Diva: um curta que discute gênero

Você, amiga, que descobriu a drag queen dentro de si após ver muito o reality “RuPaul’s Drag Race” e dublar por sua vida, que tal discutirmos mais sobre gênero? É a proposta da diretora Clara Bastos, do roteirista Felipe Santos e da produtora Bruna Bertolino (estudantes de Audiovisual da USP) ao gravar “Diva”, um curta-metragem de ficção sobre o “universo drag queen”.

 
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A protagonista é Camila, uma garota muito retraída, que mais agrada aos outros do que a si mesma, de forma que ela entra em crise de identidade e vai parar na pensão de Bella. Lá, ela se aproxima das drag queens. “A influência que as drag queens exercem sobre a crise dela se dá por representar modelos de feminino totalmente opostos ao que ela viveu antes e ainda mostrá-los em corpos masculinos, acabando um pouco com a ideia de um modelo a ser seguido”, contam Bruna e Clara, em entrevista à Ovelha.

Elas dizem que o roteiro do filme surgiu primeiro da ideia de discutir gênero, em especial o feminino, a ideia da feminilidade. “Queríamos que a protagonista fosse uma mulher andrógina”. Assim, elas convidaram a atriz Julia Spindel para interpretar Camila. “Ela tem um coletivo de teatro feminista que eu sempre achei muito legal, então achei que ela podia sentir afinidade pelo projeto e a convidei. A partir daí, ela foi me indicando amigos, atores e drags, que se interessaram também. A Márcia Pantera é um ícone drag. Nós a admirávamos a distância e resolvemos fazer um convite, e ela topou!”, diz a produtora.

 
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Como referências, Bruna e Clara citam o documentário “Paris is burning” (1990), “por colocar em pauta questões de classe e raça que aparecem na performance dessas drags”; o brasileiro “Tatuagem” (2013), e os filmes do John Waters, que tem como estrela a drag Divine. Mas elas dizem que, fora isso, não ocorre mais nada.

“Vejo muita coisa sobre drag surgindo no meio independente e, principalmente, universitário. Fica evidente que existe um interesse grande pela temática de gênero, mas isso ainda não chegou nas grandes produções. Talvez esse meio ainda esteja muito ocupado por homens héteros”, afirma Bruna.

Para gravar o curta, a equipe criou uma campanha no Catarse, que já atingiu sua meta. “Existe um interesse forte por drag queen em alguns nichos da internet, então já esperávamos o apoio de algumas dessas pessoas. O que nos surpreendeu foi que muita gente de fora desses nichos se interessou pelo projeto. É legal porque dá uma força para realizar saber que tem mais gente no mundo que acha a discussão do filme relevante”.

 
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Elas dizem que ainda não há planos para um longa-metragem por estarem dedicadas a “fazer o curta ficar o melhor possível!”. Para continuar acompanhando a trajetória de “Diva”, acesse a página do curta no Facebook.

Kathleen Hanna lê o Manifesto Riot Grrrl

Riot Grrrl Manifesto, publicado no zine Bikini Kill (1991)
Riot Grrrl Manifesto, publicado no zine Bikini Kill (1991)

Antes de falar sobre o que interessa – Kathleen Hanna, aka a eterna inspiração – gostaria de me apresentar. Sou Carla, também Bored Carla, e há 9 anos escrevo o blog Cabeça Tédio, que fala sobre contracultura a partir de uma perspectiva feminista. Fui convidada pela Nina para colaborar com a Ovelha e cá estou. Escrevo muito sobre música, contracultura e Riot Grrrl, mas aqui espero me aventurar por outros temas e formas de escrita.

Uma das mulheres icônicas do movimento Riot Grrrl, Kathleen Hanna, leu, há dois anos, o manifesto que escreveu para o movimento político-cultural que transformou o punk rock e a participação das mulheres na contracultura. Publicado no zine Bikini Kill (1991), o Riot Grrrl Manifesto é um documento empoderador e que alerta as garotas sobre suas potencialidades e sobre não se contentar em ser o que os outros falaram de nós.

O Riot Grrrl foi uma resposta orgânica à realidade – machista e sexista – que as garotas da cena musical do Noroeste do Pacífico norte-americano viviam. Bandas, zines, convenções, performances, artistas: muitas surgiram e se engajaram a partir da ideia do “Don’t Need You”. Das garotas não precisarem dos caras para produzirem artisticamente, e assim, tomarem os meios para realizarem seus projetos e criarem sua própria cultura, representando milhares de outras minas neste role.

Em 2013 eu traduzi o Riot Grrrl Manifesto e postei no Cabeça Tédio. Hoje, compartilho ele com vocês na Ovelha. Que seja inspirador para vocês também!
 
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RIOT GRRRL MANIFESTO

Texto: Kathleen Hanna
Tradução: Carla Duarte

Manifesto Riot Grrrl
PORQUE nós garotas desejamos fazer discos e livros e fanzines que falem a NÓS e que NÓS nos sentimos incluídas e possamos entender isso de nossas próprias maneiras.

PORQUE nós queremos facilitar para garotas verem/ouvir o trabalho uma das outras, para que a gente possa compartilhar estratégias e criticar-aplaudir umas às outras.

PORQUE nós devemos assumir os meios de produção parar criarmos nosso barulho.

PORQUE vendo nosso trabalho como sendo conectado com as vidas reais e as políticas das nossas amigas é essencial que entendamos estamos impactando, refletindo, perpetuando ou ROMPENDO com o status quo.

PORQUE nós reconhecemos fantasias da Revolução de Machos Armados como mentiras impraticáveis para apenas nos manter sonhando, ao invés de nos tornarmos nossos sonhos E ASSIM procurar criar uma revolução em nossas próprias vidas, todos os dias, ao visualizar e criar alternativas a merda do caminho cristão capitalista de fazer coisas.

PORQUE nós queremos e precisamos encorajar e sermos encorajadas em face de todas as nossas inseguranças, em face do macho-roqueiro-cerveja que nos diz que nós não podemos tocar nossos instrumentos, em face das “autoridades” que dizem que nossas bandas/zines/etc são as piores nos Estados Unidos e

PORQUE nós não queremos assimilar o padrão de outra pessoa (garotos) de o que é e o que não é.

PORQUE nós estamos sem vontade de hesitar diante as alegações que nós somos reacionárias “sexismo reverso” e não AS GUERREIRAS COM ALMA PUNK ROCK QUE NÓS SABEMOS que nós somos de verdade .

PORQUE nós sabemos que a vida é muito mais do que sobrevivência física e nós estamos muito cientes que a ideia do punk rock “você pode fazer o que quiser” é crucial para a chegada da revolução de garotas que nós buscamos para salvar a vida psíquica e cultural de garotas e mulheres de todos os lugares, de acordo com os termos delas, não os nossos.

PORQUE nós estamos interessadas em criar formas não hierárquicas de ser E fazer música, amigos e comunidades baseadas em comunicação + entendimento, ao invés de competição + bom/ruim categorizações.

PORQUE fazendo/lendo/vendo/ouvindo coisas legais que validam e nos desafiam podem nos ajudar a ganhar força e senso de comunidade que nós precisamos, para entender como merdas como racismo, capacitismo*, etarismo, especismo, classicismo, padrões de beleza*, sexismo, anti-semitismo e heterosexismo funcionam em nossas vidas.  

PORQUE nós vemos apoio a comunidade de garotas e garotas que são artistas de todos os tipos integralmente a esse processo.

PORQUE nós odiamos o capitalismo de todas as formas e temos como nosso principal objetivo compartilhar informações e nos mantermos vivas, ao invés de dar lucros sendo legal de acordo com os padrões convencionais.

PORQUE nós estamos com raiva da sociedade que nos diz que Garotas = Idiotas, Garotas = ruim, Garotas = fracas.

PORQUE nós não estamos dispostas a permitir que nossa raiva real e válida seja espalhada e/ou jogada contra nós via sexismo internalizado, como nós temos visto no ciúme entre garotas e comportamentos auto-destrutivos.

PORQUE eu acredito com todomeucoraçãocabeçacorpo que garotas constituem uma força revolucionário que podem, e irão, mudar o mundo de verdade.

 
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*Nota da tradutora – nesse ponto do manifesto, Hanna fala sobre a importância de se entender como diversos preconceitos operam em nós mesmas. Alguns termos não traduzi ao pé da letra, porque acredito que eles poderiam ser interpretados de maneira controversa.

O texto original diz: BECAUSE doing/reading/seeing/hearing cool things that validate and challenge us can help us gain the strength and sense of community that we need in order to figure out how bullshit like racism, able-bodieism*, ageism, speciesism, classism, thinism*, sexism, anti-semitism and heterosexism figures in our own lives.

“Able-bodieism” significa discriminação contra pessoas que tem uma doença física ou mental. Segundo o American Heritage Dictionary, o termo significa, “discrimination, prejudice against or disregard for people with disabilities, especially physical disabilities.” Ao pé da letra, able-bodieism, também chamado de ableism, pode ser entendido “corpo capaz” ou “capacidades corpóreas”, o que não faz muito sentido para nós, não é mesmo? O Questões Plurais traduz o termo como “capacitismo”, e por ser melhor do que a tradução literal, foi o termo que escolhamos utilizar nesta tradução.

“Thinism”, é uma referência a “thin”, que significa magro. Ser magro não é, essencialmente, uma coisa ruim. Ruim é quando uma parte da sociedade torna esta característica uma regra que deve ser perseguida por todxs, a despeito de qualquer coisa. Talvez essa expressão tenha outro significado em inglês, e eu não sei. Mas, para evitar qualquer interpretação errada, escolhi na tradução utilizar o termo “padrões de beleza”, que apesar de ser mais genérico não leva ao erro.

Canções medonhas para se ouvir no escuro

A dupla The Long Losts (traduzindo, de um jeito bem mais ou menos, significa “Os há muito perdidos”) se formou no ano de 2012, produzindo canções baseadas em seus contos e filmes de terror favoritos. E em outubro, amado mês do dia das bruxas, no ano de 2014, finalmente lançaram seu primeiro álbum: “Scary Songs to Play in the Dark”.

Com músicas divertidas, adoráveis e “assustadoras” como “If only Boris Karloff was my dad” (“Se Boris Karloff fosse meu pai”) – primeira produzida pela dupla – e “The Girl with the Haunted Hause Tattoo” (“A Garota com Tatuagem de Casa Mal-Assombrada”), o álbum é simples e interessante.

Se você curte as vibes trevosas da vida e quer uma banda que ainda esteja viva e unida ou que não tenha se formado nos anos 80 – só para quebrar a rotina – ouça The Long Lost – Scary Songs to Play in the Dark.

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The Long Losts: Site / Bandcamp / Facebook

E daí se sou mulher e programo?

Soraya Roberta é uma poeta de 19 anos que uniu sua paixão pela escrita com sua habilidade em programação para criar um formato inédito de arte: a poesia compilada. São poesias simples em formato de códigos e algoritmos. Este estilo revela a beleza da programação como arte, aplicada à poesia. São poesias que pegam emprestado ideias da programação.

Algum tempo atrás, ouviu de alguns colegas homens que suas ideias eram inúteis porque, segundo eles, ela não sabia programar direito e que o máximo que conseguiria fazer era escrever artigos científicos. E só.

 
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“Fiquei pensando em algo que pudesse fazer que mostrasse que uma mulher pode escrever bem e programar também”, diz Soraya. Então fez, mesmo com um pouco de dificuldade, um poema-compilado. O resultado foi o poema “//E daí se sou mulher e programo?”.

Soraya está cursando o técnico integrado em Informática pelo IFRN-CAICÓ. A ideia de fazer poesias compiladas surgiu quando estava terminando uma aula de programação e lembrou que o professor de Português havia pedido um poema criativo para aula. Como ela já havia escrito o “Algoritmo“, um poema que representa a vida de um programador, bastou apenas inseri-lo no editor de códigos. Visualizar seu poema nessa nova estética deu o ‘click’ para o que viria a ser a poesia compilada. A partir daí, ao estudar, ler e escrever códigos, Soraya começou a perceber a estreita relação entre o código e o poema, pois ambos precisam utilizar sintaxe e semântica.

 

Poema 'Algorítmo', de Soraya Roberta
Poema ‘Algorítmo’, de Soraya Roberta

 
A ideia toda é bastante livre. A poesia não é escrita em código, por isso não tem a pretensão de parecer correto. E também não é uma poesia convencional, portanto não possui estilo definido.

Soraya começou cedo a escrever, aos 7 anos de idade. Segundo ela, os versos simples que escrevia na infância são hoje a base da sua escrita. Hoje, além de fazer suas poesias, escreve no site Mulheres na Computação, que tem o intuito de disseminar e incentivar às mulheres a escreverem, programarem, estudarem, enfim: a fazer o que elas quiserem. Soraya também desenvolve um trabalho voluntário na confecção de jogos digitais educacionais por meio do CCSL-CAICÓ.
 
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Inspirador, não? Siga essa mulher maravilhosa! Precisamos de mais mulheres na computação, programando sin perder la ternura.

Poesia Compilada Site / Facebook

Hyrule Warriors para 3DS!

Um desmiolado da Koei Tecmo deixou vazar no canal do youtube ontem um trailer que seria para a E3 (dia 16/07 semana que vem gente!) do anuncio da versão de Hyrule Warriors para o 3DS, que foi lançando ate então para o Wii U em agosto do ano passado.

Quem comprar a versão para o 3DS irá desbloquear dois personagens de Wind Waker: A adorável Tetra e o The King of Red Lions e habilitá-los para jogar também no Wii U (pra quem possuir os dois jogos), saberemos mais sobre a data de lançamento possivelmente semana que vem.

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E poxa Nintendo, solta aí mais personagens de Wind Waker no Mario Kart 8!

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Mulheres invencíveis e seus términos

Nada como uma música empoderadora e motivacional para começar a semana. Em Invincible, novo single da cantora Kelly Clarkson no seu último álbum Piece By Piece, ela canta “Agora sou invencível/ não sou mais uma garotinha medrosa/ É, sou invencível / Não, não sou mais uma garotinha medrosa /É, sou invencível/ Do que eu estava fugindo? / Eu estava me escondendo do mundo/ Eu estava com tanto medo, me sentia tão insegura/ Agora, sou invencível/ Mais uma tempestade perfeita, em tradução livre.

Tem uns cubos espalhados por aí que explodem do nada revelando lindas e poderosas mulheres se livrando dessas prisões que a gente cria. A música é parceria com a sempre requisitada das parcerias cantora australiana Sia (que fez um ensaio lindo pra revista Interview de abril que não tem nada a ver com o post mas que vou linkar aqui por motivo de ser lindo como dito anteriormente)

Aliás, essa Kelly sempre traz umas músicas cafonamente poderosas. Lembro bem de como algumas letras passaram a fazer sentido depois de um término. Mas até jingles de comercial pareciam falar comigo. Usei cada uma das músicas para lidar com o luto pós-término.

 

Fase 1 – Because of You – Sofrimento

 

 
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Fase 2 – Never Again – Raiva e uma leve misoginia

 

 
Não a entendam mal quando digo “misoginia”. Na verdade é uma coisa que passa na cabeça, algo meio inevitável quando estamos enfurecidas com o término. Odiamos todo mundo, a culpa pela ruína é dos outros – da OUTRA.
 

 

Fase 3 – Negociação – Você tenta imaginar como poderia ter feito as coisas de maneira diferente, ou o que poderia mudar.

Esse é daqueles momentos que você se vê fazendo coisas estranhas como, por exemplo, mechas no cabelo. MECHAS. Por isso, melhor que qualquer música, preferi ilustrar esse momento com essa capa do disco da Kelly. Haha MECHAS!
 
Preferi ilustrar com essa linda capa do disco da Kelly com essas mechas! haha MECHAS!
 

 

Fase 4 – Stronger – Aceitação e superação

 

 
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Fase 5 – Since U Been Gone

 

 
A Kelly me ajudou a superar e evoluir para o que apelidei de:

Fase Beyoncé = sou muito poderosa e era demais para ele

 
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Jogue: Toren

A Torre: as bases

Há pouco mais de dois anos, a então Ministra da Cultura, Marta Suplicy, disse em uma palestra que não considerava jogos eletrônicos como produtos culturais. A fala (que respondia ao porquê dos games não estarem inseridos no projeto do vale-cultura) foi duramente criticada pela Associação Comercial, Industrial e Cultural de Games (Acigames) na época, e entre os jogadores sempre ficou aquele gosto meio amargo de história mal contada.

O curioso é que, pouco antes dessa fala movimentar todo aquele bafafá sobre a legitimação dos games como “coisa séria”, produtores comemoravam a aprovação de Toren sob as asas da Lei Rouanet de incentivo à cultura. Trata-se de uma lei de 1991 que garante que incentivadores que apoiarem projetos culturais tenham parte de seus impostos abatidos.

Estive ansiosa por Toren desde então.

Como acontece com qualquer produção relativamente grande, demorou um pouco para que o game se concretizasse na imaterialidade de meu laptop. O tempo só fez crescer meu hype. Veja só: um game no mesmo espírito de ICO – um dos meus favoritos de todos os tempos –, com uma arte de cair o queixo, temática da passagem do tempo, uma garota como protagonista, indie e ainda por cima nacional? Estavam tentando me matar, só pode! Era quase como se fosse bom demais para ser verdade.

De certa forma, era mesmo. Talvez eu tenha ido com sede demais ao pote. Meu hype foi mesmo meio injusto, embora justificado, se é que isso faz sentido – o que torna um aviso necessário antes de começar a falar sobre o game: Toren é uma ideia maravilhosa e emocionante. Não é um game perfeito; não acho que poderia ser. Mas estou feliz por ele existir. E acredito que você também ficará depois de conhecer.
 

A Sacerdotisa: o que vale a pena

 
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A narrativa de Toren vai se desmembrando aos poucos conforme a jogamos. Você é a Moonchild (Criança/Filha da Lua), uma divindade que precisará escalar a belíssima torre Toren, onde está aprisionada, e enfrentar o dragão que a vigia a fim de dar cabo do ciclo de destruição e morte ao qual não só Moonchild, mas toda a humanidade, estão presas.

A primeira coisa que chama a atenção são as escolhas visuais do game. Embora os gráficos estejam aquém do que a geração atual de videogames pode produzir, suas texturas e efeitos capricham numa paleta de cores intensas que dão um espírito sonhador ao game: a árvore da vida no centro de Toren que se retorce e floresce até o topo; o céu estrelado emoldurado por chamas de uma tocha fumacenta; a própria Moonchild, que sempre “renasce” de poças de sangue ou de altares de sacrifício suspeitos. Há algo de inquietante nas pequenas violências que aparecem sem contradizer a direção de arte belíssima que nos transporta sem esforço para a merecida fantasia mágica. Completando com chave de ouro esse hall de delícias sensoriais, vem a trilha sonora fantástica. Claramente inspirada em outro clássico do Team ICO, Shadow of the Colossus, ela faz valer 110% a experiência de se jogar de fones de ouvido.

Focada na premissa do ciclo da vida e do amadurecimento de nossa protagonista (que vemos crescer de bebezinha indefesa até uma imponente divindade de cabelos brancos e pintada para a guerra), a história faz até lembrar de outro game sobre o qual falamos recentemente, o Child of Light. Porém, se esteticamente Child of Light é como a poesia delicada e lúdica de um conto infantil, Toren está mais para uma alegoria milenar contada ao redor da fogueira, na qual beleza e violência vivem um affair com poucas chances de final feliz – porque é assim que as lendas funcionam.

A narrativa é interessante e eficiente, embora de vez em quando pareça um pouco mal encaixada no fluxo geral da história. Há uma série de boas ideias que garantem diversos momentos memoráveis, porém. Em especial as fases na qual Moonchild medita para reencontrar suas lembranças são um deleite para a imaginação. Nada é explicado com todas as palavras, deixando à jogadora a tarefa de criar um sentido. A fase da busca da Verdade, por exemplo, é uma aula de bom uso das mecânicas para se levar alguém a uma conclusão.

A parte menos bonita do game, porém, é que esses momentos poderiam ser um pouco mais frequentes.
 

O Dragão: o que podíamos passar sem

 
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De maneira geral, Toren sofre com a falta de polimento do produto final. A gente vê um monte coisa legal que, faltou isso aqui, só um tiquinho, para que se encaixassem perfeitamente. É como se houvesse uma série de boas ideias flutuando ao redor de Toren o tempo inteiro (metáforas de crescimento, a espada mágica, o cavaleiro do sol, uso de fogo para sobrevivência…) mas elas nunca decolassem por completo, ficando quase sempre planando timidamente sobre esquemas pouco empolgantes.

Pessoalmente (e aqui é a parte onde relembro que estive com um hype muito elevado até então), o que mais me desapontou foi o quão pouco relevante – mecanicamente – é o crescimento da Moonchild para a história. Ela cresce, sim, e fica visualmente mais irada, sem dúvida, mas não há uma sensação real de crescimento: não é como a Aurora (Child of Light), que a partir de certo momento duplica sua árvore de pontos de experiência; ou como Link (no saudoso The Legend of Zelda: Ocarina of Time) que consegue usar mais itens em sua forma adolescente; ou até mesmo como Simba, no clássico O Rei Leão de Master System (olha eu entregando a idade!), que, depois que crescia, além de tirar o dobro de dano, podia afugentar inimigos apenas com seu rugido. Mecanicamente, Moonchild é a mesma personagem – não há a sensação de força e capacidade crescente, exceto na própria narrativa criada pelos desenvolvedores. Isso provavelmente não faria tanta falta se essa questão não fizesse parte de uma das premissas centrais do game.

Num plano mais técnico, há também o problema dos bugs. Dei a sorte de não pegar nenhuma falha crítica que me obrigasse a reiniciar o computador, mas uma série de pequenos problemas ficam visíveis o tempo inteiro, em especial relacionados com a câmera. Além disso, é recomendado ter um joystick para jogar, uma vez que os controles no teclado são pouco agradáveis.
 

O Sol: o veredito

 
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Toren é um jogo relativamente fácil, o que neste caso faz todo o sentido. Dificuldade alta e frustrante é ótima para certos tipos de games, mas não para os que são focados na nossa experiência com a história (vamos combinar que a gente costuma a ficar com o entendimento da narrativa comprometido quando estamos ocupadas jogando o computador pela janela).

O game é curto também (o que, para mim, é um ponto positivo). Provavelmente você vai terminá-lo entre 2 e 3 horas e vale a pena se zerar de uma vez. Sim, eu digo que vale a pena porque vale, apesar dos defeitinhos. Toren tem momentos que ressonam com nossas experiências universais e sua ousadia é louvável, principalmente considerando o panorama nacional. O final, principalmente, me causa arrepios e talvez seja nesse ponto que devamos repousar nossas memórias: mais no que sentimos do que no que compreendemos.

Toren está disponível para Playstation 4 e para PC.
 

A boneca que representa meninas negras

Angelica Sweeting é mãe de duas meninas. Quando ela estava fazendo compras, ela percebeu que não haviam opções de bonecas que se pareciam com suas filhas.

Com apenas três anos de idade, sua filha mais velha, Sophia, já estava tendo problemas com sua auto-imagem. Ela queria ter cabelos loiros e lisos, pele clara e rosto fino – como a Barbie.

 

Angelica e suas duas filhas
Angelica e suas duas filhas

 

Angelica então sentou com seu marido para pensarem em uma solução, já que no mercado não haviam bonecas que pudessem de fato trazer representação para as meninas negras (já que, de fato, não adiantava simplesmente dar uma Barbie negra magra e alisada para elas).

Então decidiram criar uma boneca, do zero. Uma que tivesse as feições do rosto como as de suas filhas: rosto arredondado, maçãs expressivas, nariz mais largo e boca carnuda. Além disso, a cor da pele é negra e o cabelo crespo. O cabelo, aliás, é a coisa mais incrível da boneca. Ele funciona como um cabelo de verdade: você pode lavar, passar cremes, enrolar, fazer penteados…

 
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O design é da própria mãe e o projeto está atualmente no Kickstarter, afim de conseguir o dinheiro inicial para sua produção. Futuramente, Angelica Sweeting pretende produzir outras versões da sua Angelica Doll, representando carreiras na engenharia, programação, jornalismo, relações públicas e claro: como empreendedora. Acho que o slogan “tudo o que você quer ser” ganhou uma nova dona, Barbie.

 
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Imagens via.

Jogue: Child of Light

Criança, aconchegue-se na cama e deixe-me lhe contar uma história, de Lemúria, um reino há muito perdido, e de uma menina nascida para a glória.

Com esse ar de “Era uma vez…” começa Child of Light, o RPG com clima de conto de fadas. O jogo aparenta ser infantil e bobinho, mas vai muito além do que costumamos encontrar nesse tipo de narrativa, ela é profunda e emocionante. É a jornada da transformação da infância para a vida adulta.
 


 
A história gira em torno de Aurora, uma criança que cresceu super protegida pelo pai dentro de um castelo na Áustria e que agora tem que enfrentar o mundo, cheio obstáculos e aprender sobre todas essas coisas novas. Ela é uma princesa que desperta em Lemúria, um mundo desconhecido mergulhado na escuridão e lá precisa enfrentar desafios e batalhas para salvar seu pai e os cidadãos desse e do seu reino.

Aurora é uma menina meiga, cercada por seus cabelos ruivos, vestindo uma coroa maior que ela e apunhada de uma espada desproporcional a seu tamanho. A personagem sempre é subestimada pelo caminho. Tanto que quando ela desafia um ogro, que protege uma ponte, ele a resume em “uma coisinha insignificante de cabelo âmbar”.

Enquanto ela vai crescendo no jogo percebemos as mudanças, ela se torna uma jovem guerreira, uma valquíria. E é muito fácil se identificar, principalmente porque ela retrata bem as dificuldades de ser uma mulher em formação. Você é desafiada, precisa se impor, precisa superar obstáculos e o que há de ruim, precisa provar que é capaz, tudo isso enquanto as pessoas falam que você não presta pra nada e nunca vai alcançar seus objetivos. E de tão forte e inspiradora, Aurora não só conquistou as mulheres, mas muitos meninos curtiram lutar LIKE A GIRL. É só ver a reação dos gameplays por aí.

 

 
Durante a jornada, quando vamos conhecendo novos personagens que juntam-se a nós, também percebemos a mensagem passada sobre importância da amizade, do companheirismo e de como eles nos fazem crescer como pessoas, a amadurecer. Além de tornar o time mais forte e vencer as batalhas com mais facilidade, é claro.
 

Jogo em verso

Child of Light é um poema jogável. Essa é a melhor descrição para a experiência. O jogo é dividido em capítulos e centrado no desenvolvimento da história, ela é o que realmente importa. Toda a escrita é feita em forma de rima. É uma balada épica baseada no The Rime of the Ancient Mariner (O Conto do Velho Marinheiro), do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge. É como ler um livro infantil com uma personagem extremamente forte e facilmente representativa. É o processo de formação da menina.
 


 
O jogo foi desenvolvido pela Ubisoft, mesmo fabricante de Assassin’s Creed, e traz de volta o estilo dos RPGs antigos como as batalhas em turnos e grupos de personagens. O design é simples, todo em 2D, mas com um gráfico de ficar babando. Todo o jogo, desde o cenário, personagens ou o cabelo de Aurora, tem um estilo aquarelado inspirado em ilustrações do século XVIII. É como uma pintura animada e nos dá a impressão de estar em um sonho debaixo d’água. Um conto de fadas moderno.

E como o jogo não poderia deixar nenhuma detalhe escapar, a trilha sonora é algo que acrescenta muito à experiência. Composta pela cantora canadense Coeur de Pirate, a trilha dá uma incrível sensação de intimidade e nostalgia durante a exploração e ao mesmo tempo dá energia nos momentos das lutas, onde a música passa de uma simples melodia no piano para uma orquestra completa.
 

Spin off


 
Em comemoração ao primeiro aniversário do jogo, a Ubisoft disponibilizou gratuitamente um e-book com uma nova história do reino de Lemúria. Mas dessa vez se passa alguns anos depois da jornada de Child of Light e o protagonista é Reginald, filho aventureiro de Robert e Margaret, amigos que Aurora fez pelo caminho.

A história é tão fofa quanto o jogo e dá aquele gostinho de quero mais. Ah, e pode comemorar, porque a Ubisoft confirmou estar trabalhando em outros projetos da série.

Para quem se interessou, o e-book pode ser baixado aqui (em inglês).

Child of Light é de 2014 e está disponível para PC, Xbox 360, Xbox One, PlayStation Vita, PlayStation 3, PlayStation 4 e Wii U.

Um filme para as queridas pessoas brancas

Ainda dá tempo de reclamar da falta de representatividade do Oscar 2015? É incrível como o retrocesso da maior premiação do cinema neste ano, também retrocede o nosso acesso, gosto e consumo por cultura.

No meu desespero para conseguir assistir aos filmes de 2014 que foram indicados antes da premiação ir ao ar, deixei uma lista muito mais interessante de lado. No fim das contas, eu havia assistido filmes bons, mas sem muita novidade, que apesar de diferentes eram iguais nos quesitos: todos sobre homens, com atores brancos como protagonistas (com exceção de Selma, claro). Mal assisti a transmissão na TV, pois já sabia os resultados: homens, homens, homens, homens… Ainda bem que alguns pontos da cerimônia valeram a pena pois serviram como bons protestos.

Valorizar a opinião da Academia e da crítica especializada me fez deixar de assistir o único filme com alta representatividade entre os indicados, e outros filmes mais importantes no ano passado que também cumprem esta proposta, além de expor e problematizar questões sociais, principalmente o racismo.

E se tem um filme também que fez isso em 2014, este é Dear White People, que aparentemente ainda não tem um título oficial em português. Porque Selma recebeu  indicações ao Oscar (poucas, menos do que merecia), e Dear White People foi completamente ignorado pela academia? Não seria por falta de qualidade técnica, pois a fotografia do filme é boa, a edição muito bem alinhada, roteiro bem amarrado e bom ritmo de trama, além de apresentar boas atuações de seus protagonistas. Além disso, ambos os títulos falam de questões sociais, militância negra e representatividade.

Talvez a única diferença entre os dois seja que o primeiro trata de tudo isso em seu roteiro num momento histórico do passado, e o segundo faz uma crítica ao racismo nos dias de hoje nos Estados Unidos, o que o homem branco cisgênero heterossexual e acima de 50 anos residente do pais, acredita não existir mais. E digo isso para pontuar que este é o perfil da maioria que compõe a Academia de avaliação do Oscar.
 

Cena de Dear White People
Cena de Dear White People

 

Queridas pessoas brancas, assistam este filme!

Passado o momento de desabafo, vamos falar de Dear White People. Ou tentar falar, já que o filme trás tantos conflitos e pautas do movimento negro, que para mim ficou até difícil alinhar tudo para escrever sobre.

O filme é dirigido por Justin Simien, que estava cansado da baixa representatividade negra em Hollywood, como ele disse em seu discurso de aceitação do premiou Best First Screenplay, o que seria “melhor revelação” pelo Film Independent Spirit Awards no ano passado: “Comecei a escrever esse filme há dez anos por um impulso, porque eu não via minha história sendo retratada culturalmente. Eu não me via nos filmes que eu amava e as histórias não ressoavam a mim”.
 

“Podemos ter um filme com, você sabe, personagens dele ao invés de esterótipos amarrados a dogmas cristãos?” – Sam White, cena de Dear White People

A história gira em torno de quatro jovens negros que conseguem entrar em uma universidade renomada nos EUA e precisam lidar com racismo dentro da instituição, e cada um trás muitas questões a serem debatidas, tais como: a representação das negros na mídia, no mercado de trabalho e nas universidades, a resistência da comunidade negra ao se relacionar com os brancos por medo de racismo, a homofobia dentro da comunidade negra, a ideia de meritocracia que os brancos cultivam, a ideia de vitimização e culpalização que os brancos também cultivam. E os assuntos principais do longa, que podem girar em torno de todos os outros já citados: apropriação cultural e black face.

O termo black face é usado nos EUA para descrever o comportamento de pessoas brancas agindo como negros de forma preconceituosa e/ou literalmente pintando a pele de marrom para fazer comédia. Em Dear White People, os personagens começar a interagir por causa da organização, e depois execução, de uma festa com este tema, que é muito comum nas universidades americanas, onde os estudantes vão “fantasiados” de estereótipos de pessoas negras, como gangsters, rappers, atletas ou simplesmente em seu cotidiano nas periferias americanas. Ao assistir a cena, não pude deixar de me lembrar de como isso acontece no Brasil durante o Carnaval, ou até em programas de “humor”, principalmente com a imagem da mulher negra.

Com o título e todas essas pautas, o longa pode assustar um pouco. Mas tudo é ditado de forma sarcástica, com um tom de humor leve, muito embora o emocional ainda esteja presente. Talvez mais presente para quem é negro.

Este e todos os outros temas poderiam ser facilmente trazidos para a comunidade negra vivendo em sociedade aqui no Brasil, e serem traduzidos e discutimos da forma que os vivenciamos aqui. Por isso, tratar de cada assunto separadamente me levaria a escrever um livro, e não somente um post, e já que você está lendo a Ovelha Mag, vamos falar sobre as mulheres do filme, que surpreendentemente eu consigo relacionar com transição capilar, pelo menos com a minha.

 

A negra que eu fui e a negra que eu sou

Assistindo ao longa, eu imediatamente me identifiquei com Colandrea ‘Coco’ Conners (Teyonah Parris) e Sam White (Tessa Thompson) as duas mulheres entre os quatro personagens principais na trama.

Coco é a mulher negra que uma vez eu fui, mas nunca quis ser de verdade. É a mulher negra embranquecida pelo alisamento do cabelo, ou no caso dela pelas perucas de cabelo indiano, tão comuns nos Estados Unidos.
 
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Ela se veste e se comporta como, assim dizem os americanos, uma patricinha branca. Não que uma mulher negra tenha que sempre vestir estereótipos ou não tenha liberdade de usar o que quiser e alisar o seu cabelo, Coco está na trama justamente para questionar tudo isso. Mas digo que nunca quis ser como Coco pois é ela quem recebe as críticas a sua beleza natural para depois ouvir acusações de racismo ao tentar parecer mais branca. Been there, did that, Coco.

É possível ver o incomodo de Coco com relação a como as pessoas julgam sua aparência. A curiosidade sobre a raiz do cabelo, sobre as lentes de contato, sobre o modo de se vestir, e o fato de que, quando uma mulher branca faz bronzeamento artificial, preenchimento nos lábios, ou quaisquer coisas que a façam adquirir a beleza que é naturalmente negra, ela não só não passa por críticas, como também é muito mais aceita do que a mulher negra.

Coco sabe da existência do racismo e o quanto isso a prejudica, a fere e a incomoda, ela se defende do racismo com relação a sua aparência, mas ao mesmo tempo sente a necessidade de se enturmar na universidade, fingindo que tal problema não existe para ela, caminho tomado muitas vezes pela falta de coragem de se impor diante da opressão, por questão de sobrevivência, ou pela simples vontade de caminhar em um lugar público sem ser julgada.

Já Sam White, seria a mulher negra que eu sou agora. O filme não especifica o seu passado, mas para mim a identificação foi maior com ela pois parecia que ela também tinha acabado de descobrir sua identidade, e estava no auge do seu engajamento.
 
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Sam é a personagem principal do filme, e é ela quem comanda o programa de rádio na universidade, além de um canal de vídeos na internet chamados Dear White People, e começa todos os programas com esta frase, seguida de um sincerão para pessoas brancas que pensam que não são racistas. Logo ela se torna uma representante da comunidade negra na universidade e sofre pressão de liderança.
 

“Pessoas negras não podem ser racistas, pois nós não nos beneficiamos desse sistema”, Sam White em Dear White People

O principal conflito de Sam é com relação ao seu lugar de militância, pois quando ela deixa de fazer isso de forma criativa e traduzindo seus sentimentos sobre o racismo artisticamente como sempre fez, ela não consegue estar tão presente e aprende a valorizar mais os companheiros que lideravam movimentos, além de demonstrar que é possível protestar de diversas formas.

Embora não explícito no filme, o questionamento e a pressão sobre o poder da militância de Sam, quando vindo de homens, soava machista, a inferiorizando como líder, talvez não tenha sido a intenção do diretor, ali pode ter surgido uma nova problemática a ser debatida. Não sei se coincidentemente, não se tem essa impressão quando Coco faz o mesmo, embora hajam poucas interações entre elas (o que é uma pena).

Sam também levanta o debate sobre o relacionamento de mulheres negras com homens brancos, e sobre ser miscigenada numa comunidade negra que tanto se defende contra os brancos a ponto de repeli-los de seu convívio, como acontece nos Estados Unidos.

No geral, esse filme é pra gente assistir com um bloquinho de anotações na mão, depois sentar e debater. Se for sentar e debater na internet, conta pra gente o que achou ;)
 

As mulheres de ‘Mad Men’ e o feminismo

Após sete temporadas, Mad Men está em seus episódios finais com o melhor retrato que a TV poderia fazer do machismo. Foram muitos anos de Don Draper, Pete Campbell, Roger Sterling e o sexismo no meio corporativo e na vida pessoal dos publicitários mulherengos. Mas, para quem acompanhou e é fã da série (como eu sou!), é lindo ver papéis femininos fechando a trama com destaque.

Temos a Peggy Olson (Elisabeth Moss), que sobe de secretária à chefe dos copywriters. Mas, para mim, Joan Harris, a personagem de Christina Hendricks, é o maior exemplo que podemos pegar se quisermos explicar porque precisamos de feministas (vale conferir uma paródia ótima com a personagem no Funny Or Die).

Joan começa como gerente das secretárias e termina como sócia da empresa. Tá, mas durante o processo ela tem que lidar com investidas sexuais dos homens da firma e com o desrespeito de algumas mulheres. Em uma das cenas desta temporada, Joan se cansa do sexismo e introduz o assunto, citando a Comissão para a Igualdade de Oportunidades de Emprego e a Greve das Mulheres pela Igualdade (que juntou 20 mil mulheres na 5ª Avenida, em Nova York, em 1970).

E não é que atitudes sexistas existem no mundo do trabalho até hoje? Daí esse é assunto para outros textos, como esse da Cacau Birdmad. Abaixo, separei algumas frases ditas pelas atrizes da série sobre o tal do feminismo.

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Christina Hendricks, a Joan, ao site Spinoff: “Eu não acho que ela sabia que era feminista (…) eu acho que ela começou a mudar e foi vendo o crescimento de Peggy que inspirou a personalidade de Joan, para ver as coisas que estavam mudando ao seu redor, e eu acho que ela teve alguns movimentos feministas acidentais no início que se transformaram em ela perseguindo isto e estando mais no controle.”

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Elisabeth Moss, a Peggy, ao Wall Street Journal: “Ela estava tentando algo que nenhum outro personagem fez – ser tratada como uma igual em um mundo de homens (…) Se você é uma mulher, você é feminista. Se você é um homem, você deveria ser feminista. O feminismo é sobre acreditar em direitos iguais. Se alguém acredita na igualdade de direitos para qualquer pessoa, eu acho que você é feminista.” (veja o vídeo da entrevista)

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January Jones, a Betty, ao site Indiewire: “Alguém me lembrou algumas semanas atrás, eu não sei quem, que Betty é a única mulher do elenco feminino – ou de todo o elenco – que você realmente vê lendo literatura sobre o feminismo. Eu acho que nós pensamos que ela é a menos inclinada a se preocupar com esse tipo de coisa, mas ela é a única que você vê lendo ‘The Feminine Mystique’. Está lá. Eu acho que ela cresceu muito.”

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Kiernan Shipka, a Sally, a Dazed Digital: “Nem tudo foi aveludado para Sally – ela tem sido forte por passar por tudo isso, ela realmente é uma espécie de estrela do rock. Sally é imperfeita, mas real, que é o que a torna tão incrível.”

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Jessica Paré, a Megan, à Entertainment Weekly: “Ela é uma das primeiras pessoas a lucrar com os avanços que as mulheres fizeram naquela época no sentido de que ela não via realmente uma barreira para ter tanto uma carreira e um casamento saudável e uma família.”

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Teyonah Parris, a Dawn, ao Los Angeles Times: “Eu acho que Peggy é a pessoa perfeita para nós aprendermos sobre Dawn. Ela é a mulher da série que é a mais mente aberta, feminista – ela nem sequer sabe que ela é uma feminista (…) Eu percebo a grande responsabilidade que vem com esse papel. É a primeira vez que a série tem uma afroamericana no escritório, mas eu tento não deixar que isso me oprima.”
 
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No topo do post há uma entrevista com o criador da série, Matthew Weiner, sobre as personagens fortes de Mad Men e o feminismo. Infelizmente sem legendas :(

‘Garotas’ que não vemos no cinema

Ando me surpreendendo com filmes que falam sobre adolescência. Em dezembro, vi o belíssimo sueco “Nós somos as melhores” e, agora, está estreando em apenas um cinema de São Paulo (Reserva Cultural, na av. Paulista) o filme francês “Garotas”.

Mas não foi só o assunto do filme que me conquistou. Sabemos que mulheres negras não tem espaço no cinema. Em uma matéria que fiz para o G1, podemos ver como a falta de diversidade na indústria cinematográfica, destacando a de Hollywood, é uma questão cada vez maior. Assim, a diretora Céline Sciamma (que fez “Lírios D’água” e “Tomboy” – também sobre adolescentes) foi lá e colocou quatro atrizes iniciantes negras protagonizando uma história de amizade.
 
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Karidja Touré, de 21 anos, interpreta Marieme, uma garota de 16 que mora na periferia de Paris com os irmãos e a mãe que mal fica em casa por conta do trabalho de faxineira. O pai nem aparece na história. O irmão mais velho é violento e a agride por qualquer motivo. Ao saber que não conseguirá ingressar no curso técnico por causa das notas baixas, ela fica puta da vida e é aí que ela conhece Lady (Assa Sylla), Adiatou (Lindsay Karamoh) e Fily (Mariétou Touré).

Dois segundos e Marieme muda de estilo. Troca o moletom e as tranças afro por jaqueta de couro e cabelo liso. E ela também ganha um apelido: Vic. Em uma das cenas mais bonitas do filme, as quatro garotas alugam um quarto de hotel, se vestem com roupas de festa roubadas e dançam e cantam juntas “Diamonds”, da Rihanna. Sim, isso é ser uma adolescente! É recriar sua identidade em um grupo. É olhar para a miga e dizer “estamos juntas!”.
 
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É bom ficar ligada nos trabalhos da Céline Sciamma. A diretora do filme acerta muito ao abordar o racismo e o machismo sem tirar o amadurecimento das protagonistas do foco. Os dramas delas que importam. As brigas violentas com as garotas rivais (sim, temos meninas vs meninas), a perda da virgindade (sim, ela é chamada de puta), a falta de oportunidades na vida etc.

“A adolescência torna possível contar todo tipo de história. É um gênero que pode ser realista e naturalista, mas também permite fantasiar, falar de amor, de amizade, uma mistura que adoro fazer”, disse ela em uma entrevista bacana à Folha de S. Paulo.

Eu já era fã de Sciamma por causa de “Tomboy”, um filme sobre uma menina de dez anos que assume a identidade de menino. Essas histórias contemporâneas que me interessam e que são raras no cinema. Vale muito a pena acompanhar essa trajetória.
 
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Jemima Kirke fala sobre aborto

Conheci a Jemima Kirke em 2012 por causa da série Girls. Me apaixonei e logo digitei o nome dela no Google e vi que, além de ser filha de hipsters e artista plástica, ela é dessas que faz ensaio sensual grávida, tipo muito grávida. Ela mora em Nova York com seu marido, Michael Mosberg, e seus dois filhos, Rafaella, de 4 anos, e Memphis, de 3.

E não é que hoje foi divulgado um vídeo da Center for Reproductive Rights em que essa atriz e mãe belíssima conta que já fez um aborto, defende os direitos reprodutivos da mulher e encoraja outras mulheres a compartilharem suas histórias. Assista lá no topo da matéria.

“Eu sempre senti que as questões reprodutivas devem ser algo que as mulheres, especialmente, devem ser capazes de falar livremente, especialmente entre si”, diz Jemima, que tem 29 anos. “Eu ainda vejo vergonha e constrangimento em torno da interrupção da gestação, ficar grávida, então eu sempre fui aberta sobre minhas histórias, sempre as compartilhei, especialmente com outras mulheres.”

 

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Jemima Kirke em ensaio da ‘Vice’. Foto: Richard Kern

 

No vídeo, Jemima conta que decidiu fazer um aborto em 2007, quando era estudante universitária em Rhode Island. “Eu não tinha certeza se queria estar ligada a este cara para o resto da minha vida. Minha vida simplesmente não era propícia para a criação de uma criança feliz, saudável. Eu apenas não senti que era justo.”

Ela diz que não usou anestesia durante o procedimento para economizar dinheiro. “Eu tive que esvaziar minha conta corrente, tudo que eu tinha lá, e eu tinha que conseguir algum do meu namorado”, conta, acrescentando que manteve isso em segredo de sua mãe.

 

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Sim, é muito complicado falar sobre aborto. Ainda mais no país em que vivemos em que o debate sobre o assunto não mobiliza a população muito menos políticos. Talvez, a gente tenha que pensar menos em aborto e mais no poder da mulher em decidir sobre seu corpo. Em alguns países, as mulheres já conquistaram o direito de decidir interromper ou não uma gravidez.

E é isso aí! Isso não quer dizer que nós vamos parar de usar métodos contraceptivos. Iniciativas como essa da Jemima Kirke e de atrizes brasileiras, como Leandra Leal e Alessandra Negrini, que também já declararam sua posição, têm que ser compartilhadas para que mais pessoas se engajem a favor da legalização do aborto.

E se as mulheres trabalhassem de acordo com a diferença salarial?

A questão da discrepância salarial entre homens e mulheres é polêmica. Há quem diga que os dados de pesquisas usados para alegar isso são incorretos e usados de maneira errada. Que essa diferença não leva em conta a carga horária trabalhada e produtividade. Que seja, mas esse não parece ser o caso em Holywood.
A edição de março da revista Você SA, traz uma matéria que fala que parte dessa discrepância se dá por causa da insegurança feminina. As mulheres geralmente não se valorizam na hora de negociar salário e tudo mais. E ter isso em mente é de extrema importância para mudar esse cenário. Valorizem-se mulheres!

Nesse vídeo divertido do Buzzfeed, uma trabalhadora descobre que recebe menos do que um colega de trabalho que faz exatamente a mesma coisa.

 

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Depois dos créditos…

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O amor segundo Spike Jonze

[infobox maintitle=”Já assistiu?” subtitle=”Este texto discorre sobre as sensações que o curta-metragem provoca em quem assiste e, por isso, contém spoilers. Dedique 30 minutinhos para assistir antes de ler (;” bg=”green” color=”black” opacity=”on” space=”30″ link=”no link”]
 
Num universo lúdico, e ainda assim, sério e comprometido com os nossos sentimentos mais íntimos e delicados Spike Jonze traz a história de um casal de robôs, isso mesmo, robôs que vivem um romance. Tratando de uma temática simples – as relações amorosas – o filme é capaz de nos causar questionamentos sobre gestos que pensamos serem bonitos e devotos, mas que podem vir disfarçados de muita insegurança. É como se a gente pudesse sentar no lugar da outra pessoa e de fora ter a capacidade de ver quão perdidos e sem referência ficamos algumas vezes. Quem nunca se perdeu de si mesmo, todavia nunca notou?

Bom, não se perca. Volte pra cá!
 
Spike Jonze | I'm Here
 
Parece ser uma ideia inusitada e um tanto inovadora. Parece, mas conforme a história foi se desenrolando me perguntei se seria capaz de coisas que só os robôs podem fazer, por exemplo, encaixar e desencaixar partes do corpo assim como faz Sheldon, o personagem principal. Ui! Aí, eu te pergunto: – Se você pudesse, arrancaria um braço para substituir o membro que falta no seu grande amor? – Sem pânico! Não vamos discorrer sobre as respostas, afinal, estamos longe de julgar uns aos outros. Fazendo esta pergunta quero chegar a um ponto que perdemos grandiosamente quando estamos apaixonados, nós mesmos. O filme mostra o quanto perdemos a noção de tudo o que é importante no que diz respeito aos nossos limites. Já deixamos de fazer coisas por nós para que nosso parceiro estivesse feliz e pudesse viver o que desejava, mas muitas vezes nem sabíamos mais o que pertencia a nós e ao outro.
 
Spike Jonze | I'm Here
 
O filme tem uma fotografia delicada com um ar melancólico de fazer sentir claramente que estar sozinho é uma situação que os personagens não consideram permanente. Ao mesmo tempo, enquanto assistia, senti em algumas cenas aquela sensação de solidão acompanhada, que como disse a Clarice Lispector “Amor será dar de presente ao outro a própria solidão? Pois é a última coisa que se pode dar de si”.

O final me deixou com um ponto de interrogação enorme sobre a cabeça que ainda me faz questionar: – Quando a gente “perde a mão” na hora de doar e receber? Vale a pena assistir, nem que seja para refletir no quanto a solidão ainda pode ser vista como um sentimento positivo.

Kbela: Filme sobre transição capilar e identidade ganha primeiro teaser

As histórias de transição capilar ou mesmo da resistência e luta de mulheres pelo direito de ter sua beleza natural sem intervenção da indústria e da opinião da sociedade são tão fortes e inspiradoras que podem ser facilmente transformadas em enredos para filmes. E foi isso que fez a estudante de Comunicação Social Yasmin Thayná, que roteirizou e dirigiu o filme Kbela. O primeiro teaser já foi divulgado, e com previsão de estreia. Dá o play lá em cima!

Yasmin contou a Ovelha que o filme busca refletir sobre o lugar da mulher negra na sociedade contemporânea, os atuais padrões de beleza, sua expressão, autoimagem e identidade. Ela define: “Temos dito que é uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra. O filme é uma sequência de metáforas presentes no cotidiano de boa parte das mulheres negras do mundo”.
 

Kbela, o filme | Foto: Alile Dara Onawale. Atriz: Isabel Martins Zua.
A atriz Isabel Martins Zua. Foto por Alile Dara Onawale.

 
O roteiro do filme é baseado no conto da MC K_bela, que narra a história de uma menina negra, moradora da Baixada Fluminense, que passou por um processo de embranquecimento durante a sua vida e decidiu se libertar disso, deixando o cabelo natural crescer de novo, se livrando das interferências químicas.

“Essa foi a maneira que MC K_bela achou para se sentir bonita, poder olhar para si sem qualquer estranhamento”, conta Yasmin.

O conto da MC K_bela foi publicado pela editora Aeroplano, e adaptado para o teatro, até que em 2013 com o apoio de alguns amigos, Yasmin resolveu ir a internet convocar mulheres com a história parecida com a da Mc K_bela para contar. “Em três dias mais de 100 mulheres de todo o Brasil responderam à convocação, contando suas histórias e manifestando interesse em participar do filme”, disse.
 

Kbela, o filme | Foto: Alile Dara Onawale. Atriz: Thamyris Capela
A atriz Thamyris Capela. Foto por Alile Dara Onawale.

 

Representatividade e a busca por igualdade

Dessas inscrições, sete mulheres negras, atrizes e não atrizes, foram escolhidas e aceitaram desafios cênicos para entregar a equipe a realizar o curta-metragem. Equipe esta da qual Yasmin fala com orgulho.

“Sou muito preocupada com representação. Nos festivais de cinema que vou a maioria dos diretores são homens brancos. Eu disse: quem tem que fazer esse filme são mulheres negras. O Kbela tem em sua equipe cerca de 80% de mulheres negras fazendo o filme. Elas são produtoras, atrizes, diretoras de núcleos diversos”.
 

Kbela, o filme | Foto: Alile Dara Onawale. Turbante: Sol.
O turbante. Foto por Alile Dara Onawale.

 
No quesito representatividade, o filme ainda conta com uma atriz transexual* no elenco. Na página oficial do filme no Facebook, a equipe fala da importância da participação de Maria Clara Araújo:

“Fizemos questão de ter nesse time Maria Clara Araújo, pernambucana que com apenas 18 anos vem se destacando na luta por empoderamento das mulheres trans no Brasil, com discurso e ativismo atravessados pela questão racial. Vibramos quando ela aceitou participar, é um prazer para toda equipe tê-la entre as atrizes que encararam essa produção que é metade suor e metade coração. Não dá para enfrentar o racismo sem discutir o transfeminismo negro”.
 

Kbela, o filme | Foto: Alile Dara Onawale. Atriz: Maria Clara Araújo
A atriz Maria Clara Araújo. Foto por Alile Dara Onawale.

 
Yasmim destaca ainda a contribuição do material para discussões sociais. “Sei que tenho grandes responsabilidades com as mulheres negras. E sendo assim, tenho o dever de devolver um trabalho que some na discussão das desigualdades raciais. Talvez o que Kbela queira passar já esteja passando: mais mulheres negras no cinema brasileiro”.
 
Yasmin Thayná e algumas das Kbelas durante gravação do filme
Yasmin Thayná e algumas das Kbelas durante gravação do filme

 

Um novo formato

Kbela vem em um formato diferente e impactante, que não segue necessariamente a trajetória da personagem principal, mas agrega as histórias das mulheres que participam dele ao conto.

“O filme é muito forte imageticamente falando”, define Yasmin. “Pode te causar um estranhamento, um impacto. Mas o que ele destaca é a questão da transição capilar e toda a beleza nesse renascimento, de que pra nós, mulheres negras, o céu é o limite”.
 

Kbela, o filme | Foto: Alile Dara Onawale. Atrizes: Dandara Raimundo, Isabel Martins Zua, Lívia Laso, Daí Ramos
As atrizes Dandara Raimundo, Isabel Martins Zua, Lívia Laso, Daí Ramos. Foto: Alile Dara Onawale.

 
Como divulgado no primeiro teaser do filme, Kbela tem previsão de estreia para o mês de agosto. Você pode acompanhar e obter outras informações no site oficial ou na página do filme no Facebook.

Empodere uma criança e mude seu futuro

Você provavelmente viu este vídeo semana passada. Se não viu, aperta o play!

A pequena Carolina Monteiro de oito aninhos dá um show de sensatez e empoderamento, quebrando aquele estigma chato de que cabelo crespo é “cabelo duro” e contando como ela rebateu as críticas de coleguinhas na escola. De quebra ela ainda dá dicas de literatura para meninas de sua idade.

A escola é um dos primeiros locais em que uma criança pode estar exposta a preconceitos, principalmente com relação a aparência das meninas. Sabemos que esse tipo de educação para aceitação do próximo deve vir de casa e como isso afeta o mal olhar de uma criança para outra, mas é comum também ver professores ajudando a oprimir a aparência de uma menina de cabelos volumosos.

Por isso a conversa e o empoderamento desde a infância é tão importante. As meninas ainda crescem acreditando que alisar o cabelo é um processo natural da vida, que elas devem se submeter a isso pois é o certo a se fazer, e não é bem assim.

Depois de passar pela transição tive o baque de perceber que foi muito mais fácil para mim, com somente dez anos de idade, convencer a minha mãe que eu queria fazer uma mudança permanente na minha aparência, do que, como adulta, convencer minha família de que voltar para meu cabelo natural era algo positivo para mim.

Assistindo a este vídeo, não pude deixar de pensar que se ela tivesse sido minha coleguinha na escola, talvez eu nem tivesse alisado meu cabelo. Quando alisar e corrigir “erros” na aparência de crianças torna-se mais comum do que empoderá-las e ensiná-las a se amar, precisamos nos preocupar.

E para comprovar a importância do empoderamento na infância, dá uma olhada nesta lista com crianças que já reconhecem sua identidade, não ligam para o preconceito das pessoas e ainda rebatem as críticas, seja numa conversa muito inteligente, seja mostrando inteligência e talento desde cedo. É impossível não se inspirar nessas personalidades!
 

Carolina Monteiro:

E tem a Carolina de novo, porque não dá pra se cansar dessa menina! Este é o primeiro vídeo dela que bombou na internet, já quebrando estereótipos estéticos. Não mexa com essa criança!

https://www.youtube.com/watch?v=a0YMp8uJBQg
 

Siahj Tatiana Chase: 

Esse vídeo também tornou-se um viral há algumas semanas. E não é pra menos! Olha a resposta dessa menina de quatro anos de idade para um garoto da escola que a chamou de feia. Ponto para Cici!

https://www.youtube.com/watch?v=6J9RQZCnc6Y
 

Júlia:

E quem lembra do discurso da Júlia? De novo gente dando pitaco em cabelo. Mas que bom que existem meninas fortes como ela.

https://www.youtube.com/watch?v=cHie91NYx1M
 

Heaven:

Quando vi esse vídeo de mãe e filha, cacheadas e dançando Beyoncé, deu vontade de sair correndo me juntar a elas pra sacudir o cabelo! Pesquisando mais sobre a dupla, descobri que a pequena Heaven dança com a mãe Tianne King, que é dançarina profissional, desde os dois anos de idade. No canal no Youtube de Tianne tem mais performances das duas… Por enquanto estou focada em aprender a coreografia de Bo$$ do grupo Fifth Harmony que elas arrasam no vídeo.


 

Aliyah Kolf:

A jovem holandesa apareceu em 2011 no Holland’s Got Talent, fazendo um cover maravilhoso de I Have Nothing da Whitney Houston. Hoje um pouco mais velha, mantém o sucesso no seu país de origem, com músicas animadas e clipes cheio de dança, energia e cabelo pra lá e pra cá! Tá na hora dessa moça ficar conhecida pelo mundo todo né?

 
Seja tomando seus lugares, mostrando talento, ou indo direto ao ponto, representatividade importa, e muito mais na infância. Por isso, sempre que vir uma menina pedindo para alisar o cabelo porque acha que é feia, mostre esses vídeos pra ela. Empodere e mude o futuro da criança, não sua aparência.
 
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Pra completar, uma galeria com fotos de garotinhas super-poderosas:

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Miu Miu e os contos de mulheres

Um dos trabalhos artísticos mais bonitos que eu vi nos últimos anos é o feito pela grife Miu Miu, da italiana Prada. Desde setembro de 2011 são lançados curtas-metragens da série intitulada “Women’s Tales”, que apresenta uma visão de mulheres sobre o universo feminino.

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O primeiro da série, “The powder room”, é dirigido pela americana Zoe Cassavetes, filha da atriz Gena Rowlands com o diretor John Cassavetes. Fica claro que Zoe tem uma direção bem voltada ao que já vemos nos editoriais de moda, mas é um filme bem bonito da mesma forma, com modelos interpretando mulheres entediadas em um banheiro feminino superglamouroso.

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Os curtas seguintes vão se aproximando mais da linguagem do cinema. O segundo da série é dirigido pela cineasta argentina Lucrecia Martel e se chama “Muta”. É um filme mais sombrio, seguindo o estilo dos trabalhos da Lucrecia, como “Mulher sem cabeça” (2008), se passa num barco e o rosto das modelos não é aparente.

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Também foram convidadas para participar da “Women’s Tales” as maravilhosas diretoras a seguir: a italiana Giada Colagrande (“The woman dress”); a iraniana Massy Tadjedin (“It’s getting late”, com várias atrizes, incluindo a musa japonesa Rinko Kikuchi); a americana Ava DuVernay, que agora é conhecida pelo filme “Selma” (“The door”, segmento que destaca as mulheres negras); a israelense Hiam Abbass (“Le Donne Della Vucciria”, lindo, lindo demais); a sul-coreana So Yong Kim (“Spark and light”); e a artista americana Miranda July (“Somebody”, cujo aplicativo retratado no curta foi disponibilizado no iTunes).

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O nono curta-metragem da série foi lançado em fevereiro deste ano e se chama “De Djess” ou “o vestido”. Dirigido pela italiana Alice Rohrwacher, o filme se baseia na última coleção da Miu Miu desfilada em Paris, e brinca um pouco com a indústria da moda, inclusive a relação entre fotógrafos e estrelas.

Todos os curtas, além de bastidores das filmagens e entrevistas, podem ser vistos no próprio site oficial da Miu Miu ou no canal da grife no YouTube.

Filme NSFW: Cam Girlz

A pornografia já é polêmica por si só, mas ela é um assunto ainda mais delicado na luta feminista. Andrea Dworkin, por exemplo, foi um símbolo de luta contra a indústria pornô. E com a Internet e mídias sociais, as mulheres ainda travam uma batalha por respeito e justiça contra ações como o revenge porn (pornografia de vingança), que resultam muitas vezes em feminicídio.

Porém, a geração Millennial encontrou na Internet uma nova maneira de fazer e lidar com a pornografia: as Cam Girls. Diversas garotas, a maioria entre 18 e 25 anos (mas na verdade tem gente de todas as idades), ganham a vida performando atos sexuais filmados ao vivo por elas mesmas, através de suas webcams. Não há um diretor, não há contratos. Elas fazem aquilo que querem fazer e que se sentem à vontade fazendo.

 

 

Essa é a proposta do documentarista e cinegrafista Sean Dunne, que apresenta o relato e dia a dia de diversas dessas mulheres em seu novo documentário, Cam Girlz. O filme não apresenta um ângulo opinativo a partir de entrevistas com especialistas, interferências da sua pessoa na experiência do filme ou mesmo através de uma narração (algo comum ao vermos os documentários de Morgan Spurlock ou de Michael Moore). Os documentários de Dunne são conhecidos por apresentarem uma realidade que fala por si só, através do retrato dos personagens envolvidos naquele universo.

 

 

Em Cam Girlz, são as próprias jovens que apresentam seu mundo e mostram partes da sua rotina, comentando sobre suas percepções de como é protagonizar e viver esse lado da pornografia amadora online.

 

 

Mas ainda há muita discussão a respeito. Outro documentário, que estreou em Sundance este ano, é Hot Girls Wanted (que falamos brevemente sobre aqui), que aborda os efeitos da indústria pornô amadora online para jovens mulheres sob um olhar bastante preocupado. Abaixo, vocês podem ver um vídeo com as diretoras Jill Bauer e Ronna Gradus falando a respeito da experiência de realizar este documentário (infelizmente em inglês, sem legendas):
 

 
Quem conhece o trabalho de Dunne sabe de seu apreço por universos tabus expostos de forma crua. American Juggalo, de 2011, ele retrata a subsociedade dos Juggalos, nome dado aos fãs do grupo de hip hop Insane Clown Posse. Em 2013, ele ganhou o prêmio de Melhor Diretor de Documentário no Tribeca Film Festival por Oxyana. O filme conta a história de uma comunidade devastada por medicamentos prescritos através de retratos íntimos de seus moradores. Com o burburinho que Cam Girlz está fazendo, é provável que Dunne ganhe mais alguns prêmios este ano.
 


 
Se você ficou animada em conferir o doc, saiba que ele já está disponível no Vimeo On Demand. É possível alugar por 5 dólares ou comprar por 13 dólares. Bom filme! (;

Ouça: Randa

Randa é Mainard Larkin, um rapper transgênero magnífico da Nova Zelândia que acabou de aparecer por aí com um som incrível e um videoclipe vibrante. Ele acabou de lançar seu primeiro EP, Lunch Box. O garoto é tão maravilhoso que já abriu shows para a Grimes! Respect!

Numa entrevista para o site Stuff, Randa afirma que passou a assumir sua identidade masculina há cerca de 2 anos atrás, depois de passar uma vida inteira se sentindo como um garoto.

Seu single, Rangers, fala sobre e para as pessoas de todas as idades que se sentem ou já se sentiram super solitárias. E como é importante e poderoso quando elas se encontram. Mas seu som está longe de ser triste, muito pelo contrário. O videoclipe sensacional, aliás, é por conta do artista Robert Wallace – também conhecido como Parallel Teeth.

Se curtiu, não deixe de conferir o site do Randa. Agora dê o play logo abaixo para celebrar a liberdade de ser quem somos (;