vanguarda ainda hoje em dia. Evoluímos muito, mas ao mesmo tempo muito pouco, e é ao se deparar com esse tipo de apagamento e resgate que percebemos a necessidade de preencher os mais diversos buracos da nossa história enquanto mulheres. Não se trata de não termos participado da história, com feitos importantes, se trata da história ainda ser escrita apenas por quem nos oprime e apaga: homens. É preciso conhecer nossa história, é preciso ler “Heroínas” de Claude Cahun, é preciso reescrever nossa trajetória tão cheia de lacunas.
Você encontra o livro “Heroínas” através da loja online da Editora A Bolha e também na loja física, que fica no mesmo prédio da Comuna, no Rio de Janeiro (Rua Sorocaba, 585 – Botafogo). Além disso, você pode seguir A Bolha Editora no Facebook e ficar por dentro dos lançamentos, sempre bem bacanas.
E antes de começar a ler o livro, vem cá dar o play nessa playlist mara inspiradas nas “Heroínas” de Claude Cahun.
Bianca. Sim, nós duas nos reunimos algumas vezes para compartilhar o dia de homeoffice e curtir a companhia. Nessa quinta-feira fatídica, falávamos sobre poemas, sobre minha trava em escrever, sobre músicas e, em um dado momento, a Bianca disse: você precisa conhecer a Matilde. Sim, eu precisava mesmo. Precisava muito. Foi um daqueles conselhos que só uma grande amiga pode dar. E te amo mais por isso, Bianca.
Ela me emprestou sua edição autografada de Jóquei (a Bianca é amiga da Matilde ~choro e ranger de dentes~), uma lindíssima edição portuguesa da Tinta da China, editora que mora no meu coração. A única coisa que Bianca havia dito sobre Matilde Campilho era que ela é portuguesa e que é uma mulher incrível. E ela é, gente, ela é. Matilde é uma poeta capaz de fazer um livro inteiro de poemas para o amor, para a vida e para todo mundo se entregar. São VII partes, 132 páginas de pura poesia portuguesa.
E lá fui eu, mergulhei naquele livro, como em tantos outros. Confesso que esperava que esse mergulho fosse tranquilo, mas não foi. São selvagens e doces as águas em que Matilde navega, mas com tamanha fluidez e tamanha intensidade que chega a impressionar. Ela consegue ir de um ponto a outro, do quente ao frio, com tanta desenvoltura que é impossível não se apaixonar. Cada novo poema, um novo arrepio, sequencialmente. As palavras que Matilde escolhe são simples, mas combinadas em uma potência enorme. Ela se utiliza de cenários comuns, situações normais, para fazer brotar ali a poesia do dia a dia.
O último poema do último príncipe
Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta para te ver dançar.
E isso
diz muito sobre minha caixa torácica.
– Matilde Campilho
Dentro do dia a dia contado por Matilde Campilho, se espalha o amor. Não aquele amor limpo e belo, sem rachaduras, mas sim aquele amor que se expande a cada novo contato, a cada nova visão, um amor que se abre em feridas e ondas, que se trata de passado vivido intensamente nas memórias da poeta. A verdade é que a cada poema que lia, me emocionava mais, a ponto de, por vezes, sacudir a cabeça em sinal negativo, aquela dificuldade de acreditar que foi possível existir uma combinação de palavras tão perfeitas.
M
Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sabíamos isso, porque a paixão não é de todo a coisa mais importante mas é sim o canudinho através do qual dá pra ver que o mundo é muito feito de construções de papel-celulose que vem da árvore e que depois se transforma em lista telefónica de onde alguém arranca a página e logo transforma em veleiros e montanhas.
Talvez porque na porta do restaurante habitual alguém toca clarinete ao sol, porque até as ruínas podemos amar nesta cidade, porque eu tenho um olho em você e você tem um dedo em mim, porque para chegar no telhado do aqueduto é preciso percorrer a estreita escadaria de pedra e é impossível não esfregar as costas nas paredes húmidas. Porque atingir o ponto de rebuçado significa simplesmente abandonar todas as coisas e dedicar-se só à concentração, mesmo que todasascoisas sejam um olho preto e um olho castanho e sua dissociação seja a possível causa para a avalanche.
Porque a palavra Bushboy não existia até aqui mas agora sim, porque fazer equilibrismo sobre a corda amarela dentro do apartamento é tudo o que já imaginávamos que ia ser, mesmo antes de acontecer. Porque no interior do pulmão do cervo tem carne que brilha, brilha tanto como o sol que se espelha na ponta da seta. Porque acreditamos, você e eu, que a razão final é que a erva cresça muito acima de nossas cabeças.
– Matilde Campilho
Além de uma escrita super maravilhosa (já deu pra perceber meu amor, né?), Matilde também leva alcunha de poeta nômade. Lisboeta de nascimento e carioca de coração, ela se divide entre Portugal e Brasil, o que acabou causando uma mistura de sotaques que deixa tudo ainda mais encantador. Aliás, não satisfeita em escrever bem, Matilde Campilho também é uma ótima leitora de poesia e faz vários vídeos onde lê seus próprios poemas. Meu favorito tem trilha sonora da Bianca, sim, a minha grande amiga que foi a causa desse amor.
O livro da Matilde, lançado em 2014 em Portugal, já saiu aqui no Brasil pela Editora 34, numa edição básica que me faz sentir falta da edição portuguesa tão linda. Mas, como o que importa mesmo é o texto, tá valendo! Se quiserem seguir a Matilde, além do seu canal do YouTube com vídeos lindos, ela também divide um programa chamado Pingue Pongue, na rádio Antena 3, com Tomás Cunha Ferreira, que dá pra ouvir aqui.
Vou deixar mais um pedacinho de poema da Matilde aqui. Porque sim. Porque ela me emocionou e me emociona tanto que me fez escrever mais poemas. Obrigada, Matilde, por essa sorte que é dividir um mundo com você.
Ainda estou sem saber como é que se faz um poema mas pelo menos já sei dobrar a roupa.